O mapa


escafandro,

Caminhava pelo passeio, regressando do almoço. Poucas dezenas de metros à minha frente, duas turistas, raparigas de vinte e poucos anos, debatiam-se com um mapa. Uma voltou-se e pediu auxílio a outra rapariga – presumivelmente portuguesa – que se encontrava perto, junto a uma montra. Esta olhou para o mapa, hesitou, chamou uma amiga. Ficaram as quatro a olhar para o mapa, rodando-o, aproximando e afastando a cabeça da sua superfície, olhando para cima uma e outra vez como que para confirmar o local em que se encontravam, fazendo deslizar a ponta do indicador pelo papel. Neste ínterim, cheguei junto delas. Vinha preparado para providenciar ajuda mas nenhuma das quatro ergueu os olhos do mapa. Um pouco desiludido (há o eterno desejo masculino de conseguir salvar a situação com uma facilidade estonteante e, para mais, duas delas – uma turista e uma autóctone – eram bastante atraentes), prossegui caminho. Cinquenta metros depois voltei-me. Continuavam lá, conversando animadamente, cabeças debruçadas sobre a folha de papel.

 

Talvez devesse ter parado e oferecido ajuda. Mas receei que vissem a atitude como presunçosa, quiçá sexista. Foi melhor assim. De resto, posso sempre lá regressar ao fim da tarde. Se continuarem a pedir auxílio apenas a mulheres, há-de lá estar um grupo de dezenas, todas amontoadas em redor do mapa.

30 comentários em “O mapa”

      1. Uma rapariga chamada Ana Vidal, que no mês passado colocou aqui uma série de posts sobre “O Sexo na Escrita”, defenderia provavelmente que também podia ser uma mulher escrevendo como se fosse um homem.

        (Desculpa os perdigotos.)

        1. Não neste caso, Jaa.
          “Se continuarem a pedir auxílio apenas a mulheres, há-de lá estar um grupo de dezenas, todas amontoadas em redor do mapa.”
          Nenhuma mulher escreveria isto, até porque sabemos que é mais ou menos verdade…

  1. Ainda lá estão, mas agora sentaram-se na beirada do passeio a comer natas e a beber tota-tola. Ele há um tipo a esbracejar por perto. Oiço-o bradar:”Estranjas de uma figa, se eu soubesse alemão, vocezes haviam de ver como vos chamava um figo”. Impávidas e serenas, absortas mesmo no cochicho, estranhei e aproximei-me como quem não quer a coisa, querendo. Como bom e fluente poliglota que sou escutei sussurrado:”So Gorgeous that guy some minutes ago but…so shy; how i wish he had asked us something.Perhaps he’ll come back…”

  2. Objetivamente, teria sido simpático oferecer ajuda. Mas elas provavelmente teriam sido da opinião oposta. Achariam que se estava a meter com elas e que não tinha nada que se imiscuir.

    Há também que ver que as mulheres adoram tagarelar, debater assuntos triviais entre elas. Enquanto estavam ali a estudar o mapa, divertiam-se com a conversa. Se você interviesse e lhes dissesse o caminho a tomar, estragar-lhes-ia o motivo para estarem ali a ter uma boa conversa.

    Eu uma vez estive em Londres, saído de uma estação de metro, sem saber onde estava nem que direção tomar. Um simpático autótone aproximou-se imediatamente e ofereceu-se para me esclarecer, ser eu ter pedido nada. Achei muito simpático da parte dele. Mas isso já foi há muito tempo. Hoje em dia, com todas as histórias que se ouvem na televisão sobre violadores, serial killers, pedófilos e tutti quanti, as pessoas são muito desconfiadas e levam tudo a mal.

    1. Sinceramente, eu até teria oferecido ajuda, se alguma delas tivesse olhado para mim. Mas estavam tão entretidas em volta do mapa quando passei que preferi nem tentar.

      E, já agora, gostando como gosto de fotografia de rua, confirmo inteiramente a sua última frase: está muito mais difícil estabelecer contacto com as pessoas do que há meia dúzia de anos.

    1. Claro. É minha preocupação permanente evitar qualquer indício de sexismo. 🙂

      Parabéns. De entre todas as mulheres que conheço, há uma que também lê mapas bastante bem. (Vês como não sou sexista?)

  3. Mulheres à volta de um mapa é uma situação ‘standard’ a exigir atenta e oportuna intervenção masculina. Não me admirava que as desamparadas pequenas ainda por lá estivessem a estas horas… Perdeste uma excelente oportunidade para um nobre gesto de cidadania.

    1. Pois é, Pedro, mas elas nem olharam para mim. E dizem os pedagogos modernos (aqueles a que Nuno Crato devia encurtar as rédeas) que as pessoas devem descobrir as coisas mais do que serem ensinadas.

  4. A minha experiência de viagem pelo país por terras desconhecidas permite-me esta afirmação: Na generalidade (honrosas excepções existem), as mulheres não sabem ler um mapa. Foram inúmeras as vezes em que tive que desistir da resposta a um pedido de ajuda de orientação numa localidade. A reacção mais comum, é a de esbugalharem os olhos a olhar para o mapa, seguida de começarem a apontar áreas que reconhecem. Mas responder à questão: “Onde está o sítio X e como chego lá, a partir daqui?”, esqueçam.

    Dito isto, a imposição dos seus esclarecimentos neste caso era obrigatória. A história dos homens faz-se com o que eles conseguem, não com o que lhes é permitido. Há uns dias vi uma situação semelhante, quando estava a estacionar a mota: 4 estrangeiras a olhar para um mapa, ao pé da minha casa, certamente perdidas.
    Só não as “ajudei”, porque decidiram avançar quando já estava a 10 metros delas. Achei que correr atrás seria um abuso da Lei do Bom Samaritano, indiciando outras intenções menos nobres, que nunca me passaram pela cabeça. E assim sem esfumou a potencialidade de um fim-de-semana diferente.

    1. Ah, mas eu não me posso permitir fins-de-semana “diferentes”… Fica, no entanto, registada essa de que “a história dos homens faz-se com o que eles conseguem, não com o que lhes é permitido”.

      (E não consigo deixar de sorrir ao imaginá-lo a correr atrás de 4 estrangeiras desejando ajudá-las – e conseguir um fim-de-semana diferente – e elas a fugirem, todos correndo cada vez mais depressa. É assim uma cena tipo Buster Keaton…)

      1. meu caro j.: nunca devemos perder uma oportunidade de ajudar ou beneficiar os outros sem nos preocuparmos com o resultado. quem sabe do que terá passado ao lado?!
        espero que tenha aprendido a lição e da próxima vez corra veloz a ajudar pobres turistas perdidos na selva lisboeta ou outra!

        1. Se fosse na selva lisboeta corria eu o risco de ficar a olhar para o mapa como boi para palácio. Foi na selva portuense, que conheço um pouco melhor. Mas tem razão: devia ter ajudado – há por aqui animais muito perigosos.

          1. eu sabia… :))))não sabe ler mapas. quem le no porto le em todo o lado. e por aqui me fico. boa sorte.

  5. Ler as coordenadas , ou melho, ouvir a coordenadas) do GPS conta?

    Lembro-me bem do argento que me deu instrução em cartografia e orientação no Bundeswehr… não sei quem era o mais desorientado…Se eu que olhava para a carta militar e a bússola como quem olha para um texto do Heiddeger ( achando que Heiddeger é mais fácil), se ele que tinha de ter a paciência de me aturar.

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