Passado remoto


enlil,

Creio que para se perceber bem que ninguém percebe bem o que se passa, será necessário ir um pouco atrás no tempo – subitamente no Verão passado…

No dia 28 de Agosto o partido do governo, na irrelevante pessoa do sr. Moreira da Silva (et pour cause…) anuncia que está confiante na “boa avaliação da troika”, a 5ª do género.

No dia 11 de Setembro nada menos do que o sr. Vítor Gaspar declara em conferência de imprensa os “pontos essenciais” da 5ª avaliação da “troika”.

Estranha apresentação aquela. Em vez de enumerar o que se fez bem ou mal, como seria normal numa avaliação, apresenta o que se vai fazer a seguir. E o que apresentou foi uma longuíssima lista de correções ao que fora anteriormente estipulado cumprir. Por analogia seria como perguntar a alguém: “qual foi resultado do teu exame?” e obter como resposta: “o professor vai corrigir as perguntas”.

Não foi muito comentado o facto de ter sido o avaliado que anunciou a sua avaliação. Tão bizarro quanto ser o estudante de uma faculdade de economia a anunciar à escola qual foi o resultado do seu exame.

Talvez seja isto que se chame “Fazer política”. Mas há mais:

Na verdade o sr. Vítor Gaspar não é um avaliado qualquer. Ele foi o executor, mais ou menos mecânico, das determinações do seu avaliador. O “mais ou menos”, da frase anterior prende-se com a decisão de ter ido mais longe nas medidas que o avaliador propunha.

Quer isto dizer uma de duas coisas: o sr. Vítor Gaspar executou mal a proposta, ou então, a proposta, mesmo com o agravamento, estava mal concebida. Sendo, hipoteticamente este o caso, temos assim que o avaliador estaria, antes de mais, a avaliar-se a si próprio, tendo anunciado a sua avaliação através do avaliado.

Confusos? Estamos todos. Mas não estará, precisamente, nesta confusão a prova de que ninguém sabe muito bem o que anda a fazer? Nada disto sucedeu há muito tempo, mas como foi num tempo anterior ao que veio a seguir, não só parece ter acontecido há centúrias, como já foi aparentemente esquecido.

4 comentários em “Passado remoto”

  1. Bem sublinhado. Na mesma linha, há uma coisa que também me provoca alguma impressão: a ideia de que o governo só é responsável pelo controlo da despesa, como se o orçamento, como um todo, não fosse responsabilidade sua e não tivesse nada a ver com a derrapagem da receita.

    1. … Como se ninguém tivesse nada a ver com nada. Esta total desresponsabilização de todas as partes chama-se – espera aí, sim: “desonestidade intelectual”. Estás a ver proque acho que no fundo, o problema não são eles mas essa logro intelectual que é a economia propriamente dita?

  2. Em 2005 estive em Luanda, mais numa romagem de matar saudades, do que procurar negocios na nossa “Nova India”. Tive lá a oportunidade de ler num jornal local uma entrevista ao então “presidente da comissão para a reconstrução de Angola”, general Higino Carneiro que os portugueses conhecem bem dos “acordos de Bicesse”.
    Perante a indignação do jovem jornalista que o entrevistava, porque não havia obra que se visse, o Higino Carneiro respondeu-lhe assim: “os Portugueses demoraram quinhentos anos a construir Angola! Nós demorámos trinta anos a destrui-la! Você quer que eu demore dois anos a reconstruir tudo?”
    O grande drama dos portugueses neste momento, é pensarem que se podem reparar danos quase irreparaveis que se fizeram ao longo de dezenas de anos em ano e meio, e por outro lado exigirem aos membros deste governo, que têm carências conhecidas de todos, mas é o que temos, que funcionem como um relógio suiço.
    Que as pessoas na rua se queixem das dificuldades, porque a generalidade dos portugueses estão a sofrer na pele o ajustamento do memorando, acho normal.
    O que não acho normal é pessoas com formação e bem informadas não perceberem, ou não quererem perceber o que se está a passar, e o caminho doloroso que temos de percorrer.
    Os que andam nos ultimos dias nos media a vender a ideia que as eleições na Alemanha vão resolver os nossos problemas, porque acham que o SPD vai inverter as politicas da Mme Merkell, são os mesmos que nos andaram nos ultimos 18 anos a vender um país e um modo de vida que impossivel.
    Se o SPD fizer uma campanha ao estilo do Hollande, perde irremediavelmente as eleições, porque os alemães não vão atrás de conversa fiada.
    PS quem defende as soluções que o Hollande anda a papaguear já se deu ao trabalho de ler o OE da França para 2013? Faz um corte na despesa publica de 30000 milhões, e nem precisou da troika!

    1. Cara Alexandre: Entre a sua precisosa história angolana e a sua deriva pelas eleições da Alemanha, que é toda uma outra matéria, fica o ponto em causa. O problema não é a via dolorosa, acerca da qual parece haver consenso (e, aparentemente, até consenso social). O problema é a sucessão de mistificações em relação ao que está a ser feito ao longo dessa via. Diz-se que se tem que fazer “assim” e tudo se endireira, depois vem-se dizer que “não é assim porque tem que ser mais assado”, sem se dizer proque não resultou “assim” e porque será “assado”, como se nunca se tivesse dito que era “assim” e sem que alguém diga fui eu que disse “assim”. Nem sequer discuto o “assim”, mas fico estupefacto com o comportamento político e ético dos que dizem hoje “assim” e amanhã” assado.

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