Até ao fim é música


enlil,
Uma das peças musicais definitivas do séc. XX.
A sala do institucionalíssimo Barbican Center de Londres esgotou os 1949 lugares, a orquestra da BBC apresentou-se na máxima força e em plena forma, a televisiva BBC 4 transmitiu em directo, o comentador inicial está visivelmente entusiasmado com o que se vai seguir. Tudo isto para experimentar, decerto mais do que ouvir, o célebre 4’33’’ de John Cage, uma composição que embora curta parece enorme e poucos ousam incluir no seu repertório. Começa a ser longínqua esta noite de Janeiro de 2004.
 

Não há nada mais clássico do que um clássico


enlil,

Um clássico não é só aquilo que não morre ou que continua a surpreender-nos. É sobretudo, creio, uma obra que nos dá a sensação de ainda não estar totalmente ao nosso alcance. Por exemplo um sermão do padre António Vieira. É claro que a cultura ajudará a entender as circunstâncias em que aquelas palavras foram escritas, a quem se dirigiam e o que procuravam obter. Tudo isso enriquece a leitura e dela se retirará maior prazer. Mas poderá empobrece-la se não formos também capazes de retirar o dito sermão às leis da gravidade, atirando-o ao ar a ver se ele flutua através dos tempos.  

Quero com isto dizer que o primeiro trabalho de um leitor ou ouvinte experimentado será o de procurar sempre alcançar as sensações imediatas que se têm numa primeiro contacto com a obra. Porque, como se sabe, não há vez como a primeira.

Este exercício, além de higiénico, dado aliviar-nos do entulho com que, por insegurança, costumamos mobilar o entendimento, traz ainda a vantagem de nos permitir a todo o momento fazer a distinção entre progresso e evolução, demasiadas vezes confundidos.

Sim, temos vindo sempre a progredir, a penetrar mais fundo e melhor na natureza e a saber retirar dela, cada vez com menos desperdício, aquilo que nos faz falta, acumulando saber e retificando processos. Todavia, pelo menos desde que o homem começou a escrever, não temos evoluído nada. Os nossos neurónios continuam ligados da mesma maneira e as nossas sinapses seguem o mesmo percurso. Isto quer dizer que podemos ponderar a hipótese, por exemplo, de Péricles ser mais apto e inteligente a resolver problemas políticos actuais, do que Obama; ou que podemos encontrar tanta e tão semelhante satisfação em Schubert como em Thelonious Monk.

Repare-se na gravura acima. Foi executada por William Blake em 1796 e representa a Europa amparada pela África e pela América. O que falta nela? Nada que não tivesse já sido evocado, mas também tudo que ainda nos falta perceber.

Assim sendo, não há maior novidade do que um clássico.

TDT: o que corre(u) mal?


enlil,

 

Está à vista de todos que o lançamento da TDT está a correr mal. Quem tiver boa memória lembrar-se-á ainda que todo o processo foi acidentado, não tendo havido um passo que não gerasse celeuma. Pode-se mesmo dizer que foi a tempestade perfeita. Porquê?

Por uma razão simples e crua e assaz politicamente (muito) incorrecta: desde cedo que a TDT se tornou um encargo em vez de constituir uma oportunidade. Mais claro ainda: a TDT não é negócio que valha a pena. Ora isto é uma singularidade inexplicável em qualquer instância europeia, embora faça todo o sentido em Portugal.

A passagem do sinal televisivo analógico para o digital em todo o espaço televisivo europeu é uma directiva da Comissão Europeia. Em 2005 (há 7 anos!) ficou estabelecida 2012 como a data final para a transição. O propósito era dar um novo impulso à indústria televisiva europeia, depois do sucesso da vaga de privatizações ocorrida nos anos 90. Todos os membros da EU acolheram com satisfação esta directiva. Todos? Não! Uma pequena aldeia lusitana resistiu.

Porquê?

