mistificações


enlil,

Pouquíssimos o viam, tendo o programa prosseguido anos a fio com audiências pouco mais do que residuais, preguiçosamente encostado ao estatuto adquirido. Raríssimas vezes o citavam, quer na rua, quer no âmbito dos estudos historiográficos. Considerado um “grande comunicador”, dele não terá ficado um epigrama, um aforismo, uma imagem vincada e vinculativa, que perdure além de um repetitivo “storytelling” devedor sobretudo do estilo vetusto de um Pinheiro Chagas. Em vida, das escassas vezes que lhe pediam opinião e ele a dava sem constrangimentos, mesmo quando poderia ter sido polémico, nem assim era escutado com mais do que a deferência devida a um ancião inócuo.

Querendo lamentar na morte do Professor Hermano Saraiva, não o merecido ser humano, respeitável e estimável, ou o Homem público, com os seus defeitos e virtudes; mas a figura exemplar de serviço público de televisão, será decerto desmerecer ambas as coisas: a figura e o serviço público de televisão. Há lugares comuns piores do que a morte.

A bela e os monstros


enlil,

                                

 fotos de Lee Miller por Man Ray, 1931 

 revista Vogue, Lee Miller apresentando modelo Lanvin, 1930 

  

De Musa inspiradora a Parca, aqui está um percurso invulgar, desses que só o séc.XX, o mais terrível e belo dos séculos, poderia proporcionar. Decerto não possuiria Elizabeth Miller, Lee Miller como ficou conhecida, o poder de cortar o fio da vida, mas, como adiante se verá, fotografou fios da vida acabados de cortar.

Não é coisa que se afirme com ligeireza, mas Lee Miller terá sido uma das mais belas mulheres a poisar na terra, do seu tempo até ao nosso. Não só pela inexplicável beleza em si, mas sobretudo porque vendo hoje as suas fotos dos anos 30, nada nela é datado, como se fosse imune ao ar dos tempos e os atravessasse incólume.

Foi Musa tanto das capas de moda da Vogue como das experiências fotográficas de Man Ray, mas com um Lanvin vestido ou sem ele e mais nada, Lee Miller ignora a câmara e mostra-se alheia às circunstâncias. Distante? Talvez. Além? Decerto.

Foi precisamente esta espécie de indiferença entre o modelo e a câmara, promovida por Lee Miller enquanto manequim e modelo, que ela iria prolongar ao comando do obturador, quando num aparente volte face, se converteu em fotógrafa de guerra. Afinal, quem melhor do que ela conseguiria captar com tanta certeza a inércia emocional do corpo?

Feita repórter da Life, Lee Miller registou paulatinamente a derrocada do nazismo enquanto acontecia. Com o mesmo despudor que teve ao enfrentar a câmara, ou talvez emulando Mathew Brady, mostrou os cadáveres de guerra tal como se dispunham, sabendo que poucas coisas serão mais perturbantes do que a indiferença dos mortos pelo sofrimento que os pôs nesse estado – corpos vivos não se deixam empilhar.

Lee Miller, soldados alemães em Estalingrado, 1943

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Lee Miller, SS no canal de Buchenwald, 1945 

Lee Miller, o suicídio do burgomestre de Leipzig e da sua família, 1945

Lee Miller, a filha do burgomestre de Leipzig suicidada, 1945

Neste história há um excepção. Lee Miller só posa com o rosto de frente na célebre foto em que se lava domesticamente na banheira privada de Hitler – mas nem assim nos olha. A insolência do gesto precisava de não ser sublinhada. Em contraste absoluto, a olhar para nós, tão suplicantes, tão frágeis, tão belos e humanos, ficam as figuras dos guardas de Buchenwald, de quem teríamos pena se não soubessemos o que deles sabemos.

 

Lee Miller, na banheira de Hitler, 1945

  lee miller_ guardas de buchenwald pedindo perdão_

Lee Miller, guardas de Buchenwald pedindo perdão, 1945

O dia mais lindo


enlil,

 

É uma lenda, mas é tão reconfortante nos dias de hoje e tão impossível de igualar, que só o facto de poder ter sido imaginada diz muito sobre aquele tempo e aquele lugar.

Diz-se, então, que faz hoje 50 anos que dois jovens ficaram milionários para a vida enquanto bebiam uma imperial.

