off


enlil,

Daniel Carton foi durante mais de 10 anos editor de política do “Le Monde” e depois grande repórter do “Nouvel Obs”. Em 2003 chateou-se, retira-se e publica o livro “Bien Entendu… C’Est Off” sobre o metier que fora o seu. Algo me diz que passados quase 10 anos continua bastante actual.

Reproduzem-se aqui 3 passagens no original francês. Afinal, este é um assunto que não convém divulgar à boca cheia.

 

“La politique était d’abord l’art de se servir des médias. Le tutoiement entre politiques et journalistes, cet insupportable tutoiement, devenu signe de ralliement d’une caste, assurance tous risques et gage de compréhension mutuelle. Ah ! la belle affaire, paraît-il. Je tutoie, tu tutoies, nous nous tutoyons. Pas devant micros et caméras, ah ! ça, non, surtout pas. Jamais ! Il faut que le ” tu ” reste entre soi. Le peuple requiert quand même quelques mises en scène. Ainsi un Grand Jury RTL-Le Monde, rendez-vous politique du dimanche soir si prisé. Vous venez dans les studios une demie-heure avant. L’invité arrive, on se tutoie. Après l’émission, pendant la collation où tout le monde se pousse autour de l’invité pour lui dire que, décidément, il est le meilleur, on se tutoie.” 

 

“Aux petits déjeuners, déjeuners, dîners, les assiettes en débordent ! Off the record. Confidentiel. Secret. A ne jamais répéter, du moins pas à plus d’une personne à la fois. C’est la première chose que j’ai découverte en arrivant à Paris. Savoir se taire est devenu la suprême qualité d’un journaliste politique voulant être reconnu et admis.”

 

“Le tutoiement n’est qu’un début. Les consœurs sont sujettes à des traitements particuliers, parfois même très particuliers, pouvant mener à une certaine confusion des genres. D’abord on se tutoie, ensuite on s’embrasse et après on voit. Bisous par-ci, bisous par-là, avec un petit problème cependant pour les initiés : à la télévision, sur les images montrant par exemple les arrivées dans les réunions, les attroupements dans les couloirs de l’Assemblée ou les attentes dans les états-majors, on ne les entend pas se tutoyer, mais on les voit s’embrasser.”

A propósito das eleições na Grécia


enlil,

Em 1998, contra o aviso de opiniantes encartados, de politólogos televisivamente encadeirados e mesmo de pollsters munidos da sua estatística ciência, o povo do nórdico Minnesota, gente conhecida pela moderação e nada atreita a fantasias, elegeu para Governador do seu gélido estado o Sr. Jesse Ventura.

Jesse, the Body, assim era conhecido até que na campanha virou a sua alcunha para Jesse, the Mind. Concorreu contra os partidos clássicos e seus soporíferos candidatos. Tanto o democrata como o republicano, mais vírgula menos vírgula, ambos debitavam semelhantes vacuidades, seguros do bom senso dos seus eleitores. Todavia, o bom senso destes resolveu-se pelo mote eleitoral de Ventura, “don’t vote for politics as usual” e acabou elegendo um absoluto marginal da política, ex-Navy SEAL e de fama nacional como wrestler da WWF – donde o prévio cognome de Jesse, the Body.

Nos meses seguintes às eleições proliferou nos pára-choques dos automóveis como matrícula do Minnesota o auto-colante: “My governor can beat up your governor” – teve graça.

Entrou o governo em colapso? Os despautérios verbais de Ventura comprometeram o Estado? Foram postas em marcha políticas extravagantes? Pois nada, tudo ficou mais ou menos na mesma. Só os lobbyistas passaram por um mau bocado, por não conhecerem de todo o novo pessoal político que se instalou na mansão do governador.  

Em 2003 Jesse Ventura desistiu de se recandidatar e o Minnesota regressou ao seu normal estado de hibernação.

Às vezes é preciso pregar-lhes um susto.

 

Esta música não é para velhos – Dexter Gordon


enlil,

Na tarde de 25 de Abril de 1961 toca um telefone algures em Los Angeles. É Dexter Gordon quem levanta o auscultador. Trata-se de uma chamada interurbana de Nova Iorque e do outro lado da linha apresenta-se o sotaque carregado de Alfred Lions, o dono da Blue Note. Em três tempos chegam a acordo: Dexter mudar-se-á para Nova Iorque, assim que legalmente lhe for permitido, e passará a gravar para a Blue Note.

Se há telefonemas que salvam uma vida, este foi um deles.

Depois de ter sido o “gato” mais bem apessoado do nóvel be bop, Long Tall Dexter, o maior jazzmen de sempre (tinha 1,98m), entregou-se aos azares dos estupefacientes, ao que sucedeu a concomitante descida aos infernos prisionais. Dexter perdera quase toda a década de 50 atrás das grades.

