O que hoje se chama de INATEL, é a continuação, em outros moldes, da FNAT. A Federação Nacional para a Alegria no Trabalho foi uma peça do nunca muito funcional nem inteiramente bem sucedido aparelho corporativo do Estado Novo. A sua função era provir e orientar o lazer dos trabalhadores urbanos de um modo activo e saudável: ginástica sueca, campismo, termalismo, colónias de férias balneares, e do lado do recreio: saraus musicais e teatrais. O bizarro nome da FNAT não saiu da imaginação de qualquer conselheiro de Salazar, mas resultou apenas da tradução livre do nome da organização que a inspirou e moldou, a “Kraft Durch Freude” (KdF) nazi.
Das obras arquitectónicas do nazismo poucas remanesceram até hoje. A mais famosa será o aeroporto Tempelhof de Berlin, encerrado em 2008 e reaberto em 2010 como um parque público em meio de grande polémica.
Todavia a mais espetacular, introvertida e controversa construção do nazismo é o denominado Colosso de Prora. Trata-se de um conjunto contínuo de 8 edifícios com 6 andares de altura e 4.5 quilómetros de comprimento. Obra de engenharia civil de maior extensão, talvez só a muralha da China. A sua forma severa e repetitiva, amplifica as sensações de arrogância e autoridade que dela se desprendem, tão acarinhadas pelos nazis. A besta alonga-se ao correr da suave curvatura da brumosa praia da ilha Rügen, ao largo dos confins da Pomerania, banhada pelas águas álgidas do Báltico.
Este complexo foi construído entre 1936 e 1939 e destinava-se a ser “a maior e mais pujante colónia balnear” do KdF, palavras de Hitler quando foi pessoalmente inspecionar a construção daquelas 20.000 camas. Como os planos do Furher incluíam um monumental pavilhão de espectáculos com capacidade para todos os veraneantes, mais duas gigantescas piscinas cobertas, e como o início da guerra interrompeu a construção desta segunda fase, Prora acabou por nunca ter verdadeiramente entrado em funcionamento.
As autoridades da RDA, o lado da Alemanha em que o Colosso de Prora calhou, foram incapazes de decidir o destino deste monstro além de o ter cedido para uma base soviética até 1955. Depois da reunificação prosseguiu a envergonhada controvérsia: o que fazer com isto? Demolir parece fora de causa, até porque já se converteu em exemplar património arquitectónico. Mas o volume é tal e a sua localização de tal modo impraticável, que parece não haver solução para Prora. Um dos cantos foi convertido em albergue de juventude com razoável êxito – e o resto?





Coisas de outros construtivismos totalitários: “espetacular” (sic).
Já arquitectónico seria uma desrespeito às ordens – ou uma negligência – que teria repercussões gravosas.
Hoje deve valer apenas uma admoestação na loja.
banhada pelas águas álgidas do Báltico
Eu já tomei banho no Báltico e a água não era nada álgida, bem pelo contrário, era mais quente do que na costa ocidental de Portugal e estava-se lá dentro muitíssimo bem. Creio que há um braço da corrente do Golfo que entra para dentro do Báltico. (Tomei banho no sul da Suécia, algures próximo de Malmoe.)
Ainda bem que retomaste esta série tão interessante e tão original, meu caro. Não fazia a menor ideia que esta coisa existia. De facto, há um toque monstruoso nisto: como se fosse uma gigantesca maqueta ao vivo do que seria um mundo dominado pela ideologia nazi. Bastaria este motivo para os edifícios se manterem de pé. Ver para (des)crer.
Do remanescente da arquitectura nazi, há que incluir o estádio olímpico de Berlim (projectado pelo próprio Albert Speer), embora hoje muito alterado devido às obras de modernização feitas em 2006.
Já de si continuação da Opera Nazionale Dopolavoro
do Fascismo Italiano.
Como se vê a arquitectura é próxima da futura Arquitectura Comunista. Não chega aos calcanhares da Arquitectura Italiana do Fascismo.
O Regime Nazi recusou o Modernismo -Bahaus era oposição e foi riscada do mapa- mas não foi capaz de criar nada para o substituir, enquanto o Fascismo nasceu/apropriou-se do Futurismo.
Por cá os nossos arquitectos no Estado Novo estiveram bem mais próximos dos Italianos.
KdF Cruzeiro à Madeira http://germanhistorydocs.ghi-dc.org/sub_ image.cfm?image_id=2033
Não sabia da existência disto. Sinistro, a lembrar um campo de concentração. Por cá, embora felizmente sem esta dimensão megalómana, também temos edifícios deste género: rígidos, sem harmonia e inestéticos como toda (ou quase toda) a arquitectura do Estado Novo.
Esta tua série é muito boa, patrício.
O Nuno Cera fez um filme sobre este complexo turistico.
http://www.pushthebuttonplay.com/events/p rora_complex/prora_video_excerpt.html