Debates parlamentosos


enlil,

João Pedro Vale, instalação, 2010

 

O ridículo é o primeiro inimigo de um regime político e não dar por ele é o primeiro sinal da sua degenerescência. No ocaso do salazarismo, tamanho furor fizeram as intervenções parlamentares do jovem deputado Sá Carneiro, que a censura não teve outro remédio senão rasurar a sua divulgação. Um acto que resume o próprio conceito de ridículo.

A resposta dos jornalistas foi inesperada e perversa; silenciado Sá Carneiro, os midia começaram a publicar as réplicas do deputado Cazal-Ribeiro, cuja retórica inflamada e extemporânea só era comparável ao grotesco da sua argumentação.

Como os discursos de um estrénuo defensor do regime propagavam a gargalhada geral, a censura viu-se forçada a contê-la, proibindo a publicação das palavras de Cazal-Ribeiro!

Lição: um regime político está condenado quando entre os seus aderentes, o bom senso e a estupidez já não se distinguem.

É fácil fazer chacota com a vida parlamentar. Aqui ou em qualquer outro país, desde as “Farpas” de Ramalho Ortigão ou as crónicas do “Punch”, até aos nossos dias com imagens de Taiwan. O regimento, o protocolo do combate político, a configuração retórica, tudo isto segue uns preceitos que ao cidadão leigo parecem inócuos ou ociosos – ou seja, suspeitos. Sempre foi assim e por isso a democracia tem a fragilidade de uma borboleta e o parlamento a reputação de uma hiena.

Asseguro que não descurei estas precauções quando hoje ouvi na rádio o seguinte diálogo parlamentar:

“Líder da oposição: o sr. tem que ser responsabilizado!

Vozes: muito bem!

Repórter: o líder da oposição afirma que o líder do governo tem que ser responsabilizado.

Líder do governo: onde estava o sr. Quando foi preciso assumir responsabilidades?

Vozes: muito bem!

Repórter: o líder do governo pergunta ao líder da oposição onde estava quando foi preciso assumir responsabilidades.”

A conversa prolongou-se mais uns bons minutos sem nunca exceder a vivacidade e a filosofia deste registo e apenas cessou quando a vozinha da Presidente fez ouvir a sua autoridade cronométrica.

Para comédia as ideias são nulas, para farsa a linguagem é pobre e para burlesco as personagens são bisonhas, mas fiquei com a impressão que estes eleitos andam a descuidar demasiado a saúde do regime.

sem título


enlil,

Ute Barth, “sem título”, 2005

 

Uma pessoa como ele não precisa de muito para não fazer nada. Passa os dias a ouvir música de gente que já morreu. Vai dizendo que sim.

Bem podes esperar, relatava aquele do garfo. Depois o sol põe-se.

Houaiss te pego


enlil,

 

Acabei de ler através do site blogtailors, que recolhe a notícia no Correio da Manhã e no Diário Digital (tudo muito em rede, portanto) que o digníssimo (será este o tratamento protocolar?) procurador regional Cléber Eustáquio Neves (contém-te Zé, os nomes no Brasil são diferentes…) deu entrada no Ministério Público Federal de Uberlândia (MG) uma acção em que solicita a imediata retirada de circulação, venda e distribuição do Dicionário Houaiss.

Sendo eu possuidor de um exemplar em 7 tomos da referida obra, dei atenção à noticia, até por razões assaz egoístas e perversas, com vista ao lucro fácil, pois podia ser que os calhamaços se pudessem valorizar nos alfarrabistas.

De que se queixa o dr. Neves? Do verbete relativo a “ciganos” cujo §5 reza: “que ou aquele que trapaceia; velhaco, burlador” e §6: “que ou aquele que faz barganha, que é apegado ao dinheiro; agiota, sovina.”

Após arrumar o tomo II “Bat-Cza”, onde recolhi a citação supra, corri a verificar no tomo IV “Fre-Mer” se à apoquentação do dr. Neves não teria escapado o verbete relativo a “judeu” e “judiaria”, tendo constatado – e não vos maço mais com citações – que a ira dele poderia ir muito mais além, tendo matéria de sobra para reforçar a queixa de que o Houaiss colabora para “semear a intolerância étnica”. Será que o dr. Neves, ele próprio, sofre de preconceito, saindo em defesa dos ciganos mas negligenciando a proteção linguística dos hebreus?