É assim que renascido, no final de 1962, Dexter enclausura-se durante dois dias no estúdio e em estado de graça, debita num fôlego 12 temas. Com eles foram editados os seus melhores dois discos: “Go!” e “A Swingin’ Affair”.

Depois, sempre inquieto com as tentações, fugiu para Paris onde grava em 1963, com outros “refugiados” “Our Man in Paris”.

Só voltaria aos EUA mais de uma década depois, mas o que estava feito, estava feito – não chega?

 

A pátria e os seus poetas


enlil,

O cliché é uma ferramenta inestimável para entendermos melhor o mundo. Ele mostra aquilo que persiste na memória e no olhar dos outros em relação a nós.

Este “nós” pode ser um alemão, irritado pela forma como o “outro”, por exemplo um português, olha para ele: um tipo autoritário e escrupuloso, hirto nas emoções, bebedor de cerveja, sem sentido de humor.

Seja então o “nós” um português que tenha acabado de ler o modo como a revista “Time” salienta os pontos “interessantes” (outro adorável cliché) de Lisboa na sua secção “travel”.

A “Time” é uma gloriosa sucessão de clichés, sob o formato de news magazine, ou seja, pretende informar com “interesse” quem esteja disponível para a leitura durante o shuttle aéreo entre Londres e Paris. Nada disto merece reparo até porque é tecnicamente irrepreensível, tanto o alvo (a classe média/alta europeia) como o critério editorial (os temas “importantes” – cliché! – da semana), como o ponto de vista (neutro, urbano, sintético, escrito com extraordinária eficácia, quer no que respeita à clareza, quer no que toca à elegância).

Sobre Lisboa a “Time” tudo faz para seduzir o seu leitor a dar um saltinho de fim-de-semana a esta cidade periférica, suficientemente exótica para prometer romantismo e suficientemente civilizada para não que não se desconfie da higiene das saladas. Lá está o rosário de clichés, pintados com cores amáveis e atraentes: os pastéis de nata, os Jerónimos, o bacalhau, o vinho do Porto, o eléctrico 28, a Brasileira, a Ler Devagar.

Só que a meio de tão branda prosa salta um cliché, absolutamente verdadeiro, mas verdadeiramente penalizante para o nosso orgulho nacional que vivendo de ilusões, não passa de prosápia: “… the eternal statue of famed local poet Fernando Pessoa.” Sim “local”, quer dizer: paroquial, pitoresco, curioso, interessante, lá está…

O problema é a “Time”? Não o problema somos nós. Somos de facto paroquiais e pitorescos, gastamos toda a energia às palmadas uns aos outros, ora na cara ora nas costas, e somos incapazes de olhar para lá de Badajoz e trabalhar muito, muitíssimo, para que fosse outro o cliché acerca de Fernando Pessoa.

Dos homens e dos anjos


enlil,

A Sra. Procuradora Geral Adjunta afirmou:

“O nosso sistema [judicial] é muito bom, agora o abuso que dele é feito é que é muito mau.”

Esta frase não é absurda, é sintomática. Para estes eméritos juristas a qualidade de uma legislação afere-se em abstracto. A lei é em si mesmo de uma bondade inapelável, o problema é essa coisa abjecta e contingente chamada realidade à qual ela, desgraçadamente, se vê obrigada a descer. A santidade intrínseca da lei é conspurcada pela malvadez inata dos homens. Corolário: que bom seria uma pátria feita só de leis, sem casos a que ela se aplicasse; um país de anjos, portanto. Qual Rawls, qual Madison, qual quê…

Cadáver esquisito (13)


enlil,

1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM, 12. REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS

13

NÃO PODES APAGAR UM FOGO COM CUSPO

 

– Os meninos já se deitaram?

Vivelina enquanto vertia o chá da lua cheia, pálido e fumegante:

– Tudo nos conformes, o menino João Cosme com a bifa – detestava-a e não conseguia tratá-la de outro modo – a retemperar das agruras do dia. Que bem os oiço resfolegar como dois coelhos. O rapaz desde que abriu os olhos parece que os abriu todos à uma.

– Os coelhos não resfolegam – cortou seca a madrinha ao queimar a língua na borda da chávena. Ordinarices na minha casa é que não, santa paciência…

– O Eduardo, esse não ata nem desata, já ronca.

Pobre, pobre, Eduardo que não ata nem desata. À falta de melhor ideia, a madrinha apreciava repetir os ditos pícaros da Vivelina.

Jantar e frugal. De portadas cerradas. Tudo na cama nem que fosse até à hora do lobo – e depois era com cada qual, entregue ao que o destino lhe reservava. Assim determinou a velha senhora madrinha, já basta o que basta.

