A bela e os monstros


enlil,

                                

 fotos de Lee Miller por Man Ray, 1931 

 revista Vogue, Lee Miller apresentando modelo Lanvin, 1930 

  

De Musa inspiradora a Parca, aqui está um percurso invulgar, desses que só o séc.XX, o mais terrível e belo dos séculos, poderia proporcionar. Decerto não possuiria Elizabeth Miller, Lee Miller como ficou conhecida, o poder de cortar o fio da vida, mas, como adiante se verá, fotografou fios da vida acabados de cortar.

Não é coisa que se afirme com ligeireza, mas Lee Miller terá sido uma das mais belas mulheres a poisar na terra, do seu tempo até ao nosso. Não só pela inexplicável beleza em si, mas sobretudo porque vendo hoje as suas fotos dos anos 30, nada nela é datado, como se fosse imune ao ar dos tempos e os atravessasse incólume.

Foi Musa tanto das capas de moda da Vogue como das experiências fotográficas de Man Ray, mas com um Lanvin vestido ou sem ele e mais nada, Lee Miller ignora a câmara e mostra-se alheia às circunstâncias. Distante? Talvez. Além? Decerto.

Foi precisamente esta espécie de indiferença entre o modelo e a câmara, promovida por Lee Miller enquanto manequim e modelo, que ela iria prolongar ao comando do obturador, quando num aparente volte face, se converteu em fotógrafa de guerra. Afinal, quem melhor do que ela conseguiria captar com tanta certeza a inércia emocional do corpo?

Feita repórter da Life, Lee Miller registou paulatinamente a derrocada do nazismo enquanto acontecia. Com o mesmo despudor que teve ao enfrentar a câmara, ou talvez emulando Mathew Brady, mostrou os cadáveres de guerra tal como se dispunham, sabendo que poucas coisas serão mais perturbantes do que a indiferença dos mortos pelo sofrimento que os pôs nesse estado – corpos vivos não se deixam empilhar.

Lee Miller, soldados alemães em Estalingrado, 1943

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Lee Miller, SS no canal de Buchenwald, 1945 

Lee Miller, o suicídio do burgomestre de Leipzig e da sua família, 1945

Lee Miller, a filha do burgomestre de Leipzig suicidada, 1945

Neste história há um excepção. Lee Miller só posa com o rosto de frente na célebre foto em que se lava domesticamente na banheira privada de Hitler – mas nem assim nos olha. A insolência do gesto precisava de não ser sublinhada. Em contraste absoluto, a olhar para nós, tão suplicantes, tão frágeis, tão belos e humanos, ficam as figuras dos guardas de Buchenwald, de quem teríamos pena se não soubessemos o que deles sabemos.

 

Lee Miller, na banheira de Hitler, 1945

  lee miller_ guardas de buchenwald pedindo perdão_

Lee Miller, guardas de Buchenwald pedindo perdão, 1945

2 comentários em “A bela e os monstros”

  1. Segui o link… e para além do seu, vi o outro excelente texto sobre as fotos de Brady e Fenton.

    Essas trágicas imagens deixam sempre histórias que ficaram por contar, ainda que histórias tenham sido contadas.

    Não sei se os Spandau Ballet sobreviveram ao fecho de Spandau… mas o baile continua com a música para as massas.
    Fui buscar o refrão que ouvia em 1983:

    Oh I want the truth to be said
    I know this much is true

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