Cenas favoritas de filmes (4)


enlil,

 

Pelo menos desde que em 1588 ofereceram a El Greco uma parede da igreja de São Tomé de Toledo e ele a preencheu com o céu e a terra, ligados pela morte e o milagre, até aos murais de Diego Rivera, que os pintores, só os mais confiantes, ousam representar o universo inteiro de modo que possa caber num olhar. Isto dito sem ver, parece mentira ou insensata vaidade, mas ponham-se diante do que eles fizeram e digam que não sentem a arte de pôr o mundo na palma da mão.

No cinema não cabem tamanhas enormidades. Pela sua natureza o cinema está condicionado ao movimento, mesmo que se dedique a inventar as suas realidades. E porque no cinema movimento e realidade são a mesma coisa, ambos cosidos pela narrativa, a ele é impossível uma imagem total que nós possamos pôr em ação com o simples poder do nosso olhar.

A isto não se conformou o perverso Hitchcock. De tal modo que decidiu a propósito de um nada da intriga de “North By Northwest” (Intriga Internacional”) passar do cosmos ao caos como se fosse um deus a reinventar o big bang primordial. O resultado foi talvez a mais lógica e delirante sequência de toda a arte do cinema.

 

PS – infelizmente não há como inserir este excerto de “North By Northwest” senão através do link:

http://fliiby.com/file/690838/q1fy0ev36p.html

O que estou a ler (4): “El Señor Presidente” de Miguel Ángel Asturias


enlil,

                    

 

Pouco afeiçoado à tômbola das novidades, são muitas as vezes que melhor defino os meus gostos pelo que deliberadamente não estou a ler. O método, sendo um bocado cáustico, tem a enorme vantagem de reduzir ao mínimo as desilusões e dar sempre por bem empregue o dinheiro e o tempo despendido nas leituras selecionadas.

Bem podem os livros hibernarem anos na estante após a pulsão urgente da compra até ao dia em que misteriosos impulsos tornem a sua leitura imprescindível. Foi assim com “Tirano Banderas” comprado numa qualquer passagem por Badajoz e por motivos que as motivações esquecem (honni soit qui mal y pense) só convocado ao activo no princípio deste ano.

Já lido, apreciado e imaginado, que são estas as fases por que passam os livros, traz-se a obra-prima de Ramón del Valle-Inclán à colação porque a sua leitura inspirou prolongamento por “El Señor Presidente” de Miguel Ángel Asturias que hoje repousa na mesa de cabeceira durante o dia para à noite despertar quando lhe pego. É muito mais divertido os livros sucederem-se na órbitra uns do outros, este a pedir aquele e assim sucessivamente de universo em universo até sentir-se que é altura de mudar de viagem.

O picaresco da edad de oro, o castelhano adocicado e feroz do México e o ritmo truculento da modernidade daqueles épicos anos 20, convertem “Tirano Banderas” numa obra-prima do seu tempo, ou seja, sem uma ruga se lido hoje. É um livro faiscante em que os crioulismos disputam cada parágrafo ao finíssimo léxico clássico, e onde não há página em que não palpite o sangue, o suor e a canícula. Tais elementos são o combustível para a crueldade da narrativa e das personagens, às quais se equivale a escrita cruel de Valle-Inclán.

Publicado em 1926, “Tirano Banderas” foi lido pelo guatemalteco Asturias tinha ele 37 anos, já bem temperados pela luta política, cuja aventura mais trepidante fora a participação no derrube do tirano Manuel Estrada Cabreba. Que a obra de Valle-Inclán haja influenciado a inspiração de Ángel Asturias é um facto palpável quando se lêem ambos os livros de enfiada. Mal sabiam eles, infundidos na esperança típica dos escritores, que a Espanha estava a caminho de décadas “de sofrimento e que a Guatemala dele ainda não se tenha libertado, mesmo já século XXI adentro.

“El Señor Presidente foi escrito em 1933 mas ficou prudentemente guardado numa gaveta até 1946; o autor sabia bem as labaredas e os problemas que chamejavam daquelas páginas. Às rutilantes características da obra de Valle-Inclán, Asturias acrescentou uma elaboração narrativa pejada de acidentes verbais e linguísticos que há quem chame de surrealistas, mas entre nós basta dizê-los vigorosos, porque o amor à língua, não a tomando como um instrumento mas como um mármore escultórico, deveria ser a razão primeira que faz de alguém um escritor.

Se cada uma destas obras isoladamente refulge um brilho intenso, assim concatenadas como foram lidas, parece que nada fica por dizer da malvadez dos tiranos, da sabuja concupiscência dos seus acólitos, da amoralidade que inspiram na oposição e da violenta desesperança que derramam nas sociedades.

Na grave e ensimesmada literatura portuguesa do século XX, abarrotada de Dantas, Torgas, Namoras e quejandos urbano-telurismos, nenhuma obra ousou aproximar-se da vitalidade efusiva de “Tirano Banderas” e de “El Señor Presidente”; assim de longe talvez só “Dinossauro Excelentíssimo” de Cardoso Pires possa sugerir semelhante animação.

 

Passa ao outro e não ao mesmo, não é JPT?

 

 

A tia da linha


enlil,

Catherine of Austria (1507–1578), Queen of Portugal

Alfonso Sánchez Coello, “Catarina de Áustria, Rainha de Portugal”, circa 1550

 

As “tias da linha” são uma estirpe urbana, de classe média-alta (tipo A/B) com habitat preferencial na região de Lisboa. Na sua grande maioria são do género feminino, mas foram detectados fenótipos desta índole noutros sexos.