– E o professor?

– Ainda está na cama a ler. Derreado desde de manhã. Pudera.

A manhã fora um circo, qual telenovela mexicana em que, como toda a gente sabe, o interesse do espectador é acicatado por uma intriga trôpega, de passo trocado, às cabeçadas e aos esses.

A inspectora lívida com o repente do professor, ainda o corpo etéreo de Valeriya não tocara no chão e os circunstantes também eles de boca aberta, tão inédita fora a cólera que eriçou as suíças e congestionou as maças do rosto de um homem por demais habitual:

– Viu o que fez? A senhora ou diz ao que vem e que provas tem contra nós ou aqui só volta com mandato. Muitos telefonemas hão-de correr antes disso, esteja certa.

E lá abalou a inspectora pela esquerda baixa, apanhada em flagrante falta de prova de delito sem, no entanto, deixar de franzir o cenho anunciando ser este assunto agora pessoal.

João Cosme a desanuviar:

– Aqui está uma que sabe mais do que diz.

– Enquanto o pau vai e vem folgam as costas. – Isto era o professor cada vez menos em anticiclone, abaixando a pressão sanguínea no rosto – rondam, vasculham, interrogam e depois não encontram nada que faça prova, é o costume. É da maneira que se acabou o telefone, vão pôr-se à escuta, tão certo como eu me chamar José Augusto.

Vivelina soltou uma gargalhada, débil, ainda lhe doíam os miolos, mas acintosa quanto baste.

E numa voz álgida, vinda doutras épocas, de velhas alianças e em tom semi-bíblico, o professor proferiu direito a ela:

– Դուք չեք կարող տեղադրել կրակ դուրս թքել.

Ao que Vivelina dobrou a cerviz como os meninos nunca a viram dobrar:

– Այո Ձեր պատիվ.

“Eh lá!” exclamaram os irmãos Cosme: João estupefacto, Eduardo arregalado.

– Tratem disto, andem – bateu a madrinha com a bengala no chão à moda dramática que em nova vira nos palcos de Paris, uns dramalhões de condes, marquesas e cocheiros embrulhados até ao último acto. Apontava para o persistente desmaio de Valeriya – vocês querem ver que…

 

De noite outra vez, outra vez a madrinha para Vivelina:

– E o que lhe fizeram?

– Jaz morta e arrefece. Deixaram-na amortalhada na cave.

– Ó deus, que mau gosto vir com ironias poéticas numa hora destas. Só você, mulher…

E subiu ao quarto, a deitar-se na cama longamente aquecida por José Augusto.

Ninguém tocara entretanto nas medalhas esquecidas sobre a mesa da cozinha.

 

(Este é o décimo terceiro capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do João Carvalho.)

Volto já


enlil,

Bem sei que a música electrónica está em baixa desde que Xenákis e Stockhausen pregaram um grande susto aos ouvidos  comuns, já lá vão uns 40 anitos. Doutro modo, há quem oiça nela despropósitos new age, com incenso e tudo, mais adequada a lobbys de hotel trendy, tipo W, ou a ambientes de spa de águas frescas. Imploro por isso a vossa indulgência com Pulse Emitter, natural do Oregon, terra de intermináveis florestas húmidas. Quando escuto isto, viajo. E de olhos fechados vejo melhor esta música.

 

Que regras tem este jogo?


enlil,

 

É altura de rever “La Règle du Jeu“ de Jean Renoir. Parece impossível, mas aprende-se muito com o passado. O filme foi estreado em 1939, o ano que hoje sabemos ter sido aquele em que a Europa morreu para o mundo e talvez por isso, pela desvairada ilusão em que todos viviam, literalmente todos, dos comunistas aos fascistas com tudo o que havia pelo meio, suscitou a execração geral.

Porque foi tão odiado então um filme que depois viria ser tão obviamente amado? Porque por exemplo há um estupefacto marquês que a dado passo tem a lucidez e a impotência de dizer: “O que é terrível nesta terra é que todos têm as suas razões”. Tinham, como nesse Outono de 39 se começou a perceber, ou seja, ninguém tinha razão nenhuma porque menos com menos só resulta em mais desgraça.

Rever “La Règle du Jeu” ajuda a desconfiar do poder e da virtude prometida pelo novo senhor que se sentou à mesa no château de França. Quando o marquês do filme se enfada de vez com a confusão instalada no castelo ordena ao criado: “faites cesser cette comédie”, ao que este, sonso e arguto como todos os servos, lhe contesta: “laquelle, Monsieur?”

