A pior canção (“Trololo”), o pior cantor (Eduard Khil) ou o pior playback de sempre?
A pior canção (“Trololo”), o pior cantor (Eduard Khil) ou o pior playback de sempre?
Estavam a jantar quando o avô ouviu na rádio que os turcos tinham desembarcado. O pai tinha razão, quando as coisas começam a correr mal, só pioram. No dia seguinte de manhã, a família conseguiu demover a teimosia da mãe que se recusava a sair daquela casa: ali nascera, ali casara, ali tivera os filhos – fugir? Nem pensar. “É só por uns dias, até as coisas acalmarem” urgia o pai. A mãe apenas se convenceu a partir quando viu que todos os vizinhos desfilavam na rua de malas aviadas, uns a pé, outros formando um cortejo de automóveis. Vão todos passar uma semana em casa de uns familiares, no outro lado da ilha. E depois regressamos quando esta estúpida guerra terminar. Será como ir de férias à força, sorriu o dono da mercearia que nunca fechava.
Nos anos 60 Famagusta começava a dar nas vistas como uma das pérolas balneares do Mediterrâneo. Elizabeth Taylor passeou por lá as suas jóias durante um verão e de noite as ruas à beira mar trepidavam de romance e aventura estivais. Às portas da velha Famagusta, uma cidade que se gabava de ser tão preciosa e histórica como Dubrovnick, cresciam os hotéis e as discotecas no bairro novo de Varosha, o centro estival de águas tépidas e areias finas, onde os homens davam-se ares de James Bond, encantados por mulheres de bikini colorido. Que futuros radiosos ali se prometiam.
Mas depois veio a política. Os radicais gregos de Chipre, instigados pela ditadura de Atenas, reclamavam a enosis (unificação) com a Grécia, ameaçando a minoria turca. Da ideologia ao golpe de estado foi um salto de pulga dado em 15 de Julho de 1974. Ato contínuo o exército turco invadiu Chipre, dividindo a ilha ao meio, para proteger os seus patrícios.
Varosha ficou do lado de lá, o turco. Os seus 26.500 habitantes de origem grega, partiram e nunca mais voltaram. Entretanto, uma resolução da ONU interditou as autoridades ocupantes de disporem das propriedades e dos registos prediais de Varosha, só passíveis de serem entregues aos seus legítimos detentores, os quais estão proibidos de atravessar a linha militarizada.
Resultado? Desde 1974 que Varosha está à espera. No stand de automóveis do centro da cidade ainda estão os carros daquele ano prontos a serem vendidos e entregues. Nos armários continuam pendurados os vestidos de noite e sobre algumas mesas espalham-se as sobras do último pequeno-almoço. À beira mar ergue-se o casco oco dos hotéis aguardando os seus hóspedes. Há 38 anos que ninguém pode entrar em Varosha. Na Europa.
Kathryn Parker Almanas, “Juice of Life”, 2009-2010
É um homem sem rodeios, traz para a mesa o tacho das batatas cozidas com pele. Cada um terá a oportunidade de as descascar como quiser. A todos quero recordar as palavras de Elliott – independentemente do contexto, sublinhou.
April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Em Abril – 2012 – revelam os números dois fenómenos concorrentes, produzidos no mesmo ovo. Primeiro: uma concentração vertiginosa e desesperada de riqueza nas camadas superiores. Um sentimento de fim dos tempos, de facas antes nas gargantas que nos pulsos. Segundo: a devastação e a ruína da classe média, a de meia idade sobretudo, dispersando os seus pedaços pelas mandíbulas dos cães que a farão desaparecer. Como faziam os assírios aos cadáveres dos inimigos.
As batatas arrefecem no prato se não as comermos depressa. Deves tatuar este número no teu braço para não mais o esqueceres: 4/12.
O que é longe?
Um carmelita fecha-se para o mundo na sua cela. Mas bastar-lhe-á correr um par de ferrolhos e eis o mundo de novo à volta dele. Longe como sem igual em mais lugar nenhum, é em Edinburgh of the Seven Seas, onde chove quase sempre e o vento nunca se cala. O casario foi implantado de porta virada aos suaves alísios que sopram de norte ao passo que nas costas bate-lhe a sombra do pico Queen Mary, tão alto como a Serra da Estrela, a defendê-lo das investidas dos frios antárticos.
Em todo o planeta, não há lugar habitado mais remoto do que este. E tão longe está sobretudo porque dele não há saída.