Os jovens eram Tom Jobim e Vinicius (cuidado com o Vinicius, meninas) de Moraes, a imperial foi sorvida no Bar do Veloso, em Ipanema, à porta do qual, estavam eles a descansarem de não fazer nada, passava Heloísa Pinheiro, moça dos seus 1,73cm, morena de olhos verdes, a caminho da praia, crendo no poema que Moraes compôs ali mesmo num guardanapo, depois de ter murmurado “olha que coisa mais linda”, enquanto Tom tamborilava a melodia na mesa com a polpa dos dedos.

Claro que não foi nada assim. Mas este será o perfeito retrato daquele que cuido como tendo sido o mais perfeito lugar e a mais consumada hora de todo o séc. XX, o Rio de Janeiro em 1962, no Brasil de Kubitschek, o Kubitscheck que todas as semanas ia centro do mundo ver o futuro, essa Brasília erguida no meio do nada-sertão central.

Faltaria pouco tempo para que o inferno descesse ali a sua pata, mas aquele 1962 carioca, nunca houve nada assim.

M.I.A.


enlil,

Este senhor vai ser decisivo na Cimeira Europeia, certo?

Foi para isso que se fez e aprovou o Tratado de Lisboa, certo?

E o Tratado de Lisboa foi um grande passo em frente na construção europeia, certo?

E a partir dele as instituições europeias, magnificamente legitimadas, funcionam muito melhor e com enorme eficácia… certo?

Ou então – hipótese macabra – o seu total desaparecimento de cena e a nulidade do seu cargo comprovam o descalabro institucional da UE.

Estranhos lugares #4


enlil,

Nos dias de hoje o comunismo tem, como se sabe, três capitais: Pyongyang, Havana e Berkeley. Esta última não aparece representada com barraquinha de estado na festa do Avante! porque é uma anedota contada pelas preconceituosas elites de Washington, Nova Iorque e até de Los Angeles, que em snobismo não fica atrás de ninguém. Em compensação na festa do Orgão Central há-de estar presente a RPChina, a qual é comunista retinta da bandeira para cima, milenarmente imperial ao nível do Comité Central e capitalista em versão hardcore daí para baixo.

Isto vai de lamento por ninguém da secção internacional do PCP se ter lembrado de convidar uma delegação da Transdniestre ou Transdniéstria ou Transdnistria (pop: 518.700; área: 4163 km2; capital: Tiraspol; grafia nominal: ainda por definir) sem dúvida o derradeiro bastião do vero e autêntico comunismo de estado à moda da Guerra Fria, da Cortina de Ferro, do Campo Socialista, do Comecon, do Pacto de Varsóvia, de John LeCarré. 

Esta nação não é zombaria nem saiu de um dicionário de lugares imaginários que um certo senhor anda por aí a divulgar. Embora seja só reconhecido pela Rússia, o país fica situado na margem leste do rio Dniester (não confundir com o Dnieper) no troço em que bordeja a Moldávia, antiga Bessarabia. Quando a Moldávia cindiu da URSS e proclamou independência, a Transdn-coiso não quis ir atrás, sobretudo porque a minoria étnica de origem russa, que ali era maioritária, não aceitou de forma alguma a romenização e a romanização exigida pelos separatistas moldavos. Aprendera a lição com o que sucedeu aos seus congéneres letões. Mas como estava entalada a leste pela também recém-independente Ucrânia, que remédio teve senão autonomizar-se, mantendo a antiga bandeira soviética, os caracteres cirílicos, a língua russa e uma versão local do rublo.

Completa o quadro o facto de ser tão arreigado o sovietismo nostálgico da Trasdn(…) e dos seus cidadãos russos perdidos numa terra estranha e hostil, que mantiveram intacto o formato do exército vermelho e o poder de estado leninista, até há pouco conduzido pelo grande líder Igor Smirnov (parece brincadeira outra vez, mas não é…)

De que vive a Transdn-e-tal? Da produção de aço, o que na língua de pau daquela ideologia costuma significar, segundo alguns avisados analistas, armamento. Se fossem menos desconfiados, os trasndnistrienses (deve ser assim) até poderiam viver do turismo, convertendo a sua pátria num parque temático à escala 1/1, proporcionando uma original e genuína experiência soviética, já extinta em qualquer outro lado, mas não aqui, neste cantinho da Europa, a um punhado de horas de vôo de Bruxelas. Bastaria que a capital Tiraspol tivesse aeroporto próprio em vez de ser servida pelo da arqui-rival cidade de Chisinau.