Vejam como nos pusemos: de boné torcido nas mãos à espera de uma palavra do marquês de Hollande que nos mude o destino, que dele venha um gesto de compreensão e misericórdia com o nosso penar. E enquanto nos prostramos na soleira do portão, negligenciamos que ao fundo do quintal se vai armando uma patuleia de muito má índole. O que sucedeu na Grécia é bem mais feio e decisivo do que as prováveis hesitações do futuro Hollande, porque a barafunda, como se sabe e é patente, grassa sempre das periferias para o miolo.

Serão as ilusões de 39 outra vez? “lequelles, Monsieurs?”

Nós por cá ficamos


enlil,

 

 

Então agora morreste-me, Fernando? Esta doeu.

Sei que passeaste comigo ao colo pelas ruas de Évora porque meu pai me contou. Mas alguma coisa deve ter ficado inscrito em mim, porque ainda hoje quando visito a cidade só a vejo em branco-e-branco, como no teu filme.

Se mais não tivesses dado – e foi tanto – Belarmino ninguém mo tira.

Belarmino é o único instante do cinema português que pode ser confrontado face a face com os seus coevos: Cassavettes, Shirley Clarke, Lindsay Anderson.

Tudo parecia possível: Belarmino é o mais jovem filme português. Faz parte da natureza das coisas, é anterior a tudo, aos Cahiers comprados na Barata, ao Vává, ao Cinema que se quis Novo. É um puro filme sem o peso do cinema. E ainda hoje Belarmino promete todos os futuros perdidos – 48 anos depois, ontem. Quem não viu Belarmino ainda não viu Lisboa.

Ficarás, Fernando, para sempre sentado na primeira cadeira do balcão do Gambrinus, a embirrar como o puto da rua que és, com medo que não acreditem em ti – és enorme, a sério…

Cenas da luta de classes nos subúrbios


enlil,

Frans Floris, “Banquete dos deuses”, 1550

 

O que se passou ontem no Pingo Doce, não a corrida aos supermercados mas o êxtase ideológico que dela decorreu, é mais um episódio do infindável conflito entre platónicos e pragmáticos.

Os platónicos têm a verdade no bolso, sabem perfeitamente quais são os princípios ideais por que se deve reger a boa sociedade e não perdem ocasião para derramá-los sobre qualquer acontecimento que se lhes depare. Os platónicos são moralistas porque tudo para eles é uma questão moral, consequência primeira de quem tem dificuldades em encaixar a realidade nos preclaros princípios. Se estes são incontestavelmente certos e justos, logo aquela, se lhes resiste, está errada ou é má. Os platónicos são, assim, judicativos a outrance, sempre de dedo apontado aos modos e às acções dos outros – os alienados.

No tempo de Marx não havia classe média. Havia pequena-burguesia que era uma categoria social diferente. Os caixeiros e escriturários não constituíam uma chusma significativa para ganhar estatuto de classe. A classe média é uma criação da esquerda, das sociais-democracias europeias e americana, pelo que higienicamente tende a abjurar o conservadorismo. Com bastante pertinência, sobretudo em Portugal onde a classe média é débil e muito recente, ela associa os valores conservadores: 1) ao snobismo dos pretensos fidalgos que mal disfarçam a bastardia do seu arbusto genealógico, mas ainda assim pavoneiam e reivindicam uma pretensa superioridade social; 2) aos suaves modos da elusiva alta burguesia financeira, que desde o sr. Burnay verdadeiramente manipula a economia portuguesa desde o seu refúgio de Cascais; 3) ou à marialva bruteza dos remanescentes latinfundários, que embora nunca tenham lido “O Delfim” já intuíram o fim do tempo em que vinham a Lisboa passar os dias que demoravam a gastar 40 contos em coristas.

Daqui resulta que a classe média vive em permanente crise de identidade marxista, de modo que para aliviar a sua má consciência fez do platonismo de esquerda a sua ideologia. Com indisfarçável desdém aponta baterias ao Cavaco de Boliqueime, ao Passos de Massamá e, sem complexos, ao Jerónimo de Pirescoxe, substituto do grandioso dr. Cunhal. Sobre estes prefere sobremaneira a esquerda gentrificada dos drs. Soares e Louçã.

Como não podia deixar de ser, a classe média platonicamente moralista horrorizou-se com as hordas suburbanas que ontem pilharam os Pingo Doce por 50% do preço de rótulo, vendo nela o fim do mundo saciado, nivelado e elegante com que sonha. Fizeram-se filmes no pressuposto de que as imagens falam por si obliterando a máxima de Godard segundo a qual “un travelling est une affaire de morale” – tudo está no modo como se vê, não no que é visto.

