Tem mesmo que ser?


enlil,

O demónio está nos detalhes, já que de generalidades todos entendemos. Ora aqui está uma coisinha que nos vai ao bolso impunemente, quando seria tão fácil organizarmo-nos doutra maneira. Mas o pior é haver um “professor doutor”, assim por extenso e com todas as letras, a justificar o disparate. Isto de “os estudos” já se sabe que é um fetiche: ele há estudos para justificar tudo, basta que os paguem para isso.

O desperdício é coisa de pobres, eis uma regra que se poderia retirar deste caso.

http://malomil.blogspot.pt/2012/11/uma-verdade-inconveniente.html?showComment=1352285429126

Almanaque de curiosidades americanas


enlil,

 

 

 

 

 

Se nalguma coisa a Europa ainda lidera no mundo será em jactância. Um dos traços mais agudos dessa maleita é o modo como por vezes derrama condescendência sobre os Estados Unidos, desdenhando-os como uma nação nova, sem memória nem passado.

Há no entanto algumas curiosidades em que convinha reparar:  

 

Se Mitt Romney vencer as eleições será o 45º presidente dos Estados Unidos, se não, Obama continuará a ser o 44º. Correntemente o Congresso dos Estados Unidos está na sua 112º sessão ininterrupta. À excepção do regime parlamentar saído da Glorious Revolution de 1688 que ainda hoje modela o Reino Unido, as instituições governamentais dos Estados Unidos são, entre as que actualmente vigoram, as mais antigas do mundo.

 

A bandeira americana foi criada em 1877 e desde então manteve-se estruturalmente inalterada, só com o pormenor de terem sido acrescentadas estrelas à medida que novos estados iam sendo incorporados na federação. Durante o mesmo período Portugal já teve 3 bandeiras.

Foi ao correr do início do séc. XIX que as nações ganharam o hábito de se fazerem representar por bandeiras. Antes, esta identificação flamejante e colorida estava confinada aos pavilhões navais ou a estandartes reais, içados em campos de batalha. Com a notória ressalva da Dinamarca, quase todas as bandeiras atuais são posteriores ao desenho definitivo da bandeira americana. A própria Union Jack só nasceu oficialmente em 1801 quando à Union Flag se acrescentou a relevante cruz vermelha em aspa de S. Patrício, representando a Irlanda.

 

Com 223 anos, a Constituição americana, ratificada em 1789, é a mais antiga em vigor no mundo. Seguem-se a norueguesa (1814) e a belga (1831). Desde 1822, data da primeira constituição em Portugal, já tivemos mais 5: 1826-1838-1911-1933-1976, esta tendo já recebido 7 revisões.

 

Desde 1845 que as eleições federais nos EUA decorrem sempre, e por lei, na terça-feira a seguir à primeira segunda-feira do mês de Novembro. Recorde-se que no início os Estados Unidos viam-se como uma Arcádia de lavradores, por isso esta data foi escolhida por conveniência agrícola. Em Novembro porque já as colheitas de Verão estavam enceleiradas e era suposto ainda não terem começado as neves de Inverno que tornavam as viagens desconfortáveis e as estradas intransitáveis. Numa terça-feira porque assim permitia que o eleitor guardasse o Domingo como dia de missa e descanso, dispusesse de tempo para ir a cavalo até à assembleia de voto, numa jornada que poderia durar um dia e regressasse a tempo da feira semanal, normalmente às quartas-feiras. Tais preceitos eleitorais devem ser os mais antigos do planeta, ainda em vigor.

 

Ars mortis II


enlil,

Um retrato é a forma de perpetuar a presença de uma pessoa – é, em si, um desafio à morte.

Bem pode ter sido este o pressuposto de Walter Schels e de Beatte Lakota, (ele fotógrafo, ela editora da secção de ciência da Der Spiegel) ao organizarem em 2008 a exposição “Noch mal leben” (“Viver novamente”). Era propósito fotografar de cada pessoa um momento terminal em vida, e um primeiro momento após a morte, e colocar os dois instantes frente a frente. Frágil e dificílima proposta, que poderia ser subvertida pelo pudor e pela elegância, ambos grandes inimigos da verdade, tanto ou mais do que a crueza, porque esta, ao menos, procura o excesso e não as balizas da moral.

