De Musa inspiradora a Parca, aqui está um percurso invulgar, desses que só o séc.XX, o mais terrível e belo dos séculos, poderia proporcionar. Decerto não possuiria Elizabeth Miller, Lee Miller como ficou conhecida, o poder de cortar o fio da vida, mas, como adiante se verá, fotografou fios da vida acabados de cortar.
Não é coisa que se afirme com ligeireza, mas Lee Miller terá sido uma das mais belas mulheres a poisar na terra, do seu tempo até ao nosso. Não só pela inexplicável beleza em si, mas sobretudo porque vendo hoje as suas fotos dos anos 30, nada nela é datado, como se fosse imune ao ar dos tempos e os atravessasse incólume.
Foi Musa tanto das capas de moda da Vogue como das experiências fotográficas de Man Ray, mas com um Lanvin vestido ou sem ele e mais nada, Lee Miller ignora a câmara e mostra-se alheia às circunstâncias. Distante? Talvez. Além? Decerto.
Foi precisamente esta espécie de indiferença entre o modelo e a câmara, promovida por Lee Miller enquanto manequim e modelo, que ela iria prolongar ao comando do obturador, quando num aparente volte face, se converteu em fotógrafa de guerra. Afinal, quem melhor do que ela conseguiria captar com tanta certeza a inércia emocional do corpo?
Feita repórter da Life, Lee Miller registou paulatinamente a derrocada do nazismo enquanto acontecia. Com o mesmo despudor que teve ao enfrentar a câmara, ou talvez emulando Mathew Brady, mostrou os cadáveres de guerra tal como se dispunham, sabendo que poucas coisas serão mais perturbantes do que a indiferença dos mortos pelo sofrimento que os pôs nesse estado – corpos vivos não se deixam empilhar.

Lee Miller, o suicídio do burgomestre de Leipzig e da sua família, 1945
Lee Miller, a filha do burgomestre de Leipzig suicidada, 1945
Neste história há um excepção. Lee Miller só posa com o rosto de frente na célebre foto em que se lava domesticamente na banheira privada de Hitler – mas nem assim nos olha. A insolência do gesto precisava de não ser sublinhada. Em contraste absoluto, a olhar para nós, tão suplicantes, tão frágeis, tão belos e humanos, ficam as figuras dos guardas de Buchenwald, de quem teríamos pena se não soubessemos o que deles sabemos.










Segui o link… e para além do seu, vi o outro excelente texto sobre as fotos de Brady e Fenton.
Essas trágicas imagens deixam sempre histórias que ficaram por contar, ainda que histórias tenham sido contadas.
Não sei se os Spandau Ballet sobreviveram ao fecho de Spandau… mas o baile continua com a música para as massas.
Fui buscar o refrão que ouvia em 1983:
Oh I want the truth to be said
I know this much is true
A grande Lee Miller. Muito bem recordada aqui.