Natal


enlil,

Paul Gauguin, “Te tamari no atua (Natividade)”, 1896

 

Embora me confesse ateu tenho grande apreço pelo Natal. A tradição ocidental foi secularizando esta festa religiosa de modo que, para gente como eu, é hoje vivida como uma bela oportunidade de celebração dos laços familiares e para exercer a generosidade que devemos a quem atravessa connosco o tempo que nos coube viver. É também uma boa altura para expandir agradecimentos piegas, que noutras ocasiões poderiam ser vistos como inconvenientes.

Se nele acreditasse, daria graças a Deus por neste quadrante do planeta em que vivo predominar uma religião como a cristã. Pois à excepção de alguns diminutos tardo-medievalistas como o sr. César das Neves, ainda acoitados nas florestas virgens da Contra Reforma à espera que o Iluminismo acabe, enquanto vão sonhando com o retorno das labaredas em que se assavam e purificavam os ímpios, a Igreja, a seu modo singularmente tolerante, aceitou acomodar esta expropriação de uma festa tão essencial ao seu culto.

Sinto-me por isto deveras encanitado com a recente tendência corporativa de enviar desejos de “Boas Festas” ou, pior, “Happy Holidays”, obedecendo às normas da retórica revisionista, com o intuito, disseram-me uma vez, de não ofender a sensibilidade dos não-cristãos. Apesar de profundamente ignorante quanto a teologias forasteiras, seria capaz de apostar singelo contra dobrado que um muçulmano franziria o sobrolho se lhe desejassem “Bom Jejum” a propósito do Ramadão, ou que um judeu levaria a mal se lhe saudassem o Pesach como “Bom Sacrifício”.

As coisas têm um nome e o Natal é o Natal, mesmo para gente assim como eu. Por isso daqui vos desejo um BOM NATAL!

Nada se passa enquanto nada se passar


enlil,

Kamrooz Aram, “O fulgor do primeiro raio do dia”

 

De modo que o mundo pode muito bem ter acabado ontem sem darmos por isso. Não era a primeira vez que acontecia. Por exemplo, daqui a quatro dias vamos celebrar o nascimento fictício de um bastardo judeu, num dos piores momentos políticos da história hebraica, com a terra prometida ocupada por um enfastiado império de Roma e quem diria, então e durante um bom para de séculos seguintes, o que estava prometido para aquela criança que pelos vistos nem um burro ou uma vaca teve para agasalhá-la? E já agora quem diria que os romanos, e por acréscimo os latinos, não iriam predominar para todo o sempre?

Quem diria também que se fosse preciso escolher uma data para marcar o ocaso da Europa ela bem poderia ser 30 de Janeiro de 1933? E que ainda hoje, tantos anos passados, há quem acredite – porque é uma crença – nas promessas do nosso futuro? Afinal, não vimos todos do futuro, como diria ajuizadamente Eduardo Lourenço, desse futuro projetado para onde caminhamos agora?

Cá por mim nada mudou e de nada sinto falta, mas não será isso prova cabal que o mundo acabou mesmo à revelia da minha compreensão?

Lá ao fundo as luzes continuam ligadas de noite, devem ser automáticas.

A graça


enlil,

The KissRear Window[click to enlarge]

 

Do que eu gostava mesmo nem era de estar assim de perna partida. Podia ser Verão e em Nova Iorque (lá está, a perna fazia falta), mas ainda não seria isso que contava.

Era de ser desperto por uma sombra durante a sesta e que da penumbra, uma brisa de futura princesa, viesse celebrar comigo com um vestido tão branco-e-negro como o debate entre a beleza e a virtude. Depois do beijo.  

Nem pedia que me fosse servida ao domicílio a lagosta suada do “21” por um valete detrás da porta – que ela esfriasse na casca. E se dissesse que estava perfeita como sempre, seria sem sarcasmo nem tédio.