O que será viver na ilha de Tristão da Cunha? A massa de terra mais próxima é a famosa ilha de St. Helena, que dista a bagatela de 2430 km (equivalente a Lisboa-Budapeste). Mas só se chega a Tristão da Cunha provindo de barco da Cidade do Cabo; são seis dias de mar para percorrer 2810 km (Lx-Oslo). O barco só passa por lá um par de vezes ao ano. A ilha fica de fora de todas as rotas marítimas e aéreas e lá em cima na estratosfera mal lhe tocam as franjas do perímetro de alcance dos satélites. O profundo Sul do Atlântico é a maior vastidão desértica da Terra, com troços ainda por cartografar.
Tristão da Cunha tem 261 habitantes que constituem oitenta famílias distribuídas por oito apelidos. São súbditos ingleses e nas fotos do site fazem cara de quem tem um modo de vida vulgar, como se habitassem no Hampshire. Todavia não sabemos nada da vida deles, se vivem na pitoresca harmonia de uma aldeia inglesa ou se medram no horror, aqui ampliado, da intriga e da bisbilhotice que costumam assolar as pequenas comunidades humanas. Nenhum forasteiro pode comprar terra ou mesmo instalar-se na ilha e para visitá-la necessita de visto, só obtido depois de respondido e aprovado em conselho local um minucioso inquérito sobre o motivo da viagem.
O conceito de “não há nada que fazer” ganha aqui uma dimensão inusitada. Nas terras comunitárias todos têm um torrão onde cultivar batatas; há algum gado mas a sua reprodução é severamente controlada para não desbastar o pouco pasto e para que as famílias ligeiramente mais ricas não acumulem riqueza. Fora isso pode-se trabalhar alguns meses ao ano na pesca do lavagante e na minúscula fábrica de conserva de peixe.
Só em 2011 os aldeões de Edinburgh of the Seven Seas passaram a ter acesso à televisão do exército britânico, emitida a partir das Falklands.
Ondas e vento, dia após dia, após dia. Meses. Anos. A solidão não se imagina, sente-se, porque experimentá-la está para lá de qualquer ideia. Assim é a vida em Tristão da Cunha.
As performances, é da sua natureza serem epidérmicas, meros fenómenos dos quais sobram não mais do que vestígios. Se é próprio da arte “ficar”, as performances contestam-no, provocando uma arte que não quer resistir ao tempo.
Seria preciso ter estado lá para viver o acontecimento. Doutro modo só nos resta dar conta dele e percebê-lo, o que se verifica como manifestamente empobrecedor. Entender as coisas é sempre menos do que as próprias coisas; uma noção que talvez fizesse falta insistir nos tempos actuais.
O nome engana: apesar de viver e trabalhar em Los Angeles Vanessa Beecroft é nativa de Génova. Em Abril de 2009, apresentou no PAC (Padiglione d’Arte Contemporanea) de Milão uma performance intitulada “VB65”.
20 emigrantes africanos, sentados ao longo de uma mesa com 12 metros, todos envergando fato escuro, embora alguns estivessem descalços e outros descamisados, cearam frango assado, pão escuro e água, sem talheres, pratos ou copos. A função durou 3 horas e decorreu perante uma selecta plateia de convidados.
Além das leituras quase instantâneas que “VB65” instiga, o nosso olhar ficará enriquecido ao saber que Vanessa Beecroft sofre de disfunções alimentares, desde a anorexia que atormentou a sua adolescência até à bulimia com que se tem debatido em adulta.
Recorde-se que a última ceia de Leonardo da Vinci captura o instante em que Cristo anuncia haver um traidor no meio de nós.
Diz-se que o rosto é o espelho da alma e que a sua superfície é um sismógrafo onde se registam as vibrações profundas. Por isso, além das poses arqueadas e da composição turbulenta, o fresco de Da Vinci estampa na cara dos apóstolos uma perturbação tanto mais patética quanto contrasta com a levítica serenidade do Cristo traído.
