O que é longe?
Um carmelita fecha-se para o mundo na sua cela. Mas bastar-lhe-á correr um par de ferrolhos e eis o mundo de novo à volta dele. Longe como sem igual em mais lugar nenhum, é em Edinburgh of the Seven Seas, onde chove quase sempre e o vento nunca se cala. O casario foi implantado de porta virada aos suaves alísios que sopram de norte ao passo que nas costas bate-lhe a sombra do pico Queen Mary, tão alto como a Serra da Estrela, a defendê-lo das investidas dos frios antárticos.
Em todo o planeta, não há lugar habitado mais remoto do que este. E tão longe está sobretudo porque dele não há saída.
O que será viver na ilha de Tristão da Cunha? A massa de terra mais próxima é a famosa ilha de St. Helena, que dista a bagatela de 2430 km (equivalente a Lisboa-Budapeste). Mas só se chega a Tristão da Cunha provindo de barco da Cidade do Cabo; são seis dias de mar para percorrer 2810 km (Lx-Oslo). O barco só passa por lá um par de vezes ao ano. A ilha fica de fora de todas as rotas marítimas e aéreas e lá em cima na estratosfera mal lhe tocam as franjas do perímetro de alcance dos satélites. O profundo Sul do Atlântico é a maior vastidão desértica da Terra, com troços ainda por cartografar.
Tristão da Cunha tem 261 habitantes que constituem oitenta famílias distribuídas por oito apelidos. São súbditos ingleses e nas fotos do site fazem cara de quem tem um modo de vida vulgar, como se habitassem no Hampshire. Todavia não sabemos nada da vida deles, se vivem na pitoresca harmonia de uma aldeia inglesa ou se medram no horror, aqui ampliado, da intriga e da bisbilhotice que costumam assolar as pequenas comunidades humanas. Nenhum forasteiro pode comprar terra ou mesmo instalar-se na ilha e para visitá-la necessita de visto, só obtido depois de respondido e aprovado em conselho local um minucioso inquérito sobre o motivo da viagem.
O conceito de “não há nada que fazer” ganha aqui uma dimensão inusitada. Nas terras comunitárias todos têm um torrão onde cultivar batatas; há algum gado mas a sua reprodução é severamente controlada para não desbastar o pouco pasto e para que as famílias ligeiramente mais ricas não acumulem riqueza. Fora isso pode-se trabalhar alguns meses ao ano na pesca do lavagante e na minúscula fábrica de conserva de peixe.
Só em 2011 os aldeões de Edinburgh of the Seven Seas passaram a ter acesso à televisão do exército britânico, emitida a partir das Falklands.
Ondas e vento, dia após dia, após dia. Meses. Anos. A solidão não se imagina, sente-se, porque experimentá-la está para lá de qualquer ideia. Assim é a vida em Tristão da Cunha.





Excelente série que aqui começa, meu caro. Com uma estreia em grande.
thanks skipper.
assim de repente, diria que Rapa Nui ou Ilha da Páscoa estará mais isoladita ( embora com mais habitantes )
Serão,concerteza, lugares fascinantes.
Bom post
É um facto assinalável, existir uma ilha neste planeta que, apesar de descoberta por um português, consiga manter uma economia equilibrada e uma população sem carências. Aposto que não é governada por um qualquer socialista ou social democrata… talvez até nem haja necessidade de existir um governo…
Repare bem que há um lado muito albanês nisto.
Grande série, Zé. Numa época em nos apetece fugir para o mais longe possível daqui, é bom sabermos para onde. E como.
🙂
Era bom, mas não podes. Eles não deixam. Mas é assustadoramente remoto, até para mim.
Sim, é verdade; os Trista Cunhense, não “querem lá misturas” mas, estou capaz de apostar que eles não serão parvos ao ponto, de negar o visto à Ana Vidal.
😉
De todo o modo, deixo aqui uma dica para quem esteja disposto a emigrar para a ilha “a salto” ou melhor… a nado.
Neste caso, têm 3 alternativas, a saber:
1ª avião até ao sul de Angola, escala em St. Helena e… Tristão da Cunha.
2ª avião até Brasil, escala em Martin Vaz que foi descoberta pelo primo de Vasco da Gama e… Tristão da Cunha.
3ª (para quem não gosta de fazer muitas escalas) voo para a África do sul e… nado directo para Tristão da Cunha.
Em qualquer das 3 hipoteses, convém chegar à ilha aparentando um ar de grande cansaço e não esquecer de garantir que é o único sobrevivente de um naufrágio. Assim, eles não terão coragem para os mandar de volta… digo eu…
Obrigada, Bartolomeu. Acho que vou optar pela 2a hipótese e ficar logo lá pela ilha do primo. Assim como assim, sempre tenho samba para animar a festa. Os tristaocunhenses devem ser um povinho triste…
E aí Ana, conseguiu chegar a Tristão da Cunha…. Eu estive por lá cerca de uns 5 meses, o povo é muito acolhedor, é uma comunidade muito bacana, eles mantém uma agricultura de subsistência e tem um modo muito avançado na cultura popular para fabricar os próprios remédios a partir de ervas e raízes cultivadas no local. O cemitério local possuía cerca de 30 nomes cravados quando de minha visita. A vida lá é tranquila e não são refém do capitalismo, lá se planta para subsistência, e quando é frio é frio mesmo, mas na maior parte do tempo o clima é agradável. Sinceramente tive vontade de ficar mas quando pensei em tudo que deixei para trás, me dei conta que já estamos mesmo infectados pela mosca do capitalismo, não consegui me ver longe dos bares, restaurantes, cinemas, da boa internet e de quanta coisa deixaria aqui na nossa terra. Por fim passar por lá foi muito bom, mas no fim só de passagem mesmo. Aliás quando estive por lá eles precisavam de mecânico para as máquinas agrícolas, coisa que não se encontrava entre os nativos.