Ora aqui está um caso chapado desta espécie de fascismo linguístico, que no seu puritanismo e nas suas certezas ideais, intende rasurar a utilização mundana da língua, em nome de uma adequação perfeita aos supinos conceitos que a deve informar. A minha avó, na sua profunda e rústica ignorância teológica, apodava-me de judeu cada vez que eu atirava pedras aos gatos, o que era, no dizer dela, cheia de piedade pelos felinos, uma “judiaria”. Para o procurador de Uberlândia este linguajar eticamente errado (digo eu hoje, ignorava ela, coitada, então), como não deveria ter existido, não deve ser cientificamente registado.

Pior do que o soneto do causídico é a emenda do Instituto Huaiss, que embora lá vá explicando que o dicionário deve ser o “espelho” das “ocorrências da fala”, acaba prostrando-se em desculpas e jurando que na próxima edição da obra tudo estará conforme.

Pobre avó, nunca disseste o que te ouvi dizer, e do teu desaparecido mundo rural não ficará uma vírgula que seja.

Eros & Thanatos (como de costume)


enlil,
Julie, 1994

Julie, 1994

Tecla, 1994

 forcado, Forte da Casa, 2000

 forcado, Montemor (?), 2000

 

A realidade é complicada, o retrato por exemplo. Uma pessoa vê a máquina fotográfica e põe-se logo em pose; o que fica dela acaba por ser um híbrido entre o que quis mostrar e o que dela se conseguiu ver. Como fazer com que alguém que esteja em pose deixe de posar?

Uma das maneiras mais simples de evitar o problema é fotografar o instante. Mas aí, não é o retratado que fica, mas apenas o que dele sobrou do momento em que o captámos. Outra maneira é apelar a expressões como “essência” ou “alma”, mas estas são provenientes da fantasia platónica, que em boa verdade procuram pouco e encontram menos. Talvez o próprio grego tenha percebido o embuste que criou, ao declarar com a humildade dos sobranceiros que “o belo é difícil” – é que a essência nunca está onde quer que seja.

A fotógrafa Rineke Dijsktra (n. 1959) tem um processo sagaz: fotografar os seus retratos quando as pessoas acabaram de passar por um grande esforço. Quer apanhá-las desarmadas ou frágeis? Nem tanto; quer que elas estejam demasiado fatigadas para se preocuparem com a pose.

Numa das suas séries Dijkstra fotografas mulheres que acabaram de dar à luz: Julie, uma hora antes de ser fotografada, Tecla, um dia depois do parto. Para outra série, Dijkstra veio a Portugal fotografar forcados, captados pouco depois da pega. O que se obtém é o retrato de pessoas no seu estado humano mais radical, o de quem acabou de sobreviver à natureza.

Manuel, in memoriam


enlil,

 

Sou ateu até à medula dos ossos – saí assim. Estou por isso em condições privilegiadas para dizer que hoje morreu alguém que mais se aproximou da ideia que faço de um santo: D. Manuel Falcão, Bispo Emérito de Beja.

Nunca me foi dado ver pessoa tão desprendida dos seus cuidados materiais. Embora pertencesse a uma família abastada, tinha que ser a irmã a mudar-lhe em segredo o guarda-roupa quando os fatos já se encontravam quase no fio. O automóvel de serviço, era ele, sempre que possível, quem o consertava em caso de avaria, dando uso à sua formação de engenheiro. O dinheiro de que dispunha, dissipava-o em pequenos auxílios discretos ou numa obra monumental, lenta e prudente: o levantamento, restauração e conservação do património histórico e artístico da diocese de Beja. Isto dito assim parece coisa institucional e maçadora, mas não era, porque estando entregue a José António Falcão (apesar do nome não tem qualquer laço familiar) tornou-se “apenas” um case study.

Foi em Janeiro de 1975 que Manuel Falcão recebeu o bispado de Beja. É difícil conceber cargo mais complicado, dada a hora e o local. Como ele o desempenhou, se quiserem saber, falem com pessoas de Beja, sobretudo comunistas, que elas vos dirão.

Manuel Falcão não era um homem efusivo e prazenteiro, mas era de trato cordial e sobretudo ponderado. Ou seja, procurava sempre salvar o pecador do seu pecado, em vez de brandir as penas do inferno, por maior que fosse o erro. Sei do que falo e com ele aprendi que o anti-clericalismo é insensato. Percebi também que ser ateu em paz e descanso, sem correr riscos de ver a cabeça separada dos ombros ou acabar com o corpo em chamas, é uma prerrogativa das sociedades cristãs contemporâneas. Bem sei que isto contrasta com alguns preconceitos dominantes, mas é a vida…

Pelo Natal, Manuel Falcão entregava a cada um dos 79 sobrinhos-netos um envelope com €20. Dava-lhes também a responsabilidade de entregarem esse dinheiro à instituição de caridade ou beneficência que entendessem.

