O exemplar de hoje do Expresso gratifica-nos com uma conversa protagonizada pela magistral Clara Ferreira Alves que por uma vez, excepcional e extraordinariamente, se coíbe de tratar o entrevistado tu cá tu lá com’ós caldeireiros. Do outro lado da mesa assentou João Ferreira do Amaral (JFA), mais um prócere da economia, uma ciência cujas benesses e maravilhas temos vindo a experimentar e sobre a qual uns certos espíritos contumazes ultrajam ser mais aparentada com os princípios da alquimia do que com as exactas chatezas newtonianas.
JFA não hesita em desqualificar o actual rumo das finanças públicas: “O grande erro desta política foi exagerar na austeridade. É possível aplicar uma política com menos austeridade e melhores resultados orçamentais.”
A receita para tão suave milagre anda JFA a bradá-la há anos neste deserto: sair do €. Limpo, cirúrgico e indolor, ou pelo menos sem austeridade exageradas como a que hoje penamos – certo?
Vai daí e Clara, senhora de grande astúcia, pergunta pelas consequências de tão elegante e airosa magicação segregada pelo auspicioso cérbero de JFA:
“Como seria pagar a dívida externa nesse cenário de saída ordeira?
Seria o cenário argentino. Teríamos dois anos infernais e depois resolvia-se. O pior seriam os dois anos, do ponto de vista democrático. A violência, a bandidagem… a dívida externa, a pública só me preocupa na media em que é externa, é brutal.”
Persiste Clara:
“Mas as prestações sociais teriam sempre de aumentar, o que aumenta o risco de hiperinflação.
E aí, o que me preocupa mais são os medicamentos, que são quase todos importados. Teria de ser feito um programa especial para isso. A despesa também não seria por aí além.”
Ou ainda:
“As pessoas fazem perguntas concretas sobre a vida delas. Se tiverem uma dívida ao banco de uma casa, como é que essa dívida vai ser paga? Em euros? Em escudos?
Acho que o Estado se deve substituir ao devedor na proporção que resulta da desvalorização cambial. Pode fazer um empréstimo junto do banco de Portugal. A outra hipótese é a bonificação da taxa de juro. Ou se reduz o capital ou se reduz a taxa de juro.”
Temos assim que o remédio para nos livramos das diabólicas privações deste último par de anos, seria portanto mergulharmos em mais dois anos de caos absoluto. Os quais minusculamente perturbam o intrépido JFA e tão só “do ponto de vista da democracia.” Quanto às reles aflições dos cidadãos, mesquinhamente mais preocupados com as suas vidinhas do que com a democracia, quer os velhotes medicamentados, quer os vaidosos com casa própria, o Estado haveria de vir, suponhamos, a tapar o buraco precisamente com o dinheirinho de que tanto carece. Lógica perfeita: sair do € para pagar a dívida, de tal modo que se tenha de endividar brutalmente mais.
O resultado do questionário é ficarmos na dúvida acerca do género de avareza que tolhe JFA, se é uma pura avareza de espírito que o torna incapaz de medir como puro horror o resultado por ele mesmo explicado das suas maravilhosas teses, e então teremos que o ter na conta de alvar; ou se é uma avareza das que são inatas aos cândidos que de tanto contemplarem o firmamento caem num poço cavado a seus pés, o que nos obrigaria infelizmente a reputá-lo como ridículo.
De qualquer modo estamos esclarecidos quanto à bondade da saída do € como alternativa aos tempos que correm.

Diz JFA “Seria o cenário argentino” .
Como não creio que ele desconheça o que foi (e é) o cenário argentino só posso partir do princípio que ele acha que quem o lê não sabe nada e come tudo.
Não li a entrevista (porque deixei de comprar o Expresso há anos…), mas julgo que esta “análise” á posição de JFA parece ignorar a premissa inicial dele: Portugal será obrigado a sair do Euro. Ou sai pelo seu pé, ou será empurrado.
Partindo desta premissa, JFA descreve a saida “pelo seu pé”. Por pior que seja, será infinitamente melhor do que a versão “empurrado”.
Quem discorda dele, devia começar por disputar a premissa e esclarecer as massas sobre a forma como Portugal vai alterar a sua trajéctória dos último 15 anos e prosperar na zona Euro.
è que sobre isso….nada.
Se calhar, porque não há forma. Nesse caso aceitam a premissa de JFA e devem explicar exactamente onde é que ele está errado.
miguel
Caro Miguel: assim sendo como diz, e nada me leva a contestá-lo, o raciocínio de JFA ainda é mais fantasioso. Utilizando a antiga classificação aristotélica, perante uma situação em potência advoga-se uma ideia em acto. Seria como invadir já Badajoz no pressuposto de que a Espanha nos iria invadir. Desculpe que lhe diga mas isto é intelectualmente calamitoso.
