1. No limiar da bancarrota só estão disponíveis gradações de dor. É precisamente nestas circunstâncias que dificilmente deixaria de votar ou votaria em branco. Antes o mal menor.
2. Não concordo, nunca concordei e nunca concordarei com todas as posições de um partido – coisa, aliás, impossível quando eles se esforçam por evitar explicitá-las.
3. Não voto num partido liderado por José Sócrates. Estivesse a economia a crescer a bom ritmo, ainda assim eu não votaria neste PS. A arrogância, a mentira, a incapacidade de admitir erros, a confusão entre o interesse público e o partidário, o desrespeito por elementares regras de funcionamento da democracia – das mais simbólicas, como informar ou não de algo o Presidente da República, às mais substantivas, como contornar entidades cujo objectivo é fiscalizar a acção do governo – não mo permitiriam. Na velha dicotomia entre liberdade e bem-estar, opto (pelo menos enquanto não cair na indigência) pela liberdade.
4. Não voto num partido que utilizou o poder do Estado para se espalhar tentacularmente por quase todos os sectores da economia e para beneficiar meia dúzia de grupos empresariais. Se a tendência já é antiga, nos últimos seis anos Portugal transformou-se oficialmente numa oligarquia – autofágica, ainda por cima (se é que há outros géneros). Isto também serve como aviso para o futuro.
5. Não voto num partido que, apesar de reiterados alertas, prosseguiu no rumo que nos conduziu à bancarrota. Sim, também é a economia, estúpido.
6. Na outra velha dicotomia, entre liberalismo e socialismo, e porque tendo a preferir liberdade a igualdade, escolho o primeiro. Não deixo por isso de concordar com muitos aspectos do «Estado Social» – ou, tentando ser mais exacto mas ficando ainda assim longe de um conceito evidente, do «Modelo Social Europeu». Porém, não concordo com um modelo de Estado que, por boas ou más razões, asfixia a economia e, em última análise, se autodestrói.
7. Gosto de utopias mas não acredito que elas me alimentem ou vistam. Acho bem que se tente acabar com os off-shores e nada tenho contra sistemas de regulação mais fortes, desde que independentes. Mas não voto em programas que dependam disso.
8. Receio que tenhamos de vir a renegociar a dívida mas não acredito que, neste momento, por muito que os países do norte da Europa desejem evitar o colapso do euro, tenhamos condições para o fazer sem acabarmos sozinhos, com uma nova (velha?) moeda, uma desvalorização de trinta ou quarenta por cento e uma implosão financeira e social. Considero, pois, fundamental que o acordo com FMI/UE/BCE seja cumprido. Não acredito que quem falhou tantas vezes e ainda mente sobre os compromissos que assumiu tenha qualquer hipótese de o cumprir.
9. Gostei da clareza do programa do PSD, apesar de existirem pontos em que não me revejo e outros em que receio se vá demasiado longe no futuro (por exemplo: sou contra a privatização da Águas de Portugal e, se sou a favor da concorrência, por questões de garantia de acesso e de tratamento considero importante a manutenção de um forte sistema público de saúde). Desconfio de muitas pessoas que rodeiam Passos Coelho e detesto os aparelhistas e os caciques do partido. Não gosto da falta de clareza que o CDS manteve durante a campanha em relação a vários assuntos delicados, incluindo possíveis cenários de coligação. Considero que nos últimos anos fez uma oposição mais coerente do que do que a do PSD e prefiro, apesar de tudo, a equipa que rodeia Portas, por inexperiente que seja – ou talvez por causa disso.
10. Os próximos anos vão ser muito, muito difíceis.
11. Até Domingo decidirei em que partido voto.
