Dies irae – II


enlil,

Chen Wei, “Marble and blood”, 2007 

 

Começa a ser patente que a credibilidade da democracia representativa em Portugal já passou o prazo de validade. Quando daqui a uns lustros algum historiador (se ainda os houver) quiser saber what the fuck happened?, é bastante provável que vire os olhos na direcção do Parlamento.

Desde sempre que os srs. deputados entenderam muito bem como funciona o mecanismo eleitoral português. Não interessam os votos, que esses são abstractos e por atacado, a malta do Porto que vota PSD não vota na sra. Andreia Carina Neto, o pessoal de Lisboa que põe a cruzinha no PS faz lá ideia quem seja o sr. Pedro Alves. Importa, isso sim, ocupar uma boa posição na lista eleitoral.

Este sistema tem sido excelente para alimentar intrigas internas nos partidos, as quais absorvem todas as energias dos candidatos. De tal modo que estes, mal assentam o rabinho nas cadeiras escarlates de S. Bento, se presumem vitoriosos e com direitos aos despojos. Deste ponto em diante, tudo os impele logicamente a atuar como uma corporação em defesa dos direitos adquiridos. E assim fazem. Dir-se-á que os srs. deputados do PCP e do BE são diferentes – pois são. Apesar de serem designados da mesmíssima maneira que os outros, vêem mais longe; move-os a convicção de que o parlamento é apenas um episódio adventício de algo muito maior: a revolução socialista. Por isso estão na assembleia para defender os interesses do seu partido e não os pessoais.

Que o corporativismo dos deputados é impenetrável e universal, prova-o um infame episódio recente.

Os srs. deputados aprovaram por unanimidade a implantação do seu canal propagandístico, a ARTV, na TDT. Assim sem mais, como se as frequências televisivas fossem propriedade da AR e estivessem à discrição do seu arbítrio (e não fossem um bem público, portanto à guarda do Estado), como se não tivesse havido concurso público para atribuição dessas frequências (por acaso um fiasco e um escândalo monstruoso, do qual foram escamoteadas as devidas ilações), como se a própria ERC (fenomenal autoridade escolhida pela própria AR!) não tivesse dado parecer contrário, recusando emissão de licença, o que levou a Exma. Sra. Presidente da AR a proferir magistral boutade: “O Parlamento não tem medo da ERC!” (todo um programa esta  ameaça) já que a ARTV “é um espaço, não um canal” (sic). Aguarda-se ansiosamente para saber que argumento será evocado quando tiverem que recusar na TDT o canal do Produtores de Frutos Silvestres ou do Sindicato dos Talhantes do Sul.

Falácias jurídicas, argumentos discricionários, arrogância corporativa, compadrio desavergonhado, insolência administrativa, espertezas processuais e debates políticos ao nível de masturbações de grilos, eis como ao longo dos anos os srs. deputados liquidaram a reputação da democracia representativa.

A Constituição tem-se mostrado sensata, equilibrada e funcional, mas já não consegue conter a entropia de um regime em que as instituições se fecham sobre si mesmas e vão sobrevivendo graças à inércia política que elas próprias promovem. E como as alternativas a isto parecem sempre piores do que está, a coisa correu enquanto houve dinheiro, só que agora a putrefacção está à vista e deita cheiro.

Dies irae – I


enlil,

Começa a ser patente que a credibilidade da democracia representativa em Portugal já passou o prazo de validade. Desde o proverbial “eles são todos gatunos” até à refinada análise de um “-ólogo” não sei bem de quê, que afirma sem hesitar “há claramente uma diferença entre a opinião da cidadania e do eleitorado”, que se percebe ser nula aos olhos do cidadão a representatividade sentida, a confiança política e o prestígio real dos eleitos da nação.

Pode-se mesmo afirmar que a democracia representativa em Portugal só ainda não se desvaneceu por dois singelos motivos. Um é que não se sabe muito bem que modelo adoptar em sua substituição: Petrogrado 1917? Berlim 1933? Tirana 1945? Chile 1973? Burkina Faso 87? O outro é que ainda não apareceu nenhum carismático a discursar em cima das mesas das cervejarias ou a marchar pelas estradas, que arrebate as massas e num ímpeto salvífico, tome o poder em nome delas.

Fora isso a coisa está madura.

Entretanto a esquerda, já não sendo aquela que descobria ingenuamente a praia debaixo do empedrado, indigna-se e protesta, para voltar a indignar-se e a protestar, sem se dispôr a descrever o dia seguinte à abjuração da dívida, à nacionalização da banca e das “indústrias estratégicas”. Há uma “esquerda responsável” mas essa está a cargo do sr. Tozé Seguro – I rest my case.

Por seu lado a direita faz o que sempre fez: diz que sim com a cabeça quando lhe convém. Quando não, rosna baixinho, intriga nos salões, clama pelo rei (desta alteza nem pio se tem escutado…) e não vendo nenhum coronel a jeito, abre conta em Gibraltar – que se foda o pagode.

A festa é toda dos repórteres que por mais sério que seja o caso hão-de sempre encontrar um cromo aos guinchos a dizer as piores bestialidades, persuadido que é a consciência da nação, doutro modo não lhe teriam cedido o microfone. É de crer que os repórteres, pela intrigante persistência com que actuam, estão também convencidos que vozes de burro chegam ao céu.

Imagine


enlil,

Imagine-se um fantástico especialista em cirurgia que nunca tenha pegado num bisturi numa mesa de operações;

Imagine-se um engenheiro civil, perito na matéria, que nunca tenha estado numa obra;

Imagine-se um piloto aviador que nunca tenha saído do chão;

Imagine-se um erudito em pedagogia que nunca tenha entrado numa sala de aulas;

Imagine-se um reputado biólogo que desconheça o laboratório;

Imagine-se um comerciante que nunca se tenha preocupado com o extracto bancário nem tenha olhado para uma folha de vendas;

Pausa.

Agora imagine-se:

Um sapiente economista que nunca tenha tido responsabilidades numa empresa.

Vamos em frente com isto


enlil,

Rodney Grahams, “Good hand, bad hand”, 2010

 

O Sr. Primeiro Ministro Pedro Passos Coelho e o Sr. Ministro das Finanças Vítor Gaspar propõem aplicar ao país uma experiência económica drástica. Ninguém no seu perfeito juízo duvidará que eles estarão a agir de boa-fé e no pressuposto de que estas medidas contribuirão para salvar Portugal da crise. Mas para que a nossa crença na bondade dos seus propósitos se confirme, desta vez precisamos de um sinal da sua parte de que estão dispostos a provarem que isto é tão a sério para eles como está a ser para nós. Como dizem os americanos no seu calão funcional: os Srs. Passos Coelho e Vítor Gaspar devem apostar o seu bem mais precioso onde põem a boca.

Por isso proponho:

Se a experiência resultar, a História os celebrará como os heróis que salvaram Portugal.

Mas se a experiência falhar, devem ser julgados criminalmente pelos danos causados à Nação e aos seus cidadãos. Podendo ser-lhes dada uma alternativa honrosa, à japonesa: o suicídio.

Les jeux sont faits.

Como tudo que acaba também o Verão


enlil,
 

 

Foi preciso vir o Paris-Match a Lisboa em Agosto, para se descobrir, cá em baixo, que 1975 não foi nada assim – nem nós demos por isso à época, quanto mais quem não era nascido…

O verão de 1975, o mais belo dos verões para quem alguma vez teve 16 anos. Há lá simbiose mais feliz do que um país parvo como um adolescente, às mãos de um adolescente esparvoado com os avatares revolucionários, por esses dias despejados em Lisboa.

Tantos eram os estrangeiros – hoje vulgarmente apelidados de “europeus” – de mochila às costas que o relvado do Estádio Universitário foi convertido num parque de campismo. Se a memória não falha, o recinto seria pressurosamente guardado pelos lenços negros do COPCON e à noite não era o restolhar das árvores que nele se escutava. Não, o que se ouvia eram os suspiros da liberdade. Pois para isso tinha a euro-juventude acorrido, para conviver com uma revolução ao vivo, à falta de ter ido ao Chile enquanto deu.

Soldados e marinheiros unidos venceram deveras os corações e sobretudo os ventres (palavra um nadinha clínico-clériga, mas na ocasião celebradíssima poeticamente por Ary dos Santos e Tonicha) das miúdas de idiomas embrulhados e com deliciosos ouriços nos sovacos, atestando que eram totalmente revolucionários os seus ardores – nem doutro modo seriam desejáveis.

As mais briosas e culpadas era as alemãs adeptas da Rotte Fahne, as mais discutíveis (quer dizer: não se davam à praxis antes de discutir Gramsci) eram as italianas, émulas de Rosssana Rossanda. As francesas, como de costume, parecia que nada lhes chegava aos calcanhares de 68 e tudo lhes sabia a pouco – y en a marre… As poucas nórdicas, sempre chegavam cá demasiado enfastiadas, por lhes ser oferecido o que elas em casa já tinham em demasia, mas ainda assim, os calores fétidos do Atlântico Sul adoçavam-lhes um pouco os humores militantes, severos do seu natural.  

Na Baixa faziam as vezes de sinal horário as zaragatas com os retornados em cacho à porta do Pic Nic do Rossio, animados a recordarem as pacaças e a discutirem os caixotes que atulhavam a doca de Alcântara. Pertencia à festa haver putativos reacionários à mão de semear.

Mas era tanto o caudal de visitantes e tão recheado o calendário de manifestações, que os magalas não davam conta do recado. Entra aqui o miúdo de 16 anos. Queres mesmo, mesmo, mesmo a sério ver a revolução em marcha? Ach, et bien…, da vero! Pois então passaremos o fim-de-semana a sacholar na Torrebela. E lá tinham o Rabaça e o Mortágua que aturar mais uns desvairados espezinhando as culturas, tudo menos labutando em prol do povo.

Mas o Paris Match viu outro Verão.

 

Nos baldios que se estendem para além da Serra de Aire até ao sol-posto de Caminha, os pés sujos de chanatos não pisavam. Nessas terras do demo, um cónego de Braga açulava sicários, veteranos que vieram vesgos das matas de África e estavam danadinhos para reproduzirem a alegria outrora sentida diante das cubatas a arder com os pretos lá dentro. A foto da capa do Paris-Match nº1369, datado de 23 de Agosto de 1975 estampa um militante do PCP escudado por polícias tão arrepelados quanto ele, exibindo um justo pânico por estar a ponto de ser linchado ou assado. Aqueles verões de 75 tiveram muito menos piada que os nossos – como de costume, aos nortenhos faltou-lhes graça.

Duraram mais uns anos as raivas, cá em baixo ao tempo que não havia campistas, até que por fim um tal de comendador atravessou o Porsche na estrada por via de uns balázios que o deixaram sentado no bólide a contemplar infinitamente o Portugal mais-que-perfeito daquelas bandas. E por ali diz-se que se ficaram.

Ainda hoje não é costume ir muito para aqueles lados, húmidos e gordurosos. Há poucos anos não tinham perdido a comichão de gatilho e matavam-se com sinceridade à porta de boites por causa de certos negócios lá deles. Ultimamente só damos por eles quando aparecem alguns desdentados na televisão a celebrar campeonatos de futebol. Bem nos avisou a Sra. D. Agustina que por ali ser lírico e manso não era elogioso, o que os franceses do Paris-Match cataram logo à primeira – zut alors…

 

Fatalismos históricos


enlil,

O sr. Manuel Loff é materialista dialéctico e também historiador, uma união com reputação de infalível, pelo menos desde 1871. Couraçado no sentido objectivamente desvendado da História, do qual tem a chave, o sr. Manuel Loff desmascarou o sr. Rui Ramos, historiador “neo-liberal” (se o sr. Manuel Loff diz que é, então é) mais as suas artimanhas no sentido de reabilitar o defunto e horripilante (digo eu que não sou nem materialista-dialéctico, nem neo-liberal, nem historiador – presumo) Sr. Salazar, Oliveira, de Sta. Comba Dão. Isto sucedeu nuns artigos do “Público” inacessíveis online (se alguém quiser dar uma ajudinha…)

Só que o sr. Rui Ramos não esteve pelos ajustes e, com a insolência dos vencidos da História, ousa defender-se aqui.

À liça acorreu também o sr. António Araújo, fautor do blog Malomil. Parece que o sr. Loff em tempos trocou e pôs ao contrário umas palavras de um texto dele, mudando-lhe de todo o sentido. Foi há tempo tempo, queixa-se o sr. Loff – historiador, recorde-se. E além disso – digo eu – um dialéctico, para mais materialista, tem todo o direito  de fazer da tese, antítese e vice-versa, se lhe apetecer, porque a síntese da História, essa já se sabe qual é.

Está armado o arraial. E embora eu não tenha jeito nenhum para prever futuros inevitáveis, embora temporaramente reversíveis, ia jurar que ainda vai haver quem diga que isto é uma conspiração.

silly season TV


enlil,

Jeff Wall, “A sudden gust of wind (after Hokusai)”, 1993

 

A RTP1 é invendável por falta de comprador – repitam como um mantra: “não há mercado, não há mercado…”

A RTP1 só poderia tornar-se apetecível se for subsidiada pela taxa. Ideia genial: a taxa não sai dos cofres do Estado mas do bolso dos consumidores de electricidade. Donde a “concessão de gestão” sugerida pelo sr. António Borges.

Mas uma RTP1 de operação privada e subsidiada seria um atentado – pode-se dizer criminoso? – contra as regras normais de um mercado normal. Com esta fórmula, um concorrente teria acesso à cabeça a uma fonte de receita vedada aos outros, graças a um mero dispositivo legal de circunstância.

Porque não haveriam os srs. Balsemão e Pais do Amaral ter também o direito a parte igual dessa taxa? Não são também eles afinal concessionários de uma frequência que é pertença do Estado? E a RTP1 continuaria com a restrição de 6 minutos por hora de publicidade em vez dos 12 minutos dos operadores privados, ou será uma questão de somenos para o fulminante, embora etéreo, espírito do sr. António Borges?

Agora que este problema está resolvido, proponho que o sr. António Borges nos diga que planos tem para a comercialização do bosão de Higgs – segundo creio ele também não percebe nada de física…

E depois dizem que não querem ser tratados assim


enlil,

Um das expressões mais bizarras do léxico português é o substantivo plural “políticos”, quase sempre acompanhado pelo artigo definido, pronunciado com inflexão e acinte – “os políticos”.

É uma estranha palavra porque indiferencia uma ampla e heterogénea colecção de objectos, abrangendo na mesma penada os deputados Ribeiro e Castro e Mariana Aiveca, que nada têm em comum, e é incapaz de distinguir entre o sr. Luís Montenegro, prestimoso líder da bancada do PSD, e o sr. Sérgio Azevedo, por exemplo, importante figura do PSD da freguesia do Sacramento (624 eleitores) e de resumidíssima intervenção parlamentar. Um substantivo que se aplica tanto a um Presidente de Junta de Freguesia como ao Presidente da República, deve faltar-lhe alguma qualidade.

E no entanto a expressão “os políticos” costuma fazer todo o sentido na linguagem comum. Porquê? Será porque as pessoas são grosseiras, incultas e pouco dextras com a língua? Ou será porque há qualquer coisa muito nítida que atravessa todos “os políticos” que permite reduzi-los à indiferenciação?

Por exemplo: no dia 29 de Junho a Assembleia da República (AR) votou por unanimidade a transmissão do Canal Parlamento na TDT. Disto pode-se retirar uma importante conclusão: a AR, na abstracção jurídica representante da nação, na prática representa tão somente os interesses corporativos dos seus ocupantes – precisamente “os políticos”.

Tal como os rios, a atmosfera, ou a orla marítima, as frequências televisivas e radiofónicas são considerados bens comuns, pelo que se diz que devem estar sob a alçada do Estado. Este só as cede à prática de terceiros, mediante minuciosa e cuidadosa legislação, concurso público e caderno de encargos. Ora, quando a AR toma a TDT como propriedade sua e não do Estado e delibera o usufruto próprio de uma frequência de TDT, fora das condições que impõe ao resto da sociedade, ela está a ser autocrática, conveniente e irresponsável. Havendo unanimidade nesta votação, só demonstra que os deputados, ou por ignorância ou por má-fé, agiram como uma corporação, ou seja, mesquinhamente em busca da satisfação dos seus interesses particulares.

Assim sendo, a expressão “os políticos” é estúpida, mas, talvez por isso mesmo, faz todo o sentido.

Restaurações


enlil,

1657

1847 

 1878

O picaresco episódio de Doña Cecília Jimenez, vilã de Borja, lugarejo de 4000 almas nos confins de Aragão, veio salvar a silly season. Da toca saltaram comentadores de 3 qualidades: ele foram os restauracionistas que vieram a público rasgar as vestes, ele foram os jocosos que têm sempre razão porque nunca levam nada a sério e, decorrente destes, ele apareceram, ainda titubeantes, os que já vêm defender o estilo naif da senhora, como quem descobriu um Le Douanier Rousseau de última hora.

Os arqui-conservadores, que tudo baptizam como património a preservar, imutável através dos tempos, sofrem de outro problema além da extrema sisudez e da manifesta vontade de mandar parar as máquinas para sempre. É que precisamente, as máquinas nunca pararam e a maior parte dos “monumentos” (só este conceito daria para uma brava discussão) que elegemos como emblemas imortais da nossa pátria não menos imortal, lamento informar, mas têm sido remexidos, com maior ou menor alvenaria, ao longo da sua existência, bem mais precária do poderíamos supôr.

Os Jerónimos por exemplo, o timbre supremo da Era dos Descobrimentos (donde, em memória, parece que nunca saímos), o imaculado registo do quinhentismo português, pois os Jerónimos, a última intervenção que tiveram foi em 1950 quando lhes acrescentaram os vitrais do cruzeiro. Esses mesmos vitrais que turistas fotografam com deslumbre e os seus guias garantem ser manuelinos de gema.

Mas como se pode ver pela foto supra, este acrescento foi nada comparado com as dedadas que imprimiram no Mosteiro nos finais do séc. XIX e as reconstruções, supostamente imitando a traça original (imitação=kitsch, por definição), executadas aquando da famigerada Exposição do Mundo Português de 1940.

Pode Doña Cecília ter sido desajeitada e falha de talento, mas não podemos nós considera-la profanadora ou fora dos costumes.

Da boa medicina


enlil,

 

Só nos anos 70 do séc. XX se voltaram a usar cabelos e bigodes tremendamente assim. Relembre-se os visuais de David Byron dos Uriah Heep, ou de todos os elementos dos Black Sabbath à excepção de Ozzie Osborne (estranho!) ou ainda de certos jogadores do benfica, mais hirsutos que o habitual.

Além da exuberante capilaridade, há algo mais que poderia combinar João Curvo Semedo com semelhante malta. Se estes ingeriam com afinco experiências químicas motivadoras, digamos assim, já Curvo Semedo foi um dos percursores, ainda que não inteiramente científico, da farmacopeia química. O apogeu da sua ciência, no dealbar de setecentos, fez dele médico de “Sua Majestade” tanto Pedro II como João V, portanto no período mais rico e edificador da história do reino de Portugal. Mais do que isso, a fama boticária de Curvo Semedo excitou a curiosidade de muitos físicos europeus coevos, nessa época em que nascia o espírito moderno, caracteristicamente explorador, entusiástico com a novidade e apaixonado pelo exotismo das espécies florais e animais que todos os dias nos revelava o Novo Mundo – do feijão aos papagaios, do peru aos venenos amazónicos.

No recato da sua oficina lisboeta João Curvo Semedo pode ser hoje visto como um modelo de pré-cientista do seu tempo. Todavia, não obstante ser familiar do Santo Ofício (não fosse o diabo tecê-las) a composição de algumas “receitas secretas” das suas poções, elixires e preparados foi de molde a suscitar vivíssima repulsa e repugnância, tendo sido ponderada a sua proibição.

Tape-se o nariz e encolha-se a barriga:

Curvo Semedo era defensor das propriedades terapêuticas do vómito: “o vomito he hum arrojo impetuoso, que o estomago faz para as partes superiores, deytando fora de si tudo o que o agrava, & molesta, ou sejão humores, ou alimentos, ou venenos”. (Vai na forma original para não susceptibilizar os inimigos de acordos ortográficos). De modo a proporcionar os benefícios do vómito nada melhor do que a utilização pródiga de “pós de quintílio” ou seja antimónio pulverizado, um metalóide hoje tido como altamente tóxico – quem sabe que propriedades os homeopatas lhe descobrirão amanhã…

Outra grave maleita: “Dor de cabeça he huma acçaõ depravada do sentido do tacto daquele membro. A causa proxima he a soluçaõ da continuidade das partes que se contèm na cabeça; mas porque estas humas saõ interiores, que ficaõ do casco para dentro, outras exteriores que ficaõ dos casco para fóra; he necessário conhecer em qual destas està a dor, para se lhe aplicar o remedio.” Ora, para atenuar certas dores de cabeça o melhor é aplicar emplastros frios de bolo de rosa e folhas de meimendro, tudo pisado e misturado com clara de ovo, leite de peito, farinha de cevada e vinagre rosado, enquanto, de hora a hora, se deve sorver pelo nariz agua rosada temperada com vinagre rosado.

Outra sorte de emplastros, um pouco mais abjetos, resolvem as dores ciáticas. Consistem em esterco de pombos, mostarda, figos passados e sementes de mastruços em partes iguais, tudo bem pisado e misturado com umas gotas de vinagre forte. Encharcar um pano com esta papa e aplica-lo na coxa.

Poderemos com toda a propriedade achar arrepiante se não mesmo fatais estas medicinas, mas elas foram os primeiros passos para a fantástica – e quem sabe se ainda incipiente – ciência contemporânea.

Estranhos lugares #5


enlil,

 

Pode uma cidade ser devorada por um buraco?

Não é uma cratera como a que furou Guatemala City depois da tempestade tropical Ágata, em junho de 2010. Essa era um cilindro geometricamente irrepreensível e mais não tragou do que um edifício de 3 andares. É aterrador ter um buraco vertical direitinho ao inferno? É, mas será sobretudo impressionante e dramático.

Em Cerro de Pasco é pior. Não há povoamento no mundo tão grande e tão alto ao mesmo tempo – com 70.000 habitantes repousa nos Andes peruanos a 4300 metros de altitude. O ar é fino e o chão frágil. Grande parte das riqueza platinas de Espanha vieram de lá, depois de a fundarem no séc. XVII sob a magnificente designação de “Ciudad Real de Minas”. Tem história a cidade, mas dela nada resta visível. À uma foram os frequentes terramotos que derrubaram a “Casa de la Moeda” e igrejas coevas, à outra foi a mina que até 1977 engoliu paulatinamente o centro histórico.

Pois é isto: Cerro de Pasco está a ser engolida metro a metro, pela sua própria razão de ser. Podem-se acertar os relógios pelas explosões, todos os dias às 11h e às 15h, que soam das profundezas da terra. A mina a céu aberto, que já foi de prata mas continua sendo de chumbo e zinco, não cessa de se expandir e como a cidade foi erguida anelarmente em torno dela, são bairros inteiros que têm de ir abaixo e ser relocados. No dizer de um poeta local Albert Estrella:

“Para decirte que he caminado

Sobre esa calle que te lleva directo al abismo

Calle Grau, Calle Lima,  ¡ya cayese de una vez por todas!”

Em 2008 o parlamento do Perú propôs um fenomenal plano de reconstrução de raiz de Cerro de Pasco noutro lugar, mas como das palavras aos actos a distância sul-americana é ainda maior do que a portuguesa, ainda estão todos à espera, lá cima, que alguma coisa aconteça. Entretanto, além deste drama abissal Cerro de Pasco passa por ser uma das urbes mais poluídas à face da terra – chumbo e zinco, lembram-se?, dos metais mais tóxicos que há.

 

 

 

 

 

  

121 A.D.


enlil,

 Paul Strand, “Wall Street”, 1915

 NOAA, “Relâmpagos sobre Boston”, 1967

 

Ao relatar a morte de Calígula, Suetónio escreve como quem abana a cabeça em sinal de consternação. Gaius – Calígula foi o amável epíteto que lhe atribuíram os soldados de seu pai – demonstrou toda a sua imprudência ao ignorar os sinais evidentes de perigo que os deuses lhe comunicaram. No dia do seu assassinato, ao degolar em sacrifício um par de flamingos, o sangue espirrou-lhe na toga, na véspera, um raio fulminou Roma, e houve mesmo quem visse um cometa riscar os céus, poucos dias antes de à saída de um espetáculo de gladiadores, meia dúzia de tribunos, acolitados por um centurião, terem cravejado o corpo de Gaius à punhalada. Esta morte abjecta, confirma Suetónio, deveu-a Calígula a si próprio, graças à temeridade, à impiedade, à estupidez mesmo, que exibiu perante os presságios.

Os deuses romanos queriam bem à humanidade, intervindo amiúde no seu curso com benevolência e amparo. Em troca só pediam respeito, venerado com oferendas de sangue. Não eram como aquela identidade remota e inapelável dos cristãos, uma seita fremente e carrancuda, estranhamente influenciada pela superstição judaica. O deus deles só se exprimia através de catástrofes e castigos, assim patenteando o seu desprezo pelos homens.

Estaremos assim tão longe destes tempos e destas crenças, quando discutimos da maneira como o fazemos as supostas fórmulas económicas que nos salvarão da crise abissal para onde forças intangíveis e enigmáticas nos empurraram?

Delito à Mesa (2)


enlil,

                   

 

Churrasqueira o Tapadão, Monforte

 

Grande desgraça: o Tapadão fechou! O Alentejo está mais pobre.

“O Tapadão” era o mais banal dos restaurantes, situado numa anódina vila alentejana. Agora, que já não há nada a perder, diga-se que era em Monforte. Entrava-se por um snack-bar ostensivamente vulgar: balcão de alumínio, televisão alapada à parede, queimada em dois canais: SporTv ou “toros tv” espanhola. Por cima das mesas, exemplares manuseados de “a bola”. Sempre desconfiei que este cenário, mais a implacável banalidade da sala de refeições com janelas para dar luz, mas sem vista, e fraca insonorização, eram de propósito, para desmoralizar os gentios. Quem, apesar desta impávida recepção, ainda se atravesse a sentar e pedir a lista, decerto ficaria desconsolado: pouca escolha, nenhuma com o charme do “terroir” ou “propostas” gastronómicas, que encantam os forasteiros de fim-de-semana no campo.

O truque, sabiam-no os locais e os contumazes, era uma pessoa levantar-se e ir à cozinha perguntar à Inácia se tinha uns secretos, umas plumas, uns lombos; de entrada, ela que não se importasse de fazer a omelete de espargos. Da última vez que lá fui, havia galinha corada com batatas fritas. A ave e os tubérculos, ambos eram legítimos; aquela arribando à mesa depois de longo trânsito pelo forno, a carne negra desfiando-se e soltando sucos na boca, estas fritas em azeite de lei e do dia. Às vezes servia-se de acompanhamento um arroz de coentros, talvez perfeito.

Os japoneses provaram que cozinhar pode ser uma arte tão zen que nem precisa de lume aceso. O Tapadão reiterava esta proposta: cozinha simplicíssima, no ponto exacto de forno, fritura ou grelha, produtos que só passavam uma noite mal dormida no frigorífico. Não é disto que se gabam os chefs, quando pretendem exibir autenticidade? (o quer que esta palavra queira dizer…)

Monforte é muito lenta. Nem uma casa familiar (pai, mãe, filha) como o Tapadão resistiu a tal modorra. Foram à vida noutro lado, menos infestado pela crise. Pior fiquei eu, de barriga a dar horas.

Fiat Lutz


enlil,

Lutz Bacher, 2012

 

Gosto mesmo muito desta recente instalação de Lutz Bacher, à mostra durante a primavera nova-iorquina.

É como ir sem sair de casa. É como trazer a praia para dentro do lar doce lar, sem as bichas da ponte para a Caparica ou a falta de reserva no Gigi.

Faça férias cá dentro – é como digo.

Afinal sempre era possível


enlil,

Abomino ping pong. Estão para ali uns matulões fechados numa saleta, de volta de uma mesa de jantar a atirar uma bolinha minúscula ping para lá ping para cá. Isto para dizer que ontem estive pregado ao televisor 3 horas a ver o épico Portugal Coreia do Sul. E a culpa foi do comentador Virgilio Nascimento. Ele guinchava de exaltação patriótica? Pelo contrário, chegou a pedir desculpas aos espectadores por se emocionar. Naquelas 3 horas fiquei com a impressão que aprendi tudo o que havia para saber acerca deste famigerado desporto, descobri que no ténis de mesa (nunca mais lhe chamarei ping pong) há táctica, perspicácia, requintes técnicos.

O mesmo já se tinha passado com actividades desportivas tão exóticas com os saltos para água, um nome tão ridículo que só os comentários de César Peixoto poderiam dignificar; o tiro com arco (como levar a sério um desporto que se pratica de chapéu?) pela voz de Pedro Vaz ou o halterofilismo, uma coisa de brutamontes transformado por António Caeiro numa arte de equilíbrio balético.

Há mais, muito mais, destes fa-bu-lo-sos comentadores desportivos, disseminados entre a RTP e a Eurosport, capazes de nos contagiarem (pior: convencerem) com a sua sapiência, com a sua capacidade de nos esclarecerem sobre os detalhes do que estamos a ver utilizando uma linguagem leiga, subsumindo a opinião sob o rigor descritivo, com uma sabedoria segura, paciente e entusiástica. Na verdade, eles trabalharam, estudaram e empenharam toda uma vida naqueles desportos que só vêm a a luz pública de 4 em 4 anos, para virem até nós mostrar que vale a pena.

Fica-se mesmo com a impressão que foi de propósito: todos os histéricos, os línguas de pau, os incapazes tecnicamente, os opinativos insensatos, foram desaguar no comentário futebolístico. E, no entanto, seria tão fácil: bastava escolher gente deste calibre…

 

gorish


enlil,

 Jasper Johns, “Three Flags”, 1959

Brent Godfrey, “Flag”, 2008 

Antes de morrer, Christopher Hitchens, o irredutível, forçou uma saída em grande e fez correr, não sangue mas fel. O alvo? Um velho de 84 anos, rico, impotente, pose de patrício: às vezes Calígula outras César Augusto, destituído de qualquer gota de amor, supinamente inteligente, absolutamente laureado – Gore Vidal.

Fosse anos antes teria sido um duelo de titãs, mas em 2010 foi uma refrega de moribundos, repleta de ressentimentos recíprocos. Ambos representavam, sabiam-no, a morte de uma esquerda intranquila e insaciável, que perdeu muito, sem descobrir muito bem o que ganhou. Uma esquerda com dúvidas e céptica, oposta à tradição e aos seus comodismos, com que cerceia a plena liberdade individual. Não era aquela esquerda que já sabe tudo antes de acontecer, a que ganha sempre em qualquer circunstância, para a qual 300 passos trás vão ser um dia 600 para a frente, já foi cientificamente escrito e a História, esse unicórnio, o provará.

No final de 2009, Vidal dá uma amaríssima entrevista ao “The Independent”, quase macabra, tanto que chegou a ser comentada a decência do jornalista, por ter exacerbado e explorado os rancores de um ancião.

É crível que por esta altura já Vidal tinha concluído que na novela o seu vulto não alcançaria o dos seus arqui-inimigos Truman Capote e Norman Mailler (que in illo tempore lhe atirara um copo à cara e lhe dera uma cabeçada), que também se odiavam reciprocamente. E como ensaísta batia-lhe a sombra de Tom Wolfe – detestavam-se, claro. Não obstante, a coletânea de artigos “United Sates”, um título que deve ser lido literal e conotativamente, prevalecerá como uma peça suprema do ensaísmo americano, ou seja, do século.

Ao longo da entrevista Gore Vidal profere brutalidades tais como:

Acerca da sua mãe: “she told me that rage made her orgasmic. I didn’t think to ask if sex did the same.” Pergunta-lhe então o jornalista: “Mas ao fim de todos estes anos não sente alguma compaixão por ela? Não.”

Sobre Timothy McVeigh: “He was a noble boy.” Matou inocentes? “So did Patton, so did Eisenhower!”

Sobre os Kennedy: “Who cares what they were like as people? That’s just show business.”

Sobre si próprio: “To me hell is the United States of today.”

Na “Vanity Fair” Hitchens replica com um artigo intitulado “Vidal Loco”, ele que tinha sido o herdeiro designado de Vidal e já começava a ter indícios de sofrer de cancro. Do ex-mestre diz que profere: “more crass notions of Michael Moore or Oliver Stone being expressed in language that falls some distance short of the Wildean ideal.” Terminando de uma forma dramática: “I have no wish to commit literary patricide, or to assassinate Vidal’s character—a character which appears, in any case, to have committed suicide.”

Valerá a pena ler estas peças, e assistir aos derradeiros fulgores de duas mentes brilhantes já fatigadas pela desilusão. Hitchens morreu em Dezembro passado, Vidal anteontem.

O tamanho do mundo


enlil,

Andrew Wyeth, “O mundo de Cristina”, 1948

 

Se existisse pintura, Wyeth não existiria. A pintura são os quadros, fora deles não passa de uma ideia, bem capaz de ter o defeito supremo de ser platónica. Na verdade Andrew Wyeth só pintou um quadro; tudo o mais que fez, é pouco mais do que irrelevante, nem chega a ser redundante. É como se não tivesse obra, ou seja, pintura, mas apenas uma obra. Mas apesar deste suposta insuficiência, este quadro concentra tanto em si, que podemos considerar Wyeth um artista com obra feita.

Nunca lá estive mas sei que sopram na pradaria uns ventos perpétuos capazes, dizem, de enlouquecer as mulheres. Ter o horizonte todo redondo num círculo perfeito à nossa volta e a terra ser chata até ao limite do olhar, há-de trazer uma enorme fadiga ao espírito. Uma pessoa desanima se não puder guardar segredos, estando tudo desarmado à vista. Pior se o ar nunca estiver quieto e às vezes mostrar a sua cólera em forma de tornados.

É esta sensação de desalento e alarme, que tão profundamente captura o espírito das gigantescas pradarias do midwest americano (estados inteiros assim: Kansas, Nebraska, Oklahoma), aquilo que vigorosamente emana de “O mundo de Cristina”. Numa paisagem semelhante, na ravnina russkaya, os exércitos de Napoleão desesperaram: dias a fio a caminhar, com a sensação de nunca saírem do mesmo sítio. Agora vemos porquê. Aquela casa tão perto mas já tão inalcançável, quando as distâncias se confundem desmesuradamente, por adivinharmos que para lá daquela colina prosseguem as searas até ao fim do mundo.

Mas tudo isto que podemos, e é suposto, sentir perante o quadro de Wyeth é um mero efeito produzidos pelas nossas próprias emoções. Na verdade ele só quis pintar a impotência de Anna Christina Olson, prostrada na pradaria, vítima de poliomielite, arrastando-se até casa. Vendo melhor, aquele braço, cujo cotovelo se dobra em primeiro plano, é magro demais para uma pessoa saudável. E a imensa pradaria foi afinal pintada num recanto do Maine, típico pela sua costa recortada e pelas florestas nativas.