A terra das 58 letras


enlil,

 

Já Herberto Helder, propenso a extasiamentos verbais, uma vez referiu o nome desta aldeia de 3000 vizinhos na ilha de Anglesey, encostada a Gales: Llanfairpwllgwyngyll. Na verdade este é o diminuitivo – a sério – de

Llanfairpwllgwyngyllgogerychwyrndrobwllllantysiliogogogoch

o que em língua mais cristã do que o gálico significa: “St. Mary’s Church in the hollow of the white hazel near the rapid whirlpool and the church of St Tysilio with a red cave”.

Não é nome de terra tão vasto como aquele que o João Carvalho trouxe aqui, mas para lá caminha. Pode lá chegar de comboio e descer na estação que ostenta a tabuleta acima retratada.

O Ágape


enlil,

 

Já havia a Ceia dos Cardeais, que eram só três e caducos, já havia os sete magníficos, que em boa verdade não ficaram famosos pelos almoços mas por tirarem o apetite a outros, já havia os doze apóstolos, que pouco mais provaram do que pão ázimo e azeitonas da Galileia. Pois pasmai incréus, azedai ciumentos, rasgai as vestes relapsos, que a partir de ontem transitaram para a fama os 11 do Ágape de Oeiras.

Por uma amena tarde deste inverno do nosso descontentamento, amesendaram-se o Adolfo, a Ana, a Ana Cláudia, o Fernando, a Ivone, o José, a Leonor, a Patrícia, o Pedro e a Teresa, e sobre todos eles a Helena, não a funesta de Tróia, porque bem mais semelhante à sua rival Penélope, desfiando como numa tapeçaria sempre inconclusa os fios das imensas estórias que tem para tecer. (Para mais, vide post com remate e nó da Patrícia, uns cliques abaixo).

 

 

Dos três neófitos a quem caberia um deles sujeitar-se à violenta praxe de fazer auto do sucedido, uma precaveu-se batendo em retirada antes de tempo, outra abriu muito os olhos e ninguém ousou interpelá-la, sobrando este vosso desmemoriado servo que por certo faltará à exatidão dos factos. Perdoem-lhe.

Não foi o faceto e desordeiro banquete de William Hogart de 1755, nem a frígida e calvinista libação holandesa de Cornelis Anthonisz de 1533, também escusam de imaginar que tenha tido a feição do “Banquete dos deuses” de Frans Floris de 1550. Então, o que fizeram aquelas 11 almas, além de degustar um arroz de polvo, felizmente com mais tino do que malandrice, e uns sedosos bifinhos? Pois tomaram graves decisões: a de proceder à escrita de um cadáver esquisito (melhores indicações serão dadas pela Ana em seu devido tempo) e de iniciar uma nova série colectiva com o título provisório de “delito à mesa”.

 

 

Ó turma de calões! E estiveram desde as 14h até às 17h30, só para concluir isto? Correu mal, portanto, brigaram muito, está-se mesmo a ver… Pois lamento declarar aos cépticos que redondamente se enganam. É uma velha lei da física psicológica (um ramo científico que inventei agora mesmo) segundo a qual um espírito tende para inércia quando se sente confortável. E foi isso mesmo que aconteceu: conversaram-se coisas sérias em voz amena, discutiram-se gostos com fervor, ah sim e divertimo-nos bastante, em contrapelo à sisudez dos tempos. Se tivessem lido as certeiras teses de Sartre sobre a má-fé, vislumbradas nos gestos de Pierre, o empregado de mesa do Les Deux Magots, entenderiam tudo o que não se passou.

Por mim vos digo – belíssima tarde a de ontem. Só falta agora que a gerência do plácido Sete Castelos de Oeiras coloque lápide alusiva aos pés da enorme araucária que ornamenta o pátio do restaurante. Em boa verdade também não sei se era uma araucária, mas parece bem um nome assim camiliano a dar sombra ao ilustre cenáculo. Fizeram falta os convocados ausentes para este almoço do Delito de Opinião – que venham na próxima.

a justiça que se vê


enlil,

 

Não faltaram vozes para se abespinharem com as imagens de Strauss-Kahn a ser levado algemado e debaixo de escolta, aquando da sua prisão em Nova Iorque. Sucede que o senhor foi sujeito a um tratamento igual a qualquer outro cidadão nas suas circunstâncias, fosse ele um serial killer ou um membro do Congresso, segundo um procedimento perfeitamente estipulado by the book.

O sr. Francisco Esperança, cidadão de Beja, após degolar mulher, filha e neta e, ao que consta, todos os animais domésticos de sua casa, foi dado a conhecer com imagens de tronco nu, a ser levado pela polícia em passo de corrida, durante a noite. Não me recordo de outros cidadãos, talvez de mais fino calibre social e arguidos de crimes menos populares, a quem igualmente tenha sido dada voz de prisão, que sofressem tão ignóbil exposição.

