Não é bem assim, mas também não


enlil,


Que diabo de língua a vossa em que uma pessoa se engana no tom do ditongo e em vez de dizer ”4” sai-se com um palavrão, disse ao meu amigo chinês.

E a vossa? Basta trocar um “g” por um “f” e em vez de elegante fica elefante…

Meti a viola no saco, concluindo que eles são mais diferentes de nós do que nós deles.

Até o comunismo do Império do Meio parece bem estranho ao nosso, tendo já sido capaz de trocar os olhos a Estaline, Brejnev, Durão Barroso (duas vezes) e George Bush. Acontecem coisas, por exemplo em Xangai, que os vizinhos coreanos nem sonham e os amigos cubanos sonham mas não pensam.

Considerai o caso que vos trago.

 

Entre 6 de Set e 5 de Out o TOP Contemporary Art Center, instituição indy e nada marginal, patenteou uma exposição de 128 cartazes originais, criados por 50 artistas convidados, sob o título “My Comunism”. Constrangimentos? Aparentemente nenhuns; laudatória? Só revolucionária, crítica? Artística; tanto que Lee Ambrozy, um dos editores da canónica Artforum, elegeu a mostra entre as melhores de 2011.

Isto complica os lugares comuns, baralha as linhas tortas e dá azo a tantas hipóteses, que só uma serve, mesmo que não adiante muito: “eles”, os chineses, são intangíveis e tanto mais o são quanto mais se aproximam e se apropriam dos nossos modelos. Desengane-se, assim, quem julgue que dali só virão produtos a granel, pois no campo das artes plásticas começam a despontar, quase de enxurrada, as grandes obras criadas na China.

No resto estamos a ver…

poster de Jiang Zhi

 

Pavel Buchler, “Report on Damage”, 2011

7 comentários em “Não é bem assim, mas também não”

    1. Parece que finalmente a profecia de Peyrefitte se concretiza. Na altura pareceu extemporânea, depois improvável, mas hoje aprece ao virar da esquina. Mas não é só pela quantidade, como ele dizia, é tmabém pela qualidade – artística, no caso. Afinal sempre houve tantos overseas…

  1. Tendemos, parvamente, a subestimar os chineses e a avaliá-los pela bitola dos que nos aterraram à porta por todo o lado. E não só as generalizações são perigosas, como é ainda mais perigoso (ou estúpido, pelo menos) considerar atrasada ou inculta uma civilização milenar como a chinesa. De resto, depois de tantos anos de asfixia naquela aberração incrivelmente baptizada de “revolução cultural”, é natural que as artes e todas as formas de criatividade comecem a explodir na China.

    1. E de que maneira, Ana. Fiquei, por exemplo, a saber que enquanto nós viramos costas à música clássica, na China “mil flores, mil escolas” de música desabrocham, obcecadas com Beethoven ou Mozart. Já não é pura sci-fi imaginar daqui a um século estes compositores serem património interpretativo chinês…

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