O Palácio Presidencial em Tiraspol

 Um dia como os outros em Tiraspol

Entardecer em Tiraspol

Nunca mais é Sábado


enlil,

Nada é mais sério para os comentadores de futebol do que o futebol. Ora como o futebol em Portugal ascendeu à categoria do mais sério dos assuntos, a seriedade dos seus comentadores de pendão e caldeira, dira mesmo a supina gravidade com que eles discreteiam sobre a coisa, adquiriu uma seriedade de tal modo estratosférica que nem se lhe vê a finalidade, como dizia uma tia pernóstica que em tempos tive.

Poder-se-ão dividir os comentadores de futebol em duas categorias genéricas.

Uma consubstanciemo-la na parcimoniosa figura de Freitas Lobo, que assimilando os rigores da mecânica quântica de Niels Bohr aos adjectivos de Jorge Luis Borges, derrama sobre o futebol uma ciência e uma poesia dignas de Mary Shelley e com iguais consequências. Pululam os epígonos de Freitas Lobo, andando de canal em canal e de jornal em jornal, nenhum tão dominador da vantajosa “razão suficiente” de Leibnitz como o grão-mestre.

Outra categoria é-nos despejada por um homem deliberadamente só, o inexorável e oleaginoso Rui Santos. Sem nunca citar um nome, flagrar uma situação, coligir uma prova, no que parece proceder da emérita escola de Otávio Machado; sem prescindir do presciente dom da opinião universal perpetuamente auto-sustentada, logo cheia da sua própria e imbatível razão, aqui decorrendo do método de Rebelo de Sousa; Rui Santos arrasa o Sistema até aos caboucos, semana após semana. De tal desmoronamento fica tanta poeira no ar e é tamanha a fumarada que não vemos bem o que sucedeu e o que sobra, mas se ele diz que derrubou é porque derrubou mesmo.

Eu, que sou um bruto, vou mais pelos ingleses, esses bêbados para quem o futebol é entretenimento. E para agravar o meu caso, sou leitor fiel da petulante folha de couve When Saturday Comes muito justamente intitulada como “the half decent football magazine”.

Se houver paciência e mais nada que fazer, leia-se a crónica  do Itália X Inglaterra de ontem que estes ordinários publicaram – ele há gente que não se enxerga…

Pornografia de salão


enlil,

Nas casernas de Esparta era de muito bom-tom os recrutas serem enrabados com proficiência pelos veteranos, no mesmo modo que em nada beliscava a virtude das jovens púberes oferecerem os seus préstimos anais aos rapazes que nelas quisesse ensaiar a virilidade. Isto não contestava, bem pelo contrário, que Esparta fosse uma sociedade de costumes ferozes e severos, onde a honra e a virtude estavam acima de tudo, castigando com a proscrição ou a morte o mais leve sintoma de mariquice. Por exemplo, uma das razões do asco nutrido pelos espartanos contra os persas detinha-se no facto de estes exibirem uma feminilidade repugnante, envergando calças em vez de túnicas.

Que os deuses destes pagãos eram uns javardos sempre o fomos recalcando porque nunca se cansaram de o exclamar as religiões do Livro, perpetuamente ofendidas com as suas tropelias. O contraste com a devassidão do panteão olímpico mais sublinhava o puritanismo dos prosélitos do deus-uno e fornecia legitimidade para a omissão e o repúdio dos prazeres do sexo – on n’est pas ici pour s’amuser, como disse certa rainha, ademais francesa, na noite de núpcias.

De tal modo eram frescos certos mitos da antiguidade clássica que mal o Renascimento os reabilitou como referência cultural, logo a pintura se dispôs a ilustrá-los com o menor rebuço possível. Eles proporcionavam uma soltura lúbrica que sem essa patine elegante e ancestral bem poderia trazer aos pintores e seus mecenas o aconchego flamejante das inquisições.

Oiçam, por exemplo, o mito de Leda. Quem o contaria melhor seria a Ivone, mas cá vai, na medida do possível. Zeus, o lúbrico, apaixonou-se por Leda, dulcíssima e prudente esposa do rei de Esparta. Para dela se aproximar sem alarde, Zeus, o lascivo, transmutou-se em cisne e fingindo-se espantado por uma águia, nela se aconchegou fremente, na mesma noite em que Leda se havia submetido aos deveres de real consorte. Os normais meses depois, Leda debitou de seu ventre dois ovos, de um saíram Castor e Helena, doutro Clitemnestra e Polux. Quais eram filhos de Tíndaro, o rei, quais de Zeus, foi confusão nunca esclarecida.