Zeng Fanzhi, 1999
Zeng Fanzhi faz das artes plásticas uma forma de cirurgia plástica. Pelo que se apropria da Última Ceia como mais um passo para o tratamento do rosto em pintura. Primeira operação: todos os amesendados ostentam a mesma cara: impassível, justaposta, esboçada, sem género nem carácter. Fica apenas a composição reproduzida da de Leonardo e a sua expressividade, além das mãos, essas mãos que apontam para todo o lado à procura. Segunda operação: sobre a toalha espalham-se talhadas de melancia e nada mais: uma ceia ainda mais frugal que a canónica – e vermelha. Terceira operação: todos envergam o uniforme de pioneiros, a juventude do PCC; a traição adquire cunho político e típico da tradição comunista chinesa, onde a conspiração, o atrito entre grupos de pressão, os putsch para a tomada do poder interno e as quedas em desgraça eram (são?) a norma. O calvário iniciado na Última Ceia, ganha com Fanzhi outras conotações – mas calvário, sempre.
Rauf Mamedov, 1998
Rauf Mamedov utiliza um dispositivo tão simples que parece óbvio depois de apresentado. Os corpos agitam-se à imagem da composição de Leonardo, mas agora há entre os protagonistas uma característica comum: têm todos um cromossoma a mais. Como o nosso olhar é deseducado, a primeira tentação será dizer: “São todos iguais”. É este o ponto de Mamedov: não são. A humanidade está para além do rosto.
Rauf Mamedov, “Última Ceia” (detalhe)
Adi Nes, 1999
No final do século passado o fotógrafo Adi Nes tornou-se notável ou notório, conforme o lugar donde olhamos para o seu trabalho, com a série fotográfica “Soldados”. Remetendo para a iconografia cristã, Adi Nes fotografou os soldados do seu país encenando-os em poses que desvaneciam qualquer dúvida acerca da pulsão homoerótica que o animava. Sobre isso, escolheu os rapazes mais trigueiros para modelos, confundíveis com árabes. Não é despiciendo referir que Adi Nes é israelita, pelo que qualquer uma das características acima elencadas (cristianismo, exército, árabe) desfraldou celeuma.
Que a partir desta série Adi Nes tenha atingido envergadura internacional, que o seu trabalho seja premiado e desenvolvido ao abrigo de instituições oficiais, bastaria para nos elucidar acerca da natureza política de Israel. Talvez que num raio de 1000km a leste de Tel Aviv, onde Nes tem residência, qualquer uma das sua fotografias constituísse motivo para no mínimo ser agraciado com vergastadas em vez de crítica.
Vivek Vilasini, “Última Ceia em Gaza”, 2008
Dizem as notas que Vivek Vilasini, indiano de nascimento e vivência, aborda a identidade cultural. Seja por aí. Ao deslocar a última ceia uns kms mais a sul ou a leste, trocando os homens pelas mulheres, prefiro ver nesta versão a capacidade de tudo ser revelado através dos olhos e das mãos. Isso, e a pose ser perfeitamente codificada pelo que já sabemos da cena, permite-nos identificar os sentimentos de traição e ansiedade. Se a última ceia, no seu significado clássico, é o prólogo do grande momento, aqui parece-nos ser o epílogo de qualquer coisa que já aconteceu e foi lá fora. Tudo do avesso, portanto.
Andy Warhol, 1984
A ressurreição do Cristo é o fulcro da religião cristã. Se não há sobrenatural, não há crença e sem ele o cristianismo não passaria de uma cartilha moral. Mas a última Ceia, com o passar das eras, veio a consolidar-se enquanto uma das fundações do que genericamente se apelida de civilização Ocidental. A partir dessa cerimónia estabelecemos que o elo supremo entre os humanos está em partilhar o pão e o vinho; assim como partilhar o pão e o vinho à mesa, se tornou um gesto cultural que designa os momentos decisivos de uma vida – ou mesmo de um dia, se formos civilizados.
O fresco de Leonardo pintado no limite do Quatroccento, é uma das obras de arte mais decisivas jamais imaginadas. A sua encenação é de tal modo irrefutável e tão justa a sua coreografia, que a ceia de Jesus com os apóstolos foi assim de certeza, mesmo que na realidade não tenha sido assim.
Este carácter absoluto, ao qual pouquíssimas obras ascendem, fizeram do fresco uma espécie de palimpsesto sobre o qual se vão inscrevendo novas visões, num diálogo interminável, por vezes sereno, outras agreste, como costumam ser as conversas interessantes. Isto já não tem nada a ver com religião e às vezes nem sequer com arte, mas sim com o modo como habitamos o nosso tempo.
São algumas dessas versões, desejavelmente inesperadas, que se vão reproduzir nesta série.
Kai Althoff, “Domingo de Ramos”, 2010(?)