Caro José Navaro de Andrade,
Compreendo quem considera o raciocionio, intelectualmente calamitoso.
Na verdade, a sua forma de colocar e avaliar a questão insere-se numa longa tradição intelectual, onde eu destacaria a contribuição de Neville Chamberlain.
O resultado é o que conhecemos.
Miguel
Com Chamberlain não me importava de partilhar o alfaiate – e pouco mais. Mas já que envereda por comparações histórica (não insultuosas) dá-me licença que compare o raciocínio que defende ao de Dick Cheney e a sua guerra preventiva? Bem sei que é menos elegante…
E já atrasado…lembrei-me de vir espreitar como parava este tópico.
A sua comparação com Cheney é deveras acertada. Nesse triste caso, como agora, a mistificação encontra-se nos fundamentos e não na acção.
Cheney não é de triste memória pela sua “guerra preventiva”, mas sim pela fabricação das “provas” que a justificaram.
Tivessem encontrado pilhas de armas de destruição massiva no Iraque e poucos regateariam a genialidade da sua presciente iniciativa.
Por isso mesmo lhe disse, de inicio, que a contestação a JFA se deve basear na validação, ou não, da sua premissa: Portugal vai sair do Euro.
Ou seja, nas suas “provas”.
Já Chamberlain…Tinha um pais invadido e destroçado como “prova”, que parece ter considerado insuficiente.
miguel
Para que a memória não se apague… Fez no passado dia 27 de Fevereiro, 60 anos!
Acordo de Londres sobre as Dividas Alemãs/ Entre os países que perdoaram 50% da dívida alemã estão a ESPANHA, GRÉCIA e IRLANDA.
O acordo de Londres de 1953 sobre a dívida alemã foi assinado em 27 de Fevereiro, depois de duras negociações com representantes de 26 países, com especial relevância para os EUA, Holanda, Reino Unido e Suiça, onde estava concentrada a parte essencial da dívida.
A dívida total foi avaliada em 32 biliões de marcos, repartindo-se em partes iguais em dívida originada antes e após a II Guerra, os EUA começaram por propor o perdão da dívida contraída após a II Guerra. Mas, perante a recusa dos outros credores, chegou-se a um compromisso. Foi perdoada cerca de 50% da dívida e feito o reescalamento da dívida restante para um período de 30 anos. Para uma parte da dívida este período foi ainda mais alongado. E só em Outubro de 1990, dois dias depois da reunificação, o Governo emitiu obrigações para pagar a dívida contraída nos anos de 1920.
O acordo de pagamento visou, não a curto prazo, mas antes procurou assegurar o crescimento económico do devedor e a sua capacidade de pagamento.
O acordo adoptou três princípios fundamentais:
1. Perdão/redução substancial da dívida;
2. Reescalamento do prazo da dívida para um prazo longo;
3- Condicionamento das prestações à capacidade de pagamento do devedor.
O pagamento devido em cada ano não pode exceder a capacidade da economia. Em caso de dificuldades, foi prevista a possibilidade de suspensão e de renegociação dos pagamentos. O valor dos montantes afectos ao serviço da dívida não poderia ser superior a 5% do valor das exportações. As taxas de juro foram moderadas, variando entre 0 a 5%..
O pagamento foi escalonado entre 1953 e 1983. Entre 1953 e 1958 foi concedida a situação de carência durante a qual sò pagaram juros.
Outra característica especial do acordo de Londres de 1953, que não encontramos nos acordos de hoje, é que no acordo de Londres, eram impostas condições aos credores — e não só aos países endividados. Os países credores, obrigavam-se, na época, a garantir de forma duradoura, a capacidade negociadora e a fluidez económica da ALEMANHA.
Uma parte fundamental deste acordo foi que o pagamento da dívida deveria ser feito somente com o superavit da balança comercial. O que, “trocando por miúdos”, significava que a RFA só era obrigada a pagar o serviço da dívida quando conseguisse um saldo de divisas através de um excedente na exportação, pelo que o Governo alemão não precisava de utilizar as suas reservas cambiais.
EM CONTRAPARTIDA, os credores abrigavam-se também a permitir um superavit na balança com a RFA — concedendo à Alemanha o direito de, segundo as suas necessidades, levantar barreiras unilaterais às importações que a prejudicassem.
Hoje, pelo contrário, os países do Sul são obrigados a pagar o serviço da dívida sem que seja levado em conta o défice crónico das suas balanças comerciais.
Marcos Romão, Jornalista e sociólogo.
Em 2012, o saldo importador de produtos energéticos cifrou-se em 7.138 milhões de euros, ou seja, um aumento de 4,2% face ao valor de 2011 (6.852 milhões de euros), se bem que, por razões de desvalorização do euro face ao dólar, o mesmo saldo importador tenha registado, em dólares, uma redução na mesma ordem de grandeza (-4,0%). (Expresso, 30/04/2013)
Agora imaginem isso em escudos a valerem 1/300 do euro.
