Um clássico não é só aquilo que não morre ou que continua a surpreender-nos. É sobretudo, creio, uma obra que nos dá a sensação de ainda não estar totalmente ao nosso alcance. Por exemplo um sermão do padre António Vieira. É claro que a cultura ajudará a entender as circunstâncias em que aquelas palavras foram escritas, a quem se dirigiam e o que procuravam obter. Tudo isso enriquece a leitura e dela se retirará maior prazer. Mas poderá empobrece-la se não formos também capazes de retirar o dito sermão às leis da gravidade, atirando-o ao ar a ver se ele flutua através dos tempos.
Quero com isto dizer que o primeiro trabalho de um leitor ou ouvinte experimentado será o de procurar sempre alcançar as sensações imediatas que se têm numa primeiro contacto com a obra. Porque, como se sabe, não há vez como a primeira.
Este exercício, além de higiénico, dado aliviar-nos do entulho com que, por insegurança, costumamos mobilar o entendimento, traz ainda a vantagem de nos permitir a todo o momento fazer a distinção entre progresso e evolução, demasiadas vezes confundidos.
Sim, temos vindo sempre a progredir, a penetrar mais fundo e melhor na natureza e a saber retirar dela, cada vez com menos desperdício, aquilo que nos faz falta, acumulando saber e retificando processos. Todavia, pelo menos desde que o homem começou a escrever, não temos evoluído nada. Os nossos neurónios continuam ligados da mesma maneira e as nossas sinapses seguem o mesmo percurso. Isto quer dizer que podemos ponderar a hipótese, por exemplo, de Péricles ser mais apto e inteligente a resolver problemas políticos actuais, do que Obama; ou que podemos encontrar tanta e tão semelhante satisfação em Schubert como em Thelonious Monk.
Repare-se na gravura acima. Foi executada por William Blake em 1796 e representa a Europa amparada pela África e pela América. O que falta nela? Nada que não tivesse já sido evocado, mas também tudo que ainda nos falta perceber.
Assim sendo, não há maior novidade do que um clássico.


Este tema dos clássicos é-me tão caro! Não só os antigos, que são a minha praia de origem ( na gravura de Blake vejo logo as Três Graças), mas todos os clássicos.
Um clássico é clássico precisamente por isso, porque nada mudou na natureza humana, o ódio é o ódio e o júbilo é o júbilo. Descrevê-los de modo a que resistam às leis da gravidade e, repetidamente, neles vejamos novidade é que é a pedra de toque.
Agradeço as suas palavras, Ivone Em relação à gravura, pelo que sei, o nome dela é mesmo “Europe supported by Africa and America”, mas a sua sugestão é bem pertinente; como sabe, Blake tinha um imaginário muito próprio, compondo a figuração clássica de um modo bem moderno.
As três graças, claro, em versão exótica. Quatro, a contar com a tua. Subtilíssima, aliás. 🙂
Pelas contas que fazes e eu prolongo, ficam então cinco graças, Ana.
Perfeito, é isso mesmo e mais o que ainda mos mostrará.
Belo texto, Zé Navarro!
Um grande, grande abraço António. Deixa-me dizer-te que andas a escrever melhor do que nunca, entre Quixotes, pintor coiso e tal renascentistas e morcegos. Assim assim, não consegui deixar de detestar-te sábado à noite.
Pois é tudo (incluído o sábado, pois então!…) recíproco, querido amigo!
Belo texto. A segunda frase – “É sobretudo, creio, uma obra que nos dá a sensação de ainda não estar totalmente ao nosso alcance” – é perfeita como explicação e incentivo. A menos que, como parece acontecer com tanta gente, se recuse qualquer esforço (e, logo, qualquer evolução).
Quanto à pergunta “O que falta nela?”, hmmmmmm, a Ásia? Parece que nos tempos que correm toda a gente quer a Ásia a apoiar a Europa…
Eu diria que a Europa foi o que foi, enquanto esteve espaldada na África e na América. Assim que ficou sem aqueles suportes caiu de joelhos. Sim, agora vem a Ásia, ou dar uma mãozinha ou fazer-nos o que fizemos a outros.
Pensei em uma série de comentários elaborados, mas tudo quedou quando uma amiga a quem indiquei o texto me disse: “e os pés? viste?”. Pronto.
Bem observado! Por muito ufana que a Europa fosse em relação às escravas americana e africana, todas andavam descalças naquele tempo. Só pode ter sido isso…
Belo Texto
🙂