Na Alemanha, no que à arte concerne, nunca estamos onde esperaríamos encontrar o que procurávamos. Dizendo pintura, imaginam-se as telas sofridas e suplicantes dos neo-expressionistas (Kiefer, Baselitz), habitantes da primeira linha da Guerra Fria, com os seus anúncios de tempos finais. Mas poderemos acabar por ir ter a Kai Althoff. Donde lhe vem o traço? Talvez de Grosz, subtraindo-lhe Weimar.
Revendo pais e avoengos, rejeitando pais e avoengos, Kai Althoff anuncia-nos um Domingo de Ramos. Ou seja, o dia em que a revolução entrou na Cidade, aquela revolta que ao fim de uma semana se esvaziaria num fiasco total, no seu programa de derrube dos fariseus e do jugo de Roma, com o líder traído, humilhado e executado. Só a História foi diferente disto. Mas isso é que vemos neste quadro.
Brilham os olhos de Rita no escuro aquático do medo.
Orson Welles era demasiado inteligente para gostar de metáforas. Com ele era tudo literal. Donde o medo dela, nem é bem medo, será ansiedade?, diante de uma parede de vidro. Sabemos que é azul porque já ali estivemos, mas o que deles vemos é contra uma luz líquida e branca.
“Sigamos o cherne, minha amiga! Desçamos ao fundo do desejo”, segreda-lhe ele, enquanto de costas para que não lhe vejam os olhos, ou os dentes.
E Rita vibra e vê circular o cação, tão esguio na sua pele malhada, num sossego de águas transparentes (foi mesmo assim!):
“Em cada um de nós circula o cherne, quase sempre mentido e olvidado.” Diz ela o que lhe vem à cabeça loira.
Só no fim concordam que se podem beijar sem receio. Entrega-se Rita, multiplicadas Ritas. Vitória literal de Welles.
Henry Hey não é o pianista de jazz mais famoso da actualidade, nem o mais interessante, nem o mais inovador; mas como grande parte dos jazzmen dos nossos dias, tem um domínio seguro das formas musicais.
Sarah Palin é um bocado desligada, em vários sentidos da palavra, nenhum deles abonatório. As suas falas são por isso desconexas, como se estivesse a descobrir as respostas no preciso momento em que lhe fazem as perguntas. Tornou-se por isso uma especialista em calinadas abissais, que depressa se transformam em catch frases ou em T-shits
O que Henry Hey fez foi capturar as precipitadas inflexões rítmicas e harmónicas do discurso de Palin e compor com elas uma peça de piano ao correr das suas alocuções. Não saiu uma obra-prima, nem isso se esperava, mas não deixa de ser brilhante. Ou intrigante. Não é um trabalho recente, embora seja de todo inédito em Portugal.
Portugal sempre foi um país extraordinariamente violento.
Para não ir mais atrás, em 1807 participámos com brio na Guerra Peninsular, sendo que não houve por cá um pintor à altura de Goya para desenhar a carvão o que fazíamos aos franceses que se atrasavam da coluna. Seguiu-se uma assanhadíssima guerra civil que demorou a extinguir. Mesmo depois de assinado Évora-Monte, continuava o país a ser uma charneca fora de portas das cidades, com Brandões, Remexidos e outos bandoleiros que tais a ditar a lei do punhal onde lhes aprouvesse.
A coisa pareceu acalmar no último quartel do séc. XIX, mas foi só para tomar balanço. No curto período de 13 anos, entre 1908 e 1921 foram assassinados um Rei, um Presidente, um Primeiro-Ministro (António Granjo), um herói nacional (Machado Santos) e 2 Ministros, os 4 últimos na Noite Sangrenta. Fora alguns ajustes de contas avulsos, como o caso do Senador José João de Freitas que em Maio de 1915 tentou matar a tiro num comboio o Primeiro-Ministro indigitado João Chagas, mas acabou linchado pelos populares no Entroncamento. Um palmarés destes, nem nos famigerados Balcãs.
Seguiu-se o Estado Novo, que até foi levezinho em crimes de Estado, se o medirmos com os seus congéneres ditatoriais: Espanha e Grécia, por exemplo, para não falar dos pequenos fascismos que medraram à sombra de Hitler e Mussolini, como a Hungria, a Roménia, a Bulgária, Vichy, a Croácia dos Ustase ou a Sérvia de Nedic.
