TDT, uma calamidade em curso


enlil,

 

Tinha apostado com os meus botões que o sobressalto ocorreria em finais de Novembro. Enganei-me, parece que toda a gente só acordou agora, a dias do apagão da TV analógica. Neste assunto da TDT está a ser judiciosamente aplicado o célebre método de gestão de patente lusitano conhecido por LMPI (Last Minute Portuguese Improvisation) cuja pródiga utilização, ao longo deste anos, em todos os setores produtivos e administrativos nacionais, suscitou a curiosidade do mundo culto a ponto de estar hoje a ser escrutinado em pormenor por uma troika de peritos internacionais.

Para melhor iludir o problema, discute-se o supérfluo: “um estudo” (ah os “estudos”…) universitário diz que vai haver 3 milhões de excluídos com o apagão; a ANACOM replica que são apenas 1,2 milhões os lares a necessitar de fazer a transição. Chama-se a isto apagar o fogo com gasolina, pois para efeitos de medida de audiências, cada lar conta como 3 pessoas, ou seja, segundo a ANACOM vão ser afetadas 3,6 milhões de pares de olhos – mais do que queria desmentir…

Mas a ANACOM pede calma. Calma!? Num “estudo” que fez (ah os “estudos”…) em Dezembro já só faltavam migrar 600 mil lares, isto é: 1,8 milhões de telespectadores. “As famílias estão a reagir de forma tardia”, lamenta Eduardo Cardadeiro, administrador da ANACOM ao “Notícias TV” de 6 de Janeiro: “alguns milhares de lares [vão ficar] temporariamente sem ver televisão porque não se prepararam tempo e horas”, dada a aprovável rutura de stock de descodificadores.

Primeira conclusão: está a fazer género aquela afirmação do comandante da guarda que admoestava os mortos na estrada por não terem dado ouvidos às autoridades. Toma lá que é bem feito!, parece pois ser a nova atitude dos mandarins face à populaça. Mal me atrevo, de boina na mão, a murmurar a Suas Excelências, que é capaz de ter havido aqui um problemazito de competência, sei lá…

A segunda conclusão fia mais fino. As empresas de televisão que vivem dos ingressos publicitários aprestaram-se para 2012 na expetativa de ser o pior ano das suas vidas. O investimento mergulhou a pique no último semestre, depois de vir descendo consistentemente no último ano e tudo indica que poderá piorar em 2012. Agora, estão à bica de ver esfumar-se, do dia para a noite, mesmo que temporariamente, 18% das audiências – uma brutalidade! Que negócio, para mais já debilitado, aguenta deitar borda fora 18% de clientes? Que aflição causa isto nas Excelências reguladoras?

Em Janeiro de 2009, o recém-eleito presidente Obama, a súplicas das televisões em aberto (ABC, NBC, CBS e FOX) instou o Congresso para que adiasse o switchoff de 17 de Fevereiro para 12 de Junho: “with coupons unavailable, support and education insufficient, and the most vulnerable Americans exposed, I urge you to consider a change to the legislatively mandated analog cutoff date.” Parece que foi dito hoje, aqui. Qual o motivo de tanta angústia? Foi ter constatado haver 3,7 milhões de lares sem acesso à TV digital, ou seja, a bagatela de 4% de espetadores. O adiamento foi aprovado, mas isto são eles que são tolos, nós por cá tudo bem.

14 comentários em “TDT, uma calamidade em curso”

      1. O conteúdo do post é sobre um aparalherómetro para ver televisões que utilizam o acordês. Portanto, também não interessa. Ahah.

  1. É bem verdade – e não foi por falta de tempo para a coisa se preparar convenientemente. Há anos que ouço falar da implementação da TDT, do “switch-off” do sinal analógico em 2012… mas só muito recentemente se começou a informar a generalidade dos cidadãos sobre este tema. Diria que quem saiu a ganhar com isto tudo foram as operadoras de televisão por cabo.

  2. Embora os teus espetadores se me espetem nos neurónios (eu avisei…), aqui vai o que penso: é muito provável que tenha havido incompetência e que as consequências para as televisões, a nível publicitário, sejam tremendas. É grave, como dizes. Mas, muito mais grave é que muitos espectadores (vês? é fácil…) velhos e/ou doentes, semi ou mesmo analfabetos, que não têm outro entretém a não ser os 4 canais nacionais vistos nos seus televisores do tempo da outra senhora, fiquem sem ele por falta de informação. Ou, pior ainda, por não poderem pagar o raio do aparelhómetro, que não é assim tão barato como o pintam.

    1. Mas é exatamente essa a questão. Ou seja: estão as duas entrelaçadas. Há um problema social óbvio, mas há um problema industrial menos óbvio, que tem sido ignorado. Ora se a indústria enfraquece, ou morre (!), não por falta de apoio, mas por incúria e imprevidência de autoridades, ficam esses espetadores/espectadores (whatever…) e todos os demais privados de usufruir o produto dessa indústria. Como se nos pudessemos dar ao luxo…

  3. Estava aqui a pensar em qualquer outra maneira de atirar uma boca sobre o acordês – já que a outra que deixei (por acaso até não era antipática) não foi publicada. Mas tendo em conta o meu respeito por este blog, não vou insistir. Tal como não vou comprar aparelhos para ver e ler televisões que utilizam uma ortografia que me desagrada profundamente. Certo é que, à medida que o cerco vai sendo feito, uma pessoa chega à conclusão de que Miguel Relvas tem razão, e que as pessoas espertas não têm outra opção senão pirarem-se daqui para fora.

      1. Eu tendo a considerar pragmática. Há muito tempo que não frequento igrejas, mas lembro-me perfeitamente dos anúncios de fim-de-missa: “Encontrou-se uma pulseira blablabla, perderam-se uns óculos blablabla…” E na mudança para o euro os padres e, se não me engano, os carteiros participaram também na “formação” dos velhotes das aldeias.

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