Primeiro porque a economia portuguesa está em crise desde que António Guterres viu o abismo e se evadiu da governação, ou seja, desde 2001 – eis aqui um pormenorzito que tem andado esquecido. Ora quando a economia espirra, a televisão que vive da publicidade apanha uma pneumonia, pelo que tanto a SIC como a TVI, e os grupos de mídia a que pertencem, têm andado com o coração nas mãos desde então.

Em segundo lugar porque a penetração da pay TV (cabo=ZON; IPTV=Meo) é muito superior à média europeia. Enquanto por essa Europa fora, aumentar a quantidade de canais e a sua qualidade de imagem através da TDT representou um alargamento do mercado e se mostrou uma opção economicamente aliciante, em Portugal não só o mercado é demasiado estreito para uma nova operação, como o público já está servido pela multitude de canais de cabo.

Ao longo de 2010-2011 assistiu-se a um fenómeno silencioso, invulgar em termos europeus e irreversível: o aumento exponencial de clientes do serviço de cabo provenientes da classe média baixa (C2), sobretudo homens, fartos das novelas em prime time e com vontade de ver futebol em casa. Assim sendo, a TDT irá servir apenas os clientes menos interessantes para o negócio (a famigerada classe D), aqueles que nem para o cabo têm capacidade financeira, a base de sustentação das TVs terrestres privadas. São estes, precisamente, que vão ter que pagar aquilo que até hoje tinham de graça, de modo a serem servidos a trouxe mouche por um serviço que é um frete para o incumbente.

TDT, uma calamidade em curso


enlil,

 

Tinha apostado com os meus botões que o sobressalto ocorreria em finais de Novembro. Enganei-me, parece que toda a gente só acordou agora, a dias do apagão da TV analógica. Neste assunto da TDT está a ser judiciosamente aplicado o célebre método de gestão de patente lusitano conhecido por LMPI (Last Minute Portuguese Improvisation) cuja pródiga utilização, ao longo deste anos, em todos os setores produtivos e administrativos nacionais, suscitou a curiosidade do mundo culto a ponto de estar hoje a ser escrutinado em pormenor por uma troika de peritos internacionais.

Para melhor iludir o problema, discute-se o supérfluo: “um estudo” (ah os “estudos”…) universitário diz que vai haver 3 milhões de excluídos com o apagão; a ANACOM replica que são apenas 1,2 milhões os lares a necessitar de fazer a transição. Chama-se a isto apagar o fogo com gasolina, pois para efeitos de medida de audiências, cada lar conta como 3 pessoas, ou seja, segundo a ANACOM vão ser afetadas 3,6 milhões de pares de olhos – mais do que queria desmentir…

Mas a ANACOM pede calma. Calma!? Num “estudo” que fez (ah os “estudos”…) em Dezembro já só faltavam migrar 600 mil lares, isto é: 1,8 milhões de telespectadores. “As famílias estão a reagir de forma tardia”, lamenta Eduardo Cardadeiro, administrador da ANACOM ao “Notícias TV” de 6 de Janeiro: “alguns milhares de lares [vão ficar] temporariamente sem ver televisão porque não se prepararam tempo e horas”, dada a aprovável rutura de stock de descodificadores.

Primeira conclusão: está a fazer género aquela afirmação do comandante da guarda que admoestava os mortos na estrada por não terem dado ouvidos às autoridades. Toma lá que é bem feito!, parece pois ser a nova atitude dos mandarins face à populaça. Mal me atrevo, de boina na mão, a murmurar a Suas Excelências, que é capaz de ter havido aqui um problemazito de competência, sei lá…

A segunda conclusão fia mais fino. As empresas de televisão que vivem dos ingressos publicitários aprestaram-se para 2012 na expetativa de ser o pior ano das suas vidas. O investimento mergulhou a pique no último semestre, depois de vir descendo consistentemente no último ano e tudo indica que poderá piorar em 2012. Agora, estão à bica de ver esfumar-se, do dia para a noite, mesmo que temporariamente, 18% das audiências – uma brutalidade! Que negócio, para mais já debilitado, aguenta deitar borda fora 18% de clientes? Que aflição causa isto nas Excelências reguladoras?