Manhoso como só ele, Salazar trocou os fusilamentos políticos e o derrame de sangue nas ruas, à maneira do Chile, da Argentina ou do Uruguai, por safanões num vão de escada. E fez pior, muito pior: destilou a ideia de sermos um povo de brandos costumes. Uma falácia que foi ganhando raízes ao mesmo tempo que durante mais de 10 anos, os mancebos de Portugal passavam os primeiros anos de adultos em África, a praticar brandas e discretas sevícias nos autóctones.
Desculpem o meu francês, mas brandos costumes my ass. Por isso não deixo de ficar estupefacto quando vejo umas correrias no Chiado, com uma polícia aparvalhada, uns rapazolas a menearem-se diante dela em danças tribais, um par de esplanadas de pernas para o ar a dar cabo do turismo e – agora é que não percebo mesmo – uns esganiçados a berrar “fascistas” – a sério?
Querem fazer isto como deve ser, à antiga portuguesa? Ponham então os olhos nos coreanos ilustrados abaixo. Senão será melhor ficarem em casa. Agora assim, com esta mariquices, só demonstram a póstuma e perene vitória do espírito salazarista.
Kennedy quis inteirar-se da cadeia de consequências que o aguardava durante a crise dos mísseis de Cuba em outubro de 1962. Terá então perguntado ao seu estado-maior:
– O que acontecerá se atacarmos a base soviética em Cuba?
– Eles vão ripostar atacando uma base nossa num país terceiro, provavelmente na Turquia.
– E a seguir o que fazemos?
– É a escalada. Temos que atacar uma base deles dentro da União Soviética.
– E eles?
– Responderão com um ataque ao território dos EUA com mísseis intercontinentais.
– E depois?
– Depois, esperemos que haja o bom senso de parar.
Bem avisado, Kennedy, como se sabe, preferiu ficar na dúvida sobre o que aconteceria se não disparasse mísseis contra Cuba, do que ter dúvidas acerca do que iria suceder quando os mísseis estivessem no ar em direcção aos EUA. Chama-se a isto um dilema.
Estava agora a ver na televisão uns senhores, fatalmente economistas, cheios de explicações. Presumo que pararam para pensar, porque só têm ideias paradas. Parar como? O quê? Ou será que ainda não se percebeu que isto é como andar de bicicleta, quem pára, cai. Ou então só vê problemas (limpos, bem desenhados, já com a resposta no ovo) em vez de dilemas (insatisfatórios, conspurcados, obrigando a escolher o mal menor).
Biblioteca Pública
Edifícios Metropolitan e Wurlitzer
Salão de baile do Hotel Lee Plaza
São fotos de uma exposição aqui dos fotógrafos Yves Marchand & Romain Meffre, sobre a colapsada cidade de Detroit.
Em vez de cuidar dos amigos como ouro, que sendo imperecível merece todo o desvelo, tratava-os como prata da casa, da que ganha verdete e tem de ser areada e posta ao sol a corar, sobretudo quando novas amizades poderiam substituir as antigas.
Cortava assim a direito cheio das suas razões in macchina, ora por descobrir que não era suficientemente mimado, ora por anunciar que o laço se desfizera. Sem que desse ele próprio exemplo desses cuidados, declarava agir em legítima defesa e despedia em vez de se despedir. Há quem chame a isto caprichos.
Ora não há quem goste de ser colher na boca de ninguém, para mais se colhido de surpresa, assistindo impotente ao desabamento sobre a sua cabeça do que julgava ser senão o melhor dos mundos, ao menos a parte dele que fomos capazes de ajardinar.
Depois de abandonada, uma cidade fica perdida.
Trata-se de uma resposta de Wellington a uma inquirição ministerial de Londres. A data é de 1812 quando Wellington, recorde-se, comandava a Campanha Peninsular contra o exército de Napoleão.
Senhores,
Enquanto marchavam de Portugal até a uma posição que permite a aproximação a Madrid e às forças francesas, os meus oficiais têm diligentemente cumprido as vossas demandas, que foram enviadas por um navio de S.M. de Londres para Lisboa e daí despachadas até ao nosso quartel-geral.
Arrolámos as nossas selas, arreios, tendas e mastros de tenda e toda a sorte de artigos miúdos pelos quais o governo de Sua Majestade me tornou responsável. Despachei relatórios acerca do carácter, perspicácia e disposição de todos os oficiais. Cada artigo e cada cêntimo foi contabilizado, com duas lamentáveis excepções para as quais suplico a vossa indulgência.
