83 comentários em “Desmistificações.”

  1. Se este texto não é irónico, atrevo-me a dizer que é preciso desmistificar Menezes Leitão. Os seus livros não vendem. Ninguém o chama para nada. Ninguém o conhece. Afinal de contas, alguém quem sabe quem é Menezes Leitão?

      1. Inferior? Meus Deus, está a dizer que nunca quis “matar” um estudante comunista?! É isso que “eles” estão a dizer. Bom, eu suponho que na cabeça de um Ministro da Educação de Salazar a única ideia que lhe passa pela cabeça é domar e matar quiçá os estudantes comunistas, esses estafermos!

      1. Pelos vistos tens um alter-ego, Leonor. Olha, podia ser bem pior: eu já tive um que era jogador do Benfica. Felizmente para as minhas convicções leoninas o rapaz só durou um par de meses no clube da águia e nunca mais ouvi falar dele.

  2. Sabe a que horas, em que canal, e quando foi exibida a última série do seu programa? Que audiência teve? Quantos episódios teve essa série?
    O ponto objectivo é só esse: serviço público de televisão sem audiências, apenas com estatuto grangeado em 1971(!) será serviço público? Não será um lugar comum impensado dizer que é um grande comunicador quem de facto já não tinha real influência, nem resultados objectivos dessa comunicação. Ir ao programa (da manhã) do Goucha, feito para classe D/+65 é significativo desta perda de influência, precisamente.
    Ser caricaturado é sinal de popularidade. Toda a gente sabia quem era – mas alguém o via, realmente? Às vezes basta durar, para manter o estatuto…
    E entrando noutra dimensão: quantas citações académicas tiveram os seus trabalhos? Não costuma ser esta a métrica para o seu valor científico?
    O lugar comum é terrível: auto-valida-se, logo torna-se imbatível, mistifica-se, mesmo que os números digam objetivamente o contrário. Por analogia, é como insistir em dizer que Fernando Namora, é o maior escritor português do séc. XX, porque era isso que afirmava a crítica predominante dos tempos em que mandava o neo-realismo. Além de que há argumentos para tudo, não é preciso ser objectivo…

    1. Eu via os programas de JHS. Vi muitos. E creio que de uma maneira geral eram vistos por bastantes pessoas. Obviamente não possuo dados que possam provar o que estou a dizer, mas também me parece que o José Navarro também não tem dados que possam provar o que está a dizer. Quanto ao rigor científico da sua obra, e sem querer estar a defendê-lo sobre questões que não domino inteiramente, acho essa questão irrelevante porque o seu papel foi sempre mais o de divulgador do que especialista. No essencial, a verdade histórica estava lá. Sinceramente, os seus programas transmitiam uma certa grandeza e parecia ainda mais mirabolante porque o povo de que Hermano Saraiva se ocupava é muito pequeno e, sobretudo, muito inculto e invejoso daqueles que têm fôlego, audácia e talento.

      1. Também vi muitos. Não perdia um. E se algumas vezes me parecia ele estar a especular, a verdade é que nunca ninguém lhe apontou um erro histórico que fosse. Acho perfeitamente ridículo que o seu valor seja comparado pelas citações de autores com muito menos estatuto que ele. Infelizmente de facto somos um povo muito pequeno para um Homem tão grande.

        1. Eh eh, Luís… nem aquele de que a ‘Sala dos Capelos’ tinha sido o palco das Cortes de Coimbra, em 1385, incendiadas por João das Regras? Está no youtube e tudo… Grande galga.
          Acho, sinceramente, que já nenhum historiador a sério se dava ao trabalho de desmentir aquelas facilidades, tamanho era o desconto benigno que lhe davam. Sei um bocadinho do que falo.

          1. O edifício da Universidade de Coimbra é o edifício mais antigo de Portugal. Foi lá que Almansor planeou o ataque à cidade santa de Santiago de Compostela e foi o Paço Real de Portugal até ter sido entregue por D. João III à Universidade. Pode ler-se em António Filipe Pimentel, A Morada da Sabedoria. I. O Paço Real de Coimbra: das origens ao estabelecimento da Universidade, Coimbra, Almedina, 2005.

            Em que outro edifício de Coimbra poderiam ter funcionado as célebres Cortes de Coimbra, de 1385?