A estirpe manifesta-se ao correr de três sintomas, a saber: uma segurança absoluta nas suas opiniões, concorrente com uma grande superficialidade fenomenológica dessas mesmas opiniões e uma arrogância social tanto mais acentuada quanto mais distante da vida comum. Dado o carácter um pouco evanescente da sua caracterização, as “tias da linha” são muito copiadas e falsificadas, pelo que a autenticidade só pode ser apurada mediante um processo científica denominado “interrogatório”. É no acumular de dislates, petulâncias, trejeitos classistas, mas sobretudo por um tom de voz despachadíssimo, altissonante e peremptório, que os peritos confirmam a legitimidade de um indivíduo como integrante na estirpe.

As “tias da linha” podem irromper de súbito e assumindo formas inesperadas, às vezes em aparente contradição com o que delas é expectável. Um caso muito discutido recentemente tem sido o da Doutora (por extenso) Raquel Varela (DRV). Alguns estudiosos ficaram surpreendidos por DRV perfilhar um dos alelos da célula trotskista, o que deveria situá-la mais ou menos do lado esquerdo do espectro político. Para esses especialistas, semelhante ideologia, ao manifestar-se no seio de uma grelha comportamental, mental e emocional, tipicamente de “tia da linha” faria de DRV uma impostora. Outros estudiosos, porém, não cessam de apelar à abertura de espírito, declarando que DRV em tudo se conforma ao estereótipo da “tia da linha” e não será por um pormenor de somenos que o deixa de ser. Senão veja-se:

1. A pose altiva de grande senhora gentrificada, equidistante em partes iguais da modéstia plebeia, da contenção dos nobres de espírito e da sincera curiosidade científica (baseada na dúvida). Pose essa ornamentada por todos os tiques de indumentária e estilo de vida distintivos da classe média-alta (automóvel de boa marca, casa com quintal, echarpes evanescentes ou o little black dress de Chanel; dados que DRV exibe e refere nalguns dos seus panfletos).

2. Uma irresistível tendência opinativa, estribada em rasos lugares comuns expelidos como verdades insofismáveis. Opiniões, acresce, reveladoras de uma relação com a realidade equívoca e disfuncional, própria dos alienados sociais.

3. Um falar em público taxativo, impiedoso, e de supina soberba, tanto mais acentuado quanto mais lunática é a opinião expressa.

Até este momento ainda não é cabal o esclarecimento se a Doutora (por extenso) Raquel Varela é uma fraude ou simplesmente néscia, mas a investigação prossegue.

Claro como a água


enlil,

O exemplar de hoje do Expresso gratifica-nos com uma conversa protagonizada pela magistral Clara Ferreira Alves que por uma vez, excepcional e extraordinariamente, se coíbe de tratar o entrevistado tu cá tu lá com’ós caldeireiros. Do outro lado da mesa assentou João Ferreira do Amaral (JFA), mais um prócere da economia, uma ciência cujas benesses e maravilhas temos vindo a experimentar e sobre a qual uns certos espíritos contumazes ultrajam ser mais aparentada com os princípios da alquimia do que com as exactas chatezas newtonianas.

JFA não hesita em desqualificar o actual rumo das finanças públicas: “O grande erro desta política foi exagerar na austeridade. É possível aplicar uma política com menos austeridade e melhores resultados orçamentais.”

A receita para tão suave milagre anda JFA a bradá-la há anos neste deserto: sair do €. Limpo, cirúrgico e indolor, ou pelo menos sem austeridade exageradas como a que hoje penamos – certo?

Vai daí e Clara, senhora de grande astúcia, pergunta pelas consequências de tão elegante e airosa magicação segregada pelo auspicioso cérbero de JFA:

“Como seria pagar a dívida externa nesse cenário de saída ordeira?

Seria o cenário argentino. Teríamos dois anos infernais e depois resolvia-se. O pior seriam os dois anos, do ponto de vista democrático. A violência, a bandidagem… a dívida externa, a pública só me preocupa na media em que é externa, é brutal.”

Persiste Clara:

“Mas as prestações sociais teriam sempre de aumentar, o que aumenta o risco de hiperinflação.

E aí, o que me preocupa mais são os medicamentos, que são quase todos importados. Teria de ser feito um programa especial para isso. A despesa também não seria por aí além.”

Ou ainda:

“As pessoas fazem perguntas concretas sobre a vida delas. Se tiverem uma dívida ao banco de uma casa, como é que essa dívida vai ser paga? Em euros? Em escudos?

Acho que o Estado se deve substituir ao devedor na proporção que resulta da desvalorização cambial. Pode fazer um empréstimo junto do banco de Portugal. A outra hipótese é a bonificação da taxa de juro. Ou se reduz o capital ou se reduz a taxa de juro.”

Temos assim que o remédio para nos livramos das diabólicas privações deste último par de anos, seria portanto mergulharmos em mais dois anos de caos absoluto. Os quais minusculamente perturbam o intrépido JFA e tão só “do ponto de vista da democracia.” Quanto às reles aflições dos cidadãos, mesquinhamente mais preocupados com as suas vidinhas do que com a democracia, quer os velhotes medicamentados, quer os vaidosos com casa própria, o Estado haveria de vir, suponhamos, a tapar o buraco precisamente com o dinheirinho de que tanto carece. Lógica perfeita: sair do € para pagar a dívida, de tal modo que se tenha de endividar brutalmente mais.

