Paul Gauguin, “Te tamari no atua (Natividade)”, 1896
Embora me confesse ateu tenho grande apreço pelo Natal. A tradição ocidental foi secularizando esta festa religiosa de modo que, para gente como eu, é hoje vivida como uma bela oportunidade de celebração dos laços familiares e para exercer a generosidade que devemos a quem atravessa connosco o tempo que nos coube viver. É também uma boa altura para expandir agradecimentos piegas, que noutras ocasiões poderiam ser vistos como inconvenientes.
Se nele acreditasse, daria graças a Deus por neste quadrante do planeta em que vivo predominar uma religião como a cristã. Pois à excepção de alguns diminutos tardo-medievalistas como o sr. César das Neves, ainda acoitados nas florestas virgens da Contra Reforma à espera que o Iluminismo acabe, enquanto vão sonhando com o retorno das labaredas em que se assavam e purificavam os ímpios, a Igreja, a seu modo singularmente tolerante, aceitou acomodar esta expropriação de uma festa tão essencial ao seu culto.
Sinto-me por isto deveras encanitado com a recente tendência corporativa de enviar desejos de “Boas Festas” ou, pior, “Happy Holidays”, obedecendo às normas da retórica revisionista, com o intuito, disseram-me uma vez, de não ofender a sensibilidade dos não-cristãos. Apesar de profundamente ignorante quanto a teologias forasteiras, seria capaz de apostar singelo contra dobrado que um muçulmano franziria o sobrolho se lhe desejassem “Bom Jejum” a propósito do Ramadão, ou que um judeu levaria a mal se lhe saudassem o Pesach como “Bom Sacrifício”.
As coisas têm um nome e o Natal é o Natal, mesmo para gente assim como eu. Por isso daqui vos desejo um BOM NATAL!


Muito bem, Zé. Feliz Natal para ti e os teus também.
Que belo texto, Zé. Feliz Natal, pois claro.