Infelizmente a soma de um shilling e nove pence [muito grosso modo o equivalente actual a €1] continua por contabilizar no dinheiro de caixa de um batalhão de infantaria e tem havido uma hedionda confusão na quantidade de frascos de compota entregues a um regimento de cavalaria durante uma tempestade de areia em Espanha.
Este repreensível descuido pode estar relacionado com a pressão das circunstâncias, já que estamos em guerra com a França, um facto que pode surpreender-vos, senhores de Whitehall.
Isto traz-me ao assunto do momento, o qual é requerer que me elucidem sobre as instruções dadas pelo governo de Sua Majestade, de modo a que possa perceber melhor porque arrasto um exército nestas áridas planície. Eu interpreto que forçosamente será uma de duas missões, tais como enumero abaixo. Levarei a cabo uma delas com o melhor das minhas capacidades, mas sou incapaz de tratar de ambas:
1 Treinar em Espanha um exército de escriturários britânicos fardados, para proveito dos contabilistas e amanuenses em Londres, ou talvez,
2 Tentar que as forças de Napoleão sejam escorraçadas de Espanha.
O Vosso obediente servo,
Wellington
O original pode ser lido aqui.

Ao contrário da vasta maioria dos países, os Estado Unidos não têm uma língua oficial; a adopção do inglês é apenas de facto. Só em 28 estados o inglês é designado como língua oficial, sendo o Hawai o caso único em que existem duas línguas de estado: o inglês e o havaiano. No Novo México e no Louisiana há leis que estimulam o bilinguismo nos documentos oficiais: inglês/espanhol no primeiro, inglês/francês no segundo.
Uma das possíveis razões para este vazio legislativo prender-se-á com a enorme discussão acerca do tema, logo nos primeiros anos após a independência. A aversão a tudo que era britânico grassava vivaz e há pelo menos o episódio de em 1794 as vastas comunidades germânicas da Virginia terem entregue uma petição no Congresso para que as leis passassem a ser publicadas em alemão. A proposta morreu num comité. Outro exemplo, este quase caricato, dessa aversão, foi a proposta de um tal Thorton, que concebeu uma nova grafia para o inglês falado nos EUA, como forma de o distinguir. Além de “e”s invertidos e “i”s com a pinta em baixo, ele afirmava que assim “Di Amerike languids uil des bi az distint az de gevernment, fri from aul foliz or enfilosofikel fasen.”
Mas a história mais famosa é dada à luz em 1814 num artigo de William Gifford no Quartely Review, segundo a qual Charles Astor Bristed propôs ao Congresso que adoptasse o grego clássico como língua oficial. Não era ideia implausível, dada a forte inspiração da república ateniense, frutificada pelas filosofias iluministas e maçónicas, na arquitetura constitucional americana. Após discussão, o documento foi rejeitada apenas por um voto de diferença.
Para muitos esta história é apócrifa e inventada por Gifford, embora tenha sido reiterada pela Cambridge History of American Literature. Para outros comprova que a língua, a sua adopção e a sua grafia, não decorrem de uma inevitabilidade natural, mas de uma decisão institucional.
Os ex-jogador de futebol Philip Cocu é o novo treinador do PSV Eindhoven. Tal como Paulo Futre, creio que nunca conseguirá fazer carreira num clube francês.
Gerhard Richter, “Mustangs”, 1964
Talvez porque o tráfego do aeroporto de Frankfurt seja dos mais intensos e extenuantes da Europa, os controladores aéreos têm fama de arrogantes e impacientes. Depois de conduzirem os pilotos durante a fase de aterragem, limitam-se a informar qual é a porta para onde devem dirigir o avião, presumindo que sabem a sua localização e como hão-de lá chegar, prescindindo de fornecer mais orientações.
Uma vez sucedeu este diálogo entre a torre de controlo e um 747 da British Airways (BA):
[estas conversas são convencionalmente em inglês em toda a parte, mas faz-se aqui uma tradução nada técnica e muito leiga]
BA – Frankfurt, já desobstruímos a pista de aterragem.
Torre – BA, circule até à porta Alpha Um-Sete.
O avião saíu do taxiway [zona de circulação da pista] e parou.
Torre – BA, não sabe para onde deve ir?
BA – Por favor aguarde torre, estou a verificar a localização da porta.
Torre (denotando ríspida altivez) – BA, nunca esteve em Frankfurt?
BA (voz calma) – Sim, estive aqui duas vezes em 1944, mas estava escuro… e não aterrei.