          2. Vês? Não falamos de “edifícios”… coisa cientificamente vaga, considerando a mole edificada. Falamos de sítios concretos.
            Conheço bem a obra de que falas: por acaso, ou não, revi-a ante de impressa, na versão primeira, para defesa. Vê lá tu a coincidência…
            Falo de sítios concretos e do que JHS afirmou no programa, perorando para a câmara a partir uma das varandas da Sala dos Capelos e dizendo:”Aqui, aqui…!”
            Obviamente que as Cortes de Coimbra tiveram lugar no actual Paço das Escolas, mas não na Sala dos Capelos e sim na sala do actual Conselho Científico da FDUC. Já lá deves ter estado, por certo…
            Mas, se não, terei imenso gosto em ta mostrar, fica a 20 mts do meu gabinete.

          3. Já lá estive, sim. E confesso que me parece uma sala muito pequena para albergar umas cortes. Eu apostaria numa sala maior. Se foi ou não na dos capelos, acho que não se pode saber. O que se sabe é que foi naquele edifício.

          4. Bom, se leste a obra, então… foi mesmo aí.
            E já se sabia, de resto.
            -Pequena?
            Temos de considerar as readaptações (seccionamentos) do edifício e a noção romântica de amplitude que temos agora, magnificente, contra o sentido de grandeza de espaço de então.
            Nessa época, era ‘big enough’.
            Mas as Cortes de Coimbra nunca tiveram lugar, seguramente, na Sala dos Grandes Actos (= Capelos). Até porque, por definição, seria um espaço impróprio, do ponto de vista funcional.

          5. A noção romântica de amplitude que temos agora é que, do ponto de vista funcional, a sala dos Capelos seria por definição um espaço impróprio. Devia ser da resiliência.

            Ao depois o Professor é que contava historias…
            Cumpts.

      2. “creio que de uma maneira geral eram vistos por bastantes pessoas”
        Caro vasco: Independentemente da sua crença, os programas são objetivamente medidos. Os programas do Prof. Hermano Saraiva tinham uma audiência inferior à média do canal 2, na ordem dos 2%-3% o que em televisão é insustentável, a não ser por qualquer argumento político ou cultural que o ratifique. Digamos que é equivalente, noutro universo de público, com outra dimensão e outra métrica, ao tão criticado cinema português.

        1. Bom, ok. Fechem os canais todos da RTP então. Não há motivos para pagar ordenados principescos àquela cambada de inúteis.

  3. Para quando também a desmistificação do Dr. Mário Soares que começou filiado no PCP e é hoje, no términus da sua vida, detentor do nome de uma Fundação que desconheço a sua utilidade, que etc, etc e nos custa a nós contribuintes muitos milhões?

  4. O programa “A Alma e a Gente”, quando passava na RTP 2 (e terminou em Abril deste ano) tinha sempre cerca de 3-4% de audiência, o que é um excelente resultado tendo em conta as audiências médias dos programas da 2. Resultados efectivos da sua capacidade de comunicação? Os comentários de muitas pessoas na internet sobre o gosto que tinham em ouvir a sua forma peculiar de contar a História de Portugal. Ir ao programa do Goucha é sinal de perda de influência? Se tudo o que é político foi ao programa dos Gato Fedorento e o Mário Soares ao da Júlia Pinheiro e não perderam influência…
    Não percebo essa de o seu trabalho não ser reconhecido pela comunidade científica, quando em 1981 lançou uma História de Portugal em que participaram alguns dos mais importantes historiadores nacionais: José Mattoso, António José Saraiva, Maria José Ferro Tavares, Pedro Dias. Se ninguém acredita no que ele escreve, quem quereria com ele escrever um livro de 6 volumes?

  5. José Hermano Saraiva, foi ministro da Educação durante o Estado Novo. Parece-me que, os estudantes da Crise de 69 poder-lhe-ão responder com maior rigor histórico à questão que colocou. Depois veio Abril, e como os tugas têm memória curta, o homem continuou, como tantos do antigo regime, a pavonear-se por aí incólume. E veja-se que Saraiva até disse a Fátima Campos Ferreira que “Salazar era um santo ditador”. E com tudo isto concluo que, José Hermano Saraiva foi um fascista. É a única coisa que sei dele. Mas também só tenho 25 anos, o que é que eu sei da vida?

    Cumprimentos!

    1. O facto de ter sido apoiante do antigo regime não lhe retira o seu mérito como historiador e comunicador. Ezra Pound também foi fascista e não é por isso que deixa de ser um grande poeta. Como se escreveu noutro post abaixo um homem é mais que um rótulo.

