Um post do meu amigo Paulo Abreu Lima está, hoje, na origem deste meu. Ele defende no seu Assim na Terra com no Céu – assimterraceu.blogspot.pt – que devemos guardar as cartas que consideramos importantes. Eu não. Mas durante muito tempo pensei como ele. Explico-me.
As cartas são bocados de nós e contam histórias de uma época que passou. O seu valor reside no olhar de quem as recebeu e naquele de quem as escreveu. Deixá-las cá ficar significa que outros olhares se debruçarão, impiamente, sobre elas. E, a mim, isso desagrada-me.
Neste momento, ando a preparar-me para queimar cartas que ao longo da minha vida conservei e que não quero nem devo partilhar com quem cá fica. Todas elas tiveram um tempo, que foi meu. E que guardei, na ilusão de que o tempo também se guarda. Não é verdade!


Prezada Helena,
Dou-lhe razao. Mas e um acto de coragem. E por isso que se anda a preparar. Eu nao consigo desligar-me das minhas cartas
Concordo com a Senhora. Quem guarda o tempo queima o tempo.
Pois irei discordar, se me é permitido.
Há uns anos, numa voragem arrumadora, comecei a queimar cartas da minha juventude. Ao fim de meia dúzia delas atiradas às chamas parei, porque entendi que estava ali uma parte da minha história que eu queria preservar, ainda que, pela sua ingenuidade, as cartas não interessassem a mais ninguém (eventualmente só a quem as mandou…). Mas talvez, quem sabe, os meus filhos e netos um dia formassem uma ideia qualquer de uma parte do pai/avô a partir do que ele recebeu na forma de carta e intuíssem o que ele escreveu para receber aquela carta, ou o que ele respondeu àquela carta…
Infelizmente esse mundo acabou – até os grafólogos têm menos ocupação… – porque hoje em dia tudo se resume a um delete…
Bom Dia !
Tenho um amigo que diz que eu sou um fantasminha
que esvoaça entre o Porto e Cascais e que por vezes
me escondo para os lados da Fonte dos Amores do Luiz
Vaz para que ele continue a ter uma bela musa
inspiradora. Eu acho que ele está enganado, esvoaço
mais entre o Porto e o Delito! 😀
Eu estava ansiosa, também eu andava a preparar-me,
mas para arranjar coragem e conseguir “roubar-lhe”
dois minutinhos de mimo e atenção. Já sei que é fácil
arrancar-lhe uma boa gargalhada, que eu adorava ouvir
ao vivo, em carne e osso…quem sabe, um dia vou ter
esse prazer…
Sabe, a última carta que eu recebi, dizia:
Olá Maria, apaixonada tripeira, da terra de Campeões!
” Fermosa e gentil Dama, quando vejo
a testa de ouro e neve, o lindo aspeito,
a boca graciosa, o riso honesto,
o colo de cristal, o branco peito,
de meu não quero mais que meu desejo,
nem mais de vós que ver tão lindo gesto. “
Um Beijo do Luiz Vaz que há em mim
Agora diga-me, como posso “queimar” estas palavras,
que consolam o nosso coração?
Luiz Vaz, com as suas paixões impossíveis, que cantou
o amor ideal, que ainda hoje me faz suspirar… ” um
contentamento descontente, uma dor que desatina
sem doer… ” Acho que foi um homem muito amoroso,
deixou-se embriagar pelo Amor.
Conte-nos um bocadinho… Fez muitas asneiras? Muitas
tropelias? O que revelam as suas cartas? Chegou a
entender o amor? Deixou-se ir até onde lhe foi
possível?
Eu nunca entendi o amor, mas senti o encanto do
despertar das paixões… Estou neste momento a escutar Deleuze, diz ele, ” O verdadeiro charme das
pessoas reside em quando elas perdem as estribeiras,
quando não sabem muito bem em que ponto estão… “,
já alguma vez perdeu as estribeiras, sentiu algum
desatino?
Ainda Gilles Deleuze, ” Se você está preso no sonho de
outro, você está f*****!
Fale-nos de Amor, revele o que tem guardado no seu
coração, é maravilhoso “escutá-la”.
Estava capaz de a abraçar, de a sentir agarradinha a
mim …
Obrigada pelo seu aconchego…
Ilda Maria
Minha querida Ilda
Amei profundamente, fui muito amada, desatinei e não me arrependo de nada.
Só não quero partilhar com outros – sabe-se lá o que acontece às cartas que recebemos- esses momentos.
Um dia, pensei deixar determinado que essa cartas fossem comigo e ardessem no fogo que me transformará em cinza.
Depois, pensei que esse fogo devia ser eu a ateá-lo, assim como fui eu que guardei as provas de que ele existiu. Daí a decisão de queimar as cartas!
E um xi coração pelas lindíssimas palavras que me dirigiu
A tralha que eu acumulo nessa vã esperança de guardar o tempo. Fotografo pessoas e momentos também com esse objectivo. No caso das fotos vou ainda mais longe: pretendo pará-lo.
Mas reflectindo sobre o que dizes concluo que queimar cartas também é uma forma de guardar. Não o tempo que nos escapa, mas o que realmente nos pertence e não é partilhável. Beijo.
Helena, não posso estar mais de acordo com o que a nossa Teresa diz: queimar cartas também é guardar o tempo. Melhor do que isso: é salvaguardá-lo.
“Salvaguardá-lo” é a palavra certa, Ivone 🙂
Teresa, Ivone, inteiramente de acordo. Salvaguardar momentos nossos de interpretações alheias, também. Espero um dia ter a tua coragem e queimar tudo o que vou guardando, Helena. Mas agradeço aos céus que não a tenham tido muitas pessoas que admiro ou me inspiraram (artistas, sobretudo), porque sem as suas cartas não as teria conhecido tão bem…
permita-me que lhe pergunte Ivone:
– mas, salvaguardá-lo ( o tempo ) para quê?
Dos olhares dos outros, sobretudo, cr.
Desculpe Ivone tem toda a razão, estava a entender de forma errada, também penso assim, já vi vidas de pessoas devassadas á conta de cartas, escritos pessoais e ” passados ” que quase todos nós insistimos em guardar.
🙂