Como se o tempo ficasse suspenso


Pedro Correia,

Um pisa-papéis, um mata-borrão, um selo de correio: três inesperados objectos defronte de mim. Todos, na minha infância, tinham uso quotidiano. Tal como o tinteiro para caneta de aparo ou a lousa onde se escrevia a giz. Passaram uns anos – mas parece ter decorrido uma eternidade. Estes objectos tornaram-se peças de museu e vários deles são hoje quase incompreensíveis para uma geração viciada em gadgets electrónicos, que nunca brincou ao pião ou não faz a menor ideia para que serve um dedal.

Tempos agitados, vertiginosos, de uma volatilidade estonteante. Os objectos mais familiares no quotidiano dos nossos avós pareciam vir desde os alvores da Humanidade, davam um toque de permanência num mundo que só era verdadeiramente sobressaltado por factores exógenos – uma guerra, um ano de más colheitas no campo, uma epidemia. Nada a ver com o frenesim actual, em que tudo é novidade – e em que o próprio conceito de novidade se vai alterando e adulterando em função da espuma dos dias. Os objectos que nos preenchem o quotidiano – como muitas palavras que usamos, como os nossos próprios laços afectivos – têm uma vida cada vez mais breve, um fôlego cada vez mais curto, um prazo de validade cada vez mais exíguo.

Pegue-se num livro de Camilo Castelo Branco: como decifrar o significado de uma grande parte daquele português castiço na era da incessante troca de mensagens telefónicas, onde o domínio vocabular é cada vez mais escasso e a abreviatura predomina? Consequência disso, o pensamento comprime-se, torna-se esquemático e utilitário, perde elasticidade e subtileza, passa a satisfazer apenas impulsos imediatos. Toda a elaboração teórica sedimentada por séculos de cultura no mundo ocidental se torna virtualmente incompreensível nestes dias em que o significado se subordina ao mais elementar significante.

 

                             

 

Felizmente o sol ainda não é sintético e high tech. Este sol que entra no escritório pela frincha da janela é o mesmo que os nossos mais remotos antepassados contemplaram com espanto virginal à medida que se sucediam as estações e em relação ao qual vários povos acenderam altares votivos.

Com este sol oblíquo que me ilumina pego num corta-papéis – outro objecto que ficou sem uso – e vou abrindo lentamente dois livros que há muito tinha adormecidos na biblioteca: Sobre as Falésias de Mármore, de Ernst Jünger, e O Escravo, de Isaac Bashevis Singer. As páginas desfolham-se com um vagar antigo enquanto regresso às tardes da minha infância noutro escritório, o do meu pai, enquanto executava exactamente a mesma operação a vários livros por inaugurar que ia encontrando nas estantes. Foi uma das primeiras tarefas graves e sérias, dignas de um adulto, que me lembro de executar no meu universo infantil. Uma tarefa que me ajudou a mergulhar, quase por acaso, no mundo dos livros.

Regresso a ela com o vagar de então, ocasionalmente revivido. Como se o tempo ficasse suspenso e os rumores do mundo mais não fossem do que um eco distante, dissolvido no ar do outro lado da porta.

24 comentários em “Como se o tempo ficasse suspenso”

  1. um livro de Camilo Castelo Branco: como decifrar o significado de uma grande parte daquele português castiço

    Castiço e crescentemente inútil, desligado da realidade que agora se descreve.

    Lamentavelmente, nas escolas continua, em larga medida, a pretender-se ensinar aos miúdos textos hoje em dia completamente desatualizados e que nada lhes dizem e que eles não conseguem entender.

      1. Em todo o caso há situações,valores que permanecem nessas expressões do passado,desde a Ilíada, não se ganha nada em pegar-lhes fogo,teríamos de reinventar o que há muito se revelou com custos acrescidos.
        josé

        1. Há que ter cuidado com os pirómanos da modernidade, que incineram tudo quanto é “antigo”. Na obsessão de tudo “simplificarem”, começam por rasurar palavras e frases para no fim eliminarem ideias. O ideal, na óptica deles, é vivermos numa Sociedade Simplificada, em que tudo quanto pareça complexo se torna subversivo.

          1. Há e haverá temas irredutíveis na sua complexidade.Honra,dever,amizade,Bem e Mal.
            Noutro campo,o das ciências físicas,a complexidade está para durar,quanto mais “teorias de tudo”se inventam mais a realidade se rebela,de tal modo que um dos maiores defensores delas–Stephen Hawking–no seu último livro:The Grand Design confessa que as teorias físicas existentes não são totalmente sobreponíveis sendo exactas apenas no respectivo campo e não se vislumbra uma teoria consistente que as unifique.
            A Literatura,as Artes,a Filosofia,trouxeram desde a Grécia clássica um conjunto de temas irredutíveis aos
            “gosto”/”não gosto”.
            josé

      2. Parvos são os americanos e os ingleses ainda a encenar Shakespeare, com aquelas peças compostas de versalhadas em inglês arcaico a falarem de coisas que nem ao menino jesus… Ou os franceses (e os americanos outra vez) a cultivarem tanto de Les Miserables de Victor Hugo, um romanceseco do tempo das minas de carvão.
        Na verdade este Luís devia chamar-se Agro-Industrial que isso de Lavoura é nome “desligado da realidade que agora se descreve.”

    1. “Os cérebros estão cheios de palavras que vivem em boa paz com as suas contrárias e inimigas. Por isso as pessoas fazem o contrário do que pensam, julgando pensar o que fazem.” (José Saramago)

  2. O apurar da comunicação tende a acabar naturalmente com a ambiguidade. Quanto mais uso mais apuro, e hoje comunica-se muito mais.

    Até ao dia que a ambiguidade é necessária.

    1. É um facto que se comunica hoje muito mais. Mas tenho dúvidas sobre se comunicará melhor. Estar permanentemente “conectado” com a TV, o computador e o telemóvel,em várias plataformas simultâneas e com destinatários cada vez mais virtuais, valoriza a máquina mas empobrece o homem.

      1. Porque as palavras deixaram de comunicar. Cada palavra é dita para que se não ouça outra palavra…. A palavra não responde nem pergunta: amassa.
        (José Saramago)

        1. Infelizmente é verdade. Encontramos exemplos disso mesmo na própria escrita jornalística – exemplos diários, a toda a hora. Quando a escrita jornalística devia ser o oposto: tão clara e transparente quanto possível.

  3. Apetece-me dizer ao Luis Lavoura que a memória, ao contrário do que ele parece pensar, é uma coisa que tem os seus préstimos. Mas não digo, porque o que ele quer é discussão, seja qual for o tema e mesmo que tenha de defender o indefensável.

    Digo antes outra coisa: ando a reler o Camilo. “A queda de um Anjo”, mais exactamente. Esse relambório castiço e crescentemente inútil, desligado da realidade que agora se descreve.

    1. O nosso amigo Lavoura condenaria ao caixote do lixo da história – para usar a elegante expressão de Marx – todo o Camilo, todo o Aquilino e tudo quanto ficasse para trás. Mais o Herberto Helder e a Agustina e o ‘Livro do Desassossego’ e sei lá que mais.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *