Teoria dos limites do potencial humano ou como tentar conferir respeitabilidade a um texto pateta através da utilização de uma citação e de um título pomposo


escafandro,

– Queria dizer que o trabalho cerebral debilitava a virilidade, razão por que tantos pintores vivem períodos de depressão profunda.

– E os escultores, não?

– Todos – resmungou Guido. – Todos os loucos que esforçam o cérebro que não sabem quando é tempo de parar.

Cesare Pavese, A Praia.

Edição Ulisseia, tradução de Ana Tomás.

 

Muito bem, isto explica por que motivo tantos intelectuais estão longe de parecerem monstros de virilidade e de optimismo. Pensam demais, logo f…azem outras coisas de menos e isso, naturalmente, entristece-os. Mas não deixa de ser curioso constatar como o inverso também é verdadeiro – como tantos rapazes musculados e raparigas pulposas transmitem a ideia de nunca terem aberto um livro na vida. Vai-se a ver e pode estimular-se cérebro e corpo até ao máximo do potencial de cada um deles mas não até ao máximo de ambos em simultâneo. 100% de intelectualidade exigem 0% de virilidade e 100% de virilidade têm como contrapartida só saber contar com o auxílio dos dedos e perceber o significado de «estúpido» mas não de «mentecapto» ou de «néscio». Se esta teoria estiver certa (e porque haveria de não estar, sendo Pavese um autor digno do maior crédito, mesmo em tempos de crédito difícil?), a maioria das pessoas será uma mistura de intelectualidade com virilidade (dois terços de uma para um terço da outra, por exemplo), sendo que muitas (nem deve ser preciso referi-lo, excepto ao Zezé Camarinha) nem à média de 50% conseguem chegar. Dois ou três exemplos, para além do já indicado? Nah, não vale a pena ferir susceptibilidades que o cérebro, especialmente nos indivíduos com reduzido teor de intelectualidade, é órgão cheio de ilusões. Convém é mencionar as inevitáveis excepções à regra, casos pouco frequentes de gente capaz de furar a escala e de chegar mesmo aos 60% ou aos 70% do potencial teórico, e que configuram o que poderá ser tecnicamente designado por anomalias genéticas ou sacanas com sorte (também poderia usar-se o termo «génios» mas para tal seria necessário que outra pessoa estivesse a escrever isto). Tudo indica que a proporção entre intelecto e virilidade se altera ao longo da vida mas, sem ajuda de comprimidinhos azuis ou de almofadas de silicone, não no melhor sentido. Por seu turno, o dinheiro é um excelente substituto tanto de virilidade como de intelectualidade, permitindo a algumas pessoas com índices corriqueiros viverem como se fossem efectivamente especiais (sim, it’s an injustice, it is). 

 

Porém, estabelecida a teoria, tem de ser considerado facto estranho existirem intelectuais: levando em conta aquilo de que se prescinde, qualquer humano com dois neurónios funcionais evitaria tão activamente quanto lhe fosse possível desenvolver os restantes. Por que aceitam então alguns fazê-lo? Talvez a explicação seja simples, ainda que não simpática: ser intelectual é sempre um refúgio, um último recurso. É, no fundo, imaginar uma virilidade.

 

Adenda: julgo que este post é suficientemente idiota para deixar claro que eu estou muito longe de ser um intelectual.

10 comentários em “Teoria dos limites do potencial humano ou como tentar conferir respeitabilidade a um texto pateta através da utilização de uma citação e de um título pomposo”

  1. Gostei da adenda “just in case”… não vá alguém pensar que te falta virilidade! 🙂

    Agora a sério – ou tão a sério quanto o assunto o justifique – acho que a natureza trata do assunto com muita sabedoria. Em regra (que as excepções só confirmam) a lei das compensações funciona muito bem. E ai de que não tem outros trunfos para substituir os físicos, porque esses (ou essas) é que são profundamente infelizes…

      1. Ao contrário de mim, que já tive mais dúvidas. Mas suponho que isso tenha que ver com o facto de ser mulher… nós temos menos adamastores desse género, felizmente. O que até é justo, já que enfrentamos tantos, de todos os géneros, ao longo da vida.

          1. Pois, já sei: não é o tamanho que conta.

            (E também já estavas à espera desta, não é verdade? Infelizmente, é inevitável: os homens ficam rapidamente muito previsíveis.)

  2. Brilhante :)) (mas o qualificativo não deve ser interpretado como qualquer tentativa de avaliação do potencial intelectual do autor do texto. Isto que fique bem claro!)

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