Em Janeiro de 2009, o recém-eleito presidente Obama, a súplicas das televisões em aberto (ABC, NBC, CBS e FOX) instou o Congresso para que adiasse o switchoff de 17 de Fevereiro para 12 de Junho: “with coupons unavailable, support and education insufficient, and the most vulnerable Americans exposed, I urge you to consider a change to the legislatively mandated analog cutoff date.” Parece que foi dito hoje, aqui. Qual o motivo de tanta angústia? Foi ter constatado haver 3,7 milhões de lares sem acesso à TV digital, ou seja, a bagatela de 4% de espetadores. O adiamento foi aprovado, mas isto são eles que são tolos, nós por cá tudo bem.

Genuflexão


enlil,

                                  

 

 

O alarido que para ali vai à volta de Tim Tebow, o quarterback dos Denver Broncos.

É melhor começar por uma explicação aos leigos. No futebol americano o quarterback é literalmente um capitão (de equipa), pois tem como primeira missão transmitir a táctica delineada pelo general (o treinador) à tropa macaca, formada por aqueles moços com envergadura de frigorífico que antes de uma jogada rodeiam o quarterback fingindo prestar atenção à estenografia oral que ele berra através do capacete, no centro de um estádio ululante. Os quarterbacks são as grandes vedetas deste desporto, dado que agregam às suas faculdades intelectuais (a sério: o futebol americano é a modalidade mais cerebral que existe), uma formidável destreza manual, um físico de adónis, um desprendimento olímpico face à multidão de fãs e uma conta bancária eloquente.

Ora o rookie Tim Tebow inaugurou uma prática antes impensável, a qual já foi crismada de tebowing (neologismo dicionarizado). Em que consiste ela? Basicamente em misturar a pose intensa de “O pensador” de Rodin com o abandono de “O desterrado” de Soares dos Reis, ou seja: em recolher-se num momento de oração quando um passe lhe sai bem, um touchdown é marcado, ou tão-só antes de o desafio se iniciar ou quando ele termina em vitória.

Num país laico como a América – ah pois é! – O gesto deste devoto filho de missionários baptistas provocou enorme celeuma. Uns execraram-no e troçaram dele, porque (re)afirmam que bola é bola, mesmo quando seja oval, Deus é Deus e a América está muito bem sem misturas; outros cantaram hossanas, porque não se cansam de (re)afirmar que nunca é demais agradecer o facto de Deus ter abençoado a pátria dos livres, lar dos bravos. Claro que os primeiros são democratas e os segundos republicanos, que a controvérsia é política, que estamos em ano de eleições e que os americanos têm o hábito de discutir as coisas.

Por certo nós, portugueses, ouviremos a polémica com cepticismo e olharemos o gesto com cinismo, ambas atitudes com que evidenciamos a nossa consabida superioridade intelectual. Ou não estaremos habituadíssimos a ver um qualquer Cleiderson do Feirense persignando-se à pressa, beijando três vezes a cruz que traz ao pescoço e adiantando premeditadamente o pé direito, quando entra em campo? Isto para suplicar ao Altíssimo que se distraia por uns momentos do governo do Universo e da arquitectura dos Tempos de modo a banhar de favores as evoluções de uma pelota pontapeada por aquele seu fidelíssimo. Normal, portanto.

Outos povos, outros costumes.

Não é bem assim, mas também não


enlil,


Que diabo de língua a vossa em que uma pessoa se engana no tom do ditongo e em vez de dizer ”4” sai-se com um palavrão, disse ao meu amigo chinês.

E a vossa? Basta trocar um “g” por um “f” e em vez de elegante fica elefante…

Meti a viola no saco, concluindo que eles são mais diferentes de nós do que nós deles.