E mais posso jurar que em caso algum desdenharia da frivolidade do mundo, nem estaria disposto a trocar o luxo desta miragem loira por um par de botas e um jipe no Paquistão. Danem-se os vizinhos e a vida deles – será da idade?

Heróis do mar, perdão, do ar


enlil,

 

No domingo passado pinguepongueva na raia, ora sobre Espanha, ora em céu português, um desses teco-tecos rotativos e fumacentos, só de uma hélice. Seria droga? Face à horrenda violação da nossa soberania espacial, a Força Aérea de Portugal, na ânsia de juntar mais uma medalha ao seu vastíssimo historial de proezas, sem ligar a despesas ou proporções, mandou dois caças F-16 interceptarem o prevaricador. Isto, para leigos, foi como enviar dois Ferraris cuja embraiagem não permitisse uma velocidade inferior a 100kms/h, em perseguição de uma Famel-Zundapp. Resultado: ninguém sabe da avioneta. Valeu o passeio, o teste ao material e as horas de vôo averbadas na caderneta dos pilotos. Força Portugal!

Sarajevo, 1350-333 Portugal


enlil,

Tom Stoddard, “Sarajevo”

 

Descuidei-me e li o texto da Gui. Já ia a meio quando quis voltar para trás, mas foi como os desastres de automóvel, a partir de um determinado ponto não há como não ir até ao fim. Creio que durante essas fracções de segundo, menos do que a vida a desfilar na nossa mente, é a vida que tivemos e estamos a instantes de perder que recordamos já com nostalgia. Isto de uma pessoa ver-se ao espelho de outra é deixar de ser dona de si, é olhar demasiado para a frente em vez de ir vendo onde põe os pés, este aqui, o outro a seguir, a única maneira de caminhar pelo mato, onde desapareceram os rastos – está aí alguém?

Daqui a um ano contaremos as cabeças e logo se verá quantas almas escaparam do inferno. Há cinco anos esperava outra coisa disto, o vento enchia as velas e a prudência serviu-me de pouco. Pode ser pior? Espera pelo dia de amanhã e logo verás quanto pode.

Então não se está mesmo a ver?


enlil,

Jackson Pollock, “Number 8”, 1949

 

A arte contemporânea é difícil.

Talvez esta dificuldade tenha começado a sério com Jackson Pollock cujo trabalho consistia resumidamente em atirar com pinceladas de tinta contra a tela e deixar que ela escorresse. Para complicar vieram críticos dizer que se tratava de gestualismo, elaborando teses sobre as maravilhas dos resultados. E mais bizarro ainda, os seus quadros começaram a valer milhões e são disputados por todos os museus.

Perante isto uma pessoa tende a pensar três coisas: 1) que também eu sou capaz de fazer isto; 2) o que quer isto dizer? (porque as coisas nunca são o que são e só somos espertos se percebermos o que está por detrás delas); 3) que é evidente haver um sistema, mais ou menos perverso, feito de galeristas, colecionadores, críticos, museus e leiloeiros, que promove e consagra uns artistas e ignora outros, quando parece não haver qualquer distinção entre os “bons” e os “maus”.

A arte contemporânea é difícil porque só de olhar para ela não conseguimos discriminar o génio da impostura. E quando chegamos ao capítulo das “instalações” ou das “performances” a confusão aumenta desmesuradamente. Por exemplo, a não ser pelo nome dos envolvidos (artistas e patrocinadores) ou pelo volume dos recursos disponíveis, como haveremos de diferenciar qualitativamente isto (aplausos) disto (vaias)?

Por isso a maior dificuldade da arte contemporânea foi posta do lado do espectador não do artista. Até porque, como se sabe, o bom-gosto foi a coisa mais bem repartida pela humanidade, pois cada um está muito satisfeito com a parte que lhe coube. Como evitar a tentação da chacota? Como pode alguém não se indignar pela maneira como “eles” gastam o nosso dinheiro nestas coisas? Como não ver que tudo não passa de um bando de parasitas e oportunistas? Como não ter a certeza que estes gajos andam a gozar connosco?