O resultado foi, no mínimo eloquente no seu delicado silêncio, e dele dir-se-ia que resulta uma afirmação capaz de pôr em causa um dos mais graves conceitos da nossa civilização: um rosto humano preserva toda a sua dignidade, mesmo depois de ter sido abandonado pela alma.

  

Beate Taube, 44 anos

1ª foto: 16.01.04 ; morte: 10.03.04

 Heiner Schmitz, 52 anos

1ª foto: 19.11.03 ; morte: 14.12.03

 

Jannik Boehmfeld, 6 anos

1ªfoto: 10.01.04 ; morte: 11.01.04

2_14_2.jpg 

Michael Lauermann, 56 anos

1ª foto: 11.01.03 ; morte: 14.01.03

 

 

Ars Mortis


enlil,

Excluímos a morte dos nossos cálculos existenciais como se ela fosse um acidente. Tratando-se de uma inconveniência e um imponderável, incómoda aos negócios correntes que todos os dias temos que levar adiante, ganhámos-lhe nojo e passámos a considerar como obscena a sua exposição. Isto é uma atitude eminentemente europeia, quase sem equivalente noutras culturas. Uma explicação apressada e duvidosa para isto, como o são todas de índole psico-socio-históricas, poderia recordar o facto de o Velho Continente ter promovido durante o séc.XX, um par de guerras e de regimes que dizimaram cerca de 100 milhões de seres humanos e que esses fantasmas ainda hoje nos estigmatizam.

Mas nem sempre foi assim.

O nascimento da fotografia, entre as várias maravilhas que proporcionou, contou-se a de ter tornado acessível a toda a gente algo que até então estava reservado aos aristocratas – o retrato. Quando só preocupava a linhagem, o retrato era uma necessidade exclusiva de quem tinha uma genealogia a defender, mais os direitos e os haveres que ela entregava. Mas quando começou a surgir a ideia de família – essa invenção burguesa – todos os entes se tornavam queridos aos descendentes e constituíam a sua memória particular. Mas o retrato mantinha a sua aura, como um acto cerimonioso, dispendioso, logo parcimonioso. Por isso, muitas vezes recorreu-se a ele literalmente in extremis. Foram então voga os retratos fotográfico post-mortem em que os cadáveres do familiares acabados de falecer, quase sempre inopinadamente, eram postos em pose com os restantes membros da família para um derradeiro memento.

Abaixo, fica uma colecção destes instantâneos, que às almas afligidas de hoje poderão parecer um pouco tétricos, mas que um espírito aberto verá neles ternura, apego e uma ponta de antecipadas saudades.

 

 

 

 

Aula de culinária


enlil,

Pega-se em 1/3 da magnífica aura do grande dueto:

Gilbert_and_George_normal.jpg 

 Gilbert & George

 

Toma-se como estilo 2/3 da platitude deste senhor:

Alex Katz, “Edith and Rudy”, 1957 

 

Tempera-se com opção ideológica:

 

Ratifica-se com esta referência:

David Hockney, “Mr. and mrs. Clark and Percy”, 1970-1971 

 

Et voilá! Está feito o pastiche.

 

Sara & André, “Encontro de Sara com André”, 2012

 

Serve-se polvilhado com jargão de Adorno em pedaços:

“Os artistas que integram a exposição trabalham a inacessibilidade da própria dupla enquanto retrato-fenómeno de uma vanguarda improvável ou impossível.”

 

Infelizmente café requentado perde o sabor.

O enigma kantiano de Gaspar


enlil,

Parece que Vítor Gaspar gosta de Kant. Terá lido bem os “Prolegómenos”?

“Não podemos dar fora de toda a experiência possível um conceito determinado do que podem ser as coisas em si.”

“Como se comporta a nossa razão nesse encadeamento do que nós conhecemos com o que não conhecemos [o mundo sensível] e nunca conheceremos?”

Ainda Pina


enlil,

Mostra a experiência que a ironia costuma ser o refúgio dos torpes. Incapaz da aspereza da sátira, da violência do drama ou da perturbação da tragédia, o irónico fica-se pela insinuação e pelo descompromisso. Pode-se então dizer – é uma hipótese – que o principal traço de Manuel António Pina foi a singular capacidade de ser irónico sem tropeçar e cair nos malogros da ironia.