      1. Já enjoa tanto essa conversa do “fascista”. É um termo já tão utilizado e repisado politicamente que chega a estar gasto. A vida de uma pessoa tem várias etapas. A de JHM durou 92 anos. O povo sabe quem ele é, o seu papel durante o regime salazarista e a crise de 1969 e mesmo assim deu-lhe espaço para apresentar a sua visão da História deste país.

        1. Por certo que um homem é mais que um rótulo. Por certo que um homem não é o erro que comete. Mas que o homem que comete o erro, tenha pelo menos a competência de reconhecê-lo. Aos 92 anos, José Hermano Saraiva, consciente, colaborante e orientado, afirmou: “Salazar foi um santo ditador”. Um santo que combateu a liberdade de expressão, mandou prender e torturar pessoas, desterrou gente para o Tarrafal e promoveu uma Guerra Colonial. Aos 92 anos, e conhecendo a repressão e o analfabetismo a que o povo foi sujeito, sabendo dos homens que se perderam no Ultramar, dos que não se perderam mas voltaram sem pernas e sem braços e sem alma, José Hermano Saraiva afirmou: “Salazar foi um santo ditador.” E não observei no senhor nenhum síndrome demencial ou confusional que pudesse justificar tamanho despautério.
          E se o termo fascista fere as susceptibilidades, chame-se-lhe salazarista. E sim, foi historiador, comunicador, et cetera et cetera, mas também foi salazarista! E só para que conste, não tenho tias.

          Cordiais cumprimentos!

          1. Querer avaliar um percurso de 92 anos por um episódio ocorrido em 1969, o que até se compreende numa pessoa como a Joana, que apenas tem 25 anos e vê tudo ainda muito a preto e branco, mas muito menos compreensível em pessoas com décadas de vida. No fundo, isso é o mesmo que avaliar o longo percurso de José Saramago por um episódio ocorrido em 1975, quando era director-adjunto do DN e despediu mais de 20 jornalistas por delito de opinião apenas porque não estavam em sinotnia com o Partido Comunista e o seu amigo general Vasco Gonçalves, que detinham o poder à altura.
            Ainda há hoje quem não perdoe a Saramago este despedimento colectivo à margem da lei nem os editoriais incendiários pró-Governo e anti-PS que Saramago escreveu em Julho, Agosto e Setembro de 1975, como há quem não perdoe a Saraiva ter sido ministro da Educação durante a repressão dos estudantes em Coimbra.
            Só pessoas de vistas muito curtas ou de um imenso sectarismo são capazes de avaliar uma vida inteira dessa forma. Um homem é sempre algo mais do que a sua circunstância.

          2. Espero, então, que a vida, o tempo e a idade me tragam esse distanciamento 😉

          3. Pedro Correia, nunca devemos avalir alguém apenas por um momento da sua vida, mas também não devemos nunca deixar de avaliar alguém por todos os momentos da sua vida. Custa muito ouvir JHS chamar santo e justo a Salazar, não foi a primeira vez que JHS falou em termos elogiosos para a época do estado novo. Não é por depois ter realizado programas de televisão que foram um grande sucesso que se pode ignorar as suas opiniões sobre um dos periodos mais negros da nossa história.

          4. Tiago, você nem imagina o que o Picasso, o Aragon, o Neruda, o Jorge Amado disseram, escreveram e pintaram sobre o camarada Estaline, essa figura benigna e benevolente, “pai dos povos”, “amigo das classes trabalhadoras de todo o mundo”.
            Garanto-lhe: fizeram-lhe os elogios mais execráveis. E nem isso os diminui como excelentes escritores e artistas que eram.

            Joana, perceberá mais tarde como eu tenho razão.

          5. E é pena que, ao menos, não tenha assumido a sua responsabilidade nessa questão estudantil; pelo contrário sacudiu a água do capote e culpou Veiga Simão.

  6. Evidentemente, conhecidíssimo nos media e através dos ‘petits livres de poche’ sobre Históriade Portugal , Luís… (sem ofensa para a Gallimard). Mas aqui que ninguém nos ouve, esse score não é lá grande coisa… considerando o ‘target’ dos espectadores.
    Muita asneira (incorrecção, inverdade científica) saía daquela boca para fora! Ultimamente, para além da RTP, o palco promocional era o SOL, pela mão do filho do grande (aqui, cientificamente e proprio sensu) António José Saraiva.
    Enfim, Deus guarde o Ministro da Educação de Salazar, grande sobrevivente do pós 25 que, não fora outra ordem de razões, seria realmente um exemplo.

    1. Não concordo nada. Qual o historiador contemporâneo dele que deixou obra semelhante? É verdade que havia um grande preconceito na comunidade académica contra a sua actividade de divulgação e reconheço que por vezes caía na pura especulação, mas existirá história sem ela?

      1. Ó Luís, de ti, nem acredito!!! Qual o historiador contemporâneo que deixou obra semelhante?
        Mas um comunicador nato (que ele era) é ‘de per si’ garantia de alguma coisa?
        Obra? Mas que obra? De que é que estamos afinal a falar?
        Não quero arrasar o seu contributo, que foi tão válido quanto os programas na RTP de António Vitorino de Almeida no domínio da Música: lançar o interesse, acordar sensibilidades, divulgar, acrescentar “conhecimento” (hum…).
        Tanto, concedo, mas mais nada…
        Não somos assim tão terceiro mundistas nessa matéria, que diabo!
        Política à parte – que nada me interessa no caso – Portugal tem Historiadores cientificamente irrepreensíveis, ainda que declaradamente ‘engagés’, o que não é defeito, é antes honestamente inevitável.
        Quantos, mas quantos Historiadores portugueses se lhe sobrepõem! Variadíssimos! Só a ignorância do público que grangeou, por mérito na arte, claro, poderia afirmar tal coisa.
        Isso que dizes é quase equivalente a afirmar que o Marinho da ANOP (sorry, foi assim que o conheci), actual bastonário da OA, é um grande jurista…..

        1. Pois eu aposto que a obra dele vai ficar. Quanto aos tais historiadores cientificamente irrepreensíveis, vamos ver quantos serão recordados daqui a uns anos. Leio muitas obras de história e devo dizer que os historiadores actuais têm-me desiludido imenso. São de facto declaradamente “engagés”, o que é um defeito grave.

          1. Também eu leio… e não como revisora, o que foi uma coincidência cumulativa de interesses 🙂
            E, de resto, não há Historiadores neutros, do ponto de vista ideológico. Preciso é que o assumam (ou nós o compreendamos). Nada de menor. A isso se chama honestidade científica, sem qualquer prejuízo para a ciência. Isto, de resto, também se aplica aos juristas, na maior parte dos seus ramos científicos. Sejamos claros.

          2. basta citar dois nomes, perante os quais JHS era um anão: A. H. de Oliveira Marques e José Mattoso; e enquanto divulgador o A.H. (como lhe chamo) era infinitamente melhor, no secundário estudávamos todos pela sua História de Portugal; o que acontece é que o grande público, maioritariamente iletrado, deixa-se arrastar por aquela conversa do «foi aqui» que nem petite histoire chega a ser… como historiador profissional JHS tinha muito pouca credibilidade, quem é do meio sabe isso.

          3. Não quis citar nomes, mas aí estão precisamente dois autores de que não gosto absolutamente nada. A divulgação de Oliveira Marques passava por um manual obrigatório no secundário, seguramente responsável pelo afastamento do gosto pela História de milhares de estudantes. Os estudantes formados com base na sua História chegavam à Faculdade de Direito e numa prova específica ninguém sabia responder qual o significado da data de 1640.

          4. O senhor pode não gostar absolutamente nada de Oliveira Marques ou de José Mattoso, e, ao invés, adular José Hermano Saraiva. Mas isso não muda os dados da questão. A História tem de ultrapassar o registo do senso comum e das historiazinhas tal qual ele as contava, mas se é esse o registo de que gosta, não o critico. São opções. Agora não pode é negar que com Mattoso a historiografia portuguesa deu um salto de gigante, permitindo ultrapassar décadas de atraso.

          5. Cada um tem as opiniões que quer. Dizer que a historiografia portuguesa deu um salto de gigante com José Mattoso é seguramente um “overstatement”. Na sua biografia de D. Afonso Henriques diz que o mesmo nasceu em Viseu, citando apenas um artigo sobre o assunto. Acho muito pouco e não me convenceu. Mas cada um aprecia o historiador que mais gosta.

          6. História ciência não se compadece com opiniões nem minudências. Nesse seu comentário revela claramente que não sabe o que é História. Para mim basta.

          7. Para si basta, mas para mim não. Como é possível qualificar como minudência o local do nascimento do primeiro Rei de Portugal, aceitando apenas com base num artigo alterar o que tem vindo a ser defendido desde sempre? Isto não é apenas uma opinião, não baseada em factos? Eu aposto que o grande contributo de José Mattoso vai ser é para a historiografia de Timor-Leste com a sua obra sobre Konis Santana. Quanto à historiografia de Portugal, essa é muito mais antiga.

