TDT: o que corre(u) mal?


enlil,

 

Está à vista de todos que o lançamento da TDT está a correr mal. Quem tiver boa memória lembrar-se-á ainda que todo o processo foi acidentado, não tendo havido um passo que não gerasse celeuma. Pode-se mesmo dizer que foi a tempestade perfeita. Porquê?

Por uma razão simples e crua e assaz politicamente (muito) incorrecta: desde cedo que a TDT se tornou um encargo em vez de constituir uma oportunidade. Mais claro ainda: a TDT não é negócio que valha a pena. Ora isto é uma singularidade inexplicável em qualquer instância europeia, embora faça todo o sentido em Portugal.

A passagem do sinal televisivo analógico para o digital em todo o espaço televisivo europeu é uma directiva da Comissão Europeia. Em 2005 (há 7 anos!) ficou estabelecida 2012 como a data final para a transição. O propósito era dar um novo impulso à indústria televisiva europeia, depois do sucesso da vaga de privatizações ocorrida nos anos 90. Todos os membros da EU acolheram com satisfação esta directiva. Todos? Não! Uma pequena aldeia lusitana resistiu.

Porquê?

Primeiro porque a economia portuguesa está em crise desde que António Guterres viu o abismo e se evadiu da governação, ou seja, desde 2001 – eis aqui um pormenorzito que tem andado esquecido. Ora quando a economia espirra, a televisão que vive da publicidade apanha uma pneumonia, pelo que tanto a SIC como a TVI, e os grupos de mídia a que pertencem, têm andado com o coração nas mãos desde então.

Em segundo lugar porque a penetração da pay TV (cabo=ZON; IPTV=Meo) é muito superior à média europeia. Enquanto por essa Europa fora, aumentar a quantidade de canais e a sua qualidade de imagem através da TDT representou um alargamento do mercado e se mostrou uma opção economicamente aliciante, em Portugal não só o mercado é demasiado estreito para uma nova operação, como o público já está servido pela multitude de canais de cabo.

Ao longo de 2010-2011 assistiu-se a um fenómeno silencioso, invulgar em termos europeus e irreversível: o aumento exponencial de clientes do serviço de cabo provenientes da classe média baixa (C2), sobretudo homens, fartos das novelas em prime time e com vontade de ver futebol em casa. Assim sendo, a TDT irá servir apenas os clientes menos interessantes para o negócio (a famigerada classe D), aqueles que nem para o cabo têm capacidade financeira, a base de sustentação das TVs terrestres privadas. São estes, precisamente, que vão ter que pagar aquilo que até hoje tinham de graça, de modo a serem servidos a trouxe mouche por um serviço que é um frete para o incumbente.

6 comentários em “TDT: o que corre(u) mal?”

  1. Perante esta descrição, cabe perguntar: por que raio é que a Comissão Europeia elaborou, e o Conselho de Ministros aprovou, essa diretiva que obriga os países todos da Europa a converter-se à TDT? Para que é que a Europa deve ser chamada neste assunto?

    1. Boas perguntas que exigiriam um resposta elaborada. Em síntese: nos início dos anos 90 a UE lançou a directiva “televisão sem fronteiras” que revolucionou e dinamizou o sector, nomeadamente na abertura à privatização do espectros, quebrando com o monopólio do(s) estado(s). A implementação (eu sei que é uma palavra horrível…) da TDT faz imenso sentido em contexto europeu – nós (e a Estónia!) é que somos peculiares… Pessoalmente acho que tudo isto foi do melhor que a UE fez e a nós cabe-nos, como em todas as outras áreas industriais, adaptar estas directivas segundo o princípio da subsidiaridade – convinha que não nos albanizassemos…

      1. Confesso que não entendo a sua opinião, à luz disso mesmo que você nos diz.
        Se a TDT faz todo o contexto para um conjunto alargado de países da Europa, então esses países podem e devem avançar com ela. Não precisam, nem devem, no entanto, impô-la a países, como Portugal e a Estónia, nos quais – segundo você – ela não tem viabilidade (ou rentabilidade) financeira.
        Se nós já temos a televisão por cabo, à qual quem tenha dinheiro – quem não seja da classe D – pode aderir, e de facto tem aderido, por que raio é que precisamos da telvisão digital?

        1. Independentemente da questão da viabilidade económica (que não é nada de somenos) e de algumas questões técnicas (que me transcendem em termos de conehcimento profundo, mas que têm a ver com a compatibilização do espaço radioeléctrico europeu) seria mau para nós ficarmos desalinhados com a fileira industrial audiovisual europeia. O “big picture”, mais ou menos conseguido em termos de produção de conteúdos e alcançado em termos de consolidação empresarial, é ter uma indústria forte e competitiva que não depende de terceiros, como os EUA, por exemplo. Como sucedeu com o cinema, em relação ao qual todos os projectos europeus foram um fiasco.

  2. a penetração da pay TV é muito superior à média europeia

    Acho isto deveras surpreendente.

    Ainda ontem ouvi que em Portugal só 25% dos lares têm televisão paga. O que me parece razoável.

    Na Alemanha menos do que 25% dos lares têm pay TV? Como pode isso ser?

    1. Foi Logo buscar a Alemanha! Alemanha, Bélgica, países escandinavos, Luxemburgo, Bélgica , Holanda e RU, têm mais pay TV do que nós, sendo que nalguns é predomimantemente por satélite e agora por IPTV (Alemanha, RU, por exemplo). França, Espanha, Itália, que apostaram muito no satélite, têm menos pay TV que nós, concentrando-se a oferta na free Tv, que se alargou bastante com a TDT. A leste, ou na Mitteleuropa se quiser, a oferta é muito menor. A penetração do cabo (esqueça o satélite) em Portugal sempre foi muito aicma da média e agora com a forte campanha de IPTV (Meo) aumentou. Não se esqueça que em países demograficamente grandes e ricos (com um bom nível de consumo interno), ter 10% de audiência, por exemplo, dá um grande conforto, por cá com menos de 20% é o desastre. Não se esqueça também que 25% de lares equivale, em termos estatísticos, a 75% da população.

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