São casos limite como estes que nos permitem perceber que, pelos visto, em Portugal a igualdade de tratamento pela justiça depende da magnitude dos crimes e do estatuto social, ambos ajuizados de forma ad hoc pelo repórter mais à mão.

Léo & Cash


enlil,
Há alguns que ao chegarem perto do fim conseguem ver tudo mais claro. A idade tem os seus demónios e é cada vez mais prescindível nos tempos correntes; pode, no entanto, trazer uma lucidez impossível antes de muita água passar debaixo as pontes. Só é pena aprendermos tão pouco com estas coisas que já foram ditas tantas vezes, quer com a constatação tardia de Léo Ferré: “Avec le temps / va tout s’en va // et l’on se sent floué par les années / perdues”, quer com a conclusão a que chegou Johnny Cash, quando gravou a sua última canção, “Hurt”, meses antes da sua morte: “And you could have it all, / My empire of dirt, / I will let you down, / I will make you hurt”.

Se tiver coragem para enfrentar a realidade, que não é o vendaval de ninharias com que perdemos tempo, pode ouvir.

  

 

  

Nunca demasiado longe


enlil,

De Madrid a Guadalupe, já perto da fronteira portuguesa, por uma manhã de verão, rompendo a ardente atmosfera da meseta castelhana. Quatro horas bastam hoje para sofrer a jornada, suficientes para descer a A5/E90 até Navalmoral de la Mata e aí meter pelos Ibores, serra áspera, curva e contracurva bordejando escarpas, pequenos povoados à espera, que esperar é actividade primeira dos extremenhos, e a temperatura recusando baixar dos 35º, mesmo lá em cima. Quatro horas disto, portanto, bem menos do que em 1923, quando Manuel Cossio, se meteu à estrada com o mesmo objectivo e demorou três dias, maravilhado com o conforto do magnífico autobus em que viajou.

E para quê? Para numa dobra da estrada se deslumbrar com a visão repentina do Real Monasterio de Santa Maria de Guadalupe encravado a meia encosta, sem explicar porquê de tanto luxo naquele ermo desencantado.  

No largo central de Guadalupe um almoço de tapas, as migas extremenhas, saborosas mas paupérrimas, mais depuradas se possível do que as nossas alentejanas.

E agora a razão de ser disto: a sacristia. “La reina de las sacristias de España”, porque, entre talhas de finíssimo ouro e esmerados frescos, está decorada com sete retábulos, cada um com “três varas y medio de alto, y dos varas e medio de ancho”, tal e qual como os vemos agora, representando os santos monges do mosteiro. O trabalho foi entregue a Zurbarán, encomendadas as pinturas em 1639 por Fray Juan de San José, Procurador e Mayordomo Mayor dos jerónimos e que o pintor executou em Sevilha, donde as enviou, não todas de uma vez, por caravanas de burros, sabe-se lá quanto tempo demoravam a chegar. Todavia, só em 1647 a sacristia é inaugurada, mantendo a sua fisionomia, milagrosamente, até hoje.

Cada um de nós tem que escolher que vida pretende: a de Zurbarán ou a do seu nemesis Velázquez, contemporâneos e rivais; aquele provinciano e apologista da Contra Reforma, este cortesão e cheio de delicadezas. Escolho Diego sem hesitar, mas estes Zurbaráns, de Guadalupe, condensam tudo que há a dizer na pintura e valem um mundo.

Para mais, são os únicos que podem ser vistos en su sitio original de acolhimento e não em museus, instituições muito práticas para o amador, mas que desvirtuam o sentido da arte, sobretudo a que foi concebida com o fito de servir e decorar os lugares para onde se destinava.

JAZZ A 2 (pub.)


enlil,

 

foto de Herman Leonard, “Lester Young’s pork pie hat”, 1948

 

JAZZ A 2

 

2ª a 6ª

20h às 21h

Antena 2

 

De José Navarro de Andrade e Alexandra Corvela

 

O planeta do jazz todo, das ruas de Nova Orleans do princípio do século XX, até às caves de Nova Iorque dos anos 50. E Chicago, todas as Chicagos, a dos anos da lei seca e a dos anos 70 da vanguarda. E Detroit do jazz robusto de colarinho azul, e Kansas City dos anos 30, nas margens do Missouri, das grandes orquestras de Count Basie e St. Louis, quando o jazz subiu pelo Mississippi acima. E o jazz ao sol da Califórnia, preguiçoso e cool. Tudo, até jazz europeu de Paris a Copenhaga e por onde mais ele passou e ficou. E de como fabulosos músicos indianos entram hoje pelo jazz adentro. E os israelitas em Nova Iorque, recuperando a conversa entre as canções judias de Tin Pan Alley com o hard bop, onde era Benny Goodman é hoje Anat Cohen. O jazz, a grande música urbana do século, está vivo e não arrefece.