Até o comunismo do Império do Meio parece bem estranho ao nosso, tendo já sido capaz de trocar os olhos a Estaline, Brejnev, Durão Barroso (duas vezes) e George Bush. Acontecem coisas, por exemplo em Xangai, que os vizinhos coreanos nem sonham e os amigos cubanos sonham mas não pensam.

Considerai o caso que vos trago.

 

Entre 6 de Set e 5 de Out o TOP Contemporary Art Center, instituição indy e nada marginal, patenteou uma exposição de 128 cartazes originais, criados por 50 artistas convidados, sob o título “My Comunism”. Constrangimentos? Aparentemente nenhuns; laudatória? Só revolucionária, crítica? Artística; tanto que Lee Ambrozy, um dos editores da canónica Artforum, elegeu a mostra entre as melhores de 2011.

Isto complica os lugares comuns, baralha as linhas tortas e dá azo a tantas hipóteses, que só uma serve, mesmo que não adiante muito: “eles”, os chineses, são intangíveis e tanto mais o são quanto mais se aproximam e se apropriam dos nossos modelos. Desengane-se, assim, quem julgue que dali só virão produtos a granel, pois no campo das artes plásticas começam a despontar, quase de enxurrada, as grandes obras criadas na China.

No resto estamos a ver…

poster de Jiang Zhi

 

Pavel Buchler, “Report on Damage”, 2011

Cortesias, apresentação e prefácio


enlil,

Mário Cesariny,

  Mário Cesariny, “Autorretrato aos 53 anos”, s.d.

 

De modo que vim aqui ter a esta casa, que já de longe rondava e me parecia muito bem apessoada, trazido por amável convite de Ana Vidal, suavíssima patrícia lá das terras de baixo. Puseram-me à vontade, pelo que seria demais entrar de chapéu na mão, mas prometo não comer a sobremesa toda.

Apresento-me:

A dias de ter a idade que tinha Cesariny quando se autorretratou como acima se vê, também me acontece ter o barco meio afundado ou confundir isso com um horizonte estendido até ao pôr-do-sol, preso atrás da escotilha rebitada. Siga a marinha que por aqui me fico quanto a metáforas náuticas, ao contrário de Mestre Mário que mergulhava bem fundo nessas águas.

As palavras dos outros vêem-nos melhor do que alguma vez conseguiríamos dizer, pelo que não sei se caibo na figura que Alexandre (um génio) O’Neill faz de si mesmo,

 

Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada…)

 

Ou se me hei de abrigar na imagem que de si próprio versejou o intermitente poeta Bocage:

 

Conheço agora já quão vã figura

Em prosa e verso fez meu louco intento.

Musa!… Tivera algum merecimento,

Se um raio da razão seguisse, pura!

 

Entre as diversas imprudências que cometi na vida, a menos funesta terá sido cursar filosofia, o que me fez passar o resto dos anos a desintoxicar-me de mariolas como Deleuze (aquelas unhas…), Hegel e Heidegger, com doses higiénicas de Dewey, Putnam e Rorty. Depois fui indo atrás do que me apareceu e pelo caminho atravessou-se-me o cinema (só a parte dos olhos, que de mãos nunca tive jeito) e a televisão, onde aprendi muito do que sei hoje – creio.

Até nem me tinha dado mal com isto, mas sucedeu 2011 e o seu rol de misérias. Sobrevivi ao ano e cá estou à espera do que dá 2012 e seguintes. Sportinguista mais do que ninguém (à exceção da Sra. D. Maria José Valério), conheço o sabor do desaire e sei que as vitórias são passageiras.

Olhem, há pouco mais a dizer do que isto de modo que não pareça epitáfio – o resto se verá.

Ao que venho? Com a vossa licença, apetece-me falar do que gosto e vou descobrindo gostar ainda mais, além de um par de coisitas que acho saber. Isto já está mau demais para azedumes, rixas, velhacarias e outras vocações neardentais, essas pedras não piso.

‘Bora lá rapazes que está um boi a assar! – como gostava de dizer o grande Assis Pacheco.