Estavam a jantar quando o avô ouviu na rádio que os turcos tinham desembarcado. O pai tinha razão, quando as coisas começam a correr mal, só pioram. No dia seguinte de manhã, a família conseguiu demover a teimosia da mãe que se recusava a sair daquela casa: ali nascera, ali casara, ali tivera os filhos – fugir? Nem pensar. “É só por uns dias, até as coisas acalmarem” urgia o pai. A mãe apenas se convenceu a partir quando viu que todos os vizinhos desfilavam na rua de malas aviadas, uns a pé, outros formando um cortejo de automóveis. Vão todos passar uma semana em casa de uns familiares, no outro lado da ilha. E depois regressamos quando esta estúpida guerra terminar. Será como ir de férias à força, sorriu o dono da mercearia que nunca fechava.
Nos anos 60 Famagusta começava a dar nas vistas como uma das pérolas balneares do Mediterrâneo. Elizabeth Taylor passeou por lá as suas jóias durante um verão e de noite as ruas à beira mar trepidavam de romance e aventura estivais. Às portas da velha Famagusta, uma cidade que se gabava de ser tão preciosa e histórica como Dubrovnick, cresciam os hotéis e as discotecas no bairro novo de Varosha, o centro estival de águas tépidas e areias finas, onde os homens davam-se ares de James Bond, encantados por mulheres de bikini colorido. Que futuros radiosos ali se prometiam.
Mas depois veio a política. Os radicais gregos de Chipre, instigados pela ditadura de Atenas, reclamavam a enosis (unificação) com a Grécia, ameaçando a minoria turca. Da ideologia ao golpe de estado foi um salto de pulga dado em 15 de Julho de 1974. Ato contínuo o exército turco invadiu Chipre, dividindo a ilha ao meio, para proteger os seus patrícios.
Varosha ficou do lado de lá, o turco. Os seus 26.500 habitantes de origem grega, partiram e nunca mais voltaram. Entretanto, uma resolução da ONU interditou as autoridades ocupantes de disporem das propriedades e dos registos prediais de Varosha, só passíveis de serem entregues aos seus legítimos detentores, os quais estão proibidos de atravessar a linha militarizada.
Resultado? Desde 1974 que Varosha está à espera. No stand de automóveis do centro da cidade ainda estão os carros daquele ano prontos a serem vendidos e entregues. Nos armários continuam pendurados os vestidos de noite e sobre algumas mesas espalham-se as sobras do último pequeno-almoço. À beira mar ergue-se o casco oco dos hotéis aguardando os seus hóspedes. Há 38 anos que ninguém pode entrar em Varosha. Na Europa.







Vai de vento em pôpa, a tua série. O drama de Chipre merecia ser muito mais divulgado do que é. Um verdadeiro atentado aos direitos humanos em pleno território da União Europeia, como dizes. E talvez o mais poderoso argumento contra a entrada da Turquia na UE.
Esta história de Chipre e do descarado favorecimento que a comunidade internacional, especialmente a União Europeia, faz à comunidade grega desse país, mete nojo.
Estranhíssimo local, dizes bem. Os vestígios e as memórias de uma vida de luxo devem tornar tudo ainda mais doloroso, como uma espécie de morte anunciada. Lembrou-me Detroit, uma cidade que, embora por outras razões, ficou igualmente suspensa no tempo.
uma cidade que ficou suspensa no tempo
Foi essa a sensação que eu tive quando vi o centro de Panaji, a capital do estado indiano de Goa, há uma dúzia de anos. Parecia uma cidade de província portuguesa congelada, digamos, no ano de 1940. Apesar de ser uma cidade cheia de vida e indianos, o aspeto do seu centro é inconfudivelmente português mas antiquado, parado em meados do século 20. Os indianos foram tão gentis que nem sequer eliminaram ou modificaram muitos dos letreiros que os portugueses lá deixaram!
Os goeses (e os indianos, em geral) são gentis por natureza e gostam dos portugueses. Além disso, Goa transformou-se um pouco no reduto de hippies ocidentais nostálgicos dos anos 60, daí parecer-nos demodée.
Detroit é impresionante, ams foi diferente. Detroit fakiu, Varosha foi evacuada, esvaziada e depois cercada.
E a ti, roubaram-te os óculos… loool