Há uma forma de tentar resolver o problema só que é talvez tão difícil como a arte contemporânea:

Deixar-se intrigar, o que implica não ficar muito agarradinho às certezas adquiridas; procurar cultivar-se, o que obriga a ver, ler, discutir, ouvir, interrogar – uma trabalheira; suspender o juízo, duvidar dele, até que saiba um pouco mais.

E ainda assim a arte contemporânea continua a ser muito difícil.

Pendências


enlil,

 

É bem possível que o mundo não acabe em 21 de Dezembro de 2012 conforme tem sido previsto por astrólogos e “maiólogos” (vem de Maia, não de Maya) de melhor reputação e ainda por alguns xamanes Hopi de impecável currículo. Isto não vai acontecer, presumo, porque já toda a gente sabe que a Europa só acabará em 2014.

É em 2014 que a Escócia votará no referendo para a independência. Se o “sim” vencer, acontecerá aquilo que o status quo europeu, ou seja o diretório da EU, tem andado a evitar há alguns anos talvez imitando o pequeno Hans Brinker. Para que não fiquem desiludidos os adeptos das teorias da conspiração, gente de ideias irrefutáveis, cá vai a perguntinha misteriosa a que ninguém respondeu, sequer ousou formular:

Como foi possível e tolerável que no próprio coração da Europa um país seríssimo e maduro como a Bélgica estivesse desde 13 de Julho de 2010 nada menos do que 535 dias (!!!) sem governo? (E ninguém os tivesse chamado de irresponsáveis, antidemocráticos, incapazes ou selvagens, que são mimos geralmente reservados aos trigueiros meridionais?)

O assunto foi assobiado para o ar à espera que apodrecesse, porque a única solução referendada, pragmática e óbvia, seria aceitar a divisão da Bélgica nas duas nações antagónicas e irredutíveis que a constituem, acabando com a pura ficção política que sempre foi o país da batata frita. Estava tudo parvo? Não, estava tudo com medo e o medo às vezes traz a prudência.

O fim da Bélgica produziria um efeito de dominó que a breve trecho varreria a Europa, extinguindo as nações actuais, rasurando os mapas desenhados em Yalta, que bem ajudaram aos 60 anos de quietação e relativa paz que temos gozado, e fazendo a Europa regressar à fragmentada configuração tardo-feudal anterior a Vestefália, mas agora sem os impérios continentais, multitudinários e agregadores. Este formidável retrocesso, acrescentado à patética debilidade económica e ao desnorte financeiro do velho continente, seria decerto a sua irremediável certidão e óbito.

É com este fogo que os – desculpem a precisão – idiotas dos catalães andam a brincar e que os escoceses irão atear. Só que os celtas de saias são ultraperiféricos e não passam de um punhado de castiços, assaz irrelevantes salvo no râguebi, ao passo que os catalães estão entalados entre nós e as linhas de caminho-de-ferro decentes. Ou seja, neste roda-bota-fora, nenhum proveito obteríamos de nos tornarmos de facto a maior região autónoma numa península acantonada, porque acabaríamos ainda mais desligados do centro, como se estivéssemos no meio do mar.

E aí, nessas líquidas paragens, apenas sobreviveria a Madeira, que num esfregar de olhos também ela declararia a independência e se tornaria na única micro-região economicamente viável ao converter-se num gigantesco off-shore e capaz de capturar o negócio que tem feito as delícias da Guiné-Bissau.

A questão até que faz sentido: porque diabo Barcelona, Edimburgo, Funchal, Milão, Ajaccio, Namur e Antuérpia, não hão de poder falar directamente com Bruxelas, sem ter que passar por Madrid, Londres, Lisboa, Roma e Paris? Haverá outra solução que não a catástrofe?

Enquanto faltar resposta a esta questão, o que irá demorar enquanto a UE tiver barriga para ir empurrando o assunto, qualquer português que rejubile com os devaneios da Catalunha é um grandessíssimo tolo, salvo se que tiver um qualquer comércio que lhe traga lucro imediato.