À hora das notícias? Pois, que as notícias não fogem e podem ser revistas nos canais da especialidade, ao passo que o JAZZ A 2 é agora ou nunca.

A partir de amanhã. Olha, serviço público!

E depois do amor


enlil,

seiichi 1.jpg

 

 

Em fevereiro de 1978 o fotógrafo japonês Seiichi Furuya conhece Christina Gössler em Graz, na Áustria. Apaixonaram-se, casaram, tiveram um filho, Komyo Klaus, em 1981. Viviam em Berlim-Leste e para sobreviver Seiichi fazia trabalhos de tradução; a fotografia era uma arte privada, talvez apenas um hobby. Christina era dada a depressões e partir de 1982 a esquizofrenia invadiu-lhe o cérebro. Passou a viver fora e dentro de hospitais, casas de repouso, ou lá como queiram chamar a esses lugares. Seiichi fotograva Christine todos os dias, amando-a presumivelmente, vendo-a desaparecer a pouco e pouco da realidade. No dia 7 de Outubro de 1985, dia de aniversário da RDA, Christine subiu ao telhado do seu prédio de 9 andares e suicidou-se. Nessa manhã Seiichi tinha tirado, sem saber, as últimas fotos dela.

A enorme quantidade de fotografias que Seiichi Furuya tirou durante os 7 anos em que viveram juntos, converteu-se no seu projecto artístico, ou seja, projecto de vida. Quando a recordação é concreta e cronológica, o que fica da memória?

O que ando a ler (24)


enlil,

Somos o único bicho incapaz de dormir ao relento. Somos também o único animal que lê na cama. Um livro bom de se ler deitado há-de ser suficientemente cativante para impedir que nos deixemos distrair por outras solicitações que possam surgir, como por exemplo, enfim, isso, mas também suficientemente magnânimo para nos permitir que deslizemos em paz para dentro do sono.

Nem toda a arte, neste passo a literatura, tem que ser um espinho cravado na consciência ou um tiro na cabeça. É um bocado redutor enfiá-la nessa caixa e dela não a deixar sair. Pode ser assim, pode ser assado, seja como o escritor quiser. Pode ser uma tentativa de atingir o Belo (uma proposta demodèe nos dias correntes), pode querer comover-nos, ou consolar-nos, ou apenas retirar-nos, durante o tempo que temos o livro entre mãos, da nossa amarga realidade e transportar-nos para outros lugares. Pode ser ainda uma forma de pôr em ordem uma parte do mundo que ficou por arrumar; pelo menos na cabeça de quem o escreve e de quem o lê.

Atrevo-me a considerar que todas estas formas são equivalentes em nobreza quando conseguem atingir aquilo a que se propõem. Atrevo-me ainda mais a dizer que “Os Espiões” de Luis Fernando Veríssimo é bom para ler na cama. Espero que percebas, ó sereno leitor, que estou a elogiar o livro e também espero que não te passe pela cabeça que faço o elogio da literatura light; suplico-te um esforço aristotélico para que não baralhes categorias, como tão amiúde se faz por preconceito e precipitação, ou apenas porque há quem não dê para mais.

“Os Espiões”:

Um enredo que no dizer do protagonista é digno de John le Carré, sobre uma misteriosa escritora que assina como Ariadne, logo eruditamente remetendo para os olimpos da mitologia, acaba desmistificado por na verdade decorrer à copofónica mesa de um botequim manhoso de Porto Alegre. Vidas conformadas, boémia de bairro, cosmopolitismo intelectual de meia tigela, tudo isto também é desmobilizado pela prosa irónica mas sem sobranceria, generosa com as personagens mas sem complacência, enfim divertida – palavra caída em desuso e normalmente substituída por “fluente” ou “conciso”.

Não sendo novidade, “Os Espiões” é novo de 2009. E guardado estava o bocado, pois Luis Fernando Veríssimo que nunca me cativara nas crónicas publicadas no “Expresso”, veio agora vencer-me com “Os Espiões”. Retrocedo, relerei as crónicas e retracto-me.

Mão amicíssima em boa hora mo fez chegar aos olhos, porque isto é da melhor literatura portuguesa actual. Portuguesa? Mas Luis Fernando não é brasileiro, descendente do anti-presbítero Érico? Sim, mas a nossa língua é só uma e só há a perder dividi-la pelos continentes. Boas noites.

Declínio


enlil,

John Divola, “Zuma”, 2011

 

Este episódio da reforma do Senhor Presidente da República (é do cargo que se trata e não do corpo que correntemente o ocupa), confesso que me deixa perturbadíssimo (podem gozar à vontade).

Tudo o que o Senhor Presidente da República diz tem que ser verdadeiro e reflectido. Caso contrário é a própria Instituição que fica em causa e com ela o Regime. Isto tanto é certo nos EUA, como em França, como deveria ser em Portugal. Assim sendo, como é possível que em resposta às declarações do Senhor Presidente se levante tal surriada e chacota? Como podem não ser levadas a sério e não merecerem reflexão? Será que alguém suspendeu, por um átomo que fosse, as suas certezas e verificou a veracidade das contas que ele enunciou? A imagem que me ocorre é a do sábio que no meio dos selvagens lhes ensina que é a terra quem anda à volta do sol e todos o apedrejam por ir contra o senso comum deles.

Agora, se a afirmação do Senhor Presidente da República é extemporânea e falsa, o caso não muda de figura mas de figurante. Como é possível o transitório ocupante do cargo proferir declarações que não correspondem à realidade, sem um sobressalto político? E se as contas estão incorrectas, sendo ele economista e professor da dita matéria, como poderemos levá-lo a sério em ambas as qualidades daqui em diante? Ficará corrompida a Instituição da Presidência se for provado como espúrio o lamento suspirado aos microfones e câmaras dos media. Ora isto não é motivo de troça mas de aflição. Eu creio…

O sinal da extrema decadência institucional e intelectual em que vivemos revela-se no facto de ninguém ser dado como responsável por aquilo que diz. Um indivíduo pode dizer que não foi ministro tendo sido, que nenhum opróbrio o inibe, pode proferir as piores torpezas que só encontrará a censura dos ombros encolhidos. Tudo cai no meio da praça pública, as vestais do costume ululam a sua indignação, os palhaços executam o seu número cómico, e um par de horas depois tudo fica esquecido e sem rasto na memória e entra em cena outra fait divers.

Já nem sequer é um problema moral, até porque a moral deve ser mínima se quiser ser eficaz, em vez deste infame moralismo vigente, confundido com bisbilhotice e delação. É um problema de regime e de civilização, pois quando já parece corrente e adquirido que todos mentem e a mentira faz parte do discurso, então nenhum dos pilares da vida em sociedade, a confiança e a segurança, é suficientemente firme para se manter.

Um pouco melhor


enlil,

Andreas Gursky, 2005

Decorre desde ontem à noite e até segunda feira mais uma jornada do maior espectáculo do mundo.

Da margem do Atlântico (Benfica vs. Gil Vicente, amanhã, às 20H15) até Gaziantep, nos confins da Anatolia, na fronteira com a Síria (Gaziantepspor vs. Mersin, ontem à noite), cerca de 2 milhões de pessoas irão despender duas horas da sua vida a gritar, saltar, vaiar e aclamar as suas cores num estádio de futebol. No mínimo, dez vezes mais pessoas, por esse mundo fora, irão fazer o mesmo diante de televisor. Se já estivéssemos em Março, este formidável perímetro estender-se-ia até até Tomsk, na Sibéria, a 8349 km e 7 fusos horários de Lisboa.

Nenhum outro espectáculo move e comove tanta gente em tão curto espaço de tempo, tão regularmente. O futebol é circo. E é bom que assim seja, tanto melhor quanto mais o pão escasseia ou está em causa.

Fomos afeiçoados a crivar o entretenimento como torpe, assimilando-o à ideia de “alienação” da velha mecânica hegeliana, um conceito que venceu nos anos 60 e 70 do século passado, e hoje predomina no senso comum. Considera-se indiscutível haver mais seriedade na sisudez e é tão respeitável uma pessoa grave e “crítica” quanto desconsiderado alguém que se entusiasme, nem que seja por um momento, com frioleiras. Esta disposição intelectual, que em nenhuma circunstância admite interrogar-se como judicativa e irreflectida, repudia atribuir ao entretenimento qualquer categoria conceptual. O cinema, por exemplo, só transpõe as portas da Academia ou emoldurado na fileira das artes ou vergastado como fenómeno mediático. E no entanto ele é visto e vivido (consumido, dirão pejorativamente) pela enorme maior parte dos seus apreciadores como puro e simples entretenimento.

Pior, pois, que o cinema, porque mais irrecuperável, está o futebol e mesmo com a sua recente gentrificação, ele nunca deixou de ser um guilty pleasure.

