Mas será que sou a única a não achar normal esta proximidade entre jornalistas e políticos, que leva a situações como a que a Teresa aqui em baixo cita? Numa terra em que toda a gente almoça com toda a gente, criam-se laços. Ora, estes laços impedem alguma independência e espírito crítico, e podem – reparem, digo podem – levar a uma ligeira deturpação dos factos apresentados nas notícias e afins. Depois, essa mesma proximidade leva a que o poder político, por natureza prepotente, não se coíba de ligar aos berros quando alguma coisa o incomoda. Há um perímetro de distância higiénica que há muito foi quebrado. Onde fica o leitor/eleitor no meio disto? Não sei muito bem, mas calculo que não seja no centro do interesse.
Eu, alma sensível, acuso-me
cadernoelastico,

O problema, Ana Margarida, não são os “laços” que se criam. Se assim fosse, Maria João Avillez, Judite Sousa e Ricardo Costa, para invocar os primeiros três exemplos que me vieram à memória em escassos segundos, não poderiam/não deveriam ser jornalistas. O que aliás não está circunscrito a Portugal, um país de “primos e primas”, como dizia o refrão da velha cantiga do tempo dos nossos avós. Anne Sinclair, uma das mais célebres jornalistas francesas, está casada com quem sabemos.
Todos temos família, todos temos amigos, todos temos o nosso circuito de relações sociais: nenhum jornalista vive numa redoma – e ainda bem. O problema coloca-se na sua dimensão ética, aproveitando eu a sábia distinção entre moralismo e ética que o Zé Navarro faz aqui já em baixo. O jornalista – refiro-me ao jornalista que escreve notícias, não ao que se limita a fazer reportagens ou a escrever crónicas, disciplinas nobres do jornalismo mas que não são convocadas a esta polémica – depende da variedade e sobretudo da qualidade das suas fontes, que tem o dever profissional de cultivar. Mas, do ponto de vista ético, jamais deve resvalar para terrenos onde existam conflitos de interesses que forçosamente hipotecarão a sua independência. Daí eu defender há muito tempo a imposição de um razoável ‘princípio de nojo’ no código deontológico dos jornalistas que cessem funções transitórias de assessoria e regressem a uma redacção. Por mim, levaria essa exigência ainda mais longe, estabelecendo igualmente fronteiras temporais anteriores e não apenas posteriores a essa transferência do vínculo laboral. O mesmo princípio deve prevalecer nas transferências de jornalistas de e para agências de comunicação. Isto não vale apenas para o jornalismo político, mas para o económico, o desportivo e o cultural.
Numa interpretação extensiva deste dever deontológico (a que corresponde o direito constitucional dos cidadãos à informação), infelizmente omisso do código deontológico dos jornalistas portugueses, os comentadores, designadamente os que frequentam com regularidade os ecrãs de televisão, deveriam abster-se de comentar matérias em que são parte interessada já não digo do ponto de vista político mas do ponto de vista estritamente profissional.
Estas normas são violadas a todo o momento, como bem sabemos. Devo andar muito distraído, mas não detecto o menor sobressalto de indignação em relação ao referido tema. Daria pano para mangas, esse debate.
Concordo em absoluto, Pedro. Esses períodos de nojo deviam ser obrigatórios, aliás. Mas de repente lembrei-me de que isso levanta outro problema: como se sustentariam os jornalistas “em trânsito”, ou seja, os que saissem de uma assessoria sem poder integrar uma redacção durante esse período de nojo? Um subsídio da Segurança Social, como se fosse uma baixa? Impensável. E nos tempos que correm as alternativas de trabalho também não são muitas…
Como é evidente, as pessoas necessitam de um emprego e de um salário para (sobre)viver, Ana. Mas um jornalista que desempenhe uma assessoria numa federação desportiva ou num clube de futebol, por exemplo, quando regressasse a uma redacção ficaria impedido de escrever sobre essa matéria. O mesmo se aplica a quem faz assessoria política ou numa empresa. Os suecos vão ao ponto de impor um ‘período de nojo’ de três anos no código deontológico dos jornalistas. Julgo desnecessário um período tão longo, mas algo inferior a um ano seria sempre indefensável.