Estranhos lugares # 6


enlil,

 

 

O inesperado vazio será talvez o lugar mais estranho de todos.

Ao largo da Nova Caledónia levanta-se do mar a Île de Sable, ou Sandy Island, localizada em todos os mapas fiáveis ao nosso dispôr. Cartas náuticas dos Serviço Hidrográfico da Austrália, fotos de satélite e, para os leigos, Google Maps e Google Earth, onde consta como uma mancha negra, todos afiançam a presença de uma massa de terra, grosso modo com a dimensão e a forma de Manhattan. Se não acreditamos nos mapas como nos havemos de orientar? Leia-se o fabuloso “Longitude” de Dava Sobel, para se ter a medida do épico que foi a procura de um meio viável e credível de se determinar a longitude e da extrema necessidade que tinha a navegação marítima dessa coordenada.

Rumo a Sandy Island por um dia de sol, assim se fez ao mar uma expedição da Universidade de Sidney. Todavia, chegado o navio ao local onde seria suposto largar ferro, não só tudo era mar em volta como o sonar dava o leito oceânico a 1400 metros de profundidade – onde diabo se havia metido a ilha? 1400m é um precipício suficiente para assegurar duas coisas: que não se tratava de um daqueles recifes recorrentemente engolidos pelo mar e que só uma catástrofe monumental poderia ter arrancado pela raiz um pedaço de terra daquele tamanho. A única conclusão lógica é que a ilha nunca existira.

Os mapas estavam errados? Estavam, todos. Como foi possível? É isso que está alvoroçadamente em discussão na comunidade geográfica desde há dois dias – ver aqui, aqui e aqui. Neste site publica-se uma extensa e magnífica coleção de mapas e cartas sobre a região de Sandy Island que acentua a estupefação.

Pode-se tirar provisoriamente desta bizarra anti-descoberta uma ilação filosófica: o erro é um vírus terrível, que se reproduz por inércia e quanto mais gerações tem, mais difícil é detectá-lo.

Isto até parece uma alegoria se a quisermos aplicar a certas obstinações auto-fundamentadas que têm feito a vida negra a Portugal, as quais, tanto mais reincidem quanto mais os seus resultados se afastam do objectivo.

Estupidez? Não, apenas uma natural fragilidade humana – toda a atenção é pouca.

 

– obrigado leitor/comentador lucklucky por ter oferecido esta história

Catch me if you can


enlil,

“Camera traps” ou armadilhagem fotográfica, são câmaras fotográficas com sensores que as fazem disparar quando detectam movimento. Muito úteis para investigações de vida selvagem porque, deixadas em lugares estratégicos, permitem fotografar sem a presença humana. De tal modo que a BBC Wildlife tem um prémio anual para a melhor foto. Neste ano de 2012 ano entre as eleitas estava este prodígio de Beatriz Estanque, bióloga da LPN em Castro Verde. Por estas e por outras, começo a ter a sensação que a fotografia portuguesa está atingir um nível artístico de classe mundial.

 

 

 Beatriz Estanque, “Lebre e tempestade”, 2011

 

 – o seu a seu dono: obrigado Maradona 

Ali mesmo no meio


enlil,

 

Quem aterrasse nos anos 80 no antigo aeroporto de Hong Kong tinha direito a pelo menos dois pavores. O primeiro era temer que o avião se despenhasse sobre as casas. De tal modo se rasavam os telhados que havia quem jurasse ter visto o branco dos olhos da senhora que pendurava roupa no último terraço antes da pista. O segundo era a pista, propriamente dita, uma fitinha de cimento a entrar pelo mar adentro. A mais leve guinada e o mergulho era certo.

Dado a outro tipo de impressões, o que me chamou a atenção foram uns armazéns de carga ostentando o nome de Far East Company – onde fica o extremo oriente quando já estamos no extremo-oriente?