A ele, cinéfilo impenitente e angariador dos imperceptíveis ridículos que surgem no cotidiano, não teria escapado, por exemplo, que a sua morte tivesse ocorrido no dia seguinte à de Sylvia Kristel – pelo menos uma bela e suspensa frase haveria de sair da sua pena.

Passado remoto


enlil,

Creio que para se perceber bem que ninguém percebe bem o que se passa, será necessário ir um pouco atrás no tempo – subitamente no Verão passado…

No dia 28 de Agosto o partido do governo, na irrelevante pessoa do sr. Moreira da Silva (et pour cause…) anuncia que está confiante na “boa avaliação da troika”, a 5ª do género.

No dia 11 de Setembro nada menos do que o sr. Vítor Gaspar declara em conferência de imprensa os “pontos essenciais” da 5ª avaliação da “troika”.

Estranha apresentação aquela. Em vez de enumerar o que se fez bem ou mal, como seria normal numa avaliação, apresenta o que se vai fazer a seguir. E o que apresentou foi uma longuíssima lista de correções ao que fora anteriormente estipulado cumprir. Por analogia seria como perguntar a alguém: “qual foi resultado do teu exame?” e obter como resposta: “o professor vai corrigir as perguntas”.

Não foi muito comentado o facto de ter sido o avaliado que anunciou a sua avaliação. Tão bizarro quanto ser o estudante de uma faculdade de economia a anunciar à escola qual foi o resultado do seu exame.

Talvez seja isto que se chame “Fazer política”. Mas há mais:

Na verdade o sr. Vítor Gaspar não é um avaliado qualquer. Ele foi o executor, mais ou menos mecânico, das determinações do seu avaliador. O “mais ou menos”, da frase anterior prende-se com a decisão de ter ido mais longe nas medidas que o avaliador propunha.

Quer isto dizer uma de duas coisas: o sr. Vítor Gaspar executou mal a proposta, ou então, a proposta, mesmo com o agravamento, estava mal concebida. Sendo, hipoteticamente este o caso, temos assim que o avaliador estaria, antes de mais, a avaliar-se a si próprio, tendo anunciado a sua avaliação através do avaliado.

Confusos? Estamos todos. Mas não estará, precisamente, nesta confusão a prova de que ninguém sabe muito bem o que anda a fazer? Nada disto sucedeu há muito tempo, mas como foi num tempo anterior ao que veio a seguir, não só parece ter acontecido há centúrias, como já foi aparentemente esquecido.

Blogue da semana


enlil,

Não faço a mínima ideia quem seja o Daniel que assina o blog Rulote. Mas é alguém que alcançou o invejável estado de não ter muito para dizer, de modo que tudo o que diz é curto, incerto e transitório. Conseguiu mesmo ultrapassar a tentação do epigrama e do enigmático e as coisas ficam suspensas no ar, à espera que um leitor que lhes valha. Gosto muito de ir lá; no pouco tempo que me pede, recebo sempre um instante em troca.

Dos livros


enlil,

 

Raphaelle Peale, “Natureza morta com livro e laranja”, 1815

 

A minha infância foi enriquecida por uma personagem fantástica que nunca conheci pessoalmente. Dava pelo bizarro nome de Largartixa e exercia um ofício hoje tão impossível como intrigante: era vendedor de livros porta-a-porta. O meu pai seria certamente um dos alvos prediletos desse senhor e de tempos a tempos descarregava em casa cartapácios como a enciclopédia Grolier em 20 volumes, ou a história mundial da Unesco em 10 valentes tomos, perante a estupefacção de minha mãe. O pai não tinha resistido a mais uma passagem do sr. Lagartixa pelo escritório; “é por causa do miúdo”, justificava-se sem grande convicção no argumento – era ele que gostava desses livros, de livros. E essa doença maligna e incurável acabou por me contaminar.