O resultado do questionário é ficarmos na dúvida acerca do género de avareza que tolhe JFA, se é uma pura avareza de espírito que o torna incapaz de medir como puro horror o resultado por ele mesmo explicado das suas maravilhosas teses, e então teremos que o ter na conta de alvar; ou se é uma avareza das que são inatas aos cândidos que de tanto contemplarem o firmamento caem num poço cavado a seus pés, o que nos obrigaria  infelizmente a reputá-lo como ridículo.

De qualquer modo estamos esclarecidos quanto à bondade da saída do € como alternativa aos tempos que correm.

Ao trigésimo nono ano da nossa era


enlil,

Jantámos a comemorar mais do que o 25 de Abril, porque ainda somos do tempo em que. Apesar das crenças, deliberei que não era bem a data da “alvorada da liberdade” o que nos juntava, mas o que vivemos mais adiante, entre 78 e 82. Se não tivesse havido 25 de Abril nunca teríamos sido o que fomos na faculdade, nem teríamos feito coisas que, decorridas estas idades, não lamentamos nem renegamos, mas as guardamos com a imensa benevolência da maturidade.

O 25 de Abril, por mais que haja quem o incomplete em lamentos, o nosso foi afinal podermos ter crescido assim, foi terem-nos sido permitidas, pela confusa tolerância dos pais e pelo desnorte de costumes subitamente descomprimidos, todas as tropelias em que alegremente nos empenhámos. Queríamos mudar o mundo, e a verdade é que contribuímos para mudá-lo, mas não assim como pensávamos, porque foi em preservá-lo tal como o habitámos que o mudámos realmente.

Mas o melhor veio depois do jantar. A Xana abespinhou-se sem razão nenhuma – foi ela que pediu mais uma garrafa de vinho quando já queríamos desbancar – e acabou por não passar a meia-noite onde tanto desejava. Divagámos então por um Bairro Alto distante do nosso dos anos 80, porque cresceu desmesuradamente e já não é o secreto esconderijo da irreverência. Um belíssimo Bairro Alto, digo eu agora, território franco, sem exigir certificado de memória nem teste de consciência, para que nele possam beber, cantar na rua, sentar-se no passeio, todos a quem apetecer fazê-lo sem limite de autenticidade. E a multidão que entupia as ruas, essa gente quase toda mesmo quase toda, embora se calhar entre ela houvesse pais e mães de família, via-se pela míngua de rugas e grisalhadas que não tinha idade para vinte cincos de abris. Dele sabiam o que ouviram dizer e dele estavam tão distantes como da batalha de Aljubarrota, porque tudo o que sucedeu antes de nascermos é pano de fundo, não é existência.

E foi essa a felicidade que me acometeu nessa noite: o 25 de Abril é de todos – juro que não haverá melhor maneira de celebrar o 25 de Abril senão a de tomá-lo como óbvio, como parte da natureza das coisas.

Quem tem nariz enxofrado, tudo cheira a enxofre


enlil,

O partido dos rancorosos em Portugal já tem demasiados sócios para que venha agora outro – eu… – acrescentar-se aos lamentos pelo estado da nação. “Eles deviam de…” é mais ou menos o mantra incessantemente murmurado pelos impotentes da indignação, pelos zangados da perpétua revolta e pelas carpideiras de um putativo passado glorioso, que aos desse tempo bem se disfarçava.

Adiante que se faz tarde, até porque quem desdenha o presente tende, por norma empírica mas ainda sem confirmação positiva, a contaminar tudo e o tempo todo, de modo que deita fora o bebé com a água do banho, deprimindo e desvalorizando a memória que deveria ser estimada. E é isto ao que venho: pôr ao vosso juízo uma questão que muito me intriga.

Falemos pois da literatura, um grémio tão cheio de comendas editoriais, críticos de barbicha e um ou outro de cachimbo, festivais autárquicos e um bom punhado de laureados, tanto os todavia em vida como os de corpo já feito em pó. É tão antigo como o comércio das putas que os sequazes da seita, os literatos, se entretenham em figadeiras de ódio e outros passatempos florais, todos muito brutos a avaliar o presente, a sobrevalorizar o passado e sempre a espreitarem de soslaio a cadeirinha da eternidade não vá a música acabar de repente. Tais cautelas porém, tendem a esticar para dentro doutros tempos os azedumes coetâneos, de tal modo que os renegados, renegados se mantêm, e os qualificados se reduzem a uma conformidade dantesca com as “narrativas” vigentes – como hão-de ter percebido, “dantesco” vem de Dantas e não de Dante.

Tome-se o exemplo de Joyce, aquele que secou as adegas todas de Dublin, Zurique e Trieste, e do seu “Ulisses”, jóia da prosa moderna, da literatura anglo-saxónica, das letras do século e do mundo. Uma obra sem luso-paralelo, dir-se-á. Pois diga-se mal. De índole e de fôlego semelhante, embora ao retardador, vejo pelo menos duas em português, uma de lá e outra de cá.

A de lá, é o reconhecidíssimo “Grande sertão: veredas” (1956) de João Guimarães Rosa, livro que não me fez mal nenhum para me pôr agora a escalpelizá-lo, nem precisa de elogios em blog para ascender às altitudes em que voga.

Mas a obra de cá, essa terá sido o obliteradíssimo “Dom Tanas e Barbatanas”, opus magnum de Tomaz de Figueiredo, com um cabedal de 388 páginas o primeiro tomo, “O Doutor Geral” (1962) e de 486 páginas o segundo, intitulado “O Magnífico e Sem Par” (1964).

Tomaz de Figueiredo é um nome escoado pelo ralo das modas, muito mais persistentes do que parecem, ou das “narrativas” (esta palavra que não me sai da cabeça…), por ter ele infelizmente advogado uma direita escabrosa, ultramontana e miguelista. Não obstante, odiava Salazar com fervor, por razões políticas (achava-o um frouxo), psicológicas (um sonso), sociais (um plebeu) e coimbrãs, onde terá eventualmente sido discípulo do velhaco de Santa Comba. Levante-se com pinças a camada de lepra ideológica, porque debaixo dela medra com vigor uma prosa e uma língua, um sarcasmo e uma alma dorida, que nem o despenhado Aquilino alcançou, muito menos outro qualquer da sua geração, ou doutras do século passado.

Quer dizer: Tomaz de Figueiredo que passou de raspão pela Presença, foi excomungado pelo Seara Nova e mal tolerado pelo Estado Novo, acabou por não ter onde cair, nem vivo nem morto, a não ser no purgatório do esquecimento. Se não for lido assim continuará, do mesmo modo que continuarão os queixumes pelas fomes da pátria, tanto mais ignorantes quanto mais ignorância presumem existir à volta da luz que julgam emanar.

Um chinelo no palácio


enlil,

Maurizio Cattelan

Takashi Myrakami

 

Nunca se chega tarde a uma exposição que ainda tem as portas abertas. Façamos, então, bicha para entrar no Palácio da Ajuda, a ver o que por lá fez Joana Vasconcelos (JV).

E o que ela faz parece desagradar em partes iguais a pólos contrários. Os mais recuados que ao fim de quase um século de transfiguração ainda vêem a arte como um gesto virtuoso e idealista (consumado na deliciosa expressão “isto até uma criança fazia”) e os “vanguardistas” que olham para a rutilância e a “facilidade” (é só aspas…) de JV, enfim o seu apelo não-crítico ou pseudo-crítico, de sobrolho franzido e dedo denunciador. Em ambos os casos, em vez de se ficarem pelo singelo e humilde gosto/não gosto, que é sempre a melhor e mais silenciosa maneira de fruir as coisas, os irascíveis despejam razões quase sempre pouco racionais e análises quase sempre repletas de meras opiniões judicativas, para exibirem o seu desapego, dir-se-ia desassossego, face ao trabalho de JV.

Para todos os efeitos, é um crédito mínimo de JV o de reconhecidamente integrar e ser um expoente de uma fileira de artistas contemporâneas que levaram à risca o conceito de uma arte “popular e de massas”. Desígnio que foi tão querido ao neo-realismo (com um lastro diametralmente oposto, convenhamos) e tão magistralmente executada por Andy Warhol, o mestre supremo da ambiguidade que até à morte deixou por decidir se era um génio ou um imbecil, de tal modo tudo nele resultava impenetrável – um “idiot savant”, em conclusão.

Longe vão os tempos em que André Breton cunhou com o nome de Salvador Dali o anagrama “avida dollars”, estigmatizando o seu comercialismo e a sua indiferença às grandes causas do século, num gesto se calhar ultrapassado e desmentido pelo tempo, mas que o establishment da crítica Benjaminiana ainda hoje teme reconsiderar. Indiretamente essa desforra será perpetrada pelos trabalhos de JV, de Damien Hirst, de Maurizio Cattelan (o “provocador gratuito” que respondeu à encomenda da Bolsa de Milão esculpindo um punho com o dedo do meio levantado) ou de Takashi Murakami, que fez com as suas figuras ao estilo “manga” uma linha de produção estética, capaz de curto-circuitar a ideia de raridade em arte.

Não deixa de ser assinalável que no curto período de um século Portugal tenha saído da sua histórica irrelevância artística (salvo as raríssimas excepções que confirmam a regra) com os nomes de Amadeo Souza Cardoso, Vieira da Silva, Paula Rego e agora JV, a única do lote que (ainda) não é estrangeirada.

Sigamos para bingo.

 

 

O tempora! Volta para trás, o mores!


enlil,

 

 

Mandar no tempo é uma dos modos mais afirmativos do exercício do poder.

Nas bolhas empresariais premeiam-se os vertiginosos e os incansáveis, aqueles que aceleram mais depressa que os outros e consequentemente capturam as melhores oportunidades. É célebre o CEO de uma companhia do PSI-20 que dispara sms como um órgão de Estaline até altas horas da madrugada, fazendo os seus executivos correr às voltas como hamsters na roda.

Astutos, os Meritíssimos Juízes do Tribunal Constitucional (MJTC), procedem de maneira precisamente contrária, de forma a atingirem os mesmos resultados. Com o fito de exercerem o seu predomínio sobre os assuntos terráqueos promovem uma noção de tempo semelhante ao dos glaciares: imponente, álgido e quase tão geológico como o deles.

Presumem-se assim os MJTC apartados das tribulações, das contingências e das conspurcações da vil matéria que são os negócios políticos. Havia necessidade de saber se o orçamento de Estado era harmonizável com a lei fundamental, antes de o submeter às bênçãos da troika? Pois que aguentem, que o tempo da nossa douta ponderação é imune à vossas rapidezes, ó míseros mortais – terão murmurado os corvídeos magistrados, quiçá contemplando as intricadas e demoradas linhas do Batarda que lhes serve de amparo quando têm que se sujeitar ao mundo.

