De como o excesso de futebol e o défice de outros desportos nos meios de comunicação é culpa das mulheres


escafandro,

As dúvidas e opiniões que Patrícia Reis (que tem um livro novo) expressa neste texto são partilhadas por muita gente. Porque dispõe o futebol de tamanha exposição mediática? Porque não obtêm outros desportos mais do que alguns segundos nos noticiários e isto apenas nas raras ocasiões em que, contra expectativas e razoabilidade, um português consegue alcançar um resultado de topo? Porque esquecemos os atletas que mais medalhas trazem para Portugal – os para-olímpicos?

 

Eu concordo que não devia ser assim. Desde logo, faz-me espécie prestar-se atenção apenas ao futebol masculino mas aceito que esta possa ser uma questão eminentemente pessoal – por razões ergonómicas, tendo a preferir a versão feminina da maioria dos desportos (e depois há uns casos em que me é indiferente). Mais importante, tal como a Patrícia acho exasperante que se dedique tanto tempo a apenas um desporto – qualquer que ele seja. Mas julgo perceber porque é que isso acontece.

 

Quem vê desporto na televisão e compra jornais desportivos? Quem até, provavelmente, compra a maioria dos restantes jornais? Os homens. As mulheres não ligam a desporto. Pelo menos o bastante para se sentarem à frente de um televisor ou comprarem um jornal. (Generalizo, obviamente.) De quando em quando, as mulheres podem pensar, com um carinho inteiramente sincero, que os campeonatos para-olímpicos são uma coisa bonita, podem espreitar uma prova de ginástica ou de patinagem artística, mas ver mesmo desporto – não vêem. Preferem a Oprah, séries, filmes, telenovelas, o What Not to Wear e o Rachel Zoe Project. Se as mulheres gostassem tanto de patinagem artística como gostam de roupa, maquilhagem e decoração, a SIC Mulher apresentaria patinagem artística duas vezes por dia, existiriam revistas e jornais só acerca de patinagem artística e rapidamente os canais generalistas de televisão teriam programas de debate em que se analisaria a qualidade dos triplos Axel realizados nas provas do fim-de-semana anterior. Hélas, as mulheres não gostam assim tanto de patinagem artística nem de qualquer outro desporto. Isso faz com que sejam os homens a definir que desportos se vêem na televisão e sobre que desportos se lê nos jornais. Ora os homens são seres simples, de gostos limitados e com tendência para a conformidade (continuo a generalizar). A partir do momento em que as mulheres lhes deixam o campo livre pode dizer-se adeus aos para-olímpicos na televisão. E até à patinagem artística. Para a sensibilidade masculina (nem sempre é oxímoro), as provas para-olímpicas são um mau espectáculo televisivo e a patinagem artística não é muito melhor. E como é o gosto pelo futebol que é inculcado nos homens desde criança e o futebol é que dá para discutir durante a pausa para o café por ser o que vêem todos os outros homens (menos uns tipos esquisitos como eu), vê-se futebol. As televisões (como as rádios e os jornais) não podem então fazer outra coisa senão ir atrás do consumidor-tipo (que, neste caso, é um consumidor-gajo) e, numa espécie de pescadinha de rabo na boca, começam a passar apenas futebol.

 

Este é o pecado original. Depois existem factores agravantes. A passagem de alguns desportos para canais de assinatura retirou-lhes notoriedade. Por exemplo, há dez ou quinze anos via-se bastante automobilismo (especialmente Fórmula 1) na televisão de sinal aberto. Agora, esta raramente aborda o tema. Por outro lado, a fauna que gravita em torno do futebol, dos dirigentes aos adeptos passando pelos árbitros e comentadores, nem sempre representa as fatias mais sensatas da população, o que facilita o nascimento de «polémicas» ou «casos». As regras também não ajudam (ninguém fica duas semanas a discutir se uma bola do Federer foi dentro ou fora do court porque isso é imediatamente verificado). O factor de tribo que se gera ao aderir a um clube (e, mais ainda, a uma claque) e a necessidade de arranjar formas de escape numa sociedade que reprime cada vez mais a exteriorização dos instintos (ver esta excelente entrevista feita por Paulo Moura a J. G. Ballard em 2005) tornam os actos de violência mais prováveis. A conjugação disto tudo é um cocktail explosivo que os meios de comunicação agradecem e cujos efeitos amplificam, num encantador efeito bola de neve. Outros desportos podem apresentar alguns destes elementos (também há fanáticos da Ferrari, por exemplo) mas, na falta dos restantes, o efeito bola de neve é inexistente ou muito menor (não andam à batatada com os adeptos da McLaren.)