Ora é nos momentos de maior aflição e privações que o entretenimento mais falta faz. Não para nos perder dos trabalhos que temos pela frente ou para nos esquecermos do que nos cabe ser responsáveis, mas para nos adoçar um pouco mais a passagem pelo vale de lágrimas. Para termos uma vida um pouquinho melhor.

As notícias sobre a sua morte foram claramente exageradas


enlil,

 

O DN TV, habitualmente muito fiável na informação que proporciona, publica hoje um quadro com os pontos de rating dos canais de TV portugueses, equivalente às audiências da semana passada.

O comentário do editor deste suplemento começa a sua análise do seguinte modo: “o conjunto de canais de cabo e IPTV regressou à liderança, ao ter ultrapassado a TVI.”

Este raciocínio, assaz frequente, é falacioso e produz conclusões erradas. Porquê?

Porque compara performances de cariz diferente. Ou seja, compara a performance dos canais com a de plataformas de distribuição. A única afirmação que se pode fazer neste capítulo é que 27,7% (um número bem avultado) dos espectadores tiveram acesso à TV através do cabo/IPTV e 72,4% através da denominada free TV (não, não se vai voltar a falar do problema da TDT…).

O problema da tal comparação induz o erro de considerar que o universo cabo/IPTV é homogéneo. Bem pelo contrário, é composto pro canais heteróclitos, ferozmente competitivos entre si (vide a guerra entre FOX e AXN) e servindo segmentos de espectadores com interesses em conflito: se o filho quiser ver o Panda, a mãe o FOX Life e o pai a SporTV, quem ganhará?

Last but muito not least sucede que se formos vasculhar as audiências dentro do cabo/IPTV descobriremos que cerca de 40% dos seus espectadores estiveram com os canais generalistas, ou seja a TVI, a SIC e a RTP 1, estão sempre no topo das preferências dos espectadores, sendo que a RTP 2 costuma ficar atrás da SIC Notícias e bastantes vezes do AXN ou do Hollywood.

As TVs generalistas estão em crise e estreitam cada vez mais o seu espectro de audiência? Sim. As suas audiências têm diminuído paulatinamente? Sim, em Portugal e no resto do mundo. Vão a caminho da extinção? Só se for muito devagarinho…

Media wars


enlil,

Christopher Wool, “Hole”, 1992

 

Como Portugal é um arrepiante deserto na criação comercial de conteúdos e como boa parte dessa minúscula criação é financiada por concurso estatal, ou seja, independente das condições do mercado, aquilo que se passou ontem deixa-nos indiferentes.

E no entanto esteve em cena um conflito que pode mudar profundamente a nossa vida. Habituámo-nos a usufruir do acesso cómodo e a muito baixo custo de uma miríade de conteúdos criativos. Entre eles alguns que nos deviam estar vedados.

O que se passou? A Wikipedia esteve em blackout durante o dia de ontem, em sinal de protesto contra a aprovação, por parte do congresso dos EUA, de uma lei que reforça os direitos de autor e de propriedade criativa. Todo o Sillicon Valley alinha com esta posição, nomeadamente gigantes como o Google, o YouTube, etc.

Quem dinamiza esta lei? A indústria cinematográfica, numa palavra: Hollywood. De que se queixa ela? Do aumento exponencial da pirataria, ou seja do download gratuito de filmes em plena fase de exploração comercial a partir de plataformas informáticas. A indústria de cinema gasta milhões a produzir e a promover filmes, cuja rentabilidade é gravemente afectada ao serem usufruídos de graça.

Como é isto possível? Porque certos países como a Rússia e a China, são verdadeiros offshores informáticos, onde a lei dos direitos de autor não chega e onde a pirataria tem porto de abrigo.

Face a esta proposta legislativa, do lado dos distribuidores on line e, sobretudo, dos negócios que dependem do volume de circulação na internet (Google, Yahoo, You Tube, etc.) o alarme foi generalizado e compreensível: esta lei cerceia alguns modelos de negócio, desincentiva bastante a criação de novos negócios, e atira para cima deles o ónus do controle da circulação e acesso a conteúdos, com os tremendos custos de hardware, software e legais que implica tal tarefa. Além disso, diminui a base de clientes.

Uma guerra de milionários, portanto? Não só. A defesa dos direitos de autor e o combate à pirataria é a pedra basilar da actividade criativa. Imagine o leitor que compõe uma canção. Imagine que ela se torna um êxito tremendo no Youtube e nas plataformas de descarga gratuita de música. Toda a gente trauteia a sua canção e anda com ela no mp3 ou no ipod. Toda a indústria ligada à internet ganhou com a sua canção, só autor é que não viu um tostão da sua obra.