Zombies, alienados, indignos, terceiro-mundistas, consumistas, coitadinhos a tirar a barriga de misérias, a barbárie, eram os outros, ou o Grande Outro, para usar a tranquilizadora terminologia lacaniana, que se agitava nos corredores do Pingo Doce, sem ao menos evocar os uivos de Ginsberg. E claro, para que tudo bata certo, tratou-se de uma provocação. O que não se quis ver foi uma coisa simples e demasiado chã: uma oportunidade. O povo (o que quer que esta designação signifique), sempre pragmático nas suas escolhas, viu essa oportunidade. O moralista chama-lhe oportunismo, mas isso é porque os seus princípios o cegam.

Exílio parisiense


enlil,

Afonso Costa em Paris

Sidónio varreu tudo com um gesto.

Tudo, era a República tal como fora até aí e o gesto incluiu a olvidada batalha do Rato, em que na noite de 5 de Dezembro de 1917 os marinheiros governamentais carregaram pela R. da Escola Politécnica apontando à S. Filipe Nery, acabando em combates corpo a corpo, à baionetada, debaixo de fogo de metralhadora, contra as trincheiras sidonistas do Largo do Rato. Houve quem contasse 200 cadáveres no rescaldo, embora os números certos nunca tivessem sido apurados. “A marinha foi beber água ao Rato” fez-se verso de fado cantado pelas esquinas e tabernas lisboetas.

A república como fora até aí chamava-se Afonso Costa. Ele era dono e senhor do PRP (Partido Republicano Português), pôs e dispôs dos governos, distribuiu o tesouro a quem quis e como quis, remeteu para os confins da oposição quem se lhe atravessou ao caminho, como Brito Camacho e António José de Almeida, aos quais foram reservados papéis meramente decorativos.

Afonso Costa era frio com os inimigos, irascível com os chegados, implacável com todos – inamovível. Além disso tinha sempre razão, o que era sobejamente legitimado pelas aclamações que qualquer plano ou pensamento seu sempre concitava entre os apoiantes. Os erros eram doutros e para lá do círculo de fiéis em que se concertou, só via impostores, oportunistas e mal intencionados. O ídolo não tinha pés de barro, durou 7 anos de poder e moldou o regime à sua feição e a seu bel-prazer, mas quando foi derrubado ninguém socorreu a apanhar os estilhaços.

Que sucedeu a Afonso Costa, depois do golpe de Sidónio? Foi para Paris num exílio de prata (não existe tal coisa como um exílio dourado). Só regressou em 1971, 34 anos depois da sua morte, direito ao jazigo familiar em Seia.

A vida toda


enlil,

Onde, senão à mesa?

 

 Duarte Amaral Netto, “Lisboa”, 2002

 

 Michael De Brito, “The Gathering”, (óleo s/ tela), 2006

  

 Olivia Arthur, “In the kitchen during a house party in Teheran”, 2009

Socorro!


enlil,

 http://www.tvi24.iol.pt/politica/25-de-abril-deputados-ignorancia-tvi24/1343694-4072.html

 

Estas imagens são arrasadoras. O respeito que se deve à função de deputado é curto-circuitada pelo própria ignorância dos eleitos acerca do regime no qual ascenderam à condição de protagonistas. Isto não é uma questão de cultural geral, de conhecimento escolar da história – é uma questão política. Quem é que eles representam além da organização que os escolheu?

Depois é sempre a descer: a língua de pau  do rapazinho engravatado que foge à questão com ridículas generalidades; a total falta de decoro emocional (falta de educação, filha) da menina do PSD; a submissa ortodoxia da jovem do PC a dizer que foi ali parar porque o partido mandou e o relaxamento blasé do moço creio que do Bloco, o partido que tem os quadros políticos há mais tempo em actividade do espectro parlamentar. Para maior desconsolo resta-nos imaginar que a tremenda má fé desta reportagem poderia fazer ricochete se fosse atirada contra as redações que gostam tanto de apontar o dedo – diz o roto ao nu.

Lá vem ele outra vez com esta chatice…


enlil,

Ian Baxter, “Television works” (detalhe), 1999-2006 

 

A categoria filosófica que se denomina como “altruísmo”, quando desce ao campo da ideologia recebe à direita o nome de “caridade” e à esquerda o de “solidariedade”. Não são exactamente iguais porque em ambos os casos é necessário adequar o altruísmo aos conceitos que o vão rodeiar e conformar. Comum a eles é a imposição de um princípio moral ao “interesse”, que sobre este deve ter a primazia sobretudo em caso de conflito. Desde pelo menos Adam Smith que se percebeu que esta imposição é contrária à lógica e ao bom senso, pois em todas as circunstâncias agimos verdadeiramente movidos pela necessidade e pelo interesse. A única razão que legitima a prevalência da moral sobre os interesses, é, na verdade, bastante interesseira, e por isso frequentemente iludida: pratico a caridade ou a solidariedade enquanto um contrato social, o qual consiste, de forma genérica em dar um pouco aos outros de modo a prevenir que eles tenham motivos para me tirarem tudo.

