John Divola, “Zuma”, 2011
Este episódio da reforma do Senhor Presidente da República (é do cargo que se trata e não do corpo que correntemente o ocupa), confesso que me deixa perturbadíssimo (podem gozar à vontade).
Tudo o que o Senhor Presidente da República diz tem que ser verdadeiro e reflectido. Caso contrário é a própria Instituição que fica em causa e com ela o Regime. Isto tanto é certo nos EUA, como em França, como deveria ser em Portugal. Assim sendo, como é possível que em resposta às declarações do Senhor Presidente se levante tal surriada e chacota? Como podem não ser levadas a sério e não merecerem reflexão? Será que alguém suspendeu, por um átomo que fosse, as suas certezas e verificou a veracidade das contas que ele enunciou? A imagem que me ocorre é a do sábio que no meio dos selvagens lhes ensina que é a terra quem anda à volta do sol e todos o apedrejam por ir contra o senso comum deles.
Agora, se a afirmação do Senhor Presidente da República é extemporânea e falsa, o caso não muda de figura mas de figurante. Como é possível o transitório ocupante do cargo proferir declarações que não correspondem à realidade, sem um sobressalto político? E se as contas estão incorrectas, sendo ele economista e professor da dita matéria, como poderemos levá-lo a sério em ambas as qualidades daqui em diante? Ficará corrompida a Instituição da Presidência se for provado como espúrio o lamento suspirado aos microfones e câmaras dos media. Ora isto não é motivo de troça mas de aflição. Eu creio…
O sinal da extrema decadência institucional e intelectual em que vivemos revela-se no facto de ninguém ser dado como responsável por aquilo que diz. Um indivíduo pode dizer que não foi ministro tendo sido, que nenhum opróbrio o inibe, pode proferir as piores torpezas que só encontrará a censura dos ombros encolhidos. Tudo cai no meio da praça pública, as vestais do costume ululam a sua indignação, os palhaços executam o seu número cómico, e um par de horas depois tudo fica esquecido e sem rasto na memória e entra em cena outra fait divers.
Já nem sequer é um problema moral, até porque a moral deve ser mínima se quiser ser eficaz, em vez deste infame moralismo vigente, confundido com bisbilhotice e delação. É um problema de regime e de civilização, pois quando já parece corrente e adquirido que todos mentem e a mentira faz parte do discurso, então nenhum dos pilares da vida em sociedade, a confiança e a segurança, é suficientemente firme para se manter.


o pr é um génio do coaching. com esta sua intervenção desviou-nos a todos, incluindo os afamados bloguistas do DO (embora alguns agradeçam), daqueles que deveriam ser os assuntos destes dias: o delito do joão proença e a troika a clamar pela baixa da tsu. qual mourinho, que chama a si a polémica quando algum dos seus aparece debaixo de fogo, com esta sua intervenção chamou a si a indignação do “povo” que segue as news, provocando toda esta algaraviada dos media e desviando-nos do que nos deveria interessar.
já deu conta de algum post, no DO, sobre o delito do joão proença, que salta de entrevista em entrevista a tentar explicar a sua posição, incriminando outros e esquecendo-se de explicar aos associados dos sindicatos da “sua” ugt porque fez o que fez?
Parece-me que quem está agora a desviar a conversa é o Carlos, referindo um assunto que não é a matéria deste post.
Sim, estou de acordo: é uma vergonha, a forma como as declarações do nosso presidente da República estão a ser comentadas, em muitos e muitos lados, mesmo naqueles que se têm por equilibrados e portadores de “bom senso”, se assim se pode dizer. Mas que ele não deveria ter dito o que disse, também me parece. E que, agora, não poderá esclarecer, é uma evidência. E que nós todos, como povo, nada ganhamos com isto, também me parece certo.
Posto isto:
Para que serve a numerosa Casa Civil (e a casa militar) do Exmo PR?
Os seus assessores de política e de imprensa?
Não fazem reuniões, procurando prever perguntas de terceiros ou OCS em público?
Ou o profissionalismo foi de ali arredado?
A verdade nua e crua é que mais valia o presidente estar calado. Nem sequer se trata de saber se é mentira ou não (é omissão de uma parte da verdade, pelo menos), mas a moral – não lhe chamo moralismo – não é descabida aqui, Zé. As despesas do presidente, já de si muito atenuadas pelos direitos que tem enquanto tal, têm de caber nas duas reformas que ele ganha. Se não cabem, o problema é dele. Mas fica-lhe muito mal vir choramingar as suas “dificuldades” no ombro de um povo que está quase à fome.
Já ri muito com as piadas que se disseram, escreveram, pintaram ou caricaturaram – o homem prestou-se a isso – mas o que a senhora diz é o mais sensato que já ouvi.
Eu também já me ri com este assunto, e digo-lhe mais: é o que nos vale. Não fora o nosso sentido de humor e seríamos um povo bem mais violento. Razões não nos faltam, infelizmente. Mas… rir é bom, um excelente remédio mesmo, mas não nos pode impedir de ver as coisas como elas são.
A questão que ponho é anterior a essas duas que referes. Não é da verdade ou mentira, ou a do juízo moral que se possa fazer. É a da inimputabilidade daquilo que se diz. Uma frase do Presidente tem que ser levada a sério e tem que ter consequências. Se o meu comentário sobre essa frase fôr também ele irresponsável, chocarreiro e deturpado, também eu tenho que ser responsabilizado. Parece (e é!) que tudo se pode dizer sem o menor apego à verdade. Este é, para mim, o primeiro e maior problema, antes dos outros.
E nisso dou-te inteira razão.