 

De qualquer modo, nenhum destes factores invalida a tese, pelo que a conclusão é inevitável: a culpa de se prestar pouca atenção a desportos que não o futebol nos meios de comunicação (e, por conseguinte, na sociedade) é essencialmente das mulheres. E, pronto, um bocadinho – mas só um bocadinho – dos homens.

8 comentários em “De como o excesso de futebol e o défice de outros desportos nos meios de comunicação é culpa das mulheres”

  1. Gostei do post, apesar de por vezes ter dúvidas se será sério ou irónico (suspeito que ambos, à vez).

    Tenho aqui uma opinião muito pessoal que aborda a questão por dois lados.

    1. Preferência pelo futebol: o futebol é um jogo simples, que qualquer criança aprende depressa a jogar desde que tenha as condições mínimas: espaço plano com um mínimo de área, bola e, no mínimo, duas pedras granditas para servir de baliza. Foi assim que eu e muitos homens da minha idade passámos tardes sem conta, a jogar com os vizinhos no meio da rua, fugindo aos carros, tentando acertar naquele espaço entre as pedras, discutindo se a bola tinha ido alta demais para o guarda-redes a agarrar (sem trave a altura do guarda redes era o factor decisivo) e a ir buscar a bola ao quintal dos vizinhos (ou, preferencialmente, mandando o miúdo mais pequeno ir buscá-la como castigo por ser o mais pequeno).

    Estas actividades eram favorecidas num país como Portugal, onde nunca há excessivo frio ou chuva e isso permite que se vá jogando ao longo do ano. Isso explica a popularidade do desporto nos países do sul em comparação com os do norte. Por outro lado, outros desportos como basquetebol (que pratiquei como federado ao contrário do futebol), andebol ou vólei exigem mais acessórios, como redes, bolas mais especializadas, tabelas, etc.

    Por fim há a questão do fenómeno social: quanto mais gente se interessar por futebol mais exposição o futebol terá e mais pessoas acabarão por se interessar (por desconhecer alternativas).

    2. Questão do interesse no desporto feminino: aqui há um ponto importante. À excepção de alguns desportos (korfball por exemplo, que é parecido com basquetebol mas sem o menor interesse), não conheço desportos onde homens e mulheres possam competir em igualdade de circunstâncias. Há casos onde isso pode acontecer excepcionalmente (no automobilismo), mas o facto de nem sequer as mais bem sucedidas o conseguirem ser de forma consistente demonstra a impossibilidade de colocar homens e mulheres a competir.

    Nesse aspecto dou o exemplo dos dois jogos (de basquetebol) que joguei quando tinha 16 anos. A selecção nacional de cadetes femininos, a qual tinha Ticha Penicheiro e Mary Andrade (que jogaram na WNBA) jogou contra a minha equipa, que seria na melhor das hipóteses mediana a nível distrital. Em ambos os jogos ganhámos com o dobro dos pontos. A habilidade era indiferente quando a capacidade física nos beneficiava brutalmente.

    Isto reflecte-se depois nos desportos quando comparando mulheres e homens. O desporto praticado por homens é mais rápido, mais atlético, mais intenso. Isso torna-o mais interessante pelo simples facto de o desporto ser tão mais interessante quanto mais rápido, intenso e atlético for.

    Isso reduz interesse pelas vertentes femininas do desporto, mas há outro factor a considerar. O ideal masculino de beleza é o homem forte, musculado. O feminino (pelo menos actualmente) é a mulher elegante (quando não mesmo magra) e de pernas esguias. As atletas de alta competição são, regra geral, bastante mais musculadas (não é por acaso que as irmãs Williams ou Clijsters dominam bem mais que Sharapova ou as outras tenistas modelo). Sendo assim, os espectadores têm menos tendência a ver deportos menos interessantes e praticados por pessoas que não têm interesse estético.