Um petisco destes a ele se atiraram pintores dos mais diversos períodos a instâncias dos seus patronos que desejavam tão sugestiva decoração para as suas garçonniéres. Se muitos tiveram o pudor das meias tintas, outros, como abaixo se exemplifica, sustiveram a metáfora e mostraram o que viram. Alguns bem de frente, outros muito de trás: ínclitos artistas, grande arte, enorme pouca vergonha.

Gostamos de imaginar os clássicos hirtos e laureados, esquecendo que por vezes do que eles gostavam era de laurear a pevide.

 Michelangelo, (gravura), 1530

Esta gravura de M., que não se atreveu à tela, embora encomendada pelo Duque de Ferrara acabou nas mãos do rei de França.

 

Paolo Veronese, 1585

Como se não bastasse o coito explícito ainda acrescenta bico e boca juntos num beijo ou noutra alusão, quem sabe…

 

Boucher, 1740

Ainda está para se ver pintor mais evidente e natural do que este.

 Gustav Klimt, 1917

Para desfazer o mito do erotismo de Klimt.

Ai os boémios


enlil,

 

 

Hoje talvez seja um bom dia para relembrar qual foi o pontapé – não foi bem um pontapé… – de saída para os 30 anos de guerra que racharam a Europa ao meio. Calhou-nos ficar no lado que se triunfasse não teríamos acabado à ponta perdida – azares. Nem com os ansiados golos do CR7 haveremos de tragar tanta cevada como eles, falta-nos costela de boémios, é o que é. E embora jogue o Postiga no lugar do Hugo, alma até Almeida rapazes!

Lviv


enlil,

Não será prudente recomendar assim sem mais nem menos “Les Bienveillantes” (trad. pt: “As benevolentes”, D. Quixote). Escrito directamente em língua francesa pelo americano Jonathan Littell, será provavelmente um dos melhores romances do séc. XXI, foi decerto um dos mais controversos, e mesmo numa época em que predomina a sensação de já se ter visto tudo, a sua leitura é capaz de perturbar ou até traumatizar os espíritos menos prevenidos.

O horror que se desprende das páginas de “Les Bienveillantes” deriva não tanto das cenas cruas e brutais nele descritas, mas sobretudo do modo meticuloso e prático como Maximilien Aue, o fleumático, se não blasé, oficial das SS, desempenha o seu trabalho. Este consiste em expurgar os territórios conquistados pela Wehrmacht a leste do Reich de qualquer resquício de semitismo, de modo a prepará-los para a radiosa colonização germânica. O nosso Aue, cujas preocupações pouco ou nada divergem das de qualquer bom profissional, afigura-se como um executivo competente, contrariando o acomodamento burocrático de alguns camaradas e procurando sempre aperfeiçoar a sua performance. Dito de outro modo: Maximilien Aue dedica-se a exterminar dezenas de milhares de judeus maximizando as cotas, a eficácia e os custos da sua operação – sim ele podia ser qualquer um de nós.

A primeira missão de Aue passa-se em Lemberg, que em polaco teve o nome de Lwów, enquanto cidade russa chamava-se L’vov e agora que pertence à Ucrânia tomou o nome de Lviv. À chegada o Einsatzgruppe de Aue é recebido em festa, o povo saiu à rua com bandeiras amarelas e azuis, acolhendo os nazis como libertadores e aclamando o líder nacionalista Stefan Bandera. Aos festejos não falta um pogrom.

Seria ignóbil discutir qual é o instantâneo mais horrendo dos muitíssimos horrores que se praticaram na II Grande Guerra. Este é dos que mais me impressionam e foi recolhido no pogrom de 1941 em Lviv.

É possível imaginar que a mulher da fotografia, menos de uma semana antes, não passasse de uma recatada matrona pequeno-burguesa, conservadora, mãe ou tia numa família de artesãos e lojistas, que levava a sua vida com pudor e discrição. E de repente, por ser judia, vê-se assim exposta e em pânico, fugindo seminua e sem destino rua abaixo, perseguida por um bando de rapazes na mais pura reinação, que de vez em quando lhe ferram uma paulada, para que ela não pare de correr aos tropeções e só para gozarem o seu desespero. A humilhação é um castigo mais desumano do que a morte.

