Então agora morreste-me, Fernando? Esta doeu.
Sei que passeaste comigo ao colo pelas ruas de Évora porque meu pai me contou. Mas alguma coisa deve ter ficado inscrito em mim, porque ainda hoje quando visito a cidade só a vejo em branco-e-branco, como no teu filme.
Se mais não tivesses dado – e foi tanto – Belarmino ninguém mo tira.
Belarmino é o único instante do cinema português que pode ser confrontado face a face com os seus coevos: Cassavettes, Shirley Clarke, Lindsay Anderson.
Tudo parecia possível: Belarmino é o mais jovem filme português. Faz parte da natureza das coisas, é anterior a tudo, aos Cahiers comprados na Barata, ao Vává, ao Cinema que se quis Novo. É um puro filme sem o peso do cinema. E ainda hoje Belarmino promete todos os futuros perdidos – 48 anos depois, ontem. Quem não viu Belarmino ainda não viu Lisboa.
Ficarás, Fernando, para sempre sentado na primeira cadeira do balcão do Gambrinus, a embirrar como o puto da rua que és, com medo que não acreditem em ti – és enorme, a sério…



a sério…