João Pedro Vale, instalação, 2010
O ridículo é o primeiro inimigo de um regime político e não dar por ele é o primeiro sinal da sua degenerescência. No ocaso do salazarismo, tamanho furor fizeram as intervenções parlamentares do jovem deputado Sá Carneiro, que a censura não teve outro remédio senão rasurar a sua divulgação. Um acto que resume o próprio conceito de ridículo.
A resposta dos jornalistas foi inesperada e perversa; silenciado Sá Carneiro, os midia começaram a publicar as réplicas do deputado Cazal-Ribeiro, cuja retórica inflamada e extemporânea só era comparável ao grotesco da sua argumentação.
Como os discursos de um estrénuo defensor do regime propagavam a gargalhada geral, a censura viu-se forçada a contê-la, proibindo a publicação das palavras de Cazal-Ribeiro!
Lição: um regime político está condenado quando entre os seus aderentes, o bom senso e a estupidez já não se distinguem.
É fácil fazer chacota com a vida parlamentar. Aqui ou em qualquer outro país, desde as “Farpas” de Ramalho Ortigão ou as crónicas do “Punch”, até aos nossos dias com imagens de Taiwan. O regimento, o protocolo do combate político, a configuração retórica, tudo isto segue uns preceitos que ao cidadão leigo parecem inócuos ou ociosos – ou seja, suspeitos. Sempre foi assim e por isso a democracia tem a fragilidade de uma borboleta e o parlamento a reputação de uma hiena.
Asseguro que não descurei estas precauções quando hoje ouvi na rádio o seguinte diálogo parlamentar:
“Líder da oposição: o sr. tem que ser responsabilizado!
Vozes: muito bem!
Repórter: o líder da oposição afirma que o líder do governo tem que ser responsabilizado.
Líder do governo: onde estava o sr. Quando foi preciso assumir responsabilidades?
Vozes: muito bem!
Repórter: o líder do governo pergunta ao líder da oposição onde estava quando foi preciso assumir responsabilidades.”
A conversa prolongou-se mais uns bons minutos sem nunca exceder a vivacidade e a filosofia deste registo e apenas cessou quando a vozinha da Presidente fez ouvir a sua autoridade cronométrica.
Para comédia as ideias são nulas, para farsa a linguagem é pobre e para burlesco as personagens são bisonhas, mas fiquei com a impressão que estes eleitos andam a descuidar demasiado a saúde do regime.




