Nada do que o sr. Lagartixa vendia era impostura ou frívolo e tudo seria suficientemente caro para que meu pai tivesse que pagar em prestações durante largos meses, à confiança. Por causa dele tive à mão enciclopédias que muito me entretiveram e beneficiaram. Porém, hoje um sr. Lagartixa seria impossível, também porque se deve ter desvanecido uma clientela curiosa e cultivada (mais do que propriamente culta) que dava valor aos livros, pelo menos em quantidade suficiente para garantir a subsistência com os seus périplos pelos escritórios de Lisboa. Mas sobretudo porque aquilo que o sr. Lagartixa preciosamente vendia, está hoje disponível por inteiro e de graça na net.

Não cesso de me admirar com a massa de informação que consigo extrair da net. Já li o fac-simile de um registo testamentário de 1867 depositado na conservatória de Constância; já me informei acerca do preço do trigo na Lonja de Córdova; deu trabalho, mas consegui dar com a biografia do sr. Dick Brandt, o fundador da OMC em Yubba City; já recolhi para citação umas frases naturalmente jocosas de Camilo acerca do Presidente da Câmara de Lisboa em 1890, isto depois de ter lido nas actas da Assembleia da República algumas das suas intervenções parlamentares; já vi com detalhe algumas questões relativas à guerra do Biafra; já li por inteiro o fabuloso e esgotado “Através dos Campos” (€150 num alfarrabista) de José da Silva Picão; já vi como Michel Bras cozinha o seu famoso gargouillou (impossível de reproduzir em casa…). A lista seria interminável, tanto como os temas que me passassem pela cabeça pesquisar. Na verdade, pouca é a informação que preciso de encontrar fora da net.

Parece-me também claro que uma pessoa só pode atirar-se a este oceano e nele pescar o que pretende, se antes tiver aprendido a nadar – talvez fosse pertinente que a escola o ensinasse.

As trevas – e uma luzinha


enlil,

Peço desculpa de voltar ao assunto mas a comédia ainda não terminou.

O talento para o dislate do deputado Carlos Zorrinho revela-se infindável. Atente-se nesta passagem do Sol online:

“Carlos Zorrinho referiu depois que os quatro carros agora alugados têm menor cilindrada do que os anteriores e que os novos contratos permitem ao Grupo Parlamentar do PS «poupar cem mil euros por ano em relação à solução anterior».”

É a mesmíssima lógica que levou o o saltitante sr. Vale e Azevedo a rejubilar com a dispensa de João Pinto do Benfica – lembram-se? E o dinheiro que vamos poupar em salários e em prémios de jogo?, resumiu ele com a sua famosa cara de pau.

Escudado neste raciocínio não me vai ser difícil convencer o sr. Ricardo Salgado a oferecer-me a sua mansão na Quinta da Marinha; é só mostrar-lhe o excel com a formidável poupança de que vai usufruir.

Resta-nos a consolação que uma luz ainda bruxuleia no PS pela voz do sr. Francisco Assis: “São ridículas as explicações se este ou aquele carro é ou não um pouco mais barato, se tem ou não uma cilindrada mais baixa. Quando se tomam decisões, assumem-se depois as decisões.” Ao menos assim.

Bom gosto


enlil,

 

Hoje em dia não há arte capaz de chocar as consciências, é uma afirmação sempre proferida com um lágrima de saudades pelos tempos do urinol de Duchamp, das latas de sopa de Warhol ou dos nús disformes de Freud – estes bem recentes, por sinal.

Damien Hirst é um dos mais controversos artistas plásticos contemporâneos, mas precisamente por isso acusam-no de ser exímio em provocações gratuitas (o que quer que esta expressão signifique), além de uma nefasta reiteração do “avida dollars”. Claro que para o provocado a provocação foi sempre perpetrada pelos piores motivos, até porque não há ninguém à face da terra que não se julgue detentor do mais refinado bom-gosto. E assim andamos.

Vem isto a propósito da iminente inauguração de uma enorme estátua de Hirst, com o grandiloquente título de “Verity”, na cidadezinha balnear inglesa (um oxímoro) de Ilfracombe em Devon. O critico do liberalíssimo The Guardian é taxativo: “The giant bronze woman holding up a sword in Devon not only resembles the art of totalitarian dictators, it is helping Hirst destroy British art.” O habitualmente circunspecto Daily Mail não resiste ao trocadilho: “Some call it the Angel of the West; others deride it as the Belly of the South.” E para que não houvesse dúvidas, foi recordada a sentença lançada em Abril passado pelo perito Julian Spalding do “The Independent”: “His work isn’t worth a cent, not because it isn’t great art, good art or even bad art, but because it isn’t art at all,”

Este coro de ultrajados faz em tudo lembrar aquele que se levantou – o escândalo que foi! – quando em 1973 se descerrou em Lagos a estátua de D. Sebastião da autoria de João Cutileiro.

Disto só é possível retirar uma certeza: nunca se sabe o que o tempo faz à arte (e ao gosto).

 

Mais esta


enlil,

Parece que o Grupo Parlamentar do Partido Socialista renovou a frota automóvel adquirindo um Audi 5 e três VW Passat. Tratando-se de meros deputados e não de ministros, teria sido política mais sensata e não ficariam menos bem servidos se optassem por uns Golfs, ou Civic ou qualquer outro digníssimo carro dessa gama. Seriam irrelevantes os patacos que poupariam, mas relevante o sinal que davam à nação. Todavia o caso é de somenos e é mais uma triste marca dos dias que correm que possa provocar algum escândalo, denotando apenas o crescente e punitivo ressentimento social que grassa em Portugal.

Só que o sr. Carlos Zorrinho veio à liça justificar-se na sua página pessoal do Facebook e, como parece ser timbre da sua corporação, teve artes de transformar uma frivolidade numa asneira, escrevendo, ou melhor, alinhavando, esta preciosidade:

“Eu sou democrata e quero que tudo se saiba. Até que deixei de puder usar em serviço um BMW 5 para usar um Audi 5 porque era signitivamenrte [sic] mais barato.”

Descontem-se as gralhas de quem escreveu sem rever (mau sinal!) mas atente-se no português macarrónico, próprio de quem se diploma ao Sábado (a frase é, no mínimo, crítpica) e na miserável mentalidade que denota. Um bocadinho de juízo, não há?

Ao menos a república


enlil,

 

Comemorar a República é uma redundância. A República é tão evidente que resiste ao ultraje da bandeira içada ao contrário, ao discurso pavorosamente anódino do Presidente, à ausência acobardada do Primeiro-Ministro e à prestimosa atenção que as televisões deram à pobre senhora que invadiu os Paços do Concelho, abrindo um notável precedente aos próximos desagradados que desejarem tempo de antena.

Na verdade os únicos que celebram decentemente a república são os monárquicos. Por uma vez alheiam-se das rancorosas questiúnculas em que andam envolvidos há 102 anos, interrompem as verrinosas disputas em torno de árvores genealógicas, pouquíssimas anteriores a 1850, ou seja mais jovens do que um pinheiro manso que está lá no quintal, e suspendem a bacoca exibição de petulâncias para as revistas cor-de-rosa.

Neste dia 5 de Outubro e ao contrário do que sucedeu há 102 anos, os monárquicos vociferam à uma certas nulidades sobre o regime, apontando a Escandinávia como o suprassumo da democracia coroada como quem diz que “democracia” e “monarquia” fossem consequência e causa indissociáveis. Mas tal como há 102 se esqueceram de engrossar o punhado de fuzis que Paiva Couceiro debalde tentou arregimentar durante todo o dia 5 de Outubro, saltitando pateticamente de regimento em regimento só para dar com portões fechados, também agora os monárquicos lusos se esquecem de elogiar as primícias de monarquias como a da Arábia Saudita, a do Brunei ou – a melhor de todas – a do Nepal, cujo príncipe herdeiro, decerto por via da excelsa educação recebida, metralhou toda a família num jantar à conta de um namorico mal aceite pela mãe – mimosos regimes estas monarquias, sem dúvida.

Repare-se na foto supra. O reizinho, sua mamã e avó roçam os veludos no estreito areal da Ericeira, prestes a embarcarem no iate real, donde partirão para sempre da nossa costa. Lá cima, no paredão, despontam as cabecinhas dos populares observando tão pungente espectáculo – em silêncio absoluto, segundo rezam as crónicas coevas. Podia lá ser mais triste a decadência última dos Braganças.

É verdade que a I República foi uma trafulhice, a II uma ditadura e esta III já não está a correr tão bem como devia. Face isto, a actual putativa cabeça coroada, não deslustrando a podridão miguelista do seus genes, e nem um pio, quanto mais uma palavra de conforto, dele temos ouvido. Fica assim provado que tudo poderia ser ainda pior, fosse Portugal uma monarquia em vez de república.

A queda de um Homem


enlil,

Anselm Kiefer, “Abendland [O crepúsculo do Ocidente]”, 1989

 

O que é arrepiante no sr. Víctor Gaspar é sua irrefutável desonestidade intelectual. Analisando os resultados e ouvindo as novas propostas só poderemos concluir que ele ou é um charlatão ou um mistificador. Em ambos os casos um desqualificado.

Charlatão:

Se o objectivo de todas as medidas tomadas antes era baixar o deficit e com isso sanear as finanças do estado português, o falhanço foi inequívoco: todas as previsões, mesmo com os ajustes intermédios, foram um logro. Exige então o espírito científico que o erro seja reconhecido, destacado, ponderado e corrigido. Nada disto foi feito ou não foi comunicado à população – sequer se assumiu o erro. Deste modo, cai pela base qualquer credibilidade em relação às propostas seguintes, corrompidas de imprudência.

Mistificador:

Chegados a este ponto torna-se pertinente colocar uma hipótese um pouco conspirativa, é certo, mas funcional: o objetivo das medidas não é salvar as finanças portuguesas, como o sr. Víctor Gaspar tem anunciado, mas, de um modo mais lato, reabilitar o Euro. Assim sendo o que se passa é algo de comum em estratégia militar: proceder a um recuo organizado e sacrificar uma praça de forma a proteger o bastião. Neste caso, Portugal não passa de um peão prescindível, cujas finanças e economia podem e devem ser sangradas com indiferença e numa política de terra queimada, em defesa do objectivo central. Isto colocaria o sr. Víctor Gaspar na desagradável posição de ser um mentiroso por nos iludir quanto ao que realmente quer atingir e de proceder como um  títere das forças que o comandam. De um modo consciente e deliberado, ele não estaria apreensivo com a situação portuguesa mas com o ganho pessoal que poderá obter nos círculos profissionais que tem frequentado, muito distantes de Lisboa.

Esta segunda possibilidade é extremamente indesejável porque nos obriga a considerar não apenas a impostura intelectual do sr. Víctor Gaspar mas sobretudo a sua honra pessoal. Não sei se Bruxelas, ao contrário de Roma, paga a traidores, mas, se sobrevivermos a isto, estaremos cá para ver.

De qualquer modo o sr. Víctor Gaspar, pelo menos desde ontem, tem a sua reputação destroçada e, quem sabe, a sua vida desgraçada.

Magister dixit


enlil,

Bem sei que a questão já vem a despropósito (sobretudo hoje!) e que vou ser – se calhar desnecessariamente – massudo. Mas deu-me para ler o famigerado parecer do inefável Conselho Nacional para a Ética e para as Ciências da Vida (CNECV) que tanta celeuma provocou. É um documento exemplar do estado pouco menos que miserável de alguma intelligentzia portuguesa, de índole conservadora.

Baseio-me para este juízo na seguinte e escabrosa passagem:

“Vivemos num mundo não-imaginário, onde pode já não existir lugar para a teoria de John Rawls (Rawls, 1971). A teoria desenvolvida no contexto de uma sociedade quase utópica que preconiza a harmonia entre a racionalidade e razoabilidade não permite a aplicação integral em qualquer sociedade democrática e imperfeita. Teremos, assim, de reformular, ao nível profissional, social e político, a utopia de Rawls do “maior bem” para o maior número, por uma visão eticamente mais comprometida do “maior bem possível” para o maior número. Deste modo, o compromisso de aumentar os níveis de saúde de toda a população pode, nesta fase, resultar num aumento eticamente inaceitável das desigualdades na distribuição dos recursos existentes.”

Deste trecho decorre necessariamente que:

1) É ilimitada a petulância de certos magistri lusitanos.

