Portugal sempre foi um país extraordinariamente violento.
Para não ir mais atrás, em 1807 participámos com brio na Guerra Peninsular, sendo que não houve por cá um pintor à altura de Goya para desenhar a carvão o que fazíamos aos franceses que se atrasavam da coluna. Seguiu-se uma assanhadíssima guerra civil que demorou a extinguir. Mesmo depois de assinado Évora-Monte, continuava o país a ser uma charneca fora de portas das cidades, com Brandões, Remexidos e outos bandoleiros que tais a ditar a lei do punhal onde lhes aprouvesse.
A coisa pareceu acalmar no último quartel do séc. XIX, mas foi só para tomar balanço. No curto período de 13 anos, entre 1908 e 1921 foram assassinados um Rei, um Presidente, um Primeiro-Ministro (António Granjo), um herói nacional (Machado Santos) e 2 Ministros, os 4 últimos na Noite Sangrenta. Fora alguns ajustes de contas avulsos, como o caso do Senador José João de Freitas que em Maio de 1915 tentou matar a tiro num comboio o Primeiro-Ministro indigitado João Chagas, mas acabou linchado pelos populares no Entroncamento. Um palmarés destes, nem nos famigerados Balcãs.
Seguiu-se o Estado Novo, que até foi levezinho em crimes de Estado, se o medirmos com os seus congéneres ditatoriais: Espanha e Grécia, por exemplo, para não falar dos pequenos fascismos que medraram à sombra de Hitler e Mussolini, como a Hungria, a Roménia, a Bulgária, Vichy, a Croácia dos Ustase ou a Sérvia de Nedic.
Manhoso como só ele, Salazar trocou os fusilamentos políticos e o derrame de sangue nas ruas, à maneira do Chile, da Argentina ou do Uruguai, por safanões num vão de escada. E fez pior, muito pior: destilou a ideia de sermos um povo de brandos costumes. Uma falácia que foi ganhando raízes ao mesmo tempo que durante mais de 10 anos, os mancebos de Portugal passavam os primeiros anos de adultos em África, a praticar brandas e discretas sevícias nos autóctones.
Desculpem o meu francês, mas brandos costumes my ass. Por isso não deixo de ficar estupefacto quando vejo umas correrias no Chiado, com uma polícia aparvalhada, uns rapazolas a menearem-se diante dela em danças tribais, um par de esplanadas de pernas para o ar a dar cabo do turismo e – agora é que não percebo mesmo – uns esganiçados a berrar “fascistas” – a sério?
Querem fazer isto como deve ser, à antiga portuguesa? Ponham então os olhos nos coreanos ilustrados abaixo. Senão será melhor ficarem em casa. Agora assim, com esta mariquices, só demonstram a póstuma e perene vitória do espírito salazarista.

É desconcertante leviandade com que algumas pessoas falam de repressão policial.
Vamos pôr as coisas com muito simplicidade, tendo em conta o último vídeo que por aí circula http://www.youtube.com/watch?feature=pla yer_embedded&v=V6I8vU3wZTg#!
-Numa manifestação anunciada, uns manifestantes jovens gritam um bocado, fazem um espetáculo à frente da polícia
-Chegam mais uns polícia de choque, os manifestante afastam-se e começam a gritar “Fascistas”
-Polícias formam uma fila, o comandante da operação diz “Mandar tudo para o chão”, e lá vão eles
Diga-me, o que havia de mal antes da polícia chegar? Qual era o problema da manifestação? Porque é que a polícia avança sobre os manifestantes, se não estavam a causar caos nenhum? Numa manifestação as pessoas estão juntas e podem estar onde quiserem, a polícia queria o quê? Que subissem e continuassem a manifestação? Porquê? Queriam que dispersassem? Porquê, não era uma manifestação? Porque é que em vez de avançarem com os escudos mandando dispersar, avançaram à paulada (repare que se dão cacetadas às pessoas elas ficam no chão, não fogem)?
Depois do primeiro avanço, os manifestantes apoderam-se da esplanada para responder à polícia. Aqui sim, os manifestantes já têm um caráter violento, estão a causar caos, a destruir propriedade privada, faz sentido a polícia intervir (sem excesso, naturalmente).