Não sei se depois da Guerra os alemães terão regressado a Lviv antes deste Euro 2012, onde no Sábado jogaram contra Portugal.

Fumarmata


enlil,
Não sei o que têm os cigarros de hoje, que os de antigamente até faziam bem à saúde, eram os próprios médicos que diziam. Vou dando umas passas até que voltem a dizer que afinal não são maus.

 

 

 

 

E o PIB?


enlil,

 

Contas feitas e concluíu-se que a criminalidade violenta no Brasil depauperava o PIB nacional em cerca de 9%.

Faço o sr. Ministro das Finanças o favor de pedir a um desses seus assessores doutorados em Espumante de Urinóis que se aplique num excel a projectar o impacte da absolvição destes dois crápulas no PIB de Portugal.

Atente, sr. Ministro, que o meu humilde requerimento não vai no sentido de saber quanto é que eles já consumiram ao Estado português entre processos judiciais infrutíferos, cobranças fiscais alienadas, sacos azuis e economias paralelas. Para isso bastam umas estatísticas, mesmo das nossas, e uma máquina de calcular.

Eu que sou leiguíssimo em economia e economês ia jurar que já haverá modelos e algoritmos para identificar e articular as parcelas correspondentes à potencial retracção do investimento estrangeiro em Portugal.

Suplico-lhe, sr. Ministro, que me esclareça como vai persuadir os tão ambicionados investidores a aplicarem o seu capital num país com leis destas, uma justiça destas e autarcas assim. Olhe que um road show não deve chegar.

Estranhos lugares #3


enlil,

O que hoje se chama de INATEL, é a continuação, em outros moldes, da FNAT. A Federação Nacional para a Alegria no Trabalho foi uma peça do nunca muito funcional nem inteiramente bem sucedido aparelho corporativo do Estado Novo. A sua função era provir e orientar o lazer dos trabalhadores urbanos de um modo activo e saudável: ginástica sueca, campismo, termalismo, colónias de férias balneares, e do lado do recreio: saraus musicais e teatrais. O bizarro nome da FNAT não saiu da imaginação de qualquer conselheiro de Salazar, mas resultou apenas da tradução livre do nome da organização que a inspirou e moldou, a “Kraft Durch Freude” (KdF) nazi.                     

Das obras arquitectónicas do nazismo poucas remanesceram até hoje. A mais famosa será o aeroporto Tempelhof de Berlin, encerrado em 2008 e reaberto em 2010 como um parque público em meio de grande polémica.

Todavia a mais espetacular, introvertida e controversa construção do nazismo é o denominado Colosso de Prora. Trata-se de um conjunto contínuo de 8 edifícios com 6 andares de altura e 4.5 quilómetros de comprimento. Obra de engenharia civil de maior extensão, talvez só a muralha da China. A sua forma severa e repetitiva, amplifica as sensações de arrogância e autoridade que dela se desprendem, tão acarinhadas pelos nazis. A besta alonga-se ao correr da suave curvatura da brumosa praia da ilha Rügen, ao largo dos confins da Pomerania, banhada pelas águas álgidas do Báltico. 

 

       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este complexo foi construído entre 1936 e 1939 e destinava-se a ser “a maior e mais pujante colónia balnear” do KdF, palavras de Hitler quando foi pessoalmente inspecionar a construção daquelas 20.000 camas. Como os planos do Furher incluíam um monumental pavilhão de espectáculos com capacidade para todos os veraneantes, mais duas gigantescas piscinas cobertas, e como o início da guerra interrompeu a construção desta segunda fase, Prora acabou por nunca ter verdadeiramente entrado em funcionamento.

As autoridades da RDA, o lado da Alemanha em que o Colosso de Prora calhou, foram incapazes de decidir o destino deste monstro além de o ter cedido para uma base soviética até 1955. Depois da reunificação prosseguiu a envergonhada controvérsia: o que fazer com isto? Demolir parece fora de causa, até porque já se converteu em exemplar património arquitectónico. Mas o volume é tal e a sua localização de tal modo impraticável, que parece não haver solução para Prora. Um dos cantos foi convertido em albergue de juventude com razoável êxito – e o resto?

 

 

Em jogo


enlil,

 

Como é um espectáculo de milhões (de audiência), o futebol é um espectáculo de milhões (de €, $, руб, ﷼).

