Legislativas (10)


Pedro Correia,

  

 

DEBATE PAULO PORTAS-FRANCISCO LOUÇÃ

 

Francisco Louçã e Paulo Portas protagonizaram esta noite, na SIC, o mais equilibrado dos debates televisivos desta campanha. Foi um debate em que ficaram evidentes as clivagens ideológicas mas sem crispações pessoais. O presidente do CDS-PP e o coordenador do Bloco de Esquerda, ambos com longa experiência em televisão, souberam dirigir-se aos seus eleitorados específicos – jovens, desempregados e pensionistas sociais, no caso de Louçã; idosos, agricultores e portugueses da classe média-baixa, no caso de Portas. Louçã foi hábil ao associar por duas vezes o seu antagonista ao primeiro-ministro. “O seu programa é hoje o do engenheiro Sócrates”, acusou o bloquista, lembrando que Portas apoiou o memorando assinado entre o Governo e o triunvirato composto por membros da Comissão Europeia, FMI e Banco Central Europeu. “O responsável pela situação a que Portugal chegou chama-se José Sócrates”, demarcou-se Portas, acentuando que aprovou o memorando por absoluta falta de alternativa: “Uma declaração de insolvência do Estado português significava que Portugal era posto fora do euro e que o dinheiro das pessoas ficava a valer metade.”

Portas aproveitou o início do frente-a-frente para detalhar algumas das medidas que propõe aos eleitores. Nomeadamente a concessão de um crédito fiscal às empresas que contratem novos trabalhadores neste tempo de recessão e a obrigação de as universidades avisarem os alunos para os índices de emprego dos seus cursos. Louçã também foi capaz de descer ao concreto, advogando a “criação de emprego com o impulso do Estado” na ferrovia de proximidade, em novas redes de lares de terceira idade e na reabilitação urbana. Trocaram argumentos fortes em questões como o emprego, o rendimento mínimo e a renegociação da dívida externa portuguesa. Portas aproveitou para criticar Louçã por ter recusado uma audiência com os membros do triunvirato que se deslocaram a Lisboa: “As suas ideias, deixou-as nas mãos de José Sócrates. Porque teve medo de perder votos para o Partido Comunista.” Louçã deu-lhe o troco, acusando-o de “conseguir votos” à custa da diabolização dos beneficiários do rendimento mínimo, “degradando a cultura da solidariedade”. E, tal como fizera no debate com Paulo Portas, voltou a mencionar o ex-ministro democrata-cristão Bagão Félix entre os que defendem a renegociação da dívida. Sem esquecer outras personalidades distantes da sua área ideológica que já exprimiram a mesma tese, como Pedro Ferraz da Costa e “o seu antigo primeiro-ministro, Santana Lopes”. Palavras ditas olhando Portas com um sorriso irónico.

O presidente do CDS, mais contido do que é habitual, não hesitou em mencionar áreas de convergência com o Bloco: “Ambos votámos a favor da prescrição da unidose”, acentuou. Também ele defende a “Caixa Geral de Depósitos pública”, estando nesta matéria mais próximo de Louçã do que do PSD. Não deixou, aliás, de marcar distâncias em relação a Passos Coelho num cenário de uma coligação pós-eleitoral PSD-CDS. Passos só a aceita se os sociais-democratas forem os mais votados, Portas defende-a mesmo que o PS fique em primeiro nas urnas mas os dois partidos mais à direita consigam formar maioria aritmética no Parlamento.

“Os indecisos têm que votar. Eles farão a força da democracia”, concluiu Louçã. Portas pareceu de acordo. Não restavam dúvidas: este debate serviu aos dois.

 

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FRASES

Louçã – «A criação de emprego tem que puxar pela economia no seu todo.»

Portas – «O primeiro-ministro que ainda nos governa tinha prometido criar 150 mil postos de trabalho.»

Louçã – «Todas as medidas que afundam a economia criam desemprego.»

Portas – «O senhor não pode enganar-se com quem está aqui. Não está aqui ninguém que congelou pensões.»

Louçã – «Paulo Portas é o único português, junto com o engenheiro Sócrates, que acha razoável pagar 30 milhões em juros.»

Portas – «O doutor Francisco Louçã não foi capaz de falar nem com o FMI, nem com o BCE, nem com a UE. Quando o meu país está à beira da insolvência, eu não fico quieto.»

Louçã – «O doutor Paulo Portas tem muito pouco respeito pelos adversários. Não me acuse de ficar quieto.»

Portas – «A renegociação da dívida não é solução.» 

 

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ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Paulo Portas-Francisco Louçã da campanha legislativa de 2009.

10 comentários em “Legislativas (10)”

  1. O que é Portas fez ao sorriso cínico, apalhaçado e graçola que patenteou com Passos Coelho? Aquela do agente de turismo para a Argentina despachou-o em 2º classe de baixo custo.

