Fartei-me de rir ao ler sobre o cancelamento de uma exposição de artes plásticas prevista para o «Espaço Arte» (lindo) de uma seguradora, alegadamente (que é como quem diz, de acordo com os cancelados) por motivos homofóbicos. E fartei-me de rir porque o caso mostra como a parvoíce e o ridículo estão democraticamente disseminados pela nossa sociedade (ou querem espaço mais amplo do que o que vai de um «artista de vanguarda» a um manga-de-alpaca cujo negócio são «condições particulares» de apólices de seguro, passando por jornalistas em busca de polémicas e opinadores politicamente correctos?).
O «Espaço Arte» (lindo, lindo) em questão é privado. Está aberto enquanto o proprietário entender e apresenta o que o proprietário entender. Vir falar de censura é ridículo. É tão censura como eu mudar de canal sempre que a Júlia Pinheiro surge no ecrã e abre a boca, preparando-se para falar. Ninguém é obrigado a gostar de desenhos de pénis. Mas na sociedade em que vivemos as empresas têm de ter cuidado e, se decidem fingir que apoiam as artes (já agora, não será discriminação escolherem uma arte em detrimento de outras?), deviam ter o bom senso de definir critérios à partida (tipo não queremos cartazes na parede exterior do edifício com desenhos de pénis; e, já agora, nem no interior) e estar preparadas para negociar quando as coisas descambam (tipo nós não queremos cancelar a exposição e não vamos cancelar a exposição que, aliás, adoramos, mas vamos ter de chegar a um compromisso e pelo menos mudar o cartaz, ok?*). Claro que para isto seria necessário que as empresas portuguesas tivessem pessoas competentes nos lugares onde habitualmente estão yes boys e yes girls (nota quiçá a despropósito: por que é que eu nunca me deparo com yes girls?) entusiastas de «conceitos» e «estratégias» e «posicionamentos» (não confundir com «posições») e «modernidade» e «vanguarda» e «visão» mas, na realidade, não valendo um dos poucos pêlos púbicos que a tendência desenfreada para a depilação ainda permite que sobrevivam.
Ou então as empresas devem perceber que não vale a pena. Que os riscos são hoje demasiado elevados. Que, assim como assim, ninguém liga peva ao mecenato cultural a menos que inclua um piquenique com concerto do Tony Carreira, mas que um só escândalo pode ter efeitos bastante negativos para a imagem da empresa. E que o que há mais por aí são «artistas» preparados para transformar em escândalo o mais pequeno desaguisado, em especial, claro, se fizerem parte de uma «minoria». Afinal, o escândalo é excelente para o negócio. Para o negócio deles, bem entendido.
* E mudado o cartaz tudo ficaria bem porque, convenhamos, quantas pessoas é que entram no «Espaço Arte» em questão para ver o que quer que seja?

E eu já me ri com o teu texto. O cancelamento percebe-se perfeitamente, tens razão, o que não se percebe é porque raio aceitaram primeiro a exposição antes de saber o tema… afinal de contas, um espaço que se chama “Tranquilidade” não podia exibir imagens que alteram garantidamente os batimentos cardíacos dos (parcos) visitantes. Seria uma incoerência. 🙂
Não são eles que tratam da programação, Ana. São três galerias. Eles só se aperceberam quando já estava tudo pronto. É por isso que as empresas ou tratam de verificar tudo muito bem ou assumem os riscos (sejamos honestos: teria sido menos negativo – se é que teria sido negativo – deixar a exposição realizar-se*) ou não se metem a beneméritas.
* O problema, claro, é que se um dos “stakeholders” (adoro o uso de termos em inglês nos comunicados das direcções de marketing das empresas portuguesas) da companhia (um elemento da família Espírito Santo, por exemplo) não gostasse do que via, era o director de marketing quem ficava em xeque (imagine-se o terramoto que se seguiria à pergunta: “Mas quem é que autorizou isto?”). Seja qual for a empresa, nada é pior do que irritar o patrão através de um acto que nos pudesse ser directamente imputado (nem um escândalo público atribuível a excesso de zelo).
Aprender aprender sempre
Exacto, opuma. Mas esquecemo-nos depressa ou não andaríamos sempre a repetir os mesmos erros. E isto aplica-se a muito mais do que cartazes com pénis. 🙂
Assusta constatar que um símbolo fálico passou a representar a homosexualidade.
E não comecem a dizer que ‘quem cú tem medo’… eu disse ASSUSTA…
Paulo: é verdade; iconograficamente, o pénis parece estar cada vez mais associado à homossexualidade – quando afinal, que eu saiba, também é usado pelos heterossexuais (ou então há coisas que eu não devia andar a fazer).