As relações sociais pressupõem um conhecimento mínimo daquilo que podemos esperar daqueles com quem interagimos. É por isso que certas profissões utilizam sinais distintivos. O cidadão em apuros identifica, na multidão indiferente, indiferenciada e apressada, um polícia fardado. Tipicamente, reconhecerá que, de entre todos os outros, este será aquele de quem poderá esperar uma ajuda mais eficiente. Da mesma maneira, quando se estabelece uma relação incipiente entre desconhecidos, o passo inicial é o da apresentação: o nosso nome e, em termos mais ou menos profundos, quem somos, de onde vimos, para onde vamos e o que queremos. A troca de informação que se processa nesses momentos não tem como único objectivo dar satisfação a uma curiosidade que se esgota em si mesma. A informação que passamos aos outros e a que recebemos e a que nós e os outros recolhemos de outras fontes permitem-nos ir construindo uma imagem que se situa algures entre a ideia, a realidade e os nossos pré-juízos, experiências e circunstâncias. Há pois nessa imagem uma parte de conhecimento efectivo e de ilusão (ou desilusão). Não sendo possível aspirar ao conhecimento total sobre os outros (conhecem-se, eles próprios, integralmente a si mesmos?), a relação social pressupõe uma base de confiança que tem tanto de indispensável como de frágil. Tão dependentes de confiança nas relações humanas como de alimento para a sobrevivência, toleramos todos um certo nível de hipocrisia uma vez que não é viável, a cada momento, em cada circunstância da vida, a cada interacção, pretender fazer a prova de um princípio de desconfiança. Todos já nos aproximámos alguma vez, mais ou menos, da percepção de que não se pode confiar em ninguém (polícias, juízes, políticos, família, amigos, companheiro/a) e sabemos que isso arde como se estivéssemos no inferno. Este estado de frágil equilíbrio sustenta-se, então, numa boa parte de verdade e num certo dever de hipocrisia. Assim estruturada, a confiança é definitivamente posta em causa em três tipos de situações: a) violação do dever de hipocrisia, acrescentando mais verdade do que aquela que estamos dispostos a aceitar; b) mentira c) segredo. Vem tudo isto a propósito de dois factos dominantes da semana que acaba. A primeira, a deslocalização das participações sociais da família Soares dos Santos. Digo que esta põe em causa a nossa confiança pela via da mentira. Soares dos Santos criou uma imagem através dos seus sermões. O seu comportamento, inquestionável do ponto de vista da decisão empresarial, é incoerente com a imagem que pretendeu passar-nos. Interpretá-la como mentira é uma conclusão óbvia e leva à degradação do capital (nunca melhor dito) de confiança. A outra é a da maçonaria. Quem guarda segredo, pretende afastar os outros do (de um) conhecimento. E isso só pode minar a confiança. Sendo esse um comportamento deliberado, é inaceitável por parte de quem exerce funções políticas, por definição orientadas pela transparência e pela participação. E o mesmo se diga, por exemplo, na função judiciária. O único segredo a que um político deve estar obrigado é o que é imposto pelo interesse do Estado, na interpretação que lhe é dada pelos cidadãos que representa. E o único segredo que um magistrado deve aceitar é o devido à justiça.
Confiança, hipocrisia, mentira, segredo, Soares dos Santos e a maçonaria
Rui Rocha,

também eu penso que os políticos e magistrados, principalmente, devem dar a conhecer aos cidadãos a sua condição de maçom, quando assim acontece.
mas deveria ser uma atitude voluntária.
porque é mais que questionável que seja eticamente aceitável que um cidadão se apresente aos eleitores, pedindo o seu voto para os governar, escondendo voluntariamente dos eleitores a sua estatuta completa de cidadão e a sua forma de exercer cidadania.
a propósito dos magistrados, é curioso notar que em inglaterra vigorou, ainda recentemente, uma obrigação desse tipo de declaração, aplicável apenas aos novos magistrados.
http://www.guardian.co.uk/uk/2009/nov/05/f reemasons-judges-magistrates-review-poli cy
e em portugal, a asjp adoptou um compromisso de ética, onde está expresso o seguinte:
“O juiz não integra organizações que exijam aos aderentes a prestação de promessas de fidelidade ou que, pelo seu secretismo, não assegurem a plena
transparência sobre a participação dos associados.”
http://www.asjp.pt/wp-content/uploads/20 10/04/1-Vers%C3%A3o-em-portugu%C3%AAs-CO MPROMISSO-%C3%89TICO-DOS-JU%C3%8DZES-POR TUGUESES.pdf
Concordo, em geral, com a sua visão das coisas, Carlos. Acrescento ainda que, se não estou em erro, em Inglaterra os magistrados “antigos” foram “incentivados” a declararem voluntariamente a sua “filiação”.