Depois disto (então a policia não conseguiu deter nem uma das pessoas que causaram o caos na esplanada?), forma-se novamente uma fileira, abaixo dos manifestantes todos juntos na praça Camões. Estavam a lançar chávenas também aqui, ou só mesmo a gritar fascistas? Não interessa, ao minuto 7:13 começam a CORRER (não sei como aquele jornalista não levou um encontrãozinho), para parar 20 metro à frente. Para que raio foi a corrida, porque pararam sem fazer nada? Sabemos é que aí uma senhora chega-se a um polícia (devia ser para o atacar), mas trata de ir lá um, não para o apoiar e controlar a situação, mas para imobilizar logo o perigo eminente, atirando a mulher ao chão.
A polícia é um meio, pago pelas pessoas, para garantir a harmonia e apaziguar situações violentas. Neste caso a policia não teve um papel passivo ou reativo, a polícia brutalmente decidiu avançar sobre uma manifestação pacífica. Foi um ato de negação de uma liberdade democrática. É repressão. É a utilização da polícia da forma errada: a favor do governo contra os cidadãos. Qual é a dúvida aqui? Dizer para não serem maricas, que isto não é nada, deviam era ver o que é a sério é a atitude mais insensível e ridícula que se pode tomar.
Épica descrição de uma bravata de rua.
Gostaria de concordar completamente contigo. Mas não concordo.
Também acho lendário e incorrecto o estigma dos brandos costumes, que é bom ou mau, consoante as perspectivas.
Mas na minha opinião a verdade está em metade da lenda.
Somos violentos porque nos matámos, também, na guerra civil (aliás, única). Somos violentos porque matámos Reis. E Sidónios. E Sá Carneiro. E tudo isto quando a vida era já culturalmente um valor inestimável (nem recuo à idade das trevas, em que vida e morte eram meras sortes a jogo).
Mas não somos ‘extraordinariamente violentos’. Ora, ora…
Somos suaves, sim, e de temperamento secundário. Não lideramos coisa nenhuma desde Afonso Henriques. Possuímos as fronteiras mais antigas da Europa. Miscigenamo-nos. Temos os trópicos disfarçados nos genes. Somos um país a oriente do oriente. Colonizámos mal, o que é dizer, respeitámos os povos e só fizemos sangue contra os inimigos dos nossos protegidos. Em Timor, onde há insegurança e as casas hasteiam bandeiras, ninguém ataca perante um estandarte português. Sofremos com o sofrimento dos outros. Não temos sequer um especial sentido de honra. Não somos patrióticos.
Violentos? Qual quê! Violentos são os bois alemães.
Tens razão bastante, Laura. O José também, mas atalha excessivamente a direito. Arranca logo com um exemplo duvidoso de violêmcia, a Guerra Peninsular.
As Invasões Francesas foram travadas com a Casa Real fugida, com os ingleses a combater por nós e com as colunas das tropas napoleónicas a infligir as maiores atrocidades às populações — muitas vezes populações pacíficas e desprotegidas que eram dizimadas à baioneta a favor da pilhagem de galinhas.
João, não vamos entrar no concurso patético de quem foi pior do que quem. O ponto é que guerra é guerra, e nela os portugueses não primaram pelos brandos costumes, respondendo à violência francesa, com uma impiedade, alheia às normas militares então vigentes, que até aos ingleses impressionou.
A propósito: ainda hoje, muitas “alminhas”, aqueles nichos na via pública para devoção, são do tempo e recordam mortes provocadas pelos franceses. Mas tens razão: não faz grande sentido discutir quem matou mais e melhor.
Laura, concordo que discordamos. Só acho muito feia a expressão “bois alemães”.
Ui, ui, Zé, lá vem o politicamente correcto. As minhas desculpas, mas sou completamente livre (dessas peias). Continuo a dizer que violência, historicamente comprovada, foi a dos alemães. Só para termos uma noção de medida, claro… Os ‘bois’ são uma referência asséptica ao físico dos bávaros e dos cervejeiros, comparável às inocentes qualificações que usam com os portugueses: sempre de preto, embiocados, azeiteiros, preguiçosos, sujos…
1 – em 1807 participámos com brio na Guerra Peninsular – diria mais que fomos invadidos pelos exércitos franceses, que mataram que se fartaram;
2- Remechido foi um guerrilheiro, não um ladrão ou um bandoleiro. Ainda hoje descendentes seus são conhecidos pelas suas posições políticas sendo um deles um blogger bastante conhecido, embora de extrema esquerda.
3 – Tirando os homicidas republicanos e os das Brigadas 25 de Abril, podemos dizer que, não se passa mal.
Ah, e como uma ditadura é sempre uma ditadura, falta na sua lista a de Staline e todas as outras do países socialistas, ao pé das quais o Estado Novo, coitadinho… Se quisermos levar as comparações até à actualidade podemos pensar em Cuba com os seus presos políticos, alguns assassinados há bem pouco tempo.