    Faltando interesse, acabam por faltar exemplos para as mulheres. Faltando exemplos acaba por faltar interesse feminino. As mulheres voltam-se então para os temas que lhes interessam mais.

    Isto não é uma defesa da situação, antes uma análise. Os responsáveis dos desportos conseguem piorar as coisas ao propôr que mulheres usem decotes e equipamentos mais curtos para tentar aumentar o interesse dos desporto feminino (ver badminton). Só que há questões fisiológicas que são insuperáveis. O mesmo se passa com as emocionais.

    Se as mulheres se queixam dos jornais desportivos para homens, deveriam notar a quantidade de revistas de beleza para mulheres. Todos temos as nossas superficialidades, temos é que as aceitar.

    Longo, eu sei. Peço desculpa, mas isto até teria muito mais que escrever.

    1. Longo mas substancial. Não tenho discordâncias, apenas duas notas.

      Em relação ao ponto 1 (preferência pelo futebol), concordo que ser um jogo simples ajuda. Mas os americanos, por exemplo, não têm problemas em preferir outros desportos (sei que o ‘soccer’ ganha terreno lentamente mas isso também se deve à tal hegemonia de que estamos a falar, a que nem os EUA conseguem ficar totalmente imunes) e, de resto, o básquete não é muito mais complicado (de qualquer modo, exige dois aros circulares, o que sempre é mais difícil de arranjar do que quatro pedras) e o andebol tem mais ou menos o mesmo grau de complexidade e exigência. Mas talvez outro factor ajude a explicar a preferência: o futebol é bastante democrático no que respeita a características físicas dos jogadores, ao contrário da maioria dos outros desportos (com aquela estatura, dificilmente o Maradona teria feito sombra ao Michael Jordan – em ambos os sentidos da expressão).

      No que diz respeito ao ponto 2, é verdade que as mulheres não conseguem competir fisicamente com os homens mas normalmente não precisam. Os campeonatos são separados. E, se também é verdade que o desporto feminino tende a ser um pouco menos espectacular, visto por si só é muitas vezes suficientemente espectacular. Por exemplo, exceptuando uma ligeira diferença de velocidade de corrida, o futebol feminino não me parece assim tão diferente do masculino. Um encontro Serena Williams – Kim Clijsters (sendo que nenhuma seria capaz de ganhar ao Frederico Gil) é um bom espectáculo. Na natação as diferenças são quase imperceptíveis a olho nu. O que me parece é que os homens nem pensam em assistir a outra coisa que não futebol masculino e a maioria das mulheres, como escrevi no post, não tem grande apetência por seguir provas desportivas, independentemente de serem disputadas por homens (e, ei, elas até costumam achar piada ao Ronaldo e ao Nadal) ou por outras mulheres. Quanto às características físicas das atletas, há muitos casos em que são atraentes. Já olhou bem para as voleibolistas? (E nem estou a referir-me ao vólei de praia 🙂 ) Ou para muitas futebolistas, esquiadoras (ahem: http://eurosport.yahoo.com/video/12022010/58/vonn-swimsuit-shoot.html), patinadoras, etc. Mesmo no ténis (ahem nº2: http://www.nytimes.com/interactive/2010/08/29/magazine/womens-tennis.html) há muitas raparigas interessantes (e, sem a lesão no ombro, a Sharapova teria dado muito trabalho à Serena e à Kim nos últimos anos). O problema é que nenhuma delas usa maquilhagem e sapatos de salto alto quando joga. E isso é que não atrai o público feminino.

      E pronto, também ficou comprido. Ah, uma última nota: às vezes nem eu sei se estou a brincar se a falar a sério.

  2. Fiquei bastante esclarecida sobre este assunto, no entanto faltou falar sobre um outro desporto masculino (o sofátol ), o qual, é bastante praticado pela massa muscular masculina, aliás, é bastante praticado, enquanto, a massa muscular feminina pratica o esfrega o tacho, o varre o chão e por aí fora…

  3. O meu comentário é muito específico.

    Gostei e concordo genericamente com o texto, que se encontra muito bem escrito.