O ideal, como há muitos anos sustento em boa companhia, seria a criação de uma ordem profissional de jornalistas que regulasse estas matérias através de um código de procedimentos detalhado e rigoroso, com efectivas penalizações aos prevaricadores.
Ah, percebo. Se é uma questão de tema, então assim ficaria resolvido. E bem, parece-me.
Eu acho que não há aqui períodos de nojo que valham. Um indivíduo ou bem que é jornalista, ou bem que é assessor, ou bem que é membro de uma agência de comunicação. Se um indivíduo aceita ter uma destas profissões, deve depois recusar as restantes, sob pena de jamais podermos ter confiança nele.
Como posso eu ter confiança na idoneidade de um jornalista que sei que se está a preparar para ser assessor, ou que sei que já foi assessor? Não posso – nem agora, nem depois do período de nojo.
Já agora expliquem-me uma coisa: São 14h30 e no site da TSF ainda não aparece nenhum Post sobre o que passou com o Fonseca e Costa. Porquê ?
Esses laços que se criam são, de facto, um problema. Sobretudo em aldeias tão pequenas como a nossa. Mas no meu post ali em baixo não toquei, nem ao de leve, nesse não assunto (chamo-lhe um não assunto, só na medida em que é consensual).
Falei apenas e só de outra coisa: da relação potencialmente conflitual entre jornalistas e políticos que é normal aqui e em todo o lado, desde que exista liberdade de expressão.
Não percebo a surpresa.
O jornalismo sempre foi político.
Nenhum jornal existe para dar notícias.
Os jornais existem para influenciar.
Se quiser os media são hoje os evangelizadores do passado.
E para isso o centralismo é essencial, a maioria dos jornalistas quer um Governo Mundial porque é assim a maneira mais fácil de ter informação e ao mesmo tempo influenciar.
O Poder distribuído é um inferno para jornalistas.
Se um País cresce é porque o político X Y ou Z fez. Não porque milhares ou milhões de cidadãos fizeram ou decidiram correctamente.
Tudo é político mesmo que seja falso, porque o jornalista precisa de sentir que influencia e é ele parte do poder sem o comprometimento que o poder traz.
Este comentário também tem muito de verdade.
Estou em crer, aliás, que em Portugal boa parte da atração que a profissão de jornalista exerce (atração visível nos cursos de jornalismo, que estão cheios, e no excesso de pessoal formado para exercer jornalismo em relação aos empregos disponíveis) provem da noção de que os jornalistas têm poder político, ou seja, de que podem modificar o mundo.
Portanto, um jornalista é, essencialmente, um político encapotado.
Só agora li o comentário do Pedro. De facto nenhum jornalista é uma ilha, mas quando se dá o caso de ter relações de amizade e familiares com pessoas que poderão comprometer a sua independência profissional, deverá evitar situações de conflito de interesses. Por outro lado a necessidade de cultivar as fontes, não deve servir de desculpa aos jornalistas para avançar por relações de proximidade que comprometam a tal independência e espírito crítico de que falas. Infelizmente há muitos que não sabem manter a tal distância higiénica, afectando a qualidade e honestidade da informação que depois põem a circular. Considero este problema gravíssimo, Margarida. Não o lamentas mais do que eu.
Teresa, acho que principal problema é que esse critério está entregue exclusivamente à noção de ética e ao carácter de cada jornalista. A convivência é inevitável, não vejo como proibi-la e ainda bem, não seria natural. Mas a fragilidade está exactamente nessa liberdade.
Pois, a questão não se resolve com proibições. Depende de cada um, embora haja aspectos que se poderiam regular como esse do estabelecimento de um período de nojo, que tu e o Pedro já referiram. Se essa inibição se tornasse norma acredito que não só seria eficaz no combate à promiscuidade entre funções, como acabaria por se reflectir positivamente na forma como jornalísticas e políticos se relacionam.