          8. A minha formação académica também é em História e tive a benesse de me tornar bibliotecária, portanto conheço razoavelmente bem as obras em causa.
            A. H. de Oliveira Marques é provavelmente uma das razões pelas quais segui História, à revelia da minha família, que achava que eu estava a estudar para ir direitinha para o desemprego. José Mattoso deixa um legado de compreensão do contexto e da evolução histórica, social e política em nada comparável com a sequência de datas a que nos habituou JHS. Uma das suas obras é precisamente uma pequena cronologia. O adjectivo pequena, ou breve, funcionava como uma espécie de pedido de desculpas pela falta de rigor.
            Recebi-o na biblioteca há uns anos para filmar um dos seus programas. Só ele e o “camera man”. Olhou, olhou e achou que o melhor cenário era a varanda central da biblioteca de onde se pôs a debitar “informação”. Por muito que lhe apresentássemos dados que poderia ter lido, mesmo por alto, insistiu que o Tratado das Terçarias de Moura havia sido assinado ali, precisamente ali, indiferente ao facto de aquele “ali” não existir na época e de a casa das Terçarias estar perfeitamente identificada.
            Tentámos por todos os meios esclarecê-lo, mas não conseguimos. Do alto da sua pequena estatura atirou-nos com um “Você sabe quem eu sou?” e eu remeti-me à minha insignificância.
            Um óptimo comunicador? Sim. Um apaixonado pela História? Sim. Um Historiador? Nem por sombras.

          9. São visões diferentes da História. Oliveira Marques e José Mattoso dão-nos uma História sem pessoas, e portanto sem vida. Já as estórias de José Hermano Saraiva dão vida à História. Quanto ao sítio exacto onde foi assinado o Tratado das Terçarias de Moura não tenho obviamente conhecimentos para emitir uma opinião sobre o assunto. Mas não é por uma discussão dessas que desqualificaria José Hermano Saraiva como historiador.

          10. Completamente de acordo com o Luís Menezes Leitão.
            O problema da historiografia “dita científica” desde Herculano foi mandar para o caixote de lixo o que não interessava, o que não batia certo.
            Assim, é fácil… muito fácil mesmo!

            A Zélia, o Baudolino, achariam bem que se fizesse a história do Governo de Sócrates com base na documentação oficial seleccionada pelos próprios?
            – Não? Mas isso é que é a historiografia científica.

            Sem pessoas, sem os interesses que as moviam, sem as ilusões, as mentiras, as omissões, pois é fácil a Herculano, Oliveira Martins, Mattoso, construir uma narrativa linear, cheia de buracos, e com os habituais absurdos. Têm a benção dos regimes, são chamados científicos, mas não são menos contadores de estórias.
            São é pior contadores de histórias, quando comparados com J. H. Saraiva.

          11. Senhor da Maia, por acaso alguma vez fez investigação histórica (científica)? Se o fez pode apresentar os seus resultados para apreciarmos? É que pela forma como expõe o assunto só revela não saber nada sobre como se constrói a História: afirma que a história científica apenas se serve dos documentos oficiais, ora, isso é exactamente o que fazia a história positivista de antanho e que é recusado pela actual historiografia, que cruza documentação proveniente de diferentes origens.

          12. baudolino:
            não precisa de mais dos que os comentários que aqui coloquei… veja os outros, e siga o link se quiser.
            Se não quiser, se for cego à cartografia e à lógica, pois seria melhor abster-se de pronúncia, a menos de ridículo.
            Há investigação suficiente para saber que ou sua resposta é uma simples provocação, ou então não faz ideia do que fala.
            Cumprimentos.

          13. «Oliveira Marques e José Mattoso dão-nos uma História sem pessoas, e portanto sem vida». Isto que o senhor diz é um perfeito disparate! E basta citar um único facto (entre tantos outros): a primeira história da vida quotidiana (na idade média) publicada em Portugal foi-o por Oliveira Marques, no começo da década de 60! Parece-me a mim que seria mais sensato cada pessoa falar daquilo que conhece realmente.

