Genuflexão


enlil,

                                  

 

 

O alarido que para ali vai à volta de Tim Tebow, o quarterback dos Denver Broncos.

É melhor começar por uma explicação aos leigos. No futebol americano o quarterback é literalmente um capitão (de equipa), pois tem como primeira missão transmitir a táctica delineada pelo general (o treinador) à tropa macaca, formada por aqueles moços com envergadura de frigorífico que antes de uma jogada rodeiam o quarterback fingindo prestar atenção à estenografia oral que ele berra através do capacete, no centro de um estádio ululante. Os quarterbacks são as grandes vedetas deste desporto, dado que agregam às suas faculdades intelectuais (a sério: o futebol americano é a modalidade mais cerebral que existe), uma formidável destreza manual, um físico de adónis, um desprendimento olímpico face à multidão de fãs e uma conta bancária eloquente.

Ora o rookie Tim Tebow inaugurou uma prática antes impensável, a qual já foi crismada de tebowing (neologismo dicionarizado). Em que consiste ela? Basicamente em misturar a pose intensa de “O pensador” de Rodin com o abandono de “O desterrado” de Soares dos Reis, ou seja: em recolher-se num momento de oração quando um passe lhe sai bem, um touchdown é marcado, ou tão-só antes de o desafio se iniciar ou quando ele termina em vitória.

Num país laico como a América – ah pois é! – O gesto deste devoto filho de missionários baptistas provocou enorme celeuma. Uns execraram-no e troçaram dele, porque (re)afirmam que bola é bola, mesmo quando seja oval, Deus é Deus e a América está muito bem sem misturas; outros cantaram hossanas, porque não se cansam de (re)afirmar que nunca é demais agradecer o facto de Deus ter abençoado a pátria dos livres, lar dos bravos. Claro que os primeiros são democratas e os segundos republicanos, que a controvérsia é política, que estamos em ano de eleições e que os americanos têm o hábito de discutir as coisas.

Por certo nós, portugueses, ouviremos a polémica com cepticismo e olharemos o gesto com cinismo, ambas atitudes com que evidenciamos a nossa consabida superioridade intelectual. Ou não estaremos habituadíssimos a ver um qualquer Cleiderson do Feirense persignando-se à pressa, beijando três vezes a cruz que traz ao pescoço e adiantando premeditadamente o pé direito, quando entra em campo? Isto para suplicar ao Altíssimo que se distraia por uns momentos do governo do Universo e da arquitectura dos Tempos de modo a banhar de favores as evoluções de uma pelota pontapeada por aquele seu fidelíssimo. Normal, portanto.

Outos povos, outros costumes.

25 comentários em “Genuflexão”

  1. (preparando um blood mary , que acompanhará na perfeição o matinal pão torrado)

    Meu caro José, deixe-me partilhar a minha experiência, numa espécie de transacção pelo prazer que me deu lê-lo a si. Eu próprio, não poucas vezes, me persigno quando alguém me quer presentear com “um vinho lá da minha produção, doutor”, prevendo o que aí vem e tentando que o Criador me defenda de ter que provar um copinho da mistela ali à frente do generoso ofertante. E, naturalmente, ajoelho bastas vezes quando se me apresenta defronte um Château Mouton Rotschild . Em tempos de antanho também ajoelhava depois do quinto absinto, mais isso são outras histórias.

    (pensando se não devia preparar um Irish Coffee para enfrentar com mais genica esta fria sexta feira).

    1. Sendo por uma boa causa, está perdoado (digo eu que não tenho poderes desses). Até porque conheço muito bem a primeira provação, já passei pela segunda libação e quanto à terceira, nunca com absinto, dizem que cega. O frio, derroto-o com um eggnog. Se ainda estivermos sóbrios: obrigado pelo seu comentário.

  2. Pensamento mágico, Zé Navarro, há quem não o possa evitar. E então nestas coisas dos desportos com bola, símbolo solar, não há nada mais adequado do que invocar o divino. Tem tudo a a ver:)
    Lembrei-me agora de Any given sunday, de Oliver Stone. Al Pacino e Dennis Quaid exemplificam bem as ramificadas alegorias do futebol americano.
    Agora vou comprar romãs.

  3. A propósito de pelota, no dito tebowing falta só a ousadia de imitar O Pensador e O Desterrado em todo o seu esplendor, ou seja, em nu integral. Isso é que seria, imagino eu, o delírio nos estádios ululantes!

  4. Bom tema. Tradicionalmente, nós por cá tendemos a acreditar mais no destino do que em nós mesmos (daí a nossa inércia). No outro extremo, há os que detestam a ideia de uma força superior a controlar os passos do ser humano (não foi Nietszche quem proclamou a morte de Deus como libertação do homem?). E então de um atleta é especialmente chato – por que se há-de comprar a t-shirt ou o boné do rapaz se é Deus quem lhe faz o trabalho? O meio termo não me parece mal: procurar a sorte (certamente, ele treina e não fica imóvel à espera que Deus lhe execute os passes) mas saber agradecê-la (seja através de devoção a um Deus, seja apenas através da humildade de manter os pés assentes na terra). O resto é política.

        1. Estou ligado ao fenómeno desportivo há vários anos, primeiro como praticante e agora como treinador, e já vi tantos tipos diferentes de festejos ou rituais supersticiosos, que este só me poderá admirar mais por habitualmente tenderem a ser mais para o exibicionista. Mas também poderá ser uma jogada de marketing, o que tratando-se de desporto profissional, ainda mais nestas ligas americanas em que todos os pormenores são rentabilizados, não me espantaria nada, nem o veria como negativo.

          1. É essa uma das questões que tem sido argumentada. Tim Tebow é evidentemente sincero na sua convição religiosa, mas expô-la da maneira que o faz, trouxe-lhe um destaque que doutro modo não teria. Em que ficamos? Não sei!

          2. Penso que ficamos em que não vem daí nenhum mal ao mundo, e que poderá vir algum proveito extra ao atleta, não prejudica ninguém nem fere susceptibilidades.

  5. O José Navarro escreve de acordo com a nova ortografia?! Tss tss… Olhe que alguns seus companheiros de blogue abominam isso! Até me admira como não tem já aqui a caixa de comentários cheia de insultos!

  6. José Navarro, agradeço-te este texto que mistura religião e desporto, áreas que nem sempre pratico, mas que me interessam particularmente.
    Mas ao ler-te, fui assaltada por outro pensamento. O que descreveste tem algo de parecido com o que penso ser o que se passa nos partidos políticos em que o “capitão tem como primeira missão transmitir a tática delineada pelo general (o treinador) à tropa macaca,formada por aqueles moços com envergadura de frigorífico que antes de uma jogada rodeiam o quarterback fingindo prestar atenção à estenografia oral que ele berra através do capacete, no centro de um estádio ululante.”
    Claro que aqui os estádios são os comícios e os rapazes não têm envergadura de frigo. Mas não achas que tenho razão?

    1. Ui, claro que sim! Muito bem visto, esta carapuça pode enfiar-se em muitas cabeças. Mas juro que pela minha não passava enviar uma indireta. No entanto tenho uma velha teoria que o desporto (no nosso caso o futebol/soccer) é o perfeito mise-en-abyme da “realidade”.

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