Há um segredo que nem sequer um magistrado pode quebrar: o religioso. Cfr. art. 135 Código de Processo Penal.
Logo, é a lei a dar relevância e legitimidade ao…segredo.
Nesse caso, penso que concordará que estamos ainda a falar de segredo legitimado pela lei (ou seja, de uma visão de justiça concretizada numa norma em determinado momento temporal e espacial). Coisa bem diferente é a subordinação a um segredo imposto por uma organização estranha ao sistema jurídico-legal.
Rui Rocha,
tenho uma opinião diferente desta que nos apresenta, a partir das alíneas a),b) e c).
Penso que, vendo os assuntos a que se refere, dessa forma, é um pouco como estarmos a olhar para a floresta mas, a só conseguirmos ver uma árvore.
Quanto ao assunto “Pingo Doce”, pergunto-lhe: já pensou se por acaso, Alexandre Soares dos Santos estará a antecipar uma crise económica a um nível incrívelmente superior à actual, com a redução a zero dos interesses privados dos empresários nacionais? Ele alega como motivo para a decisão tomada, que não acredita na premanência de Portugal no euro. Eu, penso que a decisão se deve à compra das acções da EDP pela Three Gorges e que o presidente da Jerónimo Martins percebeu a verdadeira estratégia dos chineses, que ao que me parece, será “tomar posse” da rede energética do país. Do mesmo modo que
António Champalimaud vendeu em 1999, o Banco Totta & Açores e o Crédito Predial Português ao Banco Santander, antecipando desta forma a crise que viria a afectar a banca.
Quanto à Maçonaria; quando o Rui Rocha refere: «Quem guarda segredo, pretende afastar os outros do (de um) conhecimento.» penso que tenha presente os princípios e as normas constitucionais que norteiam e definem esta Ordem iniciática.
O secretismo da Ordem e da identidade dos membros que a compõem, é uma das normas que a regem e que serve também para proteger do uso arbitrário e negativo, os superiores conhecimentos que detem.
Não quero dizer com isto que conheça a fundo ou sequer superficialmente, o que se passa no seio desta organização. A pouca informação de que disponho, leva-me a crer que não estarei errado.
Espero que aceite este meu comentário amigável, como uma simples troca de opiniões.
😉
Bartolomeu, é precismente esse o espírito. Quanto às questões concretas:
– reafirmo que a decisão de Soares dos Santos é inatacável do ponto de vista da gestão. O que está em causa é, apenas, a intervenção política em determinada altura. Quem não quer ser cordeiro, não lhe veste a pele. Note-se que essa intervenção política foi até num sentido (a crítica a Sócrates) que eu próprio também escolhi. O que me parece é que quando um empresário toma posições políticas claras sujeita-se às consequências. E isso vale para Soares dos Santos, para Belmiro ou para qualquer outro.
– quanto à Maçonaria, saliento apenas que também eu conheço superficialmente o assunto. Mas, perturba-me, no contexto de uma sociedade democrática, a existência desse próprio conhecimento superior que o Bartolomeu considera ser a razão do segredo.
Um abraço.
Rui Rocha, não pretendendo maça-lo e aos restantes leitores com contrapontos, deixe-me somente acrescentar o seguinte:
-quanto à oportunidade das acusações e declarações proferidas por Soares dos Santos em determinada altura, pergunto: não terá ele servido de “isco” para uma campanha demolidora contra Sócrates, precisamente por se tratar de um empresário-modelo , tendo acabado vítima de uma inexperiência política?
Não sei, parece-me que terá sido por aí…
– quanto ao “conhecimento superior” nesta nossa sociedade democrática (?)… coloco nova questão: chegam ao conhecimento de todos os cidadãos desta sociedade democrática, todos os conhecimentos que se encontram em posse de determinadas sedes?
Ou… o secretismo é, como sempre foi, a “alma” que mantém intocável o negócio de muita gente?
Penso que poderíamos reflectir acerca desta premissa…
Não só poderíamos como deveríamos, Bartolomeu.
Um forte abraço também para si, Rui Rocha!
😉