A pátria e os seus poetas


enlil,

O cliché é uma ferramenta inestimável para entendermos melhor o mundo. Ele mostra aquilo que persiste na memória e no olhar dos outros em relação a nós.

Este “nós” pode ser um alemão, irritado pela forma como o “outro”, por exemplo um português, olha para ele: um tipo autoritário e escrupuloso, hirto nas emoções, bebedor de cerveja, sem sentido de humor.

Seja então o “nós” um português que tenha acabado de ler o modo como a revista “Time” salienta os pontos “interessantes” (outro adorável cliché) de Lisboa na sua secção “travel”.

A “Time” é uma gloriosa sucessão de clichés, sob o formato de news magazine, ou seja, pretende informar com “interesse” quem esteja disponível para a leitura durante o shuttle aéreo entre Londres e Paris. Nada disto merece reparo até porque é tecnicamente irrepreensível, tanto o alvo (a classe média/alta europeia) como o critério editorial (os temas “importantes” – cliché! – da semana), como o ponto de vista (neutro, urbano, sintético, escrito com extraordinária eficácia, quer no que respeita à clareza, quer no que toca à elegância).

Sobre Lisboa a “Time” tudo faz para seduzir o seu leitor a dar um saltinho de fim-de-semana a esta cidade periférica, suficientemente exótica para prometer romantismo e suficientemente civilizada para não que não se desconfie da higiene das saladas. Lá está o rosário de clichés, pintados com cores amáveis e atraentes: os pastéis de nata, os Jerónimos, o bacalhau, o vinho do Porto, o eléctrico 28, a Brasileira, a Ler Devagar.

Só que a meio de tão branda prosa salta um cliché, absolutamente verdadeiro, mas verdadeiramente penalizante para o nosso orgulho nacional que vivendo de ilusões, não passa de prosápia: “… the eternal statue of famed local poet Fernando Pessoa.” Sim “local”, quer dizer: paroquial, pitoresco, curioso, interessante, lá está…

O problema é a “Time”? Não o problema somos nós. Somos de facto paroquiais e pitorescos, gastamos toda a energia às palmadas uns aos outros, ora na cara ora nas costas, e somos incapazes de olhar para lá de Badajoz e trabalhar muito, muitíssimo, para que fosse outro o cliché acerca de Fernando Pessoa.

13 comentários em “A pátria e os seus poetas”

  1. Concordo com o texto. Mas lembro que se o banal vende, se a prosápia insípida atrai euros, dólares ou libras, vale a pena. O problema grave é que muitos portugueses não fariam melhor que a “Time”. Isso sim, custa engolir.

    1. E escrever sobre o que os Portugueses são ou deixam de ser já nem é cliché – começa a ser martírio. É que é todos os dias, pá.

  2. Quero lá saber do que diz a Time. O comentário é para perguntar a razão de traduzir paroquial por… paroquial. Aqui é provinciano. Sobre “local”, creio que está empregue como um sinónimo de lisboeta ou morador em e menos para designar a dimensão da fama de Pessoa, o que acabaria por ser uma indelicadeza, algo que os anglo-saxónicos não usam fazer de borla.
    Gosto muito do fim patriótico de, caramba, fazer a propaganda da pátria; de, caramba, fazer as coisas como lá fora. Os carmbas são do Castanheira, um colega de Gonçalo Mendes Ramires.

    1. Hmm, não. Acho que a ideia do texto está correcta. Nós pensávamos que Pessoa tinha projecção internacional mas verifica-se que não, que é um poeta local. Mas a verdade é que Pessoa, que vive da nossa Linguagem, dificilmente interessa a outras línguas. Os anglo-saxofónicos também são um bocado autistas, diga-se em abono da verdade.

      1. Vasco, talvez tenha razão, as duas interpretações são legítimas mas, não é irrelevante? Se não conhecem o Pessoa, o problema é deles.
        Quanto aos anglo-saxões serem autistas, dir-me-á de quem está a falar. Basta relembrar Shakespeare para ver a universalidade das referências. Quer melhores conhecedores do mundo clássico?
        E foram os anglo-saxões quem verdadeiramente perceberam a verdadeira dimensão de Proust, para dar um exemplo mais recente.
        E, desculpe o desabafo, não percebo estas necessidades de dilatar a fé e o império literários. Trabalhe-se todos os dias nas escolas, a sério, para nós e para os filhos do emigrantes, para não estarmos tão longe dos índices espanhóis e além Pirinéus. E o resto, que é uma maior partilha aparecerá por si, se tiver de aparecer. Quantos escritores portugueses de primeira linha são esquecidos em Portugal? Se até o Camilo deixou os programas escolares.
        Os “lá fora” são megalomanias de país subdesenvolvido e restos pegajosos de império que não houve.

  3. Paroquial, mas mesmo paroquial, é achar que um texto tão anódino e insípido como esse da Time abala o orgulho nacional. Que o Pessoa é um “poeta local”, é falso. Que temos uma verdadeira reverência pelo que quer que seja publicado em revistas estrangeiras, já é verdadeiro. Não temos que ir trabalhar muito para além Badajoz para mudar isso. É aqui que se muda. Mas deve ser tarefa dificil…

  4. Oh, patrício, o teu texto é irresistível como sempre, mas… o Pessoa tem uma dimensão internacional, quer a Time queira quer não. Neste caso, pelo menos, puxarmos pelos galões é perfeitamente legítimo e não revela provincianismo, pelo contrário.

    Mas o que me parece é que “local”, neste texto, deve ser traduzido por “nascido em” ou “natural de”, como disse já um comentador anterior.

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