Cartas, quem as não tem?


fiodeprumo,

 

Um post do meu amigo Paulo Abreu Lima está, hoje, na origem deste meu. Ele defende no seu Assim na Terra com no Céu – assimterraceu.blogspot.pt – que devemos guardar as cartas que consideramos importantes. Eu não. Mas durante muito tempo pensei como ele. Explico-me.

As cartas são bocados de nós e contam histórias de uma época que passou. O seu valor reside no olhar de quem as recebeu e naquele de quem as escreveu. Deixá-las cá ficar significa que outros olhares se debruçarão, impiamente, sobre elas. E, a mim, isso desagrada-me.

Neste momento, ando a preparar-me para queimar cartas que ao longo da minha vida conservei e que não quero nem devo partilhar com quem cá fica. Todas elas tiveram um tempo, que foi meu. E que guardei, na ilusão de que o tempo também se guarda. Não é verdade! 

Just Wellington


enlil,

Robert Alexander Hillingford

 

Esta sublime carta de Tolkien que o Rui Rocha teve a feliz ideia de nos dar a conhecer, fez-me lembrar outra, também de uma bizarra actualidade.

Trata-se de uma resposta de Wellington a uma inquirição ministerial de Londres. A data é de 1812 quando Wellington, recorde-se, comandava a Campanha Peninsular contra o exército de Napoleão.

 

Senhores,

 

Enquanto marchavam de Portugal até a uma posição que permite a aproximação a Madrid e às forças francesas, os meus oficiais têm diligentemente cumprido as vossas demandas, que foram enviadas por um navio de S.M. de Londres para Lisboa e daí despachadas até ao nosso quartel-geral.

Arrolámos as nossas selas, arreios, tendas e mastros de tenda e toda a sorte de artigos miúdos pelos quais o governo de Sua Majestade me tornou responsável. Despachei relatórios acerca do carácter, perspicácia e disposição de todos os oficiais. Cada artigo e cada cêntimo foi contabilizado, com duas lamentáveis excepções para as quais suplico a vossa indulgência.

Infelizmente a soma de um shilling e nove pence [muito grosso modo o equivalente actual a €1] continua por contabilizar no dinheiro de caixa de um batalhão de infantaria e tem havido uma hedionda confusão na quantidade de frascos de compota entregues a um regimento de cavalaria durante uma tempestade de areia em Espanha.

Este repreensível descuido pode estar relacionado com a pressão das circunstâncias, já que estamos em guerra com a França, um facto que pode surpreender-vos, senhores de Whitehall.

Isto traz-me ao assunto do momento, o qual é requerer que me elucidem sobre as instruções dadas pelo governo de Sua Majestade, de modo a que possa perceber melhor porque arrasto um exército nestas áridas planície. Eu interpreto que forçosamente será uma de duas missões, tais como enumero abaixo. Levarei a cabo uma delas com o melhor das minhas capacidades, mas sou incapaz de tratar de ambas:

1 Treinar em Espanha um exército de escriturários britânicos fardados, para proveito dos contabilistas e amanuenses em Londres, ou talvez,

2  Tentar que as forças de Napoleão sejam escorraçadas de Espanha.

 

O Vosso obediente servo,

 

Wellington

 

O original pode ser lido aqui.