mistificações


enlil,

Pouquíssimos o viam, tendo o programa prosseguido anos a fio com audiências pouco mais do que residuais, preguiçosamente encostado ao estatuto adquirido. Raríssimas vezes o citavam, quer na rua, quer no âmbito dos estudos historiográficos. Considerado um “grande comunicador”, dele não terá ficado um epigrama, um aforismo, uma imagem vincada e vinculativa, que perdure além de um repetitivo “storytelling” devedor sobretudo do estilo vetusto de um Pinheiro Chagas. Em vida, das escassas vezes que lhe pediam opinião e ele a dava sem constrangimentos, mesmo quando poderia ter sido polémico, nem assim era escutado com mais do que a deferência devida a um ancião inócuo.

Querendo lamentar na morte do Professor Hermano Saraiva, não o merecido ser humano, respeitável e estimável, ou o Homem público, com os seus defeitos e virtudes; mas a figura exemplar de serviço público de televisão, será decerto desmerecer ambas as coisas: a figura e o serviço público de televisão. Há lugares comuns piores do que a morte.

5 comentários em “mistificações”

  1. ‘…nem assim era escutado ‘
    Leia-se, nem assim era mediatizado.

    Não há melhor elogio a fazer a um homem que manteve a mesma postura e pensamento livre ao longo da sua vida, que ter escapado à maledicência e ao insulto, num tempo em que a todos se nega o direito de serem coerentes com o seu passado!

    1. Esse será até um dos poucos pontos em que faço vénia a Hermano Saraiva: o de não ter desmanchado à pressa ou devagar as suas convicções, sem nunca ter desassumido os actos (maléficos, na minha opinião) que executou como ministro ou se ter posto com circunstâncias e explicações. Deviam ter-lhe pedido contas? Talvez, mas não foi decerto por esquiva dele que não as tiveram.

  2. Um grande contador das Estórias de Portugal, deixando por vezes algumas indicações politicamente incorrectas acerca do que terá sido o apagão da História.

    Como os historiadores modernos pouco mais fizeram do que aprimorar versões oficiais, aprovadas fora e carimbadas pelo Portugal dos pequeninos, é natural que relembrar o passado fosse inconveniente, para os papagaios das estorietas de alguidar, mui cientificamente cúmplices da descarada vigarice.

    Enfim, a grande proeza de circum-navegar a África foi daquele português que, com saudades de casa, pegou num barco a remos com uma pequena vela, partiu da Índia e quando chegou a Lisboa, D. João III achou por bem ocultar o episódio.
    Claro… sobre isto os ilustres nacionais calam-se, e é um alemão, Rainer Daehnhardt, que o publica.

    A viagem desse português ombreia com a de Gama, pois sem ela temos apenas as Estorietas dos Descobrimentos, mostrando que os mostrengos que impediam a passagem do Bojador são os mesmos que hoje impedem a verdade.
    O que interessam os mapas de Reinel, que o homem da Lusoponte ousou redatar, o que interessam os mapas de João de Lisboa, que mostram contactos com os Incas?

    Enfim, vi o programa de Hermano Saraiva em que falava da antiguidade do relógio de Serpa, e no museu sobre um relógio de navegação… disse: “claro que este não é português, é francês”… e mais não precisou dizer.
    Não interessava. Interessava o contexto.

  3. Os programas que passavam agora na 2 eram, em grande parte, repetições de repetições.
    Pulido Valente referia, há tempos, que, para vergonha nossa, os programas de JHS eram um dos poucos, senão o único exemplo de divulgação cultural depois do 25 de Abril.
    Lembro-me que os programas de Saraiva, tal como os de Vitorino de Almeida ou Nemésio, foram grandes acontecimentos da televisão – o que não deixa de ser interessante, agora que a classe média e média alta e alta (sic) vê telenovelas.
    Quer-me ainda parecer que não leu o Chagas. Vetusto o Chagas? O Chagas, como qualquer provinciano, tinha a mania que era moderno. O que leu do Chagas?

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