          14. Não estou a falar da história da vida quotidiana. Estou a falar da vida das personagens históricas e da forma como elas marcaram o país. O que Oliveira Marques pretende, como ele próprio assume, é substituir “as imponentes árvores da história, que nos orgulhámos de plantar e ver crescer” por uma “charneca povoada de pequenos arbustos e de tímidas flores”. Ler aqui
            http://ler.letras.up.pt/uploads/ficheiros/2355.pdf

          15. Vamos lá ver. Esta coisa da História sem pessoas e com pessoas é uma discussão um pouco redutora do que estamos a falar. Parece-me que este post é a criticar a visão “academica” e cientifica da parte de alguns historiadores que dizem que JHS não é historiador. O que é verdade. Ninguém está a disputar que ele é um excelente comunicador. Um grande contador de estórias. A maior parte dos historiadores que conheço afirmam o mesmo. Agora, é uma História cientificamente “correcta”? Que cumpre os parametros normais da disciplina? Não. Podiamos entrar aqui na discussão da História: Ciência ou Arte mas isto não invalida que há um método histórico que deve ser seguido e há um discurso cientifico que é conveniente um historiador adoptar. E não me parece que JSH cumpra estes requisitos.

            Mas mais importante do que isto, a História de JSH era uma história de estórias. De episódios. Mas a História não é só isto. Aliás, no seu todo, não é maioritariamente isto. Estamos aqui a falar de uma História política. A guerra, o rei, o presidente, o cavaleiro etc. A História das conjecturas. Mas há muito mais do que isto. A História para ser percebida, um determinado episódio histórico, como por exemplo, a chegada da Dinastia dos Áustria em 1580/81 tem que ser percebida num quadro mais alargado do que é a política dos Habsburgo desde o século XV, tem que ser percebida no quadro da espanholização dos Áustria, nas ligações de Felipe II a Portugal. MAS tem também de ser percebido no quadro da economia. Porque é que tantos mercadores e homens de negócio apoiaram o novo rei? Da cultura. Em Portugal falava-se Castelhano na Corte. Era a lingua da Peninsula. Tem que ser percebido no ramo da sociedade. Da mentalidades.

            Não podemos perceber a Idade Moderna sem perceber as mudanças climáticas por exemplo. Não podemos perceber a Europa sem perceber factores naturais.

            Não podemos perceber a Revolução Francesa, o advento da Idade Contemporânea sem perceber as estruturas, a longa duração como lhe chamou Braudel. Isto é História. História económica é História. História social é História. História das instituições. Perceber o sistema político britânico através do crescimento do Parlamento. Isto é História. E isto é uma parte muito importante da História. Não é a parte que “interessa” ao público geral? Isso é chamar ignorantes ao público em geral. A “história” que aparentemente não é das pessoas mas que influencia as pessoas e é influenciada por elas. Saber apenas os reis, e onde se assinaram os tratados é uma história factual que pode ser melhor ou pior contada e JHS contava-a magistralmente. Mas é uma história que nos faz perceber o passado, perceber os processos, as dinâmicas, o como, o porquê (ou a falta de comos e porquês)? Ou é uma História que nos faz entender o quão limitado é o conhecimento do passado? Não.

  7. Na verdade este coment devia estar no post Mistificações de Navarro de ANDRADE. cONTUDO, ESSE DITO ESCRITO É UM EXEMPLAR TÃO OBNÓXIO DE PACOVIADA, COM O DEVIDO RESPEITO (OU ENTÃO DE INTELIGENCIA TÃO SUPERIOR E IRONIA TÃO GENIAL) QUE ATÉ CONSEGUE ENCENAR-SE EM PARVOÍCE DA MAIS ROBUSTA) QUE, INTERDITO, MEIO-ZONZO E PATUSCO, VENHO COMENTAR AQUI NESTE.
    hÁ COISAS QUE NOS DERROTAM COMPLETAMENTE. aSSIM EU, COM AQUELA LUMINOSA GANGADA DE aNDRADE nAVARO OU nAVARRO aNDRADE, (A ORDEM DOS FACTORES DA SUA GRAÇA SÃO ARBITRÁRIOS, DIGAMOS DESTA MANEIRA ATERRORIZADA). e ATÉ OS CARACTERES DESTA POSTAGEM SE PÔS ESTRANHA: SEM QUE EU me tenha apercebido, sem nada ao que creio, fazer, mudou de pequeno para grande e novamente pequeno. Mas DE FACTO J.HERMANO SARAIVA ERA UMA PESSOA DE EXCEPÇÃO. cOMO É QUE navarro não entende isto?(ou a sua artilhada escrita é uma forma de superior admiRAÇÃO?).
    só PODE.

  8. Um grande contador das Estórias de Portugal, deixando por vezes algumas indicações politicamente incorrectas acerca do que terá sido o apagão da História de Portugal.

