Confesso que andava um pouco surpreendido que essa questão ainda não tivesse sido levantada. Vivemos tempos de reality shows, Facebook e Google Glass mas a fotografia de rua é mais ou menos anátema. Com a mentalidade actual, Cartier-Bresson teria sido vendedor de seguros ou, mais provavelmente, de tecidos (afinal, a família estava no sector têxtil).
A resposta, caro Luís, é que, não me escondendo ao tirar as fotos (neste caso até estava de cócoras), conversando muitas vezes com as pessoas, já tendo oferecido fotografias a algumas, autorização escrita (creio que a única legalmente válida) não tenho. Tento evitar colocar aqui fotos recentes onde as pessoas sejam facilmente reconhecíveis mas, de facto, ainda por cima agora que a questão foi levantada, talvez seja preferível evitá-las por completo.
O direito à imagem não cobre o espaço público. Podes continuara tirar as tuas óptimas fotos à vontade desde que não apontes a objectiva para a intimidade dos visados.
O direito à imagem não cobre o espaço público. Podes continuar a tirar as tuas fotos à vontade
Em termos legais, isso é verdade. Já em termos éticos, não o considero aceitável. A mim, pelo menos, desagrada-me imenso que me tirem fotografias. E mais ainda que as exponham. Quando alguém aponta uma objetiva na minha direção, tapo a cara.
Luís, basta um gesto de recusa e eu não tiro a foto. De resto, acontece cada vez mais frequentemente (há uns quinze anos era raro), no que para mim é um indício de como estamos cada vez mais desconfiados e fechados em nós mesmos – mas as coisas são o que são. Por algum motivo a fotografia de rua está quase morta em França – um dos países, se não o país, onde atingiu o expoente máximo.
Talvez um dia destes eu republique um par de textos sobre as razões por que fotografo.
basta um gesto de recusa e eu não tiro a foto
Ainda bem, mas infelizmente nem todos assim fazem.
Irrita-me sobremaneira nas apresentações de livros. Às vezes vou a uma ou outra. Há sempre por lá pessoas a fotografar que, sem qualquer pudor, se põem a tirar fotografias às pessoas que estão a assistir à apresentação.
Bom, mas nessas situações – como em colóquios, espectáculos, manifestações, etc. – o espectador/participante tem de aceitar o facto de poder ser fotografado. Ou então é melhor não ir. Pessoalmente (e eu tenho tanto desejo de ver a minha cara conhecida que nunca publiquei uma foto minha), não me incomoda ser fotografado numa situação em que serei perfeitamente anónimo. Se, ocasionalmente, faço um desvio para não surgir em fotografias é por pensar que quem as está a tirar (e.g., turistas na Ribeira do Porto) preferirá não me ter nelas.
nessas situações – como em colóquios, espectáculos, manifestações, etc. – o espectador/participante tem de aceitar o facto de poder ser fotografado
Não vejo por quê. Numa manifestação sim – uma pessoa está a manifestar-se para ser vista, para que se saiba que está contra ou a favor de algo. Mas um espetáculo, um colóquio, uma apresentação de livros – não são coisas em que uma pessoa esteja a dar-se ao manifesto. Não tem nada que aceitar ser fotografada. Uma pessoa que vai assistir a algo tem o direito de não ser fotografada.
Quando compra um bilhete, a questão de poder ser fotografado normalmente está prevista e a simples compra pressupõe aceitação. Da mesma forma, nos sites e folhetos de conferências isso muitas vezes é referido. E tem lógica: como é que poderia noticiar-se ou publicitar-se um evento (imagine-se um encontro de futebol ou um concerto de rock) sem mostrar o público? Mesmo na apresentação de um livro, mostrar o público serve de comprovativo de que o evento foi um sucesso e o autor não esteve a falar para o vazio. Evidentemente, a organização deverá ter o cuidado de escolher fotos onde ninguém esteja a tirar macacos do nariz…
omo é que poderia noticiar-se ou publicitar-se um evento sem mostrar o público?
Não objeto contra fotografias de grande plano, tiradas à distância de alguns metros, nas quais as pessoas individuais mal se distingam. O que me chateia são fotografias tiradas mesmo ao pé, nas quais uma pessoa individual aparece como personagem central. Mais ou menos como a fotografia apresentada neste post…
OK. Mas, Luís, anime-se: se em apresentações de livros lhe andam a tirar fotos em que aparece como a figura central, você deve ser muito atraente. :p
Obrigado pela informação. Por acaso, nunca me informara em detalhe sobre a legislação nacional. Sei que em certos países – França, por exemplo – é necessário ter uma autorização escrita. E obrigado também pelo adjectivo “óptimas” – com consoante muda e tudo. 🙂
Espero que tenha pedido autorização a estas pessoas antes de as fotografar e, especialmente, antes de vir aqui exibir a fotografia delas.
Confesso que andava um pouco surpreendido que essa questão ainda não tivesse sido levantada. Vivemos tempos de reality shows, Facebook e Google Glass mas a fotografia de rua é mais ou menos anátema. Com a mentalidade actual, Cartier-Bresson teria sido vendedor de seguros ou, mais provavelmente, de tecidos (afinal, a família estava no sector têxtil).
A resposta, caro Luís, é que, não me escondendo ao tirar as fotos (neste caso até estava de cócoras), conversando muitas vezes com as pessoas, já tendo oferecido fotografias a algumas, autorização escrita (creio que a única legalmente válida) não tenho. Tento evitar colocar aqui fotos recentes onde as pessoas sejam facilmente reconhecíveis mas, de facto, ainda por cima agora que a questão foi levantada, talvez seja preferível evitá-las por completo.
O direito à imagem não cobre o espaço público. Podes continuara tirar as tuas óptimas fotos à vontade desde que não apontes a objectiva para a intimidade dos visados.
O direito à imagem não cobre o espaço público. Podes continuar a tirar as tuas fotos à vontade
Em termos legais, isso é verdade. Já em termos éticos, não o considero aceitável. A mim, pelo menos, desagrada-me imenso que me tirem fotografias. E mais ainda que as exponham. Quando alguém aponta uma objetiva na minha direção, tapo a cara.
Luís, basta um gesto de recusa e eu não tiro a foto. De resto, acontece cada vez mais frequentemente (há uns quinze anos era raro), no que para mim é um indício de como estamos cada vez mais desconfiados e fechados em nós mesmos – mas as coisas são o que são. Por algum motivo a fotografia de rua está quase morta em França – um dos países, se não o país, onde atingiu o expoente máximo.
Talvez um dia destes eu republique um par de textos sobre as razões por que fotografo.
basta um gesto de recusa e eu não tiro a foto
Ainda bem, mas infelizmente nem todos assim fazem.
Irrita-me sobremaneira nas apresentações de livros. Às vezes vou a uma ou outra. Há sempre por lá pessoas a fotografar que, sem qualquer pudor, se põem a tirar fotografias às pessoas que estão a assistir à apresentação.
Bom, mas nessas situações – como em colóquios, espectáculos, manifestações, etc. – o espectador/participante tem de aceitar o facto de poder ser fotografado. Ou então é melhor não ir. Pessoalmente (e eu tenho tanto desejo de ver a minha cara conhecida que nunca publiquei uma foto minha), não me incomoda ser fotografado numa situação em que serei perfeitamente anónimo. Se, ocasionalmente, faço um desvio para não surgir em fotografias é por pensar que quem as está a tirar (e.g., turistas na Ribeira do Porto) preferirá não me ter nelas.
nessas situações – como em colóquios, espectáculos, manifestações, etc. – o espectador/participante tem de aceitar o facto de poder ser fotografado
Não vejo por quê. Numa manifestação sim – uma pessoa está a manifestar-se para ser vista, para que se saiba que está contra ou a favor de algo. Mas um espetáculo, um colóquio, uma apresentação de livros – não são coisas em que uma pessoa esteja a dar-se ao manifesto. Não tem nada que aceitar ser fotografada. Uma pessoa que vai assistir a algo tem o direito de não ser fotografada.
Quando compra um bilhete, a questão de poder ser fotografado normalmente está prevista e a simples compra pressupõe aceitação. Da mesma forma, nos sites e folhetos de conferências isso muitas vezes é referido. E tem lógica: como é que poderia noticiar-se ou publicitar-se um evento (imagine-se um encontro de futebol ou um concerto de rock) sem mostrar o público? Mesmo na apresentação de um livro, mostrar o público serve de comprovativo de que o evento foi um sucesso e o autor não esteve a falar para o vazio. Evidentemente, a organização deverá ter o cuidado de escolher fotos onde ninguém esteja a tirar macacos do nariz…
omo é que poderia noticiar-se ou publicitar-se um evento sem mostrar o público?
Não objeto contra fotografias de grande plano, tiradas à distância de alguns metros, nas quais as pessoas individuais mal se distingam. O que me chateia são fotografias tiradas mesmo ao pé, nas quais uma pessoa individual aparece como personagem central. Mais ou menos como a fotografia apresentada neste post…
OK. Mas, Luís, anime-se: se em apresentações de livros lhe andam a tirar fotos em que aparece como a figura central, você deve ser muito atraente. :p
Obrigado pela informação. Por acaso, nunca me informara em detalhe sobre a legislação nacional. Sei que em certos países – França, por exemplo – é necessário ter uma autorização escrita.
E obrigado também pelo adjectivo “óptimas” – com consoante muda e tudo. 🙂