Irão agora os governantes cá do burgo volver, de boné na mão, às altas esferas do capital, que tão relutantemente nos creditam, para lhes transmitir: “afinal aquilo que acordámos já não é bem assim…”? Estarão agora as oposições proclamando que chegou a sua hora mas também ainda não, que nesse imbróglio é que não as apanham? Mas que berraria será esta, indagar-se-ão os supinos MJTC, incomodados na sua preclara sonolência.

Seremos a chacota das instituições civilizadas? Uns velhacos sem palavra, em que não se pode confiar nem um asno? Uma piolheira que só merece pão e água? Que importância tem isso a quem placidamente voga no éter da jurisprudência metafísica?

Proponha-se então, verificando-se os MJTC de tal modo desprendidos das paixões carnais, que pelos seus árduos trabalhos sejam remunerados não em abjecto metal, mas em filtros de ambrósia e néctares mercuriais. Para nós seria mais uma poupançazita, para eles decerto um alimento essencial.  

Blogue da semana


enlil,

Ao passo que por cá politólogos e comentadores (uma infestante autóctone) competem vivazmente por minutos televisivos em que possam derramar as sua opiniões, palpites e profecias, distinguindo-se uns dos outros somente pelo grau de azedume e pelo nível de pesporrência, noutras longitudes, parece incrível, prevalece a análise em vez da diletância e a feroz competição pelo “acesso” mede-se pela qualidade com que se extrai inteligência do “big data”.

(O conceito e os efeitos do “big data” são, aliás, a discussão do momento nas “ciências políticas” [o que quer que isto queira dizer] desde que um punhado de carolas alavancou Obama até à Casa Branca à força de algoritmos).

The Monkey Cage é amiúde reputado como um dos blogues mais interessantes sobre política e política americana. O nome é um mimo que decorre da célebre frase de H. L. Menken: “a democracia é a arte de administrar o circo a partir da jaula dos macacos”; posto que o blogue tem como objectivo concatenar análises quantitativas e complexas com a espuma dos dias. Às vezes resulta outras não, mas The Monkey Cage é quase sempre muito pouco excitante, nunca tremendista, o que em linguagem lusa designar-se-á como “chato”, ou seja, incapaz de ser convertido em perguntas espertas pelo pivot de turno. Para quem gosta do tema é conduto, para quem só lhe toca-e-foge, será uma perda de tempo.

Como sempre foi


enlil,

Karl Theodore acumulava títulos, tanto como nos seus celeiros se amontoava o trigo, oiro da terra. Kurfürst Karl Theodor von der Pfalz e Kurfürst von Bayern, o que trocado por miúdos leigos e lusos dir-se-á Duque da Baviera e Grande Eleitor do Palatinado do Reno – um dos mais notáveis Príncipes-Eleitores do Sacro Império Romano.

De tanto potencial e poder resultou uma figura por demais dada às artes – patrono das de palco, das ornamentais e das filosóficas, famoso amigo de Voltaire – e a essoutras artes da caça, tanto da grossa do bosque como da fina e feminil de salão. Descreviam-no portanto como um diletante, sem vontade política, preguiçoso e egoísta, rodeado de bastardos, tão prolíficos que deles nem tinha vagar para decorar os nomes.

Em 1763 a pintora Anna Dorothea Therbusch, píncaro do Rococó germânico, e que esplêndido de volutas e panejamentos ele foi, talvez sem igual, fixou a imortalidade de Karl Theodore a óleo, preservado hoje no museu de Mannheim.

Vem este portento a propósito de uma comparação. 13 anos antes o preciso Thomas Gainsborough havia retratato Mr. and Mrs. Andrews. O casal encosta-se a um canto da tela para que a maior área pictórica registe a extensão dos seus domínios. O Cavalheiro confirma o seu poderio com espingarda e cão, símbolos do ócio senhorial, e para que não restassem dúvidas, encosta-se sobranceiramente com displicência e de perna traçada, ao cadeirão onde posa a sua hirta Senhora.

 

 Robert Andrews era parte da gentry rural inglesa, o que não coibiu seu pai de ter ampliado a fortuna com generosos juros de empréstimos financeiros e no comércio com as colónias, para o qual dispunha de uma frota naval. Em 1748 Robert desposou Frances Mary Carter que trouxe no dote as propriedades de Aubrey, à frente das quais ambos posam. O pai de Frances, também ele era um industrial têxtil que prudentemente converteria o capital em terras.

Duas Europas em contraste tão exposto que o podemos ver explicado em dois quadros. Uma Europa até hoje pouco alterada desde esta segunda metade do séc. XVIII, no dealbar do Iluminismo e das Revoluções .

E Portugal?

Portugal na mesma, como se pode atestar no pobríssimo retrato de D. Lourenço de Lencastre, Marquês de Minas e Conde do Prado pelo casamento, muita grandeza porém muito paroquial, oiros brasileiros mas benzeduras de vilão. Obra do sofrível Vieira Lusitano, a mão direita de Lourenço será igual à de Karl, a fazer um gesto que sublinha o óbvio poderio, mas na esquerda, em vez da arma de fogo em descanso blasée de Andrews, olhem-na toda pimpona de canos para o ar. Ao peito, nem os arminhos teutónicos ou a casaca mercantil do inglês; ao baú dos avoengos há-de ter ido vasculhar a armadura negra de pretéritos heroísmos, reclamados como seus por mera infusão sanguínea.

Já éramos tão poucochinhos naqueles dias.  

O que é uma mesa?


enlil,

Interview(s), de Heman Chong, com Anthony Marcellini, 20120-2013

I.

Bertrand Russell escreveu em 1912 um livrinho de 128 páginas intitulado “Os Problemas da Filosofia”, que começa com esta singela pergunta: “haverá algum conhecimento no mundo tão seguro [certain] que nenhum homem razoável possa duvidar dele?” Para demonstrar a sua questão Russell usa o exemplo de uma mesa – conseguimos definir cabalmente o que é uma mesa? Se o leitor estiver com boa disposição e de boa fé, há-de atingir o mesmo desfecho intrigante que Russell: “perhaps there is no table at all”, depois de ter passado por uma fase em que concluía que: “a verdadeira mesa, se é que ela existe, não é imediatamente conhecida por nós.”

O ponto não é negar a presença material da mesa, mas é impedir que incorramos no erro de acreditarmos que conhecemos o que é uma mesa, ou seja, que possuímos um conceito universal e indubitável de mesa. Donde a conclusão: o melhor é continuar a fazer perguntas em vez de acharmos que atingimos as respostas.

Este modesto jogo filosófico de Russell não só teve o condão de desbancar vinte e dois séculos de platonismo, como permanece dramaticamente actual, sobretudo por ser muito esquecido.

Ainda a semana passada tivemos dois exemplos fulminantes da sua oportunidade.

II.

Entre segunda e quarta-feira, 115 anciãos fecharam-se à chave na Capela Sistina para que dentre eles saísse um Papa. Como se sabe, os cardeais não só estiveram incomunicáveis, como iam votando “às cegas”, isto é, sem discutirem os votos, na presunção de que o Espírito Santo os iluminaria e que o sentido do sufrágio iria emergir por si mesmo, da acumulação de escrutínios. Tal método soberanamente “irracional” e secreto não obstou a que cá fora centenas de jornalistas, cada um mais credível e sério do que o outro, se entregassem com entusiasmo a um bizarro exercício especulativo, antevendo o resultado do conclave. O que sabiam eles sobre o que passava debaixo dos frescos de Miguel Ângelo? Nada, ou seja, tanto como nós que estávamos em casa entretidos a ouvi-los. Compelidos a encherem de palavras e sobretudo de palpites o tempo que decorria, de modo a justificarem as caríssimas ligações de satélite e as não menos caras deslocações a Roma, a nenhum deles falhou a cara de pau e a sincera convicção dos ilusionistas.

III.

Outros saberão explicar técnica e politicamente, com habilidade e suficiência, o que foi feito às contas bancárias dos cidadãos cipriotas, tão banais e minúsculos como qualquer um de nós. Mas debaixo da pilha de factos financeiros, económicos e sociais que geraram tal decisão e dos escombros que ela está a deixar, uma e só uma coisa se revela a um observador ignorante: ninguém sabe o que está a fazer, porque ninguém ainda percebeu qual é o problema. Os melhores cérebros, entre os milhares que se dedicam à “ciência” financeira e económica, quilómetros de páginas com teses, teorias e estudos, perfeitíssimos cálculos, inquestionáveis boas intenções, argutíssimas mentes analíticas e… erros, sobre erros, sobre erros.

IV.

Enquanto perguntarmos desta maneira, nunca saberemos o que é uma mesa. Entretanto vamos usando-a todos os dias.

Terríveis de tão azuis que são


enlil,

 

Contrariando a prédica do Padre Américo, todos os rapazes bons um dia poderão ser maus.

Quem na manhã de 22 de Junho de 1951 olhasse para o portão da MGM poderia assistir a uma estranha cena. Louis B. (nunca se soube o que era este “B”) Mayer, o Júpiter de Hollywood, ali estava de pé, na beira do passeio, à espera de um táxi. Ao tentar entrar nos estúdios, foi informado pelo porteiro que estava interdito e que a MGM queria o automóvel mais o motorista de volta; este e os outros cinco Chryslers guardados lá em casa. Desta maneira infame acabava um reinado de 27 anos de glória e fortuna máximas. À frente daquela que fora a fábrica de filmes mais luxuosa e popular do cinema americano, estava agora o introspetivo Dore Schary. Mudanças iam ser feitas.

Como bom produtor moderno, Schary queria o dois em um: modernizar e poupar. Calha que estes dois propósitos são muito amigos, visto que tanto no cinema como na vida o realismo é bem mais económico do que a fantasia, mesmo quando sendo, na maior parte das vezes, menos útil à sociedade.

Por essa altura, nos franzinos Universal Studios James Stewart debitava uma corda de westerns verdadeiramente interessantes em parceira com Anthony Mann, um realizador capaz porém perfunctório, como eram todos os que não pertenciam ao pequeno punhado que ostentava the name above the title. Para provar o seu ponto Schary pediu-os emprestados só por um filme: Naked Spur.

Naked Spur (1953) é uma peça bizarra da filmografia da MGM se o pusermos entre Singin’ in the Rain (1952) e The Band Wagon (1953), ambos musicais extraordinariamente à antiga, como se neles se cantasse “ó tempo volta para trás…” Todavia, Naked Spur fará sentido se alinhado com The Asphalt Jungle (1950) o taciturno filme (literalmente) negro de John Huston e com The Bad and the Beautiful (1953) de Minnelli, um melodrama em que Hollywood se desmascara a si próprio.

O programa de Naked Spur consiste em retirar o western das catacumbas bíblicas de John Ford e sobre aquela paisagem fronteiriça, onde as conversas decorriam aos tiros, contar histórias sem heróis nem vilões, mas protagonizados por personagens tão confundidas pela vida quanto os seres humanos. Homens com “psicologia” como era dito na gíria da época.

A surpresa de Naked Spur seriam os olhos azuis de James Stewart, o bom do Stewart, agora já não do azul transparente e franco dos puros como sempre os havíamos visto, mas de um lápis lazúli carregado de frieza, remorso e rancor.

Estes olhos encontram réplica perfeita em Janet Leigh, detentora dos mais belos cabelos curtos de Hollywood. Ela ganharia aqui o carisma singular e inquietante que viria ser tão bem explorado por Orson Welles em The Touch of Evil e Hitchcock em Psycho. A sua presença passiva-agressiva (estudara psicologia antes de cair na vida de actriz) com uma tensão sexual ao mesmo tempo reprimida e à flor da pele (os avós maternos eram de origem dinamarquesa), são o combustível para a obstinação crescente e crescentemente desvairada de Stewart.

O filme não termina como deve ser, ou seja com a redenção, mas com um acomodamento: depois de todas as restantes personagens devidamente mortas e os corpos arrastados pela versão colorada do Estige abaixo, Stewart e Leigh abandonam o Oeste e partem para a Califórnia, com a esperança de que o passado não os persiga.

Mas será que os olhos de James Sewart continuarão a ser azuis de maus?

Uma vida inteira


enlil,

Parar, chegar ao fim. Onde é que isso fica, o fim?

Etiano: cedo de mais, se quiseres saber a minha opinião.

A foto acima já não a posso publicar com a autorização do Etiano porque ele decidiu morrer este fim de semana.

Ali está, em rapazinho, o homem que conheci nos primeiros anos deste século, já de cabelos brancos. O que esta foto tem de especial é que resume num instantâneo, tudo, mas tudo, o que foi Angola para quem nasceu nela portuguesa. Se lerem a auto-biografia concisa e certeira que o Etiano nos legou, talvez concordem que é uma imagem absoluta.

Obrigado Etiano Branco.

Homem lobo do homem


enlil,

Yang Zhengzhong, “Família feliz”, 1995

 

Uma das novidades que poderemos considerar filosóficas do novo século é a nascente ordem natural que se começou formar nalgum senso comum.

Durante milénios havia uma linha na natureza que separava o animal racional (ou espiritual) do animal irracional ou instintivo. O ponto desta separação seria a Consciência – de si, do seu estatuto, da sua diferença e distinção face à Natureza. Nem valerá a pena dilucidar aqui esta coisa da “consciência” dada a abundância de tratados que versam sobre o tema só nos últimos 4.000 anos.

Esta fronteira está ser criticada e tem vindo a ser removida para outra região. Segundo os adeptos das teorias de Peter Singer (não resisto ao mau gosto de chamar a atenção para as suas dissertações sobre o infanticídio), satélites e discípulos, o “especismo” é um erro, ou seja, a discriminação entre animais segundo uma hierarquia de espécies não deve ocorrer porque, na sua particular interpretação darwiniana, se todos os organismos físicos estão num continuum natural, então também deve haver um continuum ético entre eles.

Deste modo a fronteira deve ser traçada entre, por uma parte, os animais “sencientes”, aqueles que estão biologicamente aptos a experimentar prazer e dor e os restantes, noutra parte. Na prática isto significa que entre ti, leitor, e o teu gato há uma identidade que não existe entre o teu gato e o carapau que ambos comeram ao almoço. A nivelação entre animais sencientes, tomados como um todo, procede de uma clara opção filosófica em que se dá primazia à esfera da ética sobre todos os outros campos do saber.

E é aqui que a porca (com o devido respeito) torce o rabo, porque se confunde a dor, que é um sistema de alarme fisiológico proporcionado pelo sistema nervoso, com “crueldade” que é o acto de provocar dor intencionalmente. “Intencionalmente” é de facto a palavra-chave: quando o leão ferra as suas mandíbulas no esófago e na carótida do búfalo, matando-o muito devagar por asfixia e exaustão, estará a ser cruel? Presumo que não, por uma simples razão: ele não é racional, logo não delibera em termos éticos, logo sabe o que é a dor mas ignora o que é a crueldade.

Usando outro caso concreto:

O Zico não teve culpa do seu acto, pelo que não deve ser abatido, reclamam os defensores de uma amnistia para o cão que atacou uma criança. Este argumento é fatal precisamente para quem o profere. Se o conceito de culpa não é imputável a um cão, quer dizer que a ética humana não cobre essa situação que entre os humanos seria clara. Ou seja, não há um continuum ético. Mais: se querem dar uma “segunda oportunidade” ao cão, que não a reivindicou (julgo) e não a reconhecerá (presumo que a um cão será estranho o conceito de mortalidade), o que estão a fazer é do mais radical etnocentrismo, pois pretendem impor os ditames éticos intrínsecos a uma espécie sobre outra.

Seria mais sensato exigirem que o cão fosse julgado por um coletivo de juízes constituído por um homem, uma vaca e um panda; pelo menos assim combater-se-ia coerentemente o especismo entre animais sencientes.