Vem este altissonante parágrafo a propósito (ou despropósito) de ser hoje o dia em que assistimos ao desfecho da maior agressão feita ao consumidor (ou ao cidadão) português nos últimos anos, perpetrada sem o rebuço da má consciência, perante o silêncio e a passividade da maioria.

Estou a falar da TDT (televisão digital terrestre).

Há uma enorme probabilidade, diria mesmo garantia, que ao leitor destas linhas o problema lhe seja de todo indiferente, precisamente por estar ler estas linhas. Se o faz é porque tem acesso à internet; se o tiver em casa aposto singelo contra dobrado que ela lhe chega através de um pacote de triple play (tv-internet-telefone) com uma operadora de telecomunicações, pacote esse que é de todas as opções a mais racional porque a mais económica. Se por outro lado estiver a ler estas linhas no emprego (não se preocupe, são milhares que o fazem…) é provável que tenha um estatuto suficientemente elevado (ou seja de simples classe média) para ter em casa pelo menos a tv por cabo. Em qualquer um dos casos a TDT não lhe diz respeito. Dirá, talvez à sua mãe, já idosa, ou aos primos lá da aldeia, distantes.

Foi isto, o facto: de TDT passar ao lado da classe média; de a TDT ser indiferente, senão antagónica, aos interesses dos mídia a que essa classe média tem acesso; de a TDT ser irrelevante às preocupações dos agentes económicos que investem nos mídia; e de a TDT não proporcionar significativos ganhos políticos aos deputados e organizações com assento parlamentar, nomeadamente porque o afastamento dos mídia não lhes oferece exposição neles; foi isto a tempestade perfeita que varreu a questão para debaixo do tapete – nenhuma indignação moral, portanto.

Too much adoo about nothing? Nem por isso, se olharmos para o fracasso (fraude?) da TDT como um exemplo do estado económico e político em que estamos atolados. E já agora do estado ético, coisa bem diferente de moral.

A revolução dos cravos


enlil,

Todas as revoluções do século XX português foram patéticas. Isto não diz tanto sobre a inépcia dos insurrectos quanto acerca do apodrecimento dos regimes desbancados.

Em 1910 bastou ao destemido Machado Santos reunir um punhado de milicianos e civis de índole rixosa, para que ao fim de uma jornada a monarquia tombasse inerme no chão. Bem andou Paiva Couceiro de quartel em quartel a supliciar pelo menos um pelotão, o suficiente para escorraçar os insurgentes da Rotunda – ninguém adiantou um tiro pelo reizinho. 

O 28 de Maio foi uma passeata a cavalo de Braga a Lisboa, com picnic em Coimbra. Sem saírem das repartições, os comandantes militares foram aderindo ao golpe por telégrafo, pelo que chegando Gomes da Costa às hortas do Campo Grande nem a Carbonária se quis sacrificar pela república.

Os generais portugueses gozam da justa fama de balofos e enfatuados. Estavam eles em 1961 a conspirar administrativamente à volta da mesa contra Salazar, já Craveiro trazia num saco a farda de gala com que iria proclamar ao país o novo governo, quando ouviram na rádio a notícia da sua demissão. Por ali se ficou a patética “abrilada”.

Teve então que ser muito por baixo, ao nível da patente de capitão, que pôde ser desmoronado o remanescente do Estado Novo, em 1974 não era mais do que uma caduca gerontocracia, tão autoritária quanto pusilânime.

Só mesmo uns rapazes com menos de 30 anos, os únicos que verdadeiramente sofreram a guerra na piolheira africana, entendiam o grotesco da situação em que Portugal se atolava. O que faziam capitães e mancebos nos pântanos da Guiné, nas florestas de Moçambique ou nos fins do mundo de Angola, terras de prodigiosa insalubridade e refractárias a qualquer progresso cívico ou económico, ninguém sabia ao certo, muito menos eles. Seguro apenas era terem que andar aos tiros contra sombras emboscadas no capim, em nome de um política incapaz de galvanizar uma ideia, uma frase que fosse, além de uma mancheia de abstrações arcaicas, doutrinadas numa retórica de sacristia e mal coladas com cuspo maurrassiano pelo misantropo de Santa Comba. “Vão p´ró mato, ó malandros!”, gritavam os Comandos, quando surtiam em missão, contra os intrépidos oficiais superiores barricados no ar condicionado dos quartéis generais.