Mas no essencial concordo, Portugal não é pacífico: é subjugado e Pombal tornou a Inquisição numa tenebrosa polícia de estado, o que deixou marcas até hoje.
Olha, ainda há miguelistas…
Crecemos de uma ala anarquista forte e organizada. Se perguntar aos indignados o que é o “The Anarchist Cookbook”, metade deles pensarão que se trata de cozinha vegan! 😉
É mesmo o que nos faz falta.
João, não é nada assim, é tudo ao contrário.
Somos mesmo de brandos costumes.
As guerras civis (declaradas ou não) noutros países foram mais violentas que em Portugal. Os exemplos que citou não são a exceção, são a regra.
Mas pode ir buscar outros períodos
Na guerra colonial, os “massacres” contra civis são encontrados aa lupa, e nunca foi difícil ao exército recrutar soldados africanos. Na Guiné, em 1974, quase metade da tropa portuguesa era indígena. Isto diz muito de nós.
Recuando aos anos da África-quintal da Europa, os franceses e os ingleses foram muito mais violentos e brutais no combate aas revoltas indígenas que os portugueses.
O Brasil ganhou a independência sem um tiro. Ficou tudo em família e Portugal ainda foi “indemnizado” pela perda. Compare com a independência americana ou das colónias espanholas.
A exceção (e não a regra) foi mesmo a I república e os exemplos que cita são qs todos ligados a este período
Já agora, note que o o João Freitas não foi “linchado por populares”. Foi torturado e morto pelos carbonários do Entroncamento. Não confundir “povo” com grupos de civis organizados e pagos para defender o regime pela atemorização do outro.
João??
Pois, não eh “João” eh “José”, e tb n eh dislexia eh mm distração.
Soh mais um exemplo de que somos mm de brandos costumes: compare os incidentes da greve geral em Portugal com estes: rid-foram-200-mil-marchar-contra-reforma-l aboral
http://www.ionline.pt/mundo/greve-so-mad
Zé, a tua perspectiva é interessante, mas viciada, porque condensa os esparsos (ainda que fortes) episódios de violência da nossa história recente. Dou mais razão ao P. Porto: só podemos ajuizar se somos ou não violentos por comparação com outros, e nessa comparação “perdemos” quase sempre. Ainda bem, digo eu. E ainda mal, porque esta nossa exasperante mansidão nos faz muitas vezes abúlicos e ausentes da decisão dos nossos próprios destinos. Só reagimos in extremis, de uma forma desorganizada e emotiva que nos diminui às vezes a razão e sempre os resultados.
Mas, enfim, não se pode ter tudo… e temos um país onde se vive muito razoavelmente, apesar dos pesares. Não, não acho que sejamos violentos. Somos é sonsos.
E ninguém ainda se lembrou de evocar aqui a revolução dos cravos, sem mortos nem feridos? Onde é que houve outra assim na Europa (para falar só dos países mais próximos)?
A revolução dos cravos parece ser uma chatice para muitos dos vossos bloggers e comentadores mais assíduo… Não há como dizer mal, porque liberdade é liberdade, mas que diabo, aquilo foi feito pelo Otelo e quejandos! E depois houve verões quentes e o camandro… Há que não valorizar demasiado, não é?
Não, Luís Rodrigues, não é. Ninguém aqui desvaloriza a revolução dos cravos, mas ela foi feita por quejandos muito mais úteis ao país do que o Otelo. Por vontade dele, em vez de cravos teria havido muito mais sangue (aliás, ele foi um dos principais responsáveis pelo pouco sangue que houve). Escolheu mal o exemplo, se é de pacifismo que falamos.
Onde é que pode inferir no meu texto ou nas palavras da Ana algum desagrado por mínimo que seja com o 25 de Abril??? Pena ter vindo com 14 anos de atraso.
Não inferi. Apenas me referia ao que considero, na minhas subjectiva opinião a… hmmm, politosfera, se tal palavra existe, deste blog. O que é claro, tem uma base probabilística “Muitos dos” não é o autor do post ou a Ana Vidal, é apenas um “número significativo”.
Na Grécia e na Espanha fizeram-se transições bem mais suaves, por volta da mesma altura, a partir de ditaduras bem piores, sobretudo a grega. Mantenho que não temos especiais “brandos costumes” e que somos tão violentos como qualquer outro povo, como dizes basta comparar. Até nisso somos normais, thank god.