Há poucos países que se designam pela sua posição geográfica; assim de repente ocorre a famosa República Centro Africana. Mas há outros casos, muito mais subtis porque bem disfarçados pelo nosso própria cultura. “China” por exemplo é um nome de origem sânscrita que aparece no Ocidente pelo punho de um navegador português, designando um país até aí conhecido como o reino de Cataio. Toda esta nomenclatura é, evidentemente, estranha aos locais, que chamam à sua terra Zhongguo, uma palavra que significa Império do Meio. No meio, no centro, de quê? No centro do mundo, claro.

E se alguém julgar que isto é vaidade de autóctones fique sabendo que até os vizinhos acatam esta assumida centralidade. Nomeadamente os daquele reino que por se encontrar a leste do centro se denomina como “terra do sol nascente”, ou nippon na língua local, que gerou o exónimo Japão.

planisferio japones.png

mapa mundi escolar japonês 

planisfério chinês

 

Sendo a cartografia uma pura convenção, nós, ocidentais, decidimos partir o planeta pela Linha Internacional de Data (outra pura convenção) que a norte passa pelo estreito de Bering. Esta dobra é inconveniente senão insultuosa a quem considera, com toda a legitimidade, que está no centro e assim se vê remetido a um canto. Donde que noutros lugares a cartografia tenha uma feição bem diferente da nossa como se pode ver nos exemplos acima.

Uma certa senhora, um pouco menos desinformada do que destrambelhada, começou por dizer que “nós não estamos na periferia de nada”, uma frase vacuamente patriótica, embora não de todo insensata. Mas nas justificações, como de costume, foi ter à farsa. A seguir exclama: “nós estamos no centro do mundo” e depois aponta: “se olhar bem a nossa posição geográfica no globo, estamos no meio.”

Havendo mais alguém que presuma ser possível estar no meio da superfície de um globo, faça o favor de levantar a mão.

O desperdício


enlil,

Não desfazendo em Évora, Elvas é uma das cidades mais belas do Alentejo e de Portugal. Nela se reúne um património de arquitectura militar do séc. XVIII provavelmente inigualável na Europa e no mundo. Porém, a burocracia, o desmazelo e a imbecilidade (sobretudo económica, além de patrimonial) abandonaram o Forte da Graça à ruína, como se pode ver aqui.

Outros fazem muito com o que têm; nós fazemos pouco do muito que às vezes temos.

 

Cittadella di Alessandria, Itália

Fort George, Inverness, Escócia

Terezìn, Rep. Checa

Suomenlinna, Finlândia

 

Forte da Graça, Elvas

As cartas de amor são todas ridículas


enlil,

Sempre zeloso pelo meu bem-estar, o sr. José A. de Azevedo Pereira voltou a escrever-me.

Embora unilateral, esta correspondência encanta-me, dado que o cavalheiro supra, investido da qualidade de Director-Geral da Autoridade Tributária e Aduaneira, não mede esforços no sentido de despertar na minha alma a honra e o sobressalto cívico. Imagino-o altas horas da noite, sentado na borda da cama, cabeça entre as mãos, revolvido de angústia e sua esposa estremunhada: “que se passa Zé A.?” E ele: “ainda não escrevi esta semana ao Navarro…”

Vem agora ele propor-me um brinde assaz equivalente àquelas viagens a Fátima que às vezes telefonam cá para casa a oferecer – só tenho que ir levantar os bilhetes a tal sítio, a tal hora.  Que me oferece? “Uma dedução à coleta do IRS no montante correspondente a 5% do IVA pago em cada fatura”. Estive para me agarrar logo ao telefone a reservar mesa para cinco no Belcanto e a combinar com uma malta amiga ir ter com o Rui Rocha a Matosinhos para uma mariscada, que não há melhor no mundo.

