Cortesias, apresentação e prefácio


enlil,

Mário Cesariny,

  Mário Cesariny, “Autorretrato aos 53 anos”, s.d.

 

De modo que vim aqui ter a esta casa, que já de longe rondava e me parecia muito bem apessoada, trazido por amável convite de Ana Vidal, suavíssima patrícia lá das terras de baixo. Puseram-me à vontade, pelo que seria demais entrar de chapéu na mão, mas prometo não comer a sobremesa toda.

Apresento-me:

A dias de ter a idade que tinha Cesariny quando se autorretratou como acima se vê, também me acontece ter o barco meio afundado ou confundir isso com um horizonte estendido até ao pôr-do-sol, preso atrás da escotilha rebitada. Siga a marinha que por aqui me fico quanto a metáforas náuticas, ao contrário de Mestre Mário que mergulhava bem fundo nessas águas.

As palavras dos outros vêem-nos melhor do que alguma vez conseguiríamos dizer, pelo que não sei se caibo na figura que Alexandre (um génio) O’Neill faz de si mesmo,

 

Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada…)

 

Ou se me hei de abrigar na imagem que de si próprio versejou o intermitente poeta Bocage:

 

Conheço agora já quão vã figura

Em prosa e verso fez meu louco intento.

Musa!… Tivera algum merecimento,

Se um raio da razão seguisse, pura!

 

Entre as diversas imprudências que cometi na vida, a menos funesta terá sido cursar filosofia, o que me fez passar o resto dos anos a desintoxicar-me de mariolas como Deleuze (aquelas unhas…), Hegel e Heidegger, com doses higiénicas de Dewey, Putnam e Rorty. Depois fui indo atrás do que me apareceu e pelo caminho atravessou-se-me o cinema (só a parte dos olhos, que de mãos nunca tive jeito) e a televisão, onde aprendi muito do que sei hoje – creio.

Até nem me tinha dado mal com isto, mas sucedeu 2011 e o seu rol de misérias. Sobrevivi ao ano e cá estou à espera do que dá 2012 e seguintes. Sportinguista mais do que ninguém (à exceção da Sra. D. Maria José Valério), conheço o sabor do desaire e sei que as vitórias são passageiras.

Olhem, há pouco mais a dizer do que isto de modo que não pareça epitáfio – o resto se verá.

Ao que venho? Com a vossa licença, apetece-me falar do que gosto e vou descobrindo gostar ainda mais, além de um par de coisitas que acho saber. Isto já está mau demais para azedumes, rixas, velhacarias e outras vocações neardentais, essas pedras não piso.

‘Bora lá rapazes que está um boi a assar! – como gostava de dizer o grande Assis Pacheco.

39 comentários em “Cortesias, apresentação e prefácio”

  1. Bem-vindo, caríssimo quase-conterrâneo! Espero que te dês muito bem por cá. Tira o casaco e as luvas e põe-te à vontade, que isto é tudo gente de bem.
    Mas a malta não é de cerimónias, de modo que interrompi a comezaina do boi para ir a correr justificar-te o texto. É que é regra da casa, não quero que também vás parar ao espeto por tão pouco. Já te bastará o português pré-acordo… 🙂

    E olha que bem ficou o Cesariny na fotografia! Até parece mais novo.

  2. É só para dizer que estou muito, muito contente por te poder voltar a ler regularmente e, ora deliciar-me, ora desconcertar-me com os quadros que sempre penduras nos teus posts …
    Bela e estilosa entrada, Zézito.
    Fico à espera das próximas prevaricações …

        1. Ó pá não me lixem! Não tenho qualquer fetiche com as normas de 49 que o Dr. Salazar instituíu à revelia do Brasil só por cisma dele, entre tantas. Por mim até escrevia com ph de pharmácia se fosse caso disso, de resto as normas ortográficas, sendo convenções institucionais, são como os sinais de trânsito. Estou a fazer um esforço para escrever assim e não como aprendi (já tive que deixar de escrever “sòmente”, por exemplo) porque é a norma oficial. A grafia é uma cena que não me assiste (mas se vos ofender, por quem sois, voltarei à norma coeva).

          1. Nada disso, a liberdade aqui no Delito é para ser respeitada: escreves como quiseres, mesmo que seja nesse estranho dialecto que agora inventaram. O que não impede (respeitando a mesma liberdade, ora toma) que sejas massacrado na mesma. Ou seja, estás ph… lixado. É que o acordo é uma cena que não nos assiste… 🙂

          2. E vos Tagides minhas, pois criado
            Tendes em my hum nouo engenho ardente.
            Se ſempre em verſo humilde, celebrado
            Foy de my voſſo rio alegremente,
            Daime agora hum ſom alto, & ſublimado,
            Hum estillo grandiloco, & corrente,
            Porque de voſſas agoas Phebo ordene,
            Que não tenhão enueja aas de Hypocrene.

          3. Como aquele turista que no Pireu queria saber o horário de um barco para as ilhas e, sabendo grego clássico, pôs toda a gente a rir, porque deve ter dito qualquer coisa como: “ilustres nautas, podereis elucidar-me a que horas demandará a nave?”

          4. Em 49 os meus pais eram ainda demasiado jovens para que eu pudesse chatear alguém acerca do assunto (e depois havia a PIDE)… Mas a Ana tem razão: escreves como entenderes. Até é provável que eu nem volte a falar do assunto. Bom, provável talvez seja um exagero. Digamos possível.

            Ah, espera, lembrei-me de um pequeno post sobre o assunto, a apelar ao sentimento, que tenho nos rascunhos. Digamos então improvável.

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