    Como os historiadores modernos pouco mais fizeram do que aprimorar versões oficiais, aprovadas fora e carimbadas pelo Portugal dos pequeninos, é natural que relembrar o passado fosse inconveniente, para os papagaios das estorietas de alguidar, mui cientificamente cúmplices da descarada vigarice.

    Enfim, a grande proeza de circum-navegar a África foi daquele português que, com saudades de casa, pegou num barco a remos com uma pequena vela, partiu da Índia e quando chegou a Lisboa, D. João III achou por bem ocultar o episódio.
    Claro… sobre isto os ilustres nacionais calam-se, e é um alemão, Rainer Daehnhardt, que o publica.

    A viagem desse português ombreia com a de Gama, pois sem ela temos apenas as Estorietas dos Descobrimentos, mostrando que os mostrengos que impediam a passagem do Bojador são os mesmos que hoje impedem a verdade.
    O que interessam os mapas de Reinel, que o homem da Lusoponte ousou redatar, o que interessam os mapas de João de Lisboa, que mostram contactos com os Incas?

    Enfim, vi o programa de Hermano Saraiva em que falava da antiguidade do relógio de Serpa, e no museu sobre um relógio de navegação… disse: “claro que este não é português, é francês”… e mais não precisou dizer.
    Não interessava. Interessava o contexto.

  9. Na verdade, há que desmistificar José Hermano Saraiva.

    Foi um historiador muito mais do que suspeito, mas também foi um comunicador de raro talento e deve ter conseguido com isso atrair a atenção de muito boa gente para temas empolgantes da nossa História, ainda que muito enfeitados por episódios sem preocupações de rigor.

    A sua morte é uma perda indiscutível.

  10. O post, bem como a defesa que dele se faz na caixa de comentários, parte de diversos equívocos e da falta de distinções que é necessário fazer.
    1. Uma coisa é a literatura académica que parte da investigação aprofundada das fontes e da própria historiografia, outra coisa bem diferente é a literatura de divulgação. É nesta que se enquadra J.H. Saraiva. A divulgação (ou como lhe chamam os ingleses, muito justamente, popularisation) é legítima, mas dentro do contexto de divulgação. Não é por ter sido traduzido em diversas línguas e vender muito que uma obra merece admiraçõ. Nesse caso, Paulo Coelho, Wilbur Smith ou o José Rodrigues dos Santos deveriam ser considerados como clássicos passíveis de serem lidos no Secundário. O motivo pelo qual foi traduzido o livro de Saraiva e não de outros tem mais que ver com estratégias de mercado (e também de desconhecimento da nossa produção científica no estrangeiro), pois pode ser muito mais vendido, inclusive nos aeroportos.
    2. Quanto aos programas de TV. Também aqui importa fazer uma distinção: uma coisa é o seu programa de 1971, outra são os seus programas a partir dos anos 90. Se em 1971 o seu programa era inequivocamente um sucesso, sendo também importante, a partir dos anos 90 era visto apenas por pessoas de uma certa idade, precisamente aquelas que tinham crescido no contexto cultural do próprio J.H. Saraiva. Dou-lhe um exemplo pessoal que confirma isto: há pouco mais de 10 anos estive envolvido numa exposição em que pela primeira vez se mostravam objectos importantes da cultura portuguesa. A exposição durou 6 meses. Durante quase 6 meses, apesar de muito publicitada, a exposição tinha uma média diária de 20 visitantes. Na penúltima semana da exposição passou na TV o programa de J.H. Saraiva, cujo episódio era inteiramente dedicado à exposição e que tinha sido filmado um mês antes. Resultado: nas últimas duas semanas o número de visitantes atingiu diariamente os 300. Significativamente, desses 300 posso dizer que mais de 90% eram reformados. Adianto ainda que nesse episódio J.H. Saraiva foi muitas vezes inexacto, incorrecto e sobretudo vago. A vantagem foi de ter chamado a atenção para aqueles objectos e para a sua importância. Por que eram feitos os programas de Saraiva ainda nos anos 90? Talvez porque eram extremamente baratos (produção de Teresa Guilherme), tinham uma certa audiência fixa, não extremamente baixa mas também não muito alta, e se destinavam a um público que é poucas vezes representado nos programas de televisão: as pessoas com mais de 65 anos. Dito isto, uma coisa é o programa de 1971, com o estilo adequado para a época, outra coisa, já sem muito interesse, é o que fez nos anos 90 e 2000. É como se o programa do Vitorino Nemésio, ou mesmoo TV Rural tivessem continuado até 2005 com o mesmo estilo. Seriam vistos, mas simplesmente por uma audiência bem mais pequena e que partilhasse a mesma cultura geracional.
    3. Quanto ao facto do Herman parodiar o seu estilo, o que lhe conferiria uma certa importância, bem, posso dizer que o Herman também parodiou a Maria de Lurdes Modesto e o Carlos Pinto Coelho e isto não faz deles autoridades na cozinha e no jornalismo só por isso. O Herman imitava o J.H. Saraiva enquanto este era um “produto televisivo” e não enquanto historiador. O mesmo se aplica aos outros dois imitados. Por isso parodiava os tiques, a forma de falar e não tanto o conteúdo.
    Concluindo, devem os programas de J.H. Saraiva sofrer um anátema? De modo nenhum. Devem apenas ser vistos dentro do contexto em que foram feitos: programas de entretenimento, que também eram vistos porque apresentavam diversas regiões de Portugal, que estavam ausentes da TV mainstream. Os programas de viagens, estilo “O humor e a cidade” são recentes (além de que o apresentador não tem a presença cénica de um J.H. Saraiva). Com os melhores cumprimentos.