Foram então os capitães do quadro que desceram à rua no dia 25 de Abril para vergonha de uma oposição política ao regime consumida em polémicas intestinas, conspirações de café e muitíssima indignação – uma figura de impotência que pasmava o mundo civilizado. Ao que parece só ao escritor Nuno Bragança terá ocorrido a ideia de que limpar o sebo a um ou dois pides poderia constituir um acto revolucionário mais incisivo do que greves estudantis ou soltar porcos com boné de almirante na Baixa lisboeta.

Taticamente previsível e logisticamente inepto, mandaria a lógica que o 25 de Abril se saldasse num dramático fracasso.

Salgueiro Maia cercou e conquistou o Terreiro do Paço enxotando uma coluna de blindados praticamente com a munição que trazia na câmara. O brigadeiro que se lhe opôs foi derrotado tanto pela desfaçatez do capitão quanto pela vergonha por que passou quando nem os magalas sob o seu comando obedeceram à ordem de fogo.

Durante essa manhã, o sagacíssimo Kaúlza contactou os oficiais de sua confiança com quem havia planeado o contra-golpe, para descobrir que fora ludibriado como uma donzela – eles estavam com o MFA. E era este o grande centurião do regime…

Sitiado no Carmo, Marcelo Caetano assistia atónito às manobras do diminuto coronel Ferrari as quais consistiam em telefonar para os quartéis da Guarda a saber se estavam com a situação. “Afirmativo”, asseguravam-lhe essas unidades, ao que o coronel rejubilava com tal triunfo sem que lhe passasse pela cabeça pô-las em movimento. Quando ao fim da tarde Salgueiro Maia usou a arma mais potente do dia, um megafone, unicamente Henrique Tenreiro teve presença de espírito para escapar dali, atravessando a multidão e a força militar disfarçado de ceguinho.

Tomando a lei à letra foi apenas às 7 da manhã do dia 26 que em boa verdade constitucional a revolução triunfou, quando alguém se lembrou de ir colher a sua casa o pasmado almirante Thomaz e metê-lo no avião para a Madeira onde já iam despachados uns quantos ministros que se deixaram apanhar. Devia ter sido ele, o Presidente da República, o alvo da rendição, porque era ele o detentor formal do poder de estado. 

Não nos deixemos iludir: o 25 de Abril não foi uma farsa, foi um acto de higiene, executado pelos únicos que intuíram, ao contrário das luminárias oposicionistas, que o IN se reduzia a um baralho de poltrões, inchados de bazófia – tudo bem à portuguesa.

A audácia e a leviandade são qualidades que contrariam o bom senso, é por isso muito fina a linha que separa o herói do irresponsável. Os Capitães de Abril foram heróicos porque imprudentes, demonstrando bravura à medida da insensatez. De outro modo, ainda hoje estaríamos à espera, ou alguém acredita que alguma vez tenha existido “sociedade civil” em Portugal?

Où sont les neiges d’antan?


enlil,

Aquele Portas do Passos Manuel é o pior deles todos, avisou o controleiro.

E lá fomos preparados então para o pior, a pé, obviamente em manifestação. Devia ser Outono, era no final de 74 de certeza e o nosso objetivo revolucionário consistia em ganhar as eleições do MAESL na reunião geral do ensino secundário de Lisboa a realizar a meio da tarde de aulas no pavilhão da cidade universitária.

Lista A a nossa, a única coerente e popular. Lista B dos NEIP do Nery, insidiosamente inteligentes, intelectuais mesmo. Lista C de uma qualquer das milhentas facções que dividiam os 10 trotskistas de Lisboa. Lista D a do Portas, o rei dos revisionistas, ou social-fascistas como berravam os MRPPs à porta, porque nunca participavam em nada que não fosse a revolução socialista aqui e agora e já.

Inicia-se a reunião em sala tumultuosa, cada um colocando as suas peças em lugar estratégico para o caso de haver molho. E houve, e a culpa foi do Portas. Ia-se votar uma moção – votava-se tanto e tão de braço no ar a fazer peito – e o Portas pergunta à magna assembleia:

“Quem é que não está em desacordo com esta proposta?”

Levantou-se uma tremenda surriada, provocador!, golpista!, revisionista!, insultos assim dos piores, e a páginas tantas já está ali um foco de confusão. O Nery ainda grita “calma! Calma!” mas alea jacta est. Ferveu tabefe em todas as direcções, a mim calhou-me o braço ir em direção à incipiente calva do Portas. O gajo vira-se e volta-se – vai responder. Um trotska, os empatas do costume, interpõe-se sem querer e a cena morre como começa. O Portas olha-me de lado com cara de que haverá próxima – não houve.

