Da condição de adulto


escafandro,

A transição para a condição de adulto ocorre quando pensamos pela primeira vez no passado.

Sherwood Anderson, Winesburg, Ohio.

Edição Ahab, tradução de José Lima.

 

Durante uns tempos achei que esta frase fazia todo o sentido. Li o livro (magnífico) há cerca de um ano e transcrevi-a por achar que fazia todo o sentido. Passamos a adultos quando percebemos que a realidade se alterou, que subitamente dependemos apenas de nós mesmos para muitas coisas e olhamos para trás tentando perceber o que aconteceu. Mas depois lembrei-me de outra teoria, que também devo ter lido algures, provavelmente até em mais de um sítio, segundo a qual a transição ocorre quando pensamos pela primeira vez não no passado mas no mais inevitável momento do futuro – a morte; quando pela primeira vez consideramos seriamente a nossa própria morte e, um tudo-nada surpresos, a vemos como uma possibilidade concreta e menos estranha (menos longínqua, até) do que seria expectável. Fiquei incapaz de decidir a que versão acho mais sentido. Talvez os dois momentos coincidam; talvez seja a consciência da morte que nos leva a pensar no passado – é, no mínimo, a sua sombra: o medo do futuro, a percepção súbita de uma enorme fragilidade. Ou então há várias possibilidades e tudo depende de uma escolha – do modo como quisermos definir o que é um adulto.

17 comentários em “Da condição de adulto”

  1. A frase de Sherwood Anderson é boa, José António. Mas prefiro esta, de William Faulkner: «O passado nunca morre, nem sequer é passado.»
    Uma frase tão verdadeira que até faz doer.

    1. É verdade, Pedro. Mas talvez a condição de adulto se atinja quando a frase do Faulkner passa a fazer sentido. Ou seja, provavelmente no mesmo instante indicado na frase do Anderson. Passamos a adultos quando o passado se torna uma realidade incontornável.

  2. Adulto é quando somos capazes de deferir, fazer algo sem querermos prazer, recompensa imediata. Um investimento.

    1. É uma boa hipótese e nesse caso praticamente ninguém hoje em dia pode ser considerado adulto. O que provavelmente faz algum sentido. Ou então – lá está – temos que redefinir adulto para levar isso em conta.

      1. Julgo que quem tenha filhos conscientemente – não aqueles que aparecem por acaso ou para cravar o subsídio – possa ser considerado um adulto.
        Mas por exemplo escolher um curso que é pago pelos impostos dos outros já não. O risco aparente é pouco.

        Como diz, a tendência para a adolescência permanente é cada vez maior e não é só por causa de não querer deferir o prazer, certas ideologias também o fazem por interesse e dominam os media.

  3. Certezas (além dos impostos e da morte) não haverá muitas. Mas podemos começar pelo facto de, em boa verdade, o presente não existir. É quase uma questão de limites do cálculo diferencial, para quem ainda se lembra de matemática. Como tal vivemos sempre entre a dicotomia passado-futuro . Acho que não há ninguém de nenhuma idade que não tenha contemplado o seu passado ou o seu futuro. Não há uma primeira vez identificável para contemplar a experiência passada ou a perspectivar a morte. Qualquer criança o faz, à sua maneira. E aí reside o busílis da questão: na minha modesta opinião o que muda ao longo da vida é a forma como encaramos quer o passado, quer o futuro.

    1. Hmmm, percebo o que quer dizer mas não sei se concordo, Hugo: é evidente que o presente é um instante ladeado por anos de passado e (esperemos) anos de futuro. Mas a definição de adulto, segundo o Anderson e tanto quanto a entendo, não contesta isso. Há um instante em que percebemos que acabaram os dias mais ou menos iguais, em que tudo (fosse pouco ou muito) nos era providenciado, em que não dependíamos ainda de nós mesmos. Esse instante pode ser aos doze, no caso de miúdos forçados a trabalhar, ou aos vinte e cinco. E talvez a Laura tenha razão no comentário abaixo e seja um processo mas um processo que culmina nesta percepção: de que o passado é diferente do presente. E é esta diferença que, passe o pleonasmo, faz a diferença.

      Ou não. Estamos a discutir hipóteses e nestas coisas raramente há só uma verdade.

  4. Bem visto, embora não seja bem-bem assim: trata-se mais de um processo e não de um momento. E depois, interpelar o passado com razoável lucidez não faz o adulto nem é exvlusivo dele, longe disso. Se há coisa que sempre me fascinou desde muito cedo, a partir do momento em que me lembro de começar a perceber as diferenças entre mim e os outros com alguma dose de racionalidade, é que, mesmo em pequenos, há imediatamente sinais de que uns de nós se ligam muito pouco conscientemente ao passado e olham apenas em frente; outros de nós ligam-se quase exclusivamente a tourear o dia; e outros, por fim, começam logo um jogo de bagagem pesada, fazendo pontes e tecendo malhas exigentes entre o que deixámos e o que seremos.
    Interessante, não é? Jaa, não sei se tens prole. Mas se tens, começa a reparar atentamente, desde tenra idade, como funciona a “estrela” de cada um. Nota-se bem 🙂

    1. Não, não tenho prole. Há genes egoístas que, por altruísmo social, não se devem perpetuar. Faz-me o favor de ler a resposta ao Hugo, imediatamente acima, que estar a debater isto depois de passar parte da noite a ver a final do US Open em ténis e sem ter ainda bebido nada com cafeína está a deixar-me de rastos… 🙂

      1. Mesmo sem cafeína acho que interpretou bem, ao encontrar uma ponte entre o meu comentário e da Laura. Creio (corrija-me Laura), que ambos quisemos chegar à mesma ideia fundamental, embora trilhando raciocínios ligeiramente diferentes.

