a justiça que se vê


enlil,

 

Não faltaram vozes para se abespinharem com as imagens de Strauss-Kahn a ser levado algemado e debaixo de escolta, aquando da sua prisão em Nova Iorque. Sucede que o senhor foi sujeito a um tratamento igual a qualquer outro cidadão nas suas circunstâncias, fosse ele um serial killer ou um membro do Congresso, segundo um procedimento perfeitamente estipulado by the book.

O sr. Francisco Esperança, cidadão de Beja, após degolar mulher, filha e neta e, ao que consta, todos os animais domésticos de sua casa, foi dado a conhecer com imagens de tronco nu, a ser levado pela polícia em passo de corrida, durante a noite. Não me recordo de outros cidadãos, talvez de mais fino calibre social e arguidos de crimes menos populares, a quem igualmente tenha sido dada voz de prisão, que sofressem tão ignóbil exposição.

São casos limite como estes que nos permitem perceber que, pelos visto, em Portugal a igualdade de tratamento pela justiça depende da magnitude dos crimes e do estatuto social, ambos ajuizados de forma ad hoc pelo repórter mais à mão.

14 comentários em “a justiça que se vê”

  1. Creio que se engana na conclusão, José Navarro.
    Em Portugal, a exposição destes casos, está na razão directa da necessidade de transmitir à opinião pública, a “eficiência” dos serviços que o cidadão paga, através dos seus impostos.
    Ou seja; quando a malta começa a miar mais alto contra a inércia das forças policiais, os tipos fazem umas incursões à cinema americano, nos bairros problemáticos, fazem umas operações stop às 4 da matina, etc.
    Passa-se o mesmo com os tribunais e o ministério público.
    Até parece que ha alguém por trás que se agonia quando vê nos telejornais o maralhar a bufar e, pega no telefone e diz a outro alguém; é pá mandem lá uns caramelos e liguem para as televisões a dizer que vão, quando vão e onde vão, qué pra ver seste maralhal se cala um bocado.

    1. Desculpe discordar Bartolomeu. Não podemos ao mesmo tempo e na mesma frase considerar que “eles” são ineficazes e suficentemente e maquiavelicamente previstos para planear as coisas assim. Isto não é uma questão de desleixo ou planeamento, é “apenas” uma questão de mentalidade. De todas as partes.

      1. Não, não é óbvio. Ele recusava-se, e? Então, brincava-se aos papás e aos meninos desobedientes, esquecendo do essencial? O que interessava era a detenção, …ponto.
        Sabem se ele tinha a catana consigo no interior? Não. Sabem se ele se insurgia? Não. Sabem se ele se ofereceu à detenção (e aqui justificava-se o vestir-se)? Não.
        Bitaites.

  2. A graça (salvo seja) disto tudo é que 99% do povo que bocifera moralidade… LINCHAVA-O!

    Foi a mesma (imoral) policia que o evitou á porta do tribunal!

  3. E se o homem (Sr. Esperança) quis mesmo sair assim? é justo a policia obrigá-lo a vestir-se?
    Existiriam muitos ” ses ” para explicar…
    No entanto não vale a pena deitar fora o bébé com a água suja do banho, na verdade o erro será sempre a generalização. Pronto lá vem a sugestão que os policias são uns pacóvios.
    Eu não concordo com essa generalização estremada. Acho até de péssimo gosto acusar uma classe profissional por dá cá aquela palha.
    Tenho pena do coitado do Sr. Esperança que Deus ( ou sabe-se lá quem o tenha) ter feito o que fez á família, agora se está de calças em tronco nu, de cuecas ou boxers, de facto não constituí matéria importante.
    Comovem-me os actos, não as roupagens que a sociedade inventou para parecermos todos bonitinhos e queridos.
    Para mim o homem quis sair assim, pelo que se consta foi ele que saiu de casa e se entregou.

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