  2. São, indiscutivelmente, os dois mais bem preparados, com mais arcaboiço intelectual e um pensamento estruturado. No entanto, para mal do país, navegam por águas onde é difícil reunir consensos e isso reflecte-se depois no oportunismo (não conferir com oportunidade) das suas posições e intervenções, o que acaba por fazê-los perder a razão e radicalizar-lhes o discurso. Não se pode agradar a todos só para ganhar votos.

    1. Há, de qualquer modo, uma diferença entre eles, Sérgio. Portas mostra-se pronto a contribuir pelo menos para uma solução governativa, com o PSD. Louçã, pelo contrário, deixa bem claro que o PS não poderá contar com o Bloco, excluindo-se à partida de uma coligação pós-eleitoral ou sequer de um apoio parlamentar aos socialistas.

      1. Sim, Pedro, tens razão no que afirmas.
        Porém, creio que essa falta de abertura de Louçã tem a ver com a própria postura do Bloco e com o radicalismo de base trotskista que ele destila nas suas intervenções. Para segurar o seu eleitorado. O estilo de intervenção política do BE basta-se com os 10%. Para fazerem ondas e manterem um grupo parlamentar activo, sempre a malhar na burguesia e na banca, não precisam de mais nada. Qualquer outro posicionamento custar-lhe-ia os votos que mantêm o BE à tona, em especial os que ele recolhe naquela franja dos “verde eufémia “e quejandos.
        Quanto a Portas é diferente. A direita sempre gostou de exibir o seu “sentido de Estado”, o seu respeito pelas instituições, por um lado, e, por outro, o PP está num momento crucial. Se Portas não chegar agora ao Governo e tiver de aguardar mais 4 anos por uma oportunidade, isso poderá ser o primeiro sinal de desagregação do CDS/PP. Não será fácil continuar a crescer e engordar o partido. Portas precisa do poder para se afirmar como líder nacional e transversal e consolidar o partido.

        1. Pois, Sérgio. Tudo isto transmite a sensação de que o sistema político português anda coxo: é sempre possível haver coligações à direita e nunca à esquerda. E Portas consegue ainda insinuar-se como possível parceiro de coligação eleitoral dos socialistas, já que o BE e o PCP nunca se chegam à frente. É obra.

  3. Sérgio e Pedro,

    Excelente debate. Gente que falou EM CONCRETO de PORTUGAL. Os portugueses podem ver nestes dois homens ideias claras do que somos e do que fazemos. Porquê? PORQUE com conteúdo ideológico claro, historicamente situados, falam em ESQUERDA e DIREITA sem neblina, sem “mais ou menos”. Parabens pelo post, pelo comentário do Sérgio, e PAULO PORTAS e a FRANCISCO LOUÇÃ.

    1. Obrigado pelas suas palavras. Eu gostei do debate. Aliás, tenho gostado da maioria dos debates, onde tem sido possível discutir política sem excessivas fulanizações, ao contrário do que é habitual entre nós. Louçã e Portas tiveram intervenções de inegável qualidade, confrontando-se politicamente sem crispação pessoal. Quem viu e ouviu certamente não deu o tempo por perdido.

  4. Pedro, tendo sido formalmente um debate interessante, parece-me que eles “debateram” pouco porque tinham pouco para debater e nenhum interesse nisso. Portas, em particular e como desenvolvo no Quinta Emenda, dedicou-se ao seu grande problema: o PSD – seu adversário/parceiro!
    E foi daí que surgiu o que, em minha opinião, foi a grande novidade do debate.
    Passos Coelho tinha entrado no seu terreno quando afirmou que não formaria governo se não ganhasse as eleições. Já tinha deixado claro que não governaria com Sócrates, posição que Portas não tinha acompanhado claramente. Era mesmo voz corrente que Portas estaria a jogar nos dois tabuleiros, não deixando de piscar o olho ao PS. Quando, e raramente o foi, questionado directamente sobre isso Portas refugiava-se no facto de ter sido ele, há um ano atrás, a dizer ao primeiro-ministro para se ir embora. Mas nada mais que isso, ou não fosse ele o mestre da ambiguidade na política nacional!
    Pois ontem Portas disse, finalmente e com todas as letras, que não governaria com Sócrates. E com isso disse ao eleitorado que disputa com o PSD que poderia votar no CDS porque esse voto nunca servirá para dar a mão a Sócrates. Mas disse mais, disse: Votem à vontade no nosso mérito, nas nossas convicções e na nossa equipa porque, mesmo que o PS ganhe as eleições, Sócrates nunca conseguirá formar governo. E o PSD não tem alternativa, se não ganhar as eleições constituirá maioria connosco! E nem o país nem o presidente lhe perdoariam que não formasse governo!

    1. Eduardo: Portas tem todo o interesse em clarificar essa questão. Até porque já percebeu de que lado vai soprar o vento a 5 de Junho. Manter qualquer ambiguidade nesta matéria ser-lhe-ia prejudicial a partir de agora.
      Louçã manteve-se irredutível: ninguém poderá contar com ele no Governo. Neste aspecto o BE é apenas uma cópia do PCP. O ponto mais fraco do Bloco parece-me este.

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