A primeira e maior fatia dos milhões do futebol provem dos direitos televisivos. Antes destes provem dos negócios e das percentagens das transferências de jogadores, mas isso é lá entre eles.

Como, segundo se ouve dizer por aí, Portugal está em crise, os investidores publicitários desferiram uma enorme machadada nos seus orçamentos. As estações de televisão que dependem deste investimento estão há mais de um ano a fazer funambulismo económico.

Publicitários e estações de televisão aguardavam um grande evento, de grande visibilidade para recuperar o movimento.

Esse momento será/seria o Euro de Futebol.

Mas uma condição é crucial: que a seleção portuguesa faça uma boa carreira ou pelo menos boa figura. Quanto mais longe for no campeonato, mais audiências, logo mais investimento, logo mais receita – logo a possibilidade de salvar o ano.

Se a seleção limitar a sua presença a 3 jogos, e se o público se desinteressar do espectáculo por ela jogar mal, será uma desgraça muito grande – nem a única oportunidade decente do ano para a recuperação orçamental resultará…

Donde a histeria compulsiva com que as estações de televisão têm destacado o menor suspiro, o mais pequeno atacador desatado, acerca da Seleção. Dar-lhe uma exacerbada exposição mediática é, por um lado, esticar no tempo a agregação de audiências em torno dela; por outro, tentar colmatar a montante eventuais prejuízos a jusante. Porque sabem que mal a seleção seja eliminada, sobretudo se prematuramente, os patrocinadores se esfumam – quem quer ter a marca associada ao fiasco, para mais num tempo tão sensível como este?

É só isto que está em jogo quando o Hugo Almeida tropeça na bola ou o Pepe fica a olhar para ela – a derradeira hipótese de resgate financeiro de todo um sector económico.

Moralismo


enlil,

Jung Lee, “Bordering North Korea #15”, 2005

Um dos sinais mais prementes da decadência portuguesa é o exacerbamento do discurso moralista. Quanto mais nos inclinamos para uma permanente avaliação moral do que é justo ou injusto, mais dissolvemos, deturpamos e descuramos a avaliação ética do que é bom ou mau.

Creio que isto fica exemplarmente descrito no célebre “o síndrome do automobilista lusitano”:

É consensual o princípio ético de que o excesso de velocidade é mau. No entanto quando sou apanhado a infringi-lo, costumo ter duas reações moralistas perante tamanha e tão evidente “injustiça”:

1)     Não estava a correr nenhum risco (o prevaricador interpretará sempre o princípio ético a partir de uma auto-avaliação permissiva e generosa da sua prática pessoal).

2)     Como é possível penalizar-me por este erro, deixando impunes os outros prevaricadores? (decorrente de um dos mais frequentes e sinistros provérbios portugueses: “ou comem todos ou não há moral”).

Ou seja, derramo um par de conceitos morais sobre a circunstância, e é isto o moralismo, em vez de fazer uma ponderação ética sobre o meu comportamento.

Este moralismo em política é evidente através da eufórica e ignóbil frase: “é ladrão, mas tem obra” geralmente utilizada para redimir autarcas.

O moralismo emerge em situações mais discretas e comuns, embora não menos perversas, como por exemplo: “Como é possível fulano ganhar tanto, quando há tanta gente com o salário mínimo?”

Se em abstracto ainda é possível descortinar a bizarria desta frase, aparentemente quando aplicada a casos reais, parece que ela faz sentido. O moralismo é um guisado que mistura tudo, compara o incomparável, a partir do pressuposto que todos deveriam ter uma fatia igual do bolo, por direito inerente. Ora nem o bolo é o mesmo para todos (um futebolista ganha mais que um cirurgião porque trabalha noutro mercado, com outras regras de oferta-procura e outra dinâmica); nem o bolo é estático (há áreas socias mais produtivas ou mais dinâmicas que outras, por isso umas crescem outras diminuem: uma obra de um artista plástico reconhecido tenderá sempre a valer sempre mais que uma tese de doutoramento em literatura do séc. XVIII), nem o contributo de cada um para esse bolo é igual (o mérito, estúpido…).

A popularidade do moralismo deve-se à sua excitação sentimental: é fácil, instantâneo e tende a creditar como virtuosa a pessoa que o vocifera. Ao passo que a ética é friamente racional e analítica, logo contra-intuitiva, pelo que tende a ser vista como uma espécie de cinismo e parece esconder algum interesse, aos olhos severos e zelosos do moralista.