Mas depois houve, sei lá, uma desconfiança, que me compeliu a ler o resto do mail – logo vi! O sr. De Azevedo Pereira, na verdade, não exige em troca que lhe compre um trem de cozinha, mas pôs-me entre a espada e a parede, varado por um dilema: para “usufruir desse benefício”, como ele insidiosamente introduz a questão, tenho de pedir factura ao sr. Lino e ao sr. Miguel.

O sr. Lino é o dono do café de esquina onde todas as manhãs sorvo a bica que me põe em marcha. O sr. Miguel é o barbeiro que se distrai com digressões de fervor sportinguista e me rapa valentíssimas carecadas. Ora ambos já me avisaram, com o IVA a 23% o sr. Lino fecha as portas e volta para a terra que o negócio nem para o tabaco, e o sr. Miguel do alto dos seus 70 anos, não está para aturar “lampiõezices” e vão-se todos foder (eu não queria escrever isto, mas, para quem não saiba, é esta a linguagem nas barbearias de bairro).

Ora eu passo pior sem o café matinal e sem a carecada trimestral do que o Estado sem a coleta feita ao sr. Lino e ao sr. Miguel. Acresce que, não estando o sr. José A. De disposto a pagar-me a bica e o corte de cabelo, também passarei melhor sem a rapacidade do Estado, que lhe paga o ordenado, do que sem os serviços destes dois comerciantes.

Assim sendo, e fazendo prova que o proselitismo moralista das missivas do sr. Azevedo Pereira não caiu em saco roto, sugiro o seguinte: eu não chateio o srs. Lino e Miguel por causa das facturas, mas, em contrapartida, também não chateio o Estado por causa daquele poste de iluminação na minha rua que está fundido há mais de um mês. A coisa deve ficar ela por ela.

Quem vai à guerra dá e leva


enlil,

Dedicado aos mirones que só lá foram ver a bola e estavam ali apenas pelo convívio e durante duas horas assistiram, “uns metros atrás”, aos militantes jogando pedras aos bófias e acabaram por alombar umas chanfalhadas desses mesmos chuis e a seguir se indignaram por a polícia não as ter distribuído com parcimónia e critério, vai-se a ver com o devido respeito pelo estatuto imparcial de mirone, eventualmente protestante de boca:

 

Não te candidates nem te demitas. Assiste.

Mas não penses que vais rir impunemente a sessão inteira.

Em todo o caso fica perto da coxia.

 

Alexandre O’Neill

Vamos agora em directo


enlil,

A intensa e dramática, por vezes eufórica, cobertura informativa da visita da sra. Merkel a Lisboa, apesar da qual continuamos por saber quase tudo a não ser o que não interessa, que o Pedro Correia descreve com o necessário e obsessivo pormenor, não sei porquê, recorda a série da BBC “Broken News”.

Não creia o leitor que desconsidero a sua inteligência ao esclarecer que esta série é uma comédia, repito: comédia. É que depois de ontem, ou o humor inglês perdeu a piada, ou a seriedade portuguesa ficou igualzinha ao humor inglês (já disse que era uma comédia?).

Sempre em cima da actualidade e não menos em directo do que a concorrência, o Delito de Opinião, apresenta, em rigoroso exclusivo, um trecho de 10 minutos de “Broken News” – somos tão sérios como os outros.

 

Safámo-nos à justa


enlil,

Não nos bastava sermos vistos a Norte como uns pedintes de mão estendida, meridionalmente mandriões e relaxados com as finanças. Não fosse o burgumestre de Berlim, ou quem quer que tenha sido, e ainda por cima haveríamos de ser alvo de chacota às mãos do nosso grand guignol e do seu Sancho Pança. Agora é que faz todo o sentido dizer: ich bin ein berliner!

Mal passado, por favor


enlil,

 

Afinal em que ficamos?

Quando um bispo profere uma diatribe contra o capitalismo, a esquerda aplaude a mãos ambas.

Quando Isabel Jonet, talvez com excessiva candura, diz a mesma coisa embora a partir de outro ângulo, cai o Carmo e Trindade.