        Com deve ter depreendido da minha definição de presente (ou da minha crença na sua não existência), não me revejo em ideias que reforçam a importância de momentos. Como lhe dizia, não me parece existir um momento identificável para começar a olhar para o passado. E como o expôs a Laura (bem mais elegantemente): trata-se no fundo de uma transição.

        Como em tudo na vida, para mim, as gavetas e classificações são a nossa forma de arrumar a realidade de forma a poder compreende-la e recorda-la. É quase um coping mechanism ” se quiser. Como tal, as definições de criança, adolescente, adulto, velho esbatem-se e perdem por vezes o sentido quando procuramos aplicá-las à realidade.

        Claro que enquanto rapaz normal a viver a minha vida, também a minha mente se serve dessas construções. Mas tentando preservar a distância, não existem momentos de transição. Nós mudamos um pouco todos os dias e o meu eu de hoje já não é meu eu de ontem, nem será o meu eu de amanhã. É, regressando ao comentário da Laura, um processo.

        Em suma, a grande diferença entre o que somos, o que fomos e o que seremos é sem dúvida a forma como encaramos o passado ou o futuro. Não o facto de os encararmos de todo. O que aponta inegavelmente para uma transição progressiva e paulatina e não para um momento de epifania, digamos assim.

        1. Hugo: ok, nós vamos mudando progressivamente e a certa altura somos adultos. O que o Anderson propõe é uma possibilidade para essa “certa altura”. A última frase do meu post já era uma constatação de que existem vários momentos possíveis porque, na realidade, adulto não passa de um conceito difuso. Quanto ao facto de ser a forma de olhar que é importante, creio que isso está subentendido na definição do Anderson: uma criança olha para o passado na medida em que no dia anterior fez anos e recebeu imensas prendas ou na medida em que se está a lembrar de que o acto que quer cometer deu origem a uma determinada reacção antes mas há uma altura na vida em que olhar para trás passa a ser olhar para uma realidade intrinsecamente diferente. Uma realidade em que somos e não somos aquela criança. Pode acontecer na sequência de sair de casa dos pais, de ter um acidente grave, de começar a trabalhar e a viver com o próprio dinheiro, de entrar numa relação estável, de ter filhos, etc. A idade e o(s) acontecimento(s) variarão de pessoa para pessoa.

          1. Portanto, estamos ambos a dizer a mesma coisa. Eu pelo menos revejo a minha opinião em quase tudo o que escreveu. A excepção é então essa ideia de momento presente na frase de Andersen e na qual V. também parece rever-se. Como pode constatar em todos os comentários que fiz é essa a principal diferença que tentei apontar desde início. O momento (o presente, enfim) para mim não existe, é uma abstracção humana.

            Ah e aproveito (já o devia ter dito) para lhe agradecer o estimulante debate que aqui trouxe.

          2. Revejo no sentido em que todos os processos, mesmo os muito lentos, têm um instante em que a condição muda. Ou melhor: em que passamos a designar as coisas por um nome diferente. O pão demora dias a ganhar bolor mas há uma altura em que nós nos apercebemos de que o tem.

            Mas no fundo, como diz, estamos a dizer mais ou menos o mesmo e também não é importante chegarmos a consenso: a piada está em pensar nos assuntos.

    1. André: creio que quando o Anderson se refere a “pensar no passado” o faz no sentido de ser capaz de perceber uma transição, a mudança de uma condição em que as preocupações são decorrentes de necessidades simples a que outros dão resposta para uma condição em que – diabos, o que sucedeu? – se está mais ou menos sozinho. Claro que podemos discutir muitas coisas: por exemplo, se acontecimentos traumáticos (digamos a morte dos pais ou de um irmão) antecipam este processo. Também me parece evidente que a transição pode ocorrer relativamente cedo (no caso de crianças ou adolescentes forçados a trabalhar, por exemplo). E, lá por se ser adulto, não quer dizer que não se mantenham indícios de infantilidade. Acho até que a maioria de nós tem muitas dúvidas sobre se já é um adulto. Mas, no fundo, questionar as próprias percepções é típico de adulto. Colocarmo-nos em causa e perguntarmos “isto que sou é o que devia ser?”. E, inevitavelmente, olhar para o passado e verificar o percurso feito.

  5. Só vos leio agora – e com gosto – pelo que já não tenho grande coisa a acrescentar ao debate. Diria que somos adultos no momento em que nos apercebemos da nossa finitude. Que não seremos eternos. Mas vocês já o disseram por outras palavras. E é claro que esse momento (ou fim do processo, se quiserem) pode ser precipitado ou retardado em cada caso, conforme a vida mais ou menos protegida que se tenha. Mas por muito que se seja “infantil” depois dessa descoberta, as brumas já se romperam e o encanto foi quebrado.

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