Em 1933 a Alemanha foi varrida por uma vaga moralista: como podiam os capitalistas judeus enriquecer enquanto o povo alemão, cumpridor, trabalhador e probo, vivia tão mal? Como era possível a Alemanha consentir ser tão desgovernada por aquela corja de conservadores e liberais, tão mancomunados com os incompetentes e corruptos social-democratas e que permitiam as ruas entregues aos comunistas?

Bem sabemos o resultado.

Disco Angola


enlil,

Stan Douglas, “Club Versailles, 1974”, 2012 

Stan Douglas, “Exodus,1975”, 2012

 

Tudo ao contrário do que se diz que é a fotografia.

Os instantâneos (logo verão como vos minto!) são de Stan Douglas, que tende a recuar até à memória dos anos 70, talvez a mais obscura década do séc. XX, na qual não se passou propriamente nada a não ser ter-se acabado tudo, ou seja, as fabulosas promessas afinal miríficas dos golden sixties.

Calhou a Stan Douglas ter dado à costa da adolescência nesses anos, o que para alguém de qualquer parte do mundo, à excepção de Portugal, foi um aborrecimento – até nisto somos ingénuos.

De regressou aos 70s, portanto. E o que há dizer? Tão só duas palavras: disco-sound e Angola. Vai de juntá-las e mostrá-las.

Quanto ao disco façam a experiência de rever Travolta & Bee Gees nas febris noites de Sábado em que o pessoal de Brooklyn ia à Cidade e, caso sobrevivam, contem da vergonha que tiveram, se aquilo vos faz recordar alguma coisa, ou fechem lá a boquinha de espanto (apesar de tudo não foi tão mau como parece…), na hipótese benigna de não terem sofrido tais passagens.

Quanto a Angola, esta Angola, naquele preciso instante, isso fia mais fino. O que sobrou?  Nadíssima e era essa a ideia, os portugueses enfiaram o país em contentores, puseram uma cidade de madeira a flutuar no oceano até Lisboa e… e Luanda ficou deserta. Literalmente. Assim diz Ryszard Kapuściński no seu “Another day of life”, singular reportagem e talvez as únicas memórias de quem ficou para trás.

“Disco Angola” é então o nome e o tema da última exposição de fotografias de Stan Douglas. Olhe bem para elas, é tudo uma encenação, uma reconstrução, uma rememoração. Nada se passou assim a não ser na cabeça dele e diante da máquina dele. Ou melhor: nada se passou assim. Ou melhor: nada se passou. Ou melhor: nada.

E…?


enlil,

O caso-Relvas deve estar na recta final porque o Professor Marcelo já opinou. E quando ele opina a sua mágica opinião é terminal e decisiva, seja quanto ao plantio da batata, seja relativamente à fusão do átomo. Mesmo que não passe de uma opinião libérrima do estorvo dos factos apurados e discriminados, como ele próprio Professor o afirma para melhor certificar a sua opinião.

Peço por isso muita desculpa que mal pergunte:

Haverá por aí alguém que me elucide, só com factos demonstrados, o que afinal se passou?

Fair play


enlil,

Temos bastas razões de queixa deste Inocêncio X. Posto no trono de S. Pedro pelos espanhóis ao cabo de riquíssima compra de votos, troca de favores e torpes intrigas, assim derrotando o candidato que os franceses patrocinavam de modo igualmente abjecto, Inocêncio X não se coibiu de vazar a sua acrimónia contra os sediciosos portugueses de 1640, nunca reconhecendo a legitimidade da secessão e do reino restaurado. Um homem de virtude, portanto, sendo a fidelidade canina aos seus senhores uma das mais cardinais que exibiu.

É seguro afirmar que Velasquez não teve em mente estes rescaldos políticos de Vestefália quando se lhe propôs retratá-lo. Diego Velasquez fora mandado a Roma pelo Filipe, para que comprasse arte e antiguidades com o fito de refazer a decoração do palácio do Bom Retiro. Nesses tempos o arranjo de interiores estava a cargo dos artistas a soldo da corte e nem se pensava que pudessem comer noutra mesa que não a dos funcionários, só um nada superior à dos criados.

Para convencer Giovanni Pamphilj, bispo de Roma, dos seus méritos pictóricos, numa Roma pejada de estetas, Velasquez mostrou-lhe o retrato de Juan de Pareja, seu servo, no qual fizera a mão e agora apresentava como cartão-de-visita.

Inocêncio gostou e acedeu, e Velasquez pintou. Chegou então a hora de revelar a obra ao mecenas. Velasquez retira a serapilheira que cobre a tela e lá está a figura de um homem implacável, gélido, a um instante da cólera.

“Troppo vero!” – exclamou o Santo Padre, as quais foram as únicas palavras suas a residirem na posteridade.

Inocêncio, no entanto, teve fair play: pagou a Velasquez e em vez de destruir uma obra tão pouco lisonjeira, enviou-a para o seu Palazzo privado, o Doria Pamphilj onde ainda hoje está exposto.

Terá sido talvez este o primeiro momento histórico em que um artista preferiu a verdade em detrimento das convenções do gosto e sobretudo das intenções do mecenas. Se tal gesto se tornou “natural” a partir do romantismo, no séc. XVII ele encerrava o risco do ultraje.

 

  

What you see, is what you get: Lucien Freud era conhecido pelo seu temperamento cru e por não se coibir de trasladar essa rispidez para as suas telas. Isabel sabia portanto ao que ia quando encomendou um retrato a Freud, já então capacitado como o maior figurativo do séc. XX.

Sem amolecer o coração, Lucien Freud transigiu e dispôs-se a um gesto inédito nele: sair do estúdio e encontrar-se com a Rainha entre Maio de 2000 e Dezembro de 2001, no Palácio de St. James. Só exigiu à monarca que envergasse a coroa que ostenta nas libras e na abertura do parlamento.

Quando o quadro foi dado a ver ao público aconteceu o inesperado: a arte do retrato, supostamente convencional e estabilizada, deu azo a polémica das antigas. Um coro de protestos se levantou e houve quem aventasse a hipótese de falta de respeito para com a real figura; Freud pintara Isabel de um modo implacável, sem cerimónia nem atenuantes, afinal, tal como se auto-retratava.

Do que estavam à espera? A idade endurece, o poder não é doce e as sombras estão onde menos as esperamos. Freud recusou o estipêndio e Isabel, como sempre, não comentou a obra. Mas com o seu silencioso fair play quem quiser poderá vê-la na pública Royal Collection de Buckingham.

Um perfil de estadista


enlil,

Piero della Francesca, retrato dos Duques de Urbino, 1472

 

Vê-se logo pela quebradura do nariz que é uma rica bisca este Federico de Montefeltro. Ou então aquele olho de globo saliente mas ao mesmo tempo semi-cerrado a tirar as medidas ao mundo, sabe-se lá se quezilento ou apenas desafiante.

Mas a pergunta é outra: que decisão foi esta de Piero Della Francesca de retratar Federico e sua mulher de perfeito perfil sem o favor de um três-quartos por mais ligeiro que fosse?

Piero Della Francesca era matemático, conhecia sem hesitação a geometria dos rostos e à época já a pintura dominava a perspectiva. Até parecia mal retratar os patrocinadores com tão pouca graça e garbo.

Sucede que Federico de Montefeltro se fez nada menos que Duque de Urbino por via do seu casamento com Battista Sforza, donzela que lhe foi concedida pela casa do seu apelido, a maior de Milão, onde punha e dispunha, e sem haver quem a superasse em toda a itálica, talvez só igualada no poderio pelos Medici de Florença.

Que terá então feito Federico para merecer tão distinto matrimónio? Ele era um indomável estadista à moda do seu tempo, ou seja, um cabo de guerra muito impaciente e vitorioso, passando a fio de espada quem se lhe atravessasse ao caminho. Donde a limitação de Piero della Francesca no seu retrato: é que por via do ofício, Frederico tinha o olho direito vazado e a metade dextra da cara amarfanhada numa continua cicatriz. Pelos visto não era assim, de chagas à mostra, para mais agora investido da sua nova dignidade ducal, que Federico gostaria de ser recordado. E se o condottiere ficava de perfil, também a sua esposa teve que caber no retrato em pose equivalente, aqui com 28 anos e a semanas de morrer no parto do seu 9º rebento.

Qual será a moral desta história? Provavelmente que as razões próprias da arte só vêm a seguir a outras mais fortes razões, um preceito ainda por invalidar mesmo já tendo passado o romantismo por cima de nós.