Devíamos ser Deuses


claudiakover,

(regressei. habitualmente regresso sempre. não reli este texto. perdoei-me qualquer coisa. sou apenas mortal)

 

Deveria haver um compartimento no nosso corpo reservado apenas para a saudade. Não teria de ser grande, porque a saudade no geral já é algo que aperta. Aperta o coração.

 

Deveria ser proibido sentir uma angústia que não se pode resolver. Proibido não por lei constitucional, mas por alguma regra incutida na infância. Sei lá. Deveria chegar-nos uma carta em casa com um comprimido que resolvesse esse nó.

 

Deveria ser possível fechar os olhos e encontrarmo-nos com pessoas em sonhos. Num mesmo sonho. Ao invés de sonharmos com alguém que, por sono pesado ou morte prematura, não se lembra do que sonhou.

 

Deveria ser fácil gostar das pessoas. Na realidade, é. Mas tal como sucede com todos esses outros “simples” sentimentos, complicamos um pouco, sofremos um pouco. Talvez para moldarmos os nossos caminhos mortais um pouco mais à semelhança das trágicas epopeias gregas.

 

Deveria ser tudo perfeito. Mas o “quase” é a palavra que mais se adequa ao ser humano. A única coisa “total” é o sentimento. Não se pode “quase” sentir.

 

No fundo, os nossos sentimentos são a única coisa que fazem de nós deuses. Mesmo que apenas por um segundo. E as palavras dos outros fazem de nós mortais. Porque não as podemos controlar. 

11 comentários em “Devíamos ser Deuses”

  1. Gostei. Não se pode “quase” sentir. Mas isto faz-me lembrar uma paixão que tive. Eu dizia “não estou apaixonado por ela”, na verdade, estava. Isto não conta como um “quase” sentimento. Mas será que não conta como “quase” amor?

      1. Sentimentos não se discutem. Mesmo dentro de uma relação estável, podem haver profundas divergências. Mas eu vejo o “quase” como uma vantagem. Há um poema triste de Pessoa em que ele diz “tudo é aproximação”, ou seja, quanto muito só podemos chegar ao “quase” lá. Mas isto é bom. O “quase” é o móbil para continuarmos a avançar para a plenitude.

  2. Mas esse compartimento existe. E nós encerramos nele a saudade onde depois a visitamos, a todo o dia, a toda a hora, ou de noite quando lá entramos e nos deixamos ficar, porque a saudade, sentimento que é, é inteira, é integral. Não é fácil gostar das pessoas. Mais difícil ainda é comunicar com elas.

    1. Obrigada pela leitura e comentário. Sim, é difícil gostar das pessoas. Acho que é fácil comunicarmos os nossos sentimentos, pelo menos para mim. É difícil é ouvir o que eles sentem.
      Quanto ao compartimento…o meu tem a porta aberta e é responsável por uma imensa corrente de ar.

  3. Muito bom Cláudia “Deveria ser proibido sentir uma angústia que não se pode resolver”, acredito que muita gente, onde eu me incluo, já sentiu isto na vida, e tu apenas escreveste… Este apenas, não é uma desvalorização, mas sim se percebe que por tão poucas palavras, cada leitor tem a possibilidade de interiorizar a dimensão que isto tem para si. obrigado.

    1. Obrigada pela leitura e pelo comentário. Um dos melhores sentimentos do mundo é escrever algo que desperte um sentimento noutro. Mesmo que seja “apenas” o da identificação. Obrigada

  4. Belo texto, Cláudia. Gostei de ler-te.
    Mas os deuses não se questionam, na sua infinita e intocável perfeição. Assim sendo, eu, na minha finita e imperfeita condição de humana, acho que seria uma grande seca ser deusa…
    Parece-me que é esse “quase” que nos livra da armadilha da imobilidade. 😉

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