2) O documento está eivado de uma forte componente ideológica, (não verifiquei se recorre às penetrantes, embora polémicas, objeções de Nozik a Rawls, mas aposto que não) o que anula a sua pretensão objectivante.

3) O autor (ou relator) não percebe um caracol do princípio “maximin” de Rawls:

“(1) Each person is to have an equal right to the most extensive total system of equal basic liberties compatible with a similar system of liberty for all.

(2) Social and economic inequalities are to be arranged so that they are both:

               (a) to the greatest benefit of the least advantaged, consistent with the just savings principle, and

               (b) attached to offices and positions open to all under conditions of fair equality of opportunity.”

Objectar a estes claríssimos postulados substituindo a ideia de “maior bem” por “maior bem possível” é tão lógico como dizer, por exemplo, “chuva possivelmente molhada” no lugar de “chuva molhada”.  

O resultado desta funesta especulação é patético, pois o metafísico de meia-tijela, dada a posição em que se colocou, fica incapacitado para lucubrar qualquer conceito pragmático, muito menos utilitário. Afinal tratava-se de um documento capaz de fornecer guidelines à prática clínica e o melhor que consegue proferir é:

“Existe fundamento ético para que o Serviço Nacional de Saúde promova medidas para conter custos com medicamentos.” E “as opções fundamentais serão entre os “mais baratos dos melhores” (fármacos de comprovada efectividade) e não sobre os “melhores dos mais baratos”.

Com menos verborreia: “Eh pá, gastem lá menos comprimidos…”

Depois, quando foi preciso explicitar estas abstracções o que saiu foi: “Será que mais dois meses de vida, independentemente dessa qualidade de vida, justifica uma terapêutica de 50 mil, 100 mil ou 200 mil euros? Tudo isso tem de ser muito transparente e muito claro, envolvendo todos os interessados.”

É o que dá…

SHUT THE F@#$K UP!


enlil,

“Que a medida é extremamente inteligente, acho que é. Que os empresários que se apresentaram contra a medida são completamente ignorantes, não passariam do primeiro ano do meu curso na faculdade, isso não tenham dúvidas.”

António Borges, Vilamoura, 29-09-2012

 

“He has been a person who has been perhaps not particularly careful about his message discipline.”

Jakob Funk Kiekgaard, research fellow do Peterson Institute for International Economics, Washington, 17-11-2011

 

“I was present at a Borges briefing in Washington in late-September when he portrayed the euro area crisis in much more graphic terms than his new boss Christine Lagarde would have regarded as helpful.”

Alex Brummer, Daily Mail, 17-11-2011

Era uma vez um país


enlil,

 

Um blog é o lugar ideal para se fazerem afirmações imprudentes, como por exemplo: Chinua Achebe é o maior escritor africano. O pedestal conquistou-o ele logo com a sua primeira novela “Things Fall Apart”, publicada em 1958 e que marca o início de uma literatura africana desprendida de referências europeias. Talvez os francófonos tenham como contestar esta afirmação, os lusófonos por certo que serão incapazes de a rebater.

Vem isto a propósito de ter acabadinho de sair o livro de memórias de Achebe, que num gesto de pura insensatez consegui que mo pusessem à porta esta tarde mesmo. Chama-se “There Was a Country” e relata as grandes desventuras do escritor como um dos militantes pela independência do Biafra. Deu isto numa das mais horrendas guerras civis africanas, nos idos de 60 (“peace one earth”, cantava-se então no hemisfério norte). Nela Portugal teve uma intervenção discreta mas empenhada, a favor do Biafra como forma de enfraquecer a Nigéria, o que foi presenciado bem de perto por Mário Soares aquando da sua vilegiatura forçada em S. Tomé, por cortesia de Marcello Caetano e a expensas da PIDE.

Recorda Achebe: “I am not interested in what motives Portugal may have. If the devil himself offered his air facilities we would have taken it, and I would have supported it.” Haverá decerto mais referências mas esta foi a que me veio ter à mão assim à primeira. E já dá para tirar as medidas a certa prosápia nacional que continua piedosamente a acreditar na nossa vocação africana – como se eles tivessem gostado e se tivessem esquecido.