Ainda há pouco tempo ele afirmava que esta não era a melhor altura para sair do euro.E nem entra em conta com as tremendas dificuldades que teria uma negociação de saída,se agora,estando dentro é o que se vai vendo…a não ser que ele defenda o “não se paga”e feche o país,isto então é que seria lindo,sem poder importar combustível e outras matérias primas para os transportes mínimos,não falando de cereais para a alimentação,etc.
Clarinha, clarinha, seria a pergunta:
O que acha Ferreira do Amaral
acerca do problema deficitário criado pelas concessões criadas por Ferreira do Amaral
em favor de Ferreira do Amaral?
Terá ele avisado com a devida antecendência, para o descalabro público?
A velha solução:
– Um FA serve para o sim, outro FA serve para o não.
Coisa clarinha, clarinha, como o patrão, o jornal, a televisão e o Hotel…
Há mesmo 2 FdA: Joaquim Ferreira do Amaral e João Ferreira do Amaral.
Há mais… com um clic chegará ao Makavenko.
Há de História, até este das Pontes andou a brincar à deturpação da cartografia dos descobrimentos.
Mesmo este FA (entrevistado por FA), chegou a andar nos carris do colega, ex-ministro do TGV…
Nas coisas de família, estão sempre escolhidos os protagonistas para o SIM e para o NÃO.
Aparecem com as duplas, a vitória é garantida.
Neste caso, como se vê, FA diz para sair, dizendo que é melhor não… é um espectáculo!
Com estes artistas em acção, tiram-se do palco outros, que têm argumentos sérios.
O que ficamos na dúvida é se o personagem pensa.
“Seria o cenário argentino. Teríamos dois anos infernais e depois resolvia-se.”
Vejamos…10 anos depois: 2 dead as Argentina supermarket looting spreads…
Dezembro 2012: 0598/2-dead-as-argentina-supermarket-loo ting-spreads/
http://www.cbsnews.com/8301-202_162-5756
Apr 18, 2013
BUENOS AIRES (Reuters) – An estimated 1 million Argentines marched on Thursday in one of the biggest anti-government protests in years, highlighting public anger over a deteriorating economy and President Cristina Fernandez’s efforts to reform the media and courts.
É bom lembrar que a Argentina foi um dos países mais ricos do mundo na viragem do Séc.XIX para o XX.
E no entanto a economia da Argentina mais que duplicou,
em termos reais, nos últimos 10 anos.
Mas isso para o lucklucky deve ser apenas mais uma nota de rodapé.
E no entanto a economia da Argentina mais que duplicou, em termos reais, nos últimos 10 anos.”
A primeira resposta é “Só?”.
Pois com falsificação da inflação, também consigo duplicar a economia várias vezes.
Nenhuma informação que vem da Argentina é credível a nível estatístico, só comparando preços.
A segunda resposta é “Só”? também.
Mesmo que fosse verdade, não é, a resposta também seria só, depois da perda poder de compra ou seja recessão enorme não é preciso ser muito esperto para crescer depois da descida ao inferno.
Teria sido bem melhor para os Argentinos ficar
estagnados.
Crescer é irrelevante para determinar o bom comportamento quando se parte de muito baixo e a sociedade já tem a memória, saber do que fazer para recuperar. Se amanhã um terramoto destruísse Lisboa também iríamos crescer. Se calhar a dois dígitos.
Seria algum mérito de qualquer política? Claro que não.
Entre 10 anos com dezenas ou centenas de mortos, violência generalizada e uma recessão e crescimento para o nível antes da recessão ou uma economia estagnada em paz qual seria a sua escolha?
Na transição do Sec.XIX/Sec.XX a Argentina foi subsidiada para invadir e aniquilar a Patagónia.
Tratou-se de um genocídio patrocinado internacionalmente.
Alguma sugestão para reedição?
«Por isso, do nosso ponto de vista, qualquer solução sustentável para o nosso país passa pela saída do euro. E quanto mais cedo, melhor. Mas este “mais cedo” infelizmente não poderá ou não deverá ser já. Isto porque o processo de saída, desejavelmente, deverá ocorrer só depois de estabilizada a zona euro para podermos sair de forma negociada e apoiada. Sair empurrados e sem apoio será quase tão mau como permanecer na moeda única e assistirmos, impotentes, ao definhamento total do país.»
João Ferreira do Amaral, revista XXI Ter Opinião (Fevereiro 2013)
Sair, sim, mas COM APOIO!!! Um verdadeiro milagre.
Se estes opinadores fossem espécies vivas este (belo) postal seria letal. Mas eles continuam e continuam, incólumes ao asneirismo que produzem. É o duracellismo …
Hehe gosto dessa Duracellismo.