    No que concerne à “igualdade de oportunidades” para uma competição desportiva justa entre homens e mulheres, há pelo menos dois desportos que, assim de repente, me estou a lembrar, por não dependerem das aptidões físicas dos participantes: o xadrez e o bilhar (ou o snooker).
    O 1º não é espectacular para se assistir, embora o 2º já o seja (para quem aprecie, é óbvio). No entanto, parece que nenhum deles é especialmente difundido (principalmente o 1º), nem parece que seja fomentada a competição unisexo.
    Não deixa de ser curioso…

    Outro aspecto é o da da entrevista citada. Agradeço pela oportunidade que me proporcionou de a ler, pois é interessantíssima.
    Acho que depois de a ler passei a encarar com outros olhos (com um olhar de menor censura) a possibilidade de ser verdadeira a acusação que impende sobre o DSK (não me refiro ao desvalor da conduta em si, e muito menos no confronto da mesma com a situação da vítima, mas sim à motivação – ou à ausência de uma motivação racional – por parte do DSK para a prática daquele “acto de loucura” que lhe é imputado).
    De algum modo, essa entrevista fez-me lembrar uma passagem de um comentário feito por Vasco Pulido Valente no seu blogue (“O Espectro”), que considero que traduz por palavras de uma forma clara e clarividente aquilo que tenho sentido e que nunca soube verbalizar.
    Essa passagem é a seguinte:
    “O Estado também aflige. Por favor, não tomem isto como propaganda política. Imaginem o Estado durante Salazar e Caetano. Existia a PIDE e a censura: e mil tiranetes por aqui e por ali. Não vale a pena repetir o óbvio. Em compensação, o Estado não queria mandar na vida de ninguém. Não proibia que se fumasse. Deixava o trânsito largamente entregue a si próprio. Não andava obcecado com a saúde e a segurança. Não regulava, não fiscalizava, não espremia o imposto até ao último tostão. Um indivíduo, pelo menos da classe média, passava anos sem encontrar o Estado: em Portugal, em Inglaterra, em Itália, na Europa. Acreditam que nunca voltei a sentir o espaço e a liberdade desse tempo?”
    Esta passagem, tal como a entrevista do J. G. Ballard respondem a uma interrogação que me assola desde há algum tempo: pq somos mais infelizes apesar de vivermos numa sociedade mais liberal e mais desenvolvida? Pq, no fundo, temos menos liberdade. Não a liberdade de escrever aqui ou ali e de dizermos, em público ou privado, as maiores baboseiras; não a liberdade que o estatuto económico proporciona de ir a um restaurante caro, ou passar férias num bom hotel, ou de comprar o mais sofisticado computador ou telemóvel. Mas a liberdade de viver sem ter de se estar em permanente confronto com o Estado e com as limitações por este impostas.
    A civilização tem um preço, que é cada vez mais elevado. Tão elevado que cada vez se torna mais perigoso viver em sociedade.

    1. Obrigado pelo elogio. A minha intenção não era defender a competição unissexo. Mas de facto nos dois exemplos que menciona ela é perfeitamente possível. Creio é que são dois casos – especialmente o bilhar – pouco atractivos para as mulheres. Até porque tendemos a praticar desportos pouco divulgados apenas se tivermos amigos ou familiares que o façam e poucos pais ou colegas de raparigas tentarão convencê-las a jogar xadrez ou bilhar. Quanto à exposição mediática, o snooker (versão inglesa) até tem alguma exposição, graças ao Eurosport . Dificilmente poderia ter muito mais, considerando que nem outros desportos o conseguem (a barreira constituída pelo futebol é muito forte).

      É efectivamente uma entrevista fantástica. Esperemos que Ballard fosse excessivamente pessimista mas há ali muita coisa em que pensar. Eu lembro-me de ler este texto do VPV . Em nome de princípios bonitos, estamos cada vez mais regulados e controlados. Não concordo inteiramente que possamos dizer o que entendermos – a pressão do politicamente correcto faz com que certos termos, que até nos podem parecer inofensivos (e ainda que não), sejam praticamente proibidos. Afinal, há meses não foi noticiado que uma ministra espanhola queria multar quem usasse certas palavras? (Na altura escrevi isto: http :/ escafandro.blogs.sapo.pt 255693.html ). Estamos cada vez mais espartilhados e isso não pode ter bons resultados. Pelo menos, sem ter também alguns muito maus.

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