Aparentemente a lei proposta além de onerosa é inaplicável. No entanto é necessária. Mas o que temos em cena, debaixo do conveniente nome da liberdade de expressão, é uma guerra de titãs: entre o mega produtores e distribuidores de cinema e os mega operadores e distribuidores informáticos. O que temos, pois, é uma guerra entre duas indústrias, dois modelos de negócio, cujo resultado está a moldar e moldará o futuro da indústria de conteúdos. Precisamente o futuro do tal compositor.

Diabas de salto alto


enlil,

Não serei o maior fã de música country; parece-me chata e repetitiva como a pradaria, branca como o exército de Lee e pacóvia, de pescoço vermelho. Ou seja, estou mesmo em ponto de rebuçado para ser desmentido – foi o que sucedeu. Em 2011 formou-se um grupo (super grupo, diz quem sabe) de cantoras com o nome de Pistol Annies (eh pá, alerta laranja!).

Confirmam-se as imortais palavras do Padre Américo: não há rapazes maus. Só raparigas, não disse ele, mas penso eu depois de ouvir a canção Hell on Heels (alerta vermelho!) cartão de visita destas descendentes de Calamity Jane. Ora atentai na letra que elas disparam.

Rapazes: viola ao saco; já nem na country music, último reduto das camisas de flanela aos quadrados, barba por fazer e cerveja bebida pelo gargalo, estaremos, daqui em diante, postos em sossego. Rendo-me.

 

Terapia de choque


enlil,

 Maurizio Cattelan, “Hanging children”, 2004

(instalação na Piazza XXIV Maggio de Milão, patrocionada pela Fondazione Nicola Trussardi)

 

Monica Ali não é a melhor escritora do mundo. Se o seu primeiro romance, “Brick Lane”, teve um êxito estrondoso e levantou uma acesa polémica entre a comunidade bangladeshi no Reino Unido, à qual ela pertence e cujo quotidiano desenraizado é minuciosa e conflituosamente descrito no livro, já a segunda obra publicada por Ali intrigou os literatos e o público. Chama-se “Alentejo Blue” e decorre nessa estranha e despovoada charneca, perdida no extremo sudoeste da Europa. Contar histórias acerca da gente exótica que vive no meio de nós e nos escapa à atenção é muito atraente, misterioso até; agora discorrer sobre um lugar que a ninguém diz nada nem nunca ouviu falar, que melhor receita poderia haver para o insucesso?

Todavia em “Alentejo Blue” Monica Ali demonstra ter bastante apurada uma das qualidades primordiais de um escritor: o poder de observação. Ou seja, a capacidade de recolher de uma realidade aquilo que estando à vista de todos, a todos permanece obscuro. Por exemplo: “Alentejo Blues” começa com um homem enforcado, um velho que se suicida e é descido da árvore por outro velho, seu amigo de infância que durante primeiro capítulo recorda tudo por que passaram juntos.

A um leitor britânico isto é apenas uma construção dramática e muito provavelmente também um leitor urbano português assim o entenderá. Nos últimos 40 anos o Alentejo rural esvaziou, converteu-se num baldio dada a inviabilidade da agricultura de sequeiro e ganhou entre os citadinos nacionais, agora a maior parte da população, a ilusória imagem de um paraíso de tranquilidade e de ecologia. Tal olhar beatífico esquece que era habitual os velhos suicidarem-se, num acto de puro altruísmo, para não pesarem nas famílias. O trabalho era sazonal, nem sempre havia pão para pôr na mesa e o pouco que havia era inconveniente desperdiça-lo em quem já não tinha força nos braços para render mais uns imprescindíveis tostões. Com um baraço e um sólido ramo no alto de uma azinheira, equilibrava-se a economia doméstica. Embora contrário aos preceitos vigentes, tão comum e tido como decente era o suicídio, tão natural digamos, que a igreja declarou o Alentejo como terra de missão.

Esta tradição foi quebrada por Marcello Caetano quando, talvez no único gesto memorável do seu ministério, estendeu a segurança social ao povo rural. A decisão teve um efeito dramático na taxa de suicídios no Alentejo cuja curva mergulhou a pique como os papéis do PSI20. Depois foram estes anos que lá em baixo pareceram de leite e mel. Não que os jovens quisessem continuar naquela vida, que bem perceberam, pelo que contavam os velhos, não ter presente quanto mais futuro, mas agora sempre um ancião podia gozar o solinho das manhãs sem ter que, literalmente, deitar contas à vida – do mal o menos.

Parece, no entanto, ter havido no outro dia uma senhora das situações a falar do Sistema com maiúscula e a dizer que ele não aguenta se não voltarmos aos dias anteriores a Marcello Caetano, aos tempos do quem paga pode, em vez do vigente quem pode paga. Ela lá sabe as contas que faz.