Foi preciso passar muito tempo para perceber que nós éramos assim porque os nossos pais nos deixaram. Ofereceram-nos o presente liberdade e nós soubemos abusar dela, tal como devia ser, incorrendo em toda a sorte de tropelias idealistas. Na verdade, descobrimos depois, fizemos tudo aquilo que os nossos velhos desejariam ter feito quando tiveram o nosso tempo, que para eles fora negro e triste – quem não seja disparatado aos 15 será enfadonho aos 30. O mundo era nosso e já amanhã. Foi quase.

Douce France


enlil,

Se a psicanálise ainda estivesse viva as eleições francesas seriam o ponto de rebuçado da catarse política. O que nunca falha é elas conseguirem libertar dois tipos de recalcamentos psíquicos que poderiam ser identificados como o “síndrome Maria Antonieta” e o “complexo salazar”, assim denominados em honra dos seus promotores.

Ainda hoje está por esclarecer se a boutade da princesa austríaca foi jocosa ou mero reflexo da estupidez aristocrática. Ao sugerir brioches a quem reclamava pão, é bem possível que a surpresa dela fosse legítima, vinda de alguém que nunca pisara além dos muros palacianos e simplesmente ignorava qualquer espécie de condição humana que não fosse a dela, a das suas damas de companhia, a dos cavalheiros que as acompanhavam e a dos seus caniches. Viver entre quatro paredes a ler livros pode dar nisto.

Temos então em 2012 Sarkozy o bobo, o populista, o consumado relapso, o patente crápula, o desqualificado aos olhos das mentes mais ilustradas entre a Finisterra e os Urais, o prematuro derrotado, e ei-lo muito pimpão a meio caminho de regressar ao Eliseu. Como pôde o povo escolher tal côdea dura, quando dispunha do tenro brioche Hollande? Como sucedeu tamanho ultraje à inteligência? Só pode ter sido por obra do demo ou do direito universal de voto, o qual como se sabe, equipara a escolha dos parvos à dos ensinados.

Entra em cena Salazar pela direita baixa: será que os franceses não estarão preparados para a democracia? Porque se estivessem outro coq cantaria.

Vá lá que desta vez não houve indícios de hecatombe como em 2002 (Jospin dehors, 2ª volta entre a direita-direita de Chirac e a extrema-direita de Le Pen, pai). Mas ainda assim não faltarão vestais para rasgar as vestes, dado que a loura burra não desmobiliza a votação do zarolho. A imoralidade tomou conta da França, dirão em último recurso, porque é sempre nessa instância que o discurso político resvala para a moralidade. Mas a pergunta que os patrícios da política se resguardam de enfrentar é bem simples: porque razão votam assim os franceses? Ou outra ainda mais comichosa: que cegueira ataca quem faz vida a discorrer sobre política, que não lhe permite compreender resultados historicamente tão consistentes?

Ou será que excepto a realidade está tudo mal? (Mas esta agora é mais complicada).

 

Le fond de l’air est frais


enlil,

 

É só para dar uma noticiazinha de rodapé que parece ter ficado esquecida: voltem a pôr a rolha no champagne, Carla Bruna deverá morar mais 5 anos no Eliseu (e Sarkozy também). Para Portugal isto nem é bom nem é mau, ou alguém ainda se iludirá com a hipótese de Hollande defender uma política europeia para a França (esta frase é assim mesmo) diferente da actual?

Blogue da semana


enlil,

O Malomil irrita-me supinamente porque publica as ideias que acabei de ter mal as vi lá postadas.

Um visitante desprevenido verá em Malomil um gabinete de curiosidades com inclinação irónica para o kitsch e para o insólito. Engano. Malomil: tudo está à mostra neste nome. Debaixo da sonoridade exótica e insinuante – que referências, que sugestões, que obscuridades, nele se escondem! – o que verdadeiramente existe é o nome de uma singela farmácia sita no Martim Moniz, um facto que nunca na vida haveria de saber, não fosse amicíssima voz ter-me soprado ao ouvido tão prosaica trouvaille.

Contrastando com o dramatismo dos tempos actuais, ambos, dramatismo e tempos, cada vez mais tendentes a verbalizações lacrimejantes acerca do pathos lusitano (há sempre um Eduardo Lourenço à coca dentro de nós pronto a saltar…), o Malomil envereda por um registo contemplativo, recolhendo minudências, azares e achados, trazendo-os a lume brando para melhor serem apurados. Não se iludam, o diabo está nas pequenas coisas, é por isso que elas são importantes. Em resumo e em português suave: o Malomil é divertido. Por cima disso é culto e leve, uma solução geralmente inquinada, mas neste caso saborosa.

Como uma graça nunca vem só e as amizades são para ser acariciadas, aposto que os vossos dias ficarão melhores se frequentarem o escrever é triste; é uma casa com muitos bons espíritos.