Pensava eu que o Euclides tinha oferecido umas sardinhas ao senhor Sequeira, mas afinal foi o contrário: o dono da casa encarregou-se das batatas, do vinho e da mesa, o cliente trouxe o petisco. Nem um nem outro mastigam – o Euclides porque tem sempre muito apetite, o senhor Sequeira porque, enfim, “já não pode”, diz um grande bigode que lê o jornal noutra mesa. O brincalhão quer aproveitar a entrada da mulher do senhor Sequeira para se meter um pouco mais com o vizinho, mas a Dona Zulmira faz-lhe que se cale palerma com um gesto largo e ralha com o marido por ter posto o pão em cima das batatas – “As outras pessoas”, entenda-se o Euclides, “ainda podem querer comer”.
No dia em que decorarmos as paredes da tasquinha com as fotos dos clientes habituais, o senhor Sequeira terá lugar de honra: até já lhe tirei um retrato à Presidente da República. Isto mesmo não sendo ele grande cliente, nunca o vi beber sequer um copo de água. Calha bem que o Café Africano não tenha consumo obrigatório. Aproveito que está toda a gente descontraída e ofereço-me para tirar um retrato ao senhor Sequeira. Ao pé dos matraquilhos, talvez, que ele adora futebol e eu às vezes tento que o meu trabalho seja assim um bocadinho mais criativo. Faço quatro ou cinco instantâneos praticamente iguais, com o motor, porque há pouca luz e um deles sempre há-de sair mais definido. Digo “com o motor” porque dá ares de fotógrafo de antigamente, mas agora é tudo electrónico. De rajada, vá. O meu modelo, habitualmente tão acanhado, dá palmadinhas nas cabeças dos bonecos: vê-se na cara dele que está a divertir-se. Mostro-lhe no écran da câmara a melhor fotografia da série e digo-lhe que deixarei uma impressão com o Euclides. Ele tem um sobressalto. Acho que até hoje eu nunca tinha ouvido a sua voz, porque não a reconheço quando me pergunta, a medo, “Tenho de pagar alguma coisa…?”


Bandeira, Bandeira, que andavas tão caladinho 🙂
Andava… quando se come, não se fala.
😉
Belas fotos, belos momentos, belas recordações.
E que os futuros se perpetuem nas paredes do “Africano”.
🙂 logo eu, Bartolomeu, que sou de uma frugalidade beneditina (quanto à perpetuação dos indígenas nas paredes, não estou confiante, que tudo aquilo tem o destino traçado – mas eu tentarei que se perpetue de outras formas)
Ainda hádem pedir que me cale, Laura, vais ver (comentário escrito ao abrigo do meu acordo ortográfico)