Nunca demasiado longe


enlil,

De Madrid a Guadalupe, já perto da fronteira portuguesa, por uma manhã de verão, rompendo a ardente atmosfera da meseta castelhana. Quatro horas bastam hoje para sofrer a jornada, suficientes para descer a A5/E90 até Navalmoral de la Mata e aí meter pelos Ibores, serra áspera, curva e contracurva bordejando escarpas, pequenos povoados à espera, que esperar é actividade primeira dos extremenhos, e a temperatura recusando baixar dos 35º, mesmo lá em cima. Quatro horas disto, portanto, bem menos do que em 1923, quando Manuel Cossio, se meteu à estrada com o mesmo objectivo e demorou três dias, maravilhado com o conforto do magnífico autobus em que viajou.

E para quê? Para numa dobra da estrada se deslumbrar com a visão repentina do Real Monasterio de Santa Maria de Guadalupe encravado a meia encosta, sem explicar porquê de tanto luxo naquele ermo desencantado.  

No largo central de Guadalupe um almoço de tapas, as migas extremenhas, saborosas mas paupérrimas, mais depuradas se possível do que as nossas alentejanas.

E agora a razão de ser disto: a sacristia. “La reina de las sacristias de España”, porque, entre talhas de finíssimo ouro e esmerados frescos, está decorada com sete retábulos, cada um com “três varas y medio de alto, y dos varas e medio de ancho”, tal e qual como os vemos agora, representando os santos monges do mosteiro. O trabalho foi entregue a Zurbarán, encomendadas as pinturas em 1639 por Fray Juan de San José, Procurador e Mayordomo Mayor dos jerónimos e que o pintor executou em Sevilha, donde as enviou, não todas de uma vez, por caravanas de burros, sabe-se lá quanto tempo demoravam a chegar. Todavia, só em 1647 a sacristia é inaugurada, mantendo a sua fisionomia, milagrosamente, até hoje.

Cada um de nós tem que escolher que vida pretende: a de Zurbarán ou a do seu nemesis Velázquez, contemporâneos e rivais; aquele provinciano e apologista da Contra Reforma, este cortesão e cheio de delicadezas. Escolho Diego sem hesitar, mas estes Zurbaráns, de Guadalupe, condensam tudo que há a dizer na pintura e valem um mundo.

Para mais, são os únicos que podem ser vistos en su sitio original de acolhimento e não em museus, instituições muito práticas para o amador, mas que desvirtuam o sentido da arte, sobretudo a que foi concebida com o fito de servir e decorar os lugares para onde se destinava.

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