Sarajevo, 1350-333 Portugal


enlil,

Tom Stoddard, “Sarajevo”

 

Descuidei-me e li o texto da Gui. Já ia a meio quando quis voltar para trás, mas foi como os desastres de automóvel, a partir de um determinado ponto não há como não ir até ao fim. Creio que durante essas fracções de segundo, menos do que a vida a desfilar na nossa mente, é a vida que tivemos e estamos a instantes de perder que recordamos já com nostalgia. Isto de uma pessoa ver-se ao espelho de outra é deixar de ser dona de si, é olhar demasiado para a frente em vez de ir vendo onde põe os pés, este aqui, o outro a seguir, a única maneira de caminhar pelo mato, onde desapareceram os rastos – está aí alguém?

Daqui a um ano contaremos as cabeças e logo se verá quantas almas escaparam do inferno. Há cinco anos esperava outra coisa disto, o vento enchia as velas e a prudência serviu-me de pouco. Pode ser pior? Espera pelo dia de amanhã e logo verás quanto pode.

7 comentários em “Sarajevo, 1350-333 Portugal”

  1. Vai-me desculpar mas só quem nunca esteve num cenário de guerra – nem com certeza esteve no terreno na Bósnia – é que pode tentar comparar – ou antes dar-se ao luxo de tal tentativa de comparação – ao que se passou em Sarajevo e o que se passa actualmente em Portugal.

    Nem o titulo nem a foto têm – ou felizmente jamais terão – nada a ver.

    E acredite que é um sortudo em disso nada saber.

    1. Cometi um exagero propositado. Mas olhe que fora os prédios em chamas, os snipers e os cadáveres na rua, (o que não é nada pouco, bem sei) esta morte silenciosa que nos vai levando, às vezes não parece mais branda.

  2. Aqui onde vivo não se está em guerra mas também se aperta o cinto e se fazem contas, por aqui também se teme o amanhã. Ao fim e ao cabo, quantas voltas tem a vida?
    E no entanto… a jovem educadora que ficou desempregada lançou-se na agricultura biológica, a rapariga que trabalhava na padaria e foi despedia trabalha agora com a mãe nas hortas (delas e dos outros) e diz que enquanto houver terra para cavar não há-de faltar que comer no prato das filhas. O sapateiro nunca teve tanto sapato em fila de espera e há lojas de vestuário de bom gosto e por medida que finalmente entenderam o “nicho de mercado” e se começam a abastecer em fabriquetas nacionais, puxando pela fileira têxtil. O senhor da retrosaria disse que antigos engenheiros da Coat’s deslocalizada montaram uma fábrica de linhas (“sim, que nós tínhamos dos melhores fiandeiros da Europa!”) que já está a dar algumas cartas no mercado interno.
    Não se trata de pró-actividade moderninha; também temo os efeitos dessas “perspiquidades” sem conhecimento, sem estudo sério, sem reflexão, sem persistência e sem pontualidade. Mas as histórias de que falo são respostas de heróis sem guerra aos desafios que se lhes colocam.
    As adaptações são difíceis. Quem estudou um pouco de História sabe que sempre assim foi. Mas que algures havia modos de vida um tanto irreais, a tocar o limite do “sustentável” (ética e ecologicamente falando), lá isso havia…
    O José sabe isto e muito mais; mesmo assim, não queria deixar de lhe dar notícias deste “outro país”onde vivo, num daqueles sítios “húmidos e gordurosos” onde diz que quase nunca vem.
    Neste país não se está em guerra mas, como num qualquer outro lugar “sem título”, o sol põe-se e a noite cai. E depois o dia volta e na jarra aparecem flores.

    1. Caro post_it, antes de mais obrigado pelo seu, no mínimo, sentido comentário. Sem querer puxar dos meus galões rústicos, acredite que conheço bem os sítios “húmidos e gordurosos” – vim de lá…Mas se a “gentinha” (boa parte da minha família materna) se safa de enxada às costas, quem teve uma vida urbana, confortável, até, ouso dizer, com alguma sofisticação, quem ainda voou um pouco alto nos serviços, estatelou-se, no auge da meia-idade nas pedras e não tem como se levantar. Pode voltar à terra? Pode, mas, sinceramente, não é solução regressar ao Portugal coevo dos anos 60 e 70. Insisto: sem qualquer desprimor para quem nele vive. É como se o investimento social e afectivo das 3 gerações que me precederam tivesse sido inútil e voltassemos à casa de partida. Para mais, o manancial de vidas suspensas, competências desperdiçadas, talentos inutilizados – leu o post da Gui? – são provavelmente o maior crime económico (só para ficar por aqui) que está neste momento a acontecer em Portugal.

      1. José, regresso apenas porque não quero deixar a pergunta que me fez sem resposta: claro que li o post da Gui. Ou melhor, ouvi-o, que aquele post é um grito. E depois ouvi o seu…
        Foi aí que me lembrei de alguns dos “meus” heróis (tenho tantos, tantos outros!) e pensei que as histórias deles talvez pudessem inspirar, animar um pouco urbanos sofisticados que neste momento, compreendo-o bem, sofrem um grande embate. Há cinco anos talvez aparentemente o vento ainda enfunasse velas, mas olhe que as nuvens já se adensavam no horizonte. E era com espanto que eu percebia, quando ia a Lisboa ou alguns dos meus amigos de lá se dignavam vir até estes “húmidos e gordurosos” lugares (o José escreve-o, mas há muitos outros que o pensam…), que eles se tinham deixado prender numa teia de estereótipos e davam como garantido um modo de vida que um dia, em breve, ia acabar.
        Se vir bem, não contei apenas histórias de regresso à terra; também falei de indústria e até de alguns serviços. Não advoguei o regresso ao Portugal “coevo” e também me choca tanta competência inutilizada.
        Não é altura para discutir politicas económicas, mas sei que vai ser de certeza necessário mais (outro?) investimento social e afectivo, talvez diferente do que as gerações que nos precederam fizeram: por isso lhe falei das flores na jarra.
        Os urbanos talentosos (e quase sempre partiram das cidades as novas ideias) não podem deixar-se ficar estatelados nas pedras, à espera que a “guerra” acabe. Merecem (merecemos todos) melhor do que ficar a contar sobreviventes.

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