Um das razões porque o actual Papa merece toda a consideração ideológica de quem se lhe opõe, é porque ele, brilhante teólogo, colocou as coisas em pratos limpos: a Igreja Católica nunca se acomodou nem se acomodará aos princípios do Iluminismo. Alguns desses princípios, aliás de vincada índole protestante, são a legitimidade da acumulação da capital – os judeus, lembram-se? –, a certificação do esforço individual, a bondade da progressão social.

Além da Fé e da Esperança, a Caridade integra o motto do catolicismo. A frugalidade, a temperança, são os valores que devem levantar-se contra o consumismo desenfreado. A parcimónia e a modéstia opõem-se à especulação e ao enriquecimento, os quais, cegam a virtude e roçam a imoralidade. A gratidão e a obediência, são barreiras à propensão capitalista para o tumulto e àquela nefasta espécie de inquietação social que faz os homens quererem sempre ter mais do que já têm. Sim, quanto mais conservador é o discurso clerical, mais se assemelha às bandeiras de uma certa esquerda portuguesa. Tão arreigado quanto isto é o pior da herança salazarista que persiste em não desaparecer, tão amplo quanto isto é o arco nacional contra a livre iniciativa.

Isabel Jonet limitou-se a reiterar os valores morais que sempre defendeu, os quais costuma pôr em prática com boa-fé e boa-vontade. Para quem nunca os partilhou, embora considere louváveis os resultados, qual é a surpresa?

Merkel, a incompreendida


enlil,

caspar david friedrich, 1818.jpg 

Caspar David Friedrich

“Wanderer über dem Nebelmeer”, 1817

 

Por esta altura já deveríamos ter percebido qual é o verdadeiro dilema da sra. Merkel.

Decalcada de todos os ministros que vêem o seu governo a dançar com a crise, a principal preocupação da Chanceler é a saúde do sistema financeiro do seu país. “Sistema financeiro” costuma chamar-se, em linguagem de leigo, “bancos”.

Ora preocupar-se mais com os bancos do que com a qualidade de vida da sua classe média, faz com que esta considere que Merkel tenha as prioridades trocadas.

Será esta a primeira razão da sua impopularidade entre os eleitores alemães.

Sucede que estar preocupada com os bancos, implica andar angustiada com o estado de solvência dos devedores. Se estes não pagam, a banca alemã, que tão diligentemente investiu as poupanças dos clientes alemães na compra de dívida soberana de Portugal, Grécia e Espanha, estremece e corre o risco de cair. Isto quer dizer que um escriturário de Hamburgo, um operário de Dortmund, um comerciante de Dresden ou um professor de Munique, cidadãos esforçados e probos, ao ligarem a televisão, são capazes de ver a sra. Merkel mais tempo a falar de Portugal, da Grécia e da Espanha, do que dos problemas que realmente os afectam.

Este interesse pela crise nos países estrangeiros, a ocupar a atenção que devia ser prestada às questões nacionais, é, com toda a probabilidade, a segunda razão por que Merkel é crescentemente impopular no seu país.

Os alemães são egoístas? Não, estão perplexos. Tanto como estariam os portugueses se um grande banco português tivesse investido o aforro dos seus clientes na Guiné-Bissau e agora andasse ó mãe, ó mãe, com a dívida daquele país, e o governo português muito focado nos problemas internos da Guiné-Bissau. Nós não somos como a Guiné-Bissau? Pois não, ela não está no Euro.

Thumbs up & thumbs down


enlil,

Claes Oldenburg, “Floor burger”, 1962

 

Perderam:

Kansas City Chiefs, Samuel Adams, NASCAR, Geraldo Rivera, Target. E ainda: Union Boat Club, Ivy League, Boston Brahmins, John Birch Society, Goldman Sachs.

Venceram:

White Sox, Hollywood, George Soros, Alinea, Chevrolet, Jon Stewart, Facebook, National Parks Conservation Association, Starbucks, Gap.