    1. Muito bom comentário, concordo em absoluto. Se fosse pela lógica das vendas, o Tony Carreira deveria ser maior do que a Amália !

    2. Madjer,
      a historiografia académica é que é popularucha, pela sua incapacidade de sair das histórias da carochinha.
      Se não sabe isso, deveria saber.

    3. Eu comecei a respirar depois de 1974 – ainda não sou reformado, portanto -, e via os programas do Professor. Um homem merecedor do meu respeito, apesar da inqualificável hagiografia salazarista.

  11. Preto e branco, sempre preto e branco… quero ver, assim Deus me dê vida e saúde, daqui a bastantes anos, quantos dos que hoje chamam fascista a José Hermano Saraiva, farão o mesmo a pessoas como Adriano Moreira e Veiga Simão.

  12. Eram desnecessárias as críticas feitas atrás ao falecido J. H. Saraiva.
    O Homem apenas foi hoje a enterrar e… cada coisa no seu tempo e no seu lugar. E aquelas críticas ficaram deslocadas, no tempo e no lugar.

  13. Sim. Era um fascista, com grande habilidade para contar “histórias da carochinha” aos portugueses, fazendo-as passar por História. Estrelinha que o guie…

    1. O seu posicionamento político não me interessa. Os seus programas eram um exemplo típico de divulgação da História. Quanto às “histórias da carochinha”, os governantes são muito mais exímios em contá-las.

      1. Não me admira que o facto de JHS ter sido um fascista não lhe interesse – neste debate só lhe tem interessado tentar fazer passar “treta” por História. E quanto aos governantes (suponho que se refere aos actuais) passou agora a ser este o tema? Comparar fedelhos fascistóides com um fascista morto? Haja pachorra…

  14. Cresci a ouvir o Sr. JHS a contar Historia, e ainda á dias atrás, estive a ouvir o senhor na RTP Memoria.
    Por vezes especulava, entrava em deduções sempre com imaginação inteligente, mas sempre que o fazia, avisava, dizendo algo tipo: “diz-se que tal e tal, mas em meu entender isto não foi nada assim”.
    Não sei se o Sr. era um Historiador de pouca monta ou um fascista, talvez até o fosse mas o facto é que era um prazer ouvir Historia contada por ele, ele vivia para aquilo que fazia, porque falava com paixão e com uma energia que dada vida a Historia.
    A Historia oficial é sempre algo discutível , por ser algo que se deu no passado e por ser um registo feito com base num ponto de vista ou até mesmo numa obrigatoriedade do momento, com certeza muitas vezes sujeitada aos interesses mais fortes. Portanto a Historia em muitos factos pode ser parcial.
    Já li alguma coisa de José Mattoso ou de Oliveira e Marques, estudiosos que fazem investigações exaustivas até ao pormenor, fazem da Historia uma ciência , mas também eles fazem entrosamento entre factos, chegam a resultados que podem até um dia serem refutados por outros Historiadores que eventualmente vão surgir.
    Concluindo, o Salazarista, o Historiador, o Comunicador, o Fascista, ou até se quiserem , o Impostor ou até o Comediante (as vezes fazia-me rir com sua forma excêntrica de opinar) etc. etc. São tudo qualidades e defeitos como todo o ser humano tem, e para aqueles que só lhe vêm defeitos, que não se iludam pois os defeitos que ele tinha, perduram nos nossos dias, estão é mais dissimulados.

    Cumprimentos a todos

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *