A tia da linha


enlil,

Catherine of Austria (1507–1578), Queen of Portugal

Alfonso Sánchez Coello, “Catarina de Áustria, Rainha de Portugal”, circa 1550

 

As “tias da linha” são uma estirpe urbana, de classe média-alta (tipo A/B) com habitat preferencial na região de Lisboa. Na sua grande maioria são do género feminino, mas foram detectados fenótipos desta índole noutros sexos.

A estirpe manifesta-se ao correr de três sintomas, a saber: uma segurança absoluta nas suas opiniões, concorrente com uma grande superficialidade fenomenológica dessas mesmas opiniões e uma arrogância social tanto mais acentuada quanto mais distante da vida comum. Dado o carácter um pouco evanescente da sua caracterização, as “tias da linha” são muito copiadas e falsificadas, pelo que a autenticidade só pode ser apurada mediante um processo científica denominado “interrogatório”. É no acumular de dislates, petulâncias, trejeitos classistas, mas sobretudo por um tom de voz despachadíssimo, altissonante e peremptório, que os peritos confirmam a legitimidade de um indivíduo como integrante na estirpe.

As “tias da linha” podem irromper de súbito e assumindo formas inesperadas, às vezes em aparente contradição com o que delas é expectável. Um caso muito discutido recentemente tem sido o da Doutora (por extenso) Raquel Varela (DRV). Alguns estudiosos ficaram surpreendidos por DRV perfilhar um dos alelos da célula trotskista, o que deveria situá-la mais ou menos do lado esquerdo do espectro político. Para esses especialistas, semelhante ideologia, ao manifestar-se no seio de uma grelha comportamental, mental e emocional, tipicamente de “tia da linha” faria de DRV uma impostora. Outros estudiosos, porém, não cessam de apelar à abertura de espírito, declarando que DRV em tudo se conforma ao estereótipo da “tia da linha” e não será por um pormenor de somenos que o deixa de ser. Senão veja-se:

1. A pose altiva de grande senhora gentrificada, equidistante em partes iguais da modéstia plebeia, da contenção dos nobres de espírito e da sincera curiosidade científica (baseada na dúvida). Pose essa ornamentada por todos os tiques de indumentária e estilo de vida distintivos da classe média-alta (automóvel de boa marca, casa com quintal, echarpes evanescentes ou o little black dress de Chanel; dados que DRV exibe e refere nalguns dos seus panfletos).

2. Uma irresistível tendência opinativa, estribada em rasos lugares comuns expelidos como verdades insofismáveis. Opiniões, acresce, reveladoras de uma relação com a realidade equívoca e disfuncional, própria dos alienados sociais.

3. Um falar em público taxativo, impiedoso, e de supina soberba, tanto mais acentuado quanto mais lunática é a opinião expressa.

Até este momento ainda não é cabal o esclarecimento se a Doutora (por extenso) Raquel Varela é uma fraude ou simplesmente néscia, mas a investigação prossegue.

35 comentários em “A tia da linha”

  1. É por causa de textos destes que eu cada vez mais me convenço da superioridade de se chamar José.

    Nota: O comentário é uma pequenina vingança por me ter feito espirrar o café pelo nariz com um ataque de riso enquanto o estava a ler.

  2. Por acaso, ontem passei os olhos pelos Prós, vi e gostei dos Contras:
    – Raquel Varela, a dita d’ra, já!
    O Comité Central precisa de renovação.

    Lamento, meu caro, mas não encontro justificativa para o seu ponto 2. Apresentou-o como “uma rasa ofensa comum expelida como verdade insofismável”.

    Aliás, como sabe, é coisa de tiozinho perder-se nas formas e não sentir os conteúdos.
    Ora, sobre a forma, deveria retractar-se do seu retrato… caramba:
    – Uma Mãe de Bragança, que nos vendeu a “nuestros hermanos” em troca do aumento do seu ducado?…

    Com castas traiçoeiras dessas, vivam as puuuuras!

  3. Papagueando o que já toda a gente sabe,enchendo todo o espaço mediático com os Sóis que brilharão para todos nós,manifestos,democracias intensivas,verdadeiros democratas mais os verdadeiros patriotas,etc,etc,essa gente não é capaz de criar um posto de trabalho,uma pequena empresa,matar a fome a alguém que não seja a eles próprios e enquanto ainda houver impostos que os sustentem…

    1. Hmmm… por coerência, deveria andar nua?
      Não está mal visto.
      Mas a ideia fica parva quando aplicada a camafeus…

    1. Não confundir “tia da linha” de Bragança (a avó do Sebastião),
      com tia da “linha de superfície” de Caiscais.

      O único ponto em comum será o grande desembarque dessa tropa invasora em Cascais, iniciada com o Duque de Alba.

  4. As características que aponta às “tias da linha” são uma simplificação de um tipo mais complexo que encontra tratado em Proust: as senhoras de famílias históricas; Portugal não é a França, mas algumas, na “linha”, têm avós degoladas ou parentes francesas guilhotinadas, que no cadafalso – onde vão expiar crimes que não cometeram – mantiveram a elegância de toda a vida – um preço que conhecem bem e com conhecimento de causa, aceitam.
    Ora, a Varela não pertence a este mundo, nem tem nada a ver com ele. Exibe uma ignorância tão esplendorosa (e tão habituada à impunidade!) que a máquina de controlo de danos já está em acção. É a solidariedade republicana socialista e laica – aquela em nome da qual se manda mandar matar, de quando em vez, umas tias da linha, ou os seus filhos.
    Da “linha”, a Varela? Só se estiver a pensar em Oeiras.

    1. Mas que tese tão polémica, meu caro! Pois a mim me parece que “tias da linha” serão mais de linhagem fidalga do que nobre, i.e., descendentes, à maior, dos condes e barões do rotativismo. Mas a “mentalidade” que nelas predomina replica os tiques que lhes parecem de classe alta simplesmente burguesa, o que em Porotugal costuma significar que tentam passar por nobres (ou fidalgas). Isto agora dava um seminário… lol

  5. Vou ser o mais honesto possível, quando comecei a ler o seu brilhante post, pensei que se referia a algumas das suas colegas de blogue, isto sem qualquer tipo de crítica ou elogio às mesmas, só transmito a sensação que tive, mesmo que não interesse a ninguém, mas retrata algumas na perfeição, o que não é forçosamente negativo.
    Já agora, um aviso aos comentadores informadíssimos que baseiam as suas teses em vídeos de 5 minutos do Youtube, Raquel Varela não é nem nunca foi comunista.

    1. Se não é, parece. Que outra coisa se pode dizer de alguém que acha que “é preciso defender a revolução contra o perigo da democracia”? Ou que a fome é produto do capitalismo?
      Só se for fascista, que é a outra face da mesma moeda.

    2. Tem razão, não é comunista no sentido que o Partido atribiu à palavra, a partir das teses organizacionais de Lenine definidoras do Partido como a vanguarada da classe operária. Logo, quem não é do Partido (ou não o apoia) não é comunista. Pelo que entendi DRV é marxista-leninista-trotskista, o que para os gentios é igual a ser comunista.

      1. Sim, tem razão que eu me referia mais a não ser do PCP ou sua apoiante. Concedo que ela seja da Esquerda Caviar.

  6. Boa tarde,

    O seu post está em destaque na área de Opinião da homepage do SAPO.

    Atenciosamente,

    Catarina Osório
    Gestão de Conteúdos e Redes Sociais – portal SAPO

  7. Patrício, já me arrancaste uma gargalhada. Espero que a investigação se debruce sobre a existência ou não de avós degoladas (como lembra e muito bem o nosso comentador fgh), prova cabal da autenticidade ou falsificação da estirpe. Sem espalhafato de sangue no pedigree, a doutora não tem hipótese de ser aceite na coutada.

  8. Na volta até me “identifico” com os comentários do Sr. José Navarro (à parte da superficialidade, soberba, carácter evanescente, arrogância e alienação social: não tenho culpa de o povo ter “fracas vistas”) mas pelos motivos inversos, ter 30 anos e apenas o ensino secundário concluído 😛 😛 😛

  9. Sr. José Navarro, escreve muito bem português. Pode-me dar umas lições para a minha ignorância, falta de soberba, alienação social, realidade equívoca e disfuncional, etc, etc, etc. Voçê deve ser uma máxima autoridade ética, jurídica e moral. Give me your best 😉

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