A vida que não mudou


enlil,

 

A dada altura de “Mudar de Vida” de Paulo Rocha, eis a figura compostíssima da Dra. Maria Barroso descalça, com um molho de lenha à cabeça, sofismada pela boca a fazer biquinho por via da boa dicção aprendida na escola do Teatro Nacional de Amélia Rey Colaço.

Esta imagem poderá resumir todos os equívocos do Cinema Novo português.

Também Portugal, nos anos 50, teve o seu cinéma de papa, só que em vez de ser enfatuado e burguês como o da França modelar, era enfatuado e neo-realista como a Seara Nova. A isto queriam os moços formados no IDHEC obstar com desassossego cinéfilo, e desembraçarem-se do naturalismo a favor do realismo, da pompa cultural em benefício do ar da rua, das peripécias do enredo pelo rigor subjectivo dos factos (uma frase que só é paradoxal para quem não viu “À Bout de Souffle”).

A história é de quem a vence e tão retumbante foi a vitória do Cinema Novo que ainda hoje, passado meio século, o cinema português vai-se fazendo e pensando em torno do seu eixo programático. Ficou assim para o cânone que “Belarmino” (1964) de Fernando Lopes e “Os Verdes Anos” (1963) de Paulo Rocha, constituem pedras basilares e inamovíveis da cinematografia nacional. Mas se o primeiro parece ainda hoje perfeito e consonante com o que dele se pedia, já em “Os Verdes Anos”, se o conseguirmos ver sem a gravidade sacerdotal em que o velaram, há ali qualquer coisa que não bate certo – o quê?

O que é, revela-se então em “Mudar de Vida” (1966) e mais cabalmente na cena acima referida. Não é a inverosimilhança, porque em cinema isso é um dom e não um pecado, mas é a impressão de uma realidade não experimentada, abstracta e consumada como um arquétipo, em suma: desvitalizada. Fica-lhe um mérito nada pequeno, que ter a mais bela banda sonora de sempre feita em Portugal, dedilhada por Carlos Paredes.

Os melhores filmes de 2012 – parte 3


enlil,

“O povo português revelou-se o melhor activo de Portugal”

Qualquer médico que vá à televisão predispõe-se a dizer coisas como “foi diagnosticada no paciente uma patologia de índole cutânea” só para complicar a frase “o doente tinha comichão”. Quando ele assim fala não é a nós leigos e abstractos que se dirige mas aos seus colegas de serviço que não o levariam a sério se se exprimisse doutro modo. Um dia numa viagem com um emérito gestor ele propôs que “consolidássemos as malas num dos quartos” antes de fazer check out no hotel. Pobre prisioneiro do seu linguajar, que já dele não se libertava mesmo em situações profanas.

A máxima em epígrafe, proferida com o crispado e possível enlevo, como o maior elogio ao seu alcance, é toda uma autópsia da mentalidade reduzidíssima do sr. Vítor Gaspar. Adeus ó personalismo cristão, sus ao humanismo existencialista, arreda-te ó cidadania iluminista; pela voz do Ministro passámos a existir meramente na coluna dos activos na folha de excel, como mais uma variável no cálculo.

 

Os melhores filmes de 2012 – parte 2


enlil,

Com a notória excepção das comédias românticas, e por vezes nem essas escapam, impressiona o facto de todos os filmes americanos serem sempre tão marcadamente políticos. Nem é preciso referir os casos evidentes dos dramas jurídicos, ou militares, ou detectivescos, ou policiais – o comentário institucional faz parte do DNA do cinema americano.

Ainda assim, atrevo-me a votar em “Being there” (“Benvindo mr. Chance” em português) como o melhor, e de certeza o mais premonitório, filme político de sempre. Peter Sellers interpreta supinamente o jardineiro de mente simples como uma criança, que nas voltas do enredo acaba consagrado como um formidável comentador político. Ao dizer na televisão coisas tão profundas como “First comes spring and summer, but then we have fall and winter.”, levanta um vendaval de análises, porque ninguém deixa de ver profundas alegorias no que ele profere literalmente.

Até este Dezembro de 2012 nunca entendi por que razão o realizador Hal Ashby arruína o filme com o plano final em que Chance caminha sobre as águas. Mas ao ver a prodigiosa esparrela do sr. Artur Baptista da Silva fez-se-me luz: o cineasta queria salvaguardar com aquele plano o carácter ficcional da sua obra, não fosse a realidade superar o resto.

Os melhores filmes de 2012 – parte 1


enlil,

 

A cerviz dobrada, o olhar abaixado, a pose mendicante, foi deste modo que o crespo meridional se dirigiu ao seu equivalente alemão a pedir-lhe pela mercê de deus. O germano tem rugas na testa como se tivesse sido abordado por um pedinte famélico à entrada de um restaurante de luxo. Nem se levanta nem olha de frente – enfadado.

O nosso murmura “that’s much appreciated” querendo dizer “obrigado” em idioma técnico.

Isto é o que se vê, mas na verdade trata-se de uma emboscada.

O manhoso do tuga foi lá pedir batatinhas, na crença de que o otário se descairia. Este, habituado ao escrúpulo dos media alemães, e julgando, como é próprio deles, que todo o mundo se pauta pelas suas regras, murmurou umas vacuidades para despachar o inconveniente, ignorando que estava uma câmara a compromete-lo.

Ficaremos sempre por saber o grau de ressentimento e de má vontade que desta cena em diante terá havido da parte de Wolfgang Shauble nos assuntos referentes a Portugal.

Há lá melhor exemplo de como nos dispomos a sermos vistos no mundo.