Jung Lee, “Bordering North Korea #15”, 2005
Um dos sinais mais prementes da decadência portuguesa é o exacerbamento do discurso moralista. Quanto mais nos inclinamos para uma permanente avaliação moral do que é justo ou injusto, mais dissolvemos, deturpamos e descuramos a avaliação ética do que é bom ou mau.
Creio que isto fica exemplarmente descrito no célebre “o síndrome do automobilista lusitano”:
É consensual o princípio ético de que o excesso de velocidade é mau. No entanto quando sou apanhado a infringi-lo, costumo ter duas reações moralistas perante tamanha e tão evidente “injustiça”:
1) Não estava a correr nenhum risco (o prevaricador interpretará sempre o princípio ético a partir de uma auto-avaliação permissiva e generosa da sua prática pessoal).
2) Como é possível penalizar-me por este erro, deixando impunes os outros prevaricadores? (decorrente de um dos mais frequentes e sinistros provérbios portugueses: “ou comem todos ou não há moral”).
Ou seja, derramo um par de conceitos morais sobre a circunstância, e é isto o moralismo, em vez de fazer uma ponderação ética sobre o meu comportamento.
Este moralismo em política é evidente através da eufórica e ignóbil frase: “é ladrão, mas tem obra” geralmente utilizada para redimir autarcas.
O moralismo emerge em situações mais discretas e comuns, embora não menos perversas, como por exemplo: “Como é possível fulano ganhar tanto, quando há tanta gente com o salário mínimo?”
Se em abstracto ainda é possível descortinar a bizarria desta frase, aparentemente quando aplicada a casos reais, parece que ela faz sentido. O moralismo é um guisado que mistura tudo, compara o incomparável, a partir do pressuposto que todos deveriam ter uma fatia igual do bolo, por direito inerente. Ora nem o bolo é o mesmo para todos (um futebolista ganha mais que um cirurgião porque trabalha noutro mercado, com outras regras de oferta-procura e outra dinâmica); nem o bolo é estático (há áreas socias mais produtivas ou mais dinâmicas que outras, por isso umas crescem outras diminuem: uma obra de um artista plástico reconhecido tenderá sempre a valer sempre mais que uma tese de doutoramento em literatura do séc. XVIII), nem o contributo de cada um para esse bolo é igual (o mérito, estúpido…).
A popularidade do moralismo deve-se à sua excitação sentimental: é fácil, instantâneo e tende a creditar como virtuosa a pessoa que o vocifera. Ao passo que a ética é friamente racional e analítica, logo contra-intuitiva, pelo que tende a ser vista como uma espécie de cinismo e parece esconder algum interesse, aos olhos severos e zelosos do moralista.
Em 1933 a Alemanha foi varrida por uma vaga moralista: como podiam os capitalistas judeus enriquecer enquanto o povo alemão, cumpridor, trabalhador e probo, vivia tão mal? Como era possível a Alemanha consentir ser tão desgovernada por aquela corja de conservadores e liberais, tão mancomunados com os incompetentes e corruptos social-democratas e que permitiam as ruas entregues aos comunistas?
Bem sabemos o resultado.


Excelente texto, Zé!
Um grande abraço, Helena.
O José, se me permite, é que está a comparar o incomparável…
Afinal quem, na sua fórmula, sofre do “síndrome do automobilista lusitano” não é quem pensa que o Estado, ou seja, os contribuintes, têm de sustentar o seu elevado nível de vida?
Nada a opor a quem enriquece de forma natural por mérito próprio, como é evidente.
Atenuantes a favor da minha intervenção hoje: “síndrome pós-traumático” após ler a notícia nos jornais sobre as ideias (éticas) de António Borges para os seus concidadãos, e ouvir o ministro das finanças, sílaba a sílaba, e de forma encriptada, a preparar o mesmo para os seus concidadãos (de forma ética).
Ana
Também é um bocado desagradável ouvir, com estas lindas palavras, que quem critica o arco português de governação é nazi.
Não cometa a injustiça de me enfiar onde eu não caibo. Felizmente nem sequer tenho o poder de legitimar ou autorizar a crítica, quanto mais impedi-la. Mas tenho que entre “criticar” e fazer “juízos moralistas” (sobre governos, decisões empresariais, ou o nudismo nas praias) há um mundo de diferenças. A título pessoal até lhe confesso: creio haver uma diferença substancial entre insulto e difamação, por mim (e falo só por mim, claro) pode-se dizer de alguém em público que é um cretino (ou pior…) mas deve-se ter provas quando se diz dessa pessoas que “é ladrão”.
Tudo isto é piorado pelo facto de a cultura católica, típica dos portugueses, ter duas caraterísticas:
(1) Ser péssima a debater ideias abstratas. A pessoa de cultura católica focaliza-se em casos concretos e tem uma dificuldade enorme em debater conceitos abstratos.
(2) Ter uma moral inerentemente hipócrita. No catolicismo tudo é passível de perdão (aquando da confissão ou, no caso limite, no Juízo Final), pelo que todo e qualquer preceito moral admite exceções até ao infinito.
Excelente reflexão, Zé (mais uma). E acabas, com esta prosa, de me dar uma ideia: uma série de textos ‘antológicos’ do pessoal cá do DELITO. Depois explico mais em pormenor a minha ideia.
chapeau!
Grande texto e muito bem ilustrado, querido patrício. Como sempre. Tens muita razão: os juízos sobre o que é justo ou injusto são quase sempre subjectivos, porque são quase sempre emotivos. A ética é muito mais fiável e não se presta a manipulações populistas fáceis. O que é certo é que os tempos de vacas magras são sempre um cenário perfeito para todos os moralismos, e agora estamos a atravessar uma manada esquelética…
Chapeau!
Tens tanta razão e disseste-o tão bem. Mas o moralismo é tramado, enfia-se como a areia em qualquer fissura.
Navarro de Andrade,
1.- Um excelente escrito, dito de forma clara.
2.- A moral é autónoma, subjetiva. O direito é heterónomo e objetivo. Quando este se mistura até à berma com aquela cria um “fechamento” da sociedade em torno de uma Ordem que dá valor ao subjetivo emocional da intenção prévia do “julgamento” pessoal, tornando o conhecimento assunto secundário. Quando aquela se torna neste temos a Tirania.
3.- Tudo…mas tudo mesmo…implica falta de “doçura” mental para conhecer, analisar, ponderar, e assim criticar O que o outro diz ou faz.
4.- Assim por exemplo tenho receio dos “moralismos”, mas muito receio do discurso “moral” do Direito Penal que vejo nos media, que para além da sua inegável falta de conhecimento, bebe assim da moral o mais perigoso veneno.
5. Como também tenho sérias reservas do discurso “moral” da economia.
6. A única forma, … a única forma é olharmos a factos, procurarmos os factos, descrevendo sem advérbios de modo ou adjetivos, …é um bom começo para conhecer, mais conhecer e talvez termos uma moral construída e que nos dá uma abóbada mas não prescinde das pedras e das colunas que a elevam.