Há notícias arrepiantes. Acabo de ler uma delas. O que levará um homem de 41 anos, na força da vida, a pegar no filho ao colo e a lançar-se com ele para uma linha férrea momentos antes da passagem de um comboio? Por mais voltas que demos, jamais conseguiremos descortinar os abismos da alma humana. «From the bottom of the pool, fixed stars / Govern a life», escreveu Sylvia Plath. Também ela namorou a morte: um dia decidiu partir para não mais voltar, numa interminável viagem ao fim da noite.
Estrelas no fundo de um poço – quantas delas se cruzam connosco nos dédalos citadinos? Vocacionadas para a eternidade mas com todos os sonhos sepultados numa vastidão de pó.


Just keep passing the open windows…
Li isto ou ouvi isto algures sobre esse fascínio do abismo que tantas vezes nos habita.
É um enigma sem fim, Blonde.
Muito triste. Uma morte por suicídio é muito violenta.
Este caso é particularmente chocante porque o pai, ao suicidar-se, matou o filho. Lê-se a notícia do princípio ao fim como se levássemos um murro no estômago.
Pedro: se ele chegara à conclusão de que a vida é sofrimento, faria sentido deixar o filho viver? Mais: imagina o quanto ele se deve ter recriminado por ter trazido o filho ao mundo.
Outra hipótese é ter precisado do miúdo como apoio, para ganhar coragem.
E, já agora, uma versão menos romântica e ainda mais doentia: pode ter levado o miúdo por saber que o grau de represália que assim exercia sobre a mulher era muito superior. O que deixa a questão: como poderá ela assimilar essa possibilidade?
O grau de represália, sim. Li algures que os suicidas que escolhem uma morte violenta (atirar-se para uma linha de comboio, por exemplo) têm exactamente isso em mente. Querem ferir/acusar alguém para sempre.
Como poderá ela assimilar essa possibilidade?
Há uma campa, num cemitério perto de onde vivo, que tem uma lápide enorme, com cerca de metro e meio de altura, cujo epitáfio consiste na seguinte frase: “Não era minha intenção deixar-te”. A sepultura é de uma mulher que morreu aos vinte e cinco anos.
Os abismos da alma humana…
Triste. Tão triste.
Belo texto, Pierre. Sabes, é o velho olhar do abismo a olhar para quem muito o olhou.
Uma pessoa tem de estar muito desesperada e/ou cheia de raiva a outra e/ou sentir muita raiva de si própria para cometer uma loucura destas. E dar assim cabo também de alguém que é sangue do seu sangue, alguém com apenas seis anos e toda uma vida e todo um mundo de sonho e de esperança pela frente…
Em poucos segundos, tudo se desmorona. Nada mais resta.
Eu nestas coisas penso sempre no pobre do maquinista.
Também há que pensar nele, Isabel. Mata sem querer matar. Mata sem alguma vez um pesadelo desses lhe ter passado pela cabeça.
Há quase sempre um denominador comum a estes perfis suicidas/homicidas: são descritos pelos vizinhos como “pessoas reservadas”. Mas como saber o ódio ou o desespero que vai por baixo dessa reserva em que ninguém repara, a não ser quando já é demasiado tarde?
A história é um horror do princípio ao fim. Que consciência terá tido aquela criança do que lhe ia acontecer? Espero que nenhuma.
A história é impressionante. Procurei trazer aqui o linque da peça do Jornal de Notícias, que publicou o texto mais vibrante e comovente – infelizmente não está em linha. Eu, pelo menos, não o encontrei. Mas seja sob que ângulo for esta pequena tragédia de que dentro de dois dias ninguém mais falará justifica uma reflexão. Porque o nosso quotidiano tece-se de múltiplas tragédias como esta. Andaremos suficientemente atentos para intuir isto sob a máscara de tantas “pessoas reservadas” que surgem perto de nós?
Um murro no estômago, dizes bem. Mas não consigo sentir compaixão por este homem, que não hesitou em sujeitar a pobre criança a uma morte tão atroz. Há gente que devia ser proibida de ter filhos.
Não dá para imaginar a dor da mãe, que ficou também trucidada por esta tragédia. Um horror.
Nem quero pensar nisso, Teresa. Basta-me imaginar aqueles últimos – e definitivos – instantes de terror da pobre criança que confiou em vão no abraço protector do pai.
Tantas vezes dizemos que os fins não justificam os meios a propósito de acontecimentos políticos. Esta deve ser uma verdade de bronze em qualquer circunstância da vida humana.
Exactamente. É nisso que não suporto pensar.
Nem eu.
É impossível imaginarmos o desespero deste pai. Mas pior, muito pior mesmo, é o sofrimento da mãe. Não há palavras…
É isso, André. À nossa volta existem pessoas que foram ou são protagonistas de tragédias indizíveis, tragédias de que mal podemos suspeitar. E não é filme: é vida real. Ou morte, também real.