E, de súbito, o reencontro com a excelente escrita de um autor – um dos meus eleitos, um dos meus de sempre. Vergílio Ferreira. Livro: Pensar (Quetzal, 2013).
Abro-o na página 40 e leio:
«Há cinquenta anos. Há meio século. É já tempo bastante para a História se mover. E todavia não é bastante para se mover em nós um sinal profundo de vida. Um encontro, um elogio, um vexame. Tudo tão pouco. E tanto. Uma fotografia inesperada de alguém que amámos e morreu e desapareceu no montão de coisas que foram e nos aconteceram. E de súbito uma absurda irrealidade começa a existir numa pancada funda na alma. E um encantamento sem significação. E uma melancolia grave como um horizonte longínquo. E um choro para dentro, estúpido e terno.»

Nem sei como se atreveu a falar aqui desse chatérrimo.Ainda é pior que o Camilo,o Camões.Assim desacredita-se e eu também que vou relendo algumas obras,Signo Sinal,Até ao Fim,Em Nome da Terra,Na tua Face,Invocação ao meu Corpo,algumas páginas da Conta Corrente.Numa trama de revolução e catástrofe,numa vida jovem que acabou,num lar,na degradação de um corpo,na emoção estética,emergem sempre interrogações fundamentais que enfastiam e muito quem já nem sabe que a coisa vem da antiga Grécia.Para os “dados imediatos da comunicação” Vergílio Ferreira nada significa a não ser uma grande chatice.Eu se fosse a si apagava o postal(e o meu comentário).
Nem vou mais longe. Considerar alguém “ainda pior que o Camilo e o Camões” basta para desacreditar quem emite tal parecer. O Vergílio Ferreira, lá onde está, não se importa minimamente com tal juízo.
Agora não se importará mas na Conta-Corrente deu notícias da censura de um Saraiva volúvel,das ameaças de porrada de um Bau-Bau porque não seguia o neo-realismo,de comentários rascas de um Antunes,etc.
“Pior que o Camilo e o Camões”é de agora.Como se vê o alto nível da crítica permanece.
Vou reler “Uma esplanada sobre o mar”.
Um dos nossos eleitos, com licença! Para mais o Pensar! Um conselho se me permites: não tenhas pressa em lê-lo e muito menos em acabá-lo.
Pois não, Fernando. Pressa nenhuma. Dá gosto saborear uma prosa assim, um pensamento assim.
Quem gosta muito desse é a patroa que me dá abrigo. Eu não consigo. É muito efeminado para o meu gosto.
isso mesmo,quem não pranta a tomatada logo na abertura e não fecha com pitas do tamanho do túnel do rossio não é macho capaz de escrever paredes de WC quanto mais livros.Há uns bons anos o Arnaldo Saraiva fez uma recolha chamada O Guardador de Retretes.É a bitola para se escolher um autor.
É talvez o meu autor preferido em língua portuguesa. Não me conformo que tenho sido retirado dos programas de português 🙁
Um disparate, essa supressão dos programas. VF é autor de dois ou três dos melhores romances portugueses do século XX. Hei-de falar de um deles muito em breve aqui, Isabel.
E a propósito(na Conta-Corrente),ele mesmo sugeriu para leitura escolar os contos:A Galinha,O Espirro.Prevendo o que viria arriscou coisas mais leves.Ainda há a cadeira de Filosofia no Secundário?
Volto lá com frequência.Sena,noutro campo,também não desmerece.Os Grão-Capitães,Andanças do Demónio,a Poesia especialmente As Metamorfoses e A Arte de Música,e os prefácios e postfácios de estarrecer “a cabronada lusa”.E a este respeito de Sena “só se respeitar a si-próprio”sublinhe-se que na antologia de poesia Líricas Portuguesas editada pela Portugália é Sena quem mais poetas seleccionou(dois volumes espessos).
O azar de Sena e Vergílio Ferreira foi não seguirem a